
O pensador, de Rodin
Por Ronaldo Souza
É realmente chocante o que se vê e o que se vive nesse momento.
E não há como não atribui-lo ao analfabetismo político.
Considerando-se a manipulação e distorção dos fatos que a imprensa exerce todos os dias há anos, seria aceitável e compreensível, não fossem as consequências.
Há pelo menos duas.
A alienação e a canalhice.
Percebe-se sem nenhuma dificuldade que muitos imaginam que questões como o desemprego, por exemplo, representam o desastre maior, ainda que muitos desses muitos não estejam de fato preocupados com a questão.
Ninguém pode duvidar do desastre que é ter níveis altos de desemprego e o que isso pode fazer na vida das pessoas e das famílias.
Discutir essa questão, porém, exigiria uma percepção acima do que se vê nos tempos atuais.
É que entram em jogo o desconhecimento, a incapacidade de analisar, a alienação.
Como discutir isso com eles?
Insistir em falar que estão combatendo o PT para acabar com a corrupção é canalhice.
Da grande.
Tem alienação também, que aqui prefiro chamar de burrice mesmo.
Mas é tão canalha esse argumento que não me permito comenta-lo.
Como discutir questões tão complexas se a alienação e a canalhice juntas constituem um bloqueio intransponível à caixa craniana dessas pessoas?
Como discutir o Brasil que era emprego pleno e como as condições foram forjadas para que se chegasse ao cenário atual?
Como esperar que enxerguem o que estão fazendo com o país?
Como discutir sobre um país que está sendo entregue mais uma vez aos Estados Unidos?
Para onde irão a nossa Educação e Saúde se a lei que obrigava a aplicação de percentuais do Pré-Sal deixará de existir pela simples razão de que ele, Pré-Sal, não será mais nosso?
O Pré-Sal não serve para nada, o Pré-Sal não é o que dizem…
Então por que Serra, PSDB, PMDB… estão com tanta pressa para mudar as leis que o protegem da fúria dos ricos e poderosos e entrega-lo de mão beijada?
E não é como no governo de FHC, quando ele tentou vender a Petrobras.
Agora é à luz do dia, na nossa cara.
Como dizer a eles que Janot e MP, Moro e PF foram aos Estados Unidos e abriram documentos oficiais da Petrobrás para o governo americano?
Como mostrar quem são de fato esses homens?
Como aceitar a proliferação da indústria do vazamento e ao mesmo tempo ver Gilmar Mendes dela se queixar (logo ele!), pelo simples fato de que agora o vazamento não foi sobre as coisas de Lula e do PT, mas sobre PMDB, PSDB e DEM?
Como dizer a eles que a maior chaga, a maior estupidez, a maior vergonha, o maior fracasso da sociedade brasileira é a absurda desigualdade social.
Como dizer a eles que a desigualdade social voltará a crescer mais ainda, alcançar níveis alarmantes e que a nossa insegurança social deverá chegar a níveis insuportáveis?
Como estaremos nas ruas todos nós, mas principalmente os nossos filhos e filhas quando em pleno gozo da juventude estarão nos bares e restaurantes sempre e eternamente sob o signo do medo?
Teremos que nos esconder cada vez mais ou continuaremos nos exibindo nas redes sociais com fotos de lugares que só nós podemos frequentar?
O que estará nos aguardando lá fora, quando sairmos dos lugares que só nós podemos frequentar?
Como discutir desigualdade social com quem está feliz da vida e acha que viajar para os Estados Unidos ou Europa e postar fotos em Paris representam o sonho maior da vida?
“Penso, logo existo”.
Esta frase é de Descartes.
Ocorre que a reflexão traz consciência.
E consciência é risco.
É assustadora a antológica frase de Carlos Costa Pinto:
“A felicidade do homem está em nascer burro, viver ignorante e morrer de repente”.