
Por Ronaldo Souza
A frase título deste texto é de “Tia Eron”, como é conhecida a deputada pelo PRB da Bahia.
Não, “Tia Eron”, não acredito, aliás, não vejo a menor possibilidade de que a senhora represente nem a mulher negra nem a mulher nordestina.
Vejo em ambas, negra e nordestina, uma dignidade que por mais que me esforce não consigo ver qualquer coisa que as aproxime da senhora.
Negros só se fazem representar por negros, não por quem tem a pele negra.
Há quem diga que o negro também é racista porque alguns rejeitam os brancos.
Análise rasa e esperta.
Quantos poderiam ter a sua alma marcada pela história de algo tão cruel e desumano como a escravidão que, como toda e qualquer forma de exploração e humilhação, torna-se repugnante e ultrajante aos mais elementares princípios da dignidade humana, e não experimentar algum sentimento de mágoa e rejeição por determinados padrões?
Quantos conseguiriam não se deixar marcar na alma por viver humilhado por gerações inteiras e reagir como se nada tivesse acontecido?
Chico Anysio, nordestino do Ceará, dizia que carioca não é só aquele que nasce no Rio. Segundo ele, existiriam “cariocas” nascidos em outros estados.
É claro que Chico Anysio se referia a aquilo que chamam de “espírito” do carioca.
Sem fazer juízo de valor, pego carona nessa forma de pensar para dizer que conheço nordestinos que não nasceram no Nordeste.
Respeito-os e muito.
Da mesma maneira, conheço os que gostariam de não ter nascido aqui.
Alguns dos quais, sem perceber (geralmente é assim), deixam isso claro. Há neles um desejo e necessidade de se sentir igual.
Viaje pelo Nordeste e verá que os nordestinos os identificam.
A esses diria que o nordestino também só se faz representar pelo nordestino.
Tia Eron, na verdade a senhora não representa nenhuma mulher.
No voo 3437, da TAM, a senhora e o deputado Jutahy Magalhães Jr. (PSDB-BA) mandaram deter 73 mulheres da Bahia, que seguiam para a IV Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, por se manifestarem contra o seu voto a favor do golpe contra Dilma Rousseff (uma mulher), quando fez fila ao lado de machões grotescos e grosseiros que tudo fazem, menos respeitar a mulher.
Aliás, Tia Eron, a senhora vive ladeada por esses homens. Pergunte às mulheres o que pensam deles.
Não “Tia Eron”, a sua voz, cheia de trejeitos e falsetes que se incorporaram à sua personalidade para faze-la chegar onde chegou, não “é a voz da mulher negra e da mulher nordestina”.
Na verdade a senhora é uma ofensa a elas.
Um dia ainda ouvirei delas próprias, mulher negra e mulher nordestina, o que acham da sua pretensão de se dizer representante delas.