A morte e a morte de uma sociedade

Veja e Marisa

Por Ronaldo Souza

Não nos cabe julgar a vida pessoal de ninguém. Os riscos são enormes sob todos os aspectos.

Ainda mais quando se envolve a família daquela pessoa.

Nunca foi assim, entretanto, com Lula.

Desde sempre, entre tantas outras coisas privacidade e paz nunca foram permitidas a ele.

A sua vida tem sido devassada e os golpes mais baixos foram desferidos contra ele desde o início da sua vida pública.

Em janeiro de 2013 escrevi e postei aqui o texto A sujeira por baixo dos talheres de prata.

Trago alguns trechos.

Abre aspas
Num golpe baixo, ‘jogaram’ uma filha de Lula na campanha, uma questão estritamente pessoal e que nitidamente trouxe um grande desconforto para ele. A indignação foi tão grande que esboçou-se uma reação com a mesma moeda. Hábitos pessoais de Collor não muito recomendáveis poderiam ser usados também. Lula não aceitou: “não vamos levar questões pessoais para a campanha.

O PT sempre soube, por exemplo, da história do filho de Fernando Henrique Cardoso, Tomás Dutra Schmidt, com a jornalista Miriam Dutra, da Globo. A Globo abafou o caso e mandou a jornalista morar em Barcelona com o filho. Em 2009, FHC reconheceu o filho.

Fica faltando resolver agora o caso do filho que FHC teve com uma empregada doméstica. Foi em 19 de novembro que se descobriu um segundo caso de filho natural do ex-presidente FHC. A notícia foi dada pelo colunista Claudio Humberto, ao relatar que há pouco mais de 20 anos o então senador Fernando Henrique Cardoso tivera um romance com a empregada doméstica Maria Helena Pereira, que trabalhava em seu apartamento na capital.

Desse relacionamento nasceu um filho, que se chama Leonardo dos Santos Pereira e está hoje com vinte e poucos anos. Mãe e filho trabalham no Senado Federal. Maria Helena é copeira e serve cafezinho aos gabinetes da Ala Teotônio Vilela, enquanto Leonardo trabalha como carregador (auxiliar de serviços gerais) na Gráfica do Senado.

É interessante lembrar que FHC vivia dizendo que tinha um pé na senzala. E era mais do que verdade. Além de ser mestiço, como praticamente todos os brasileiros, ele acabou tendo filho com uma afrodescendente que o impressionou pela formosura. Leonardo é considerado muito parecido com o pai. E foi por isso, aliás, que a mulher de FHC, Dona Ruth Cardoso, decidiu demitir a empregada (veja aqui Fernando Henrique Cardoso vai reconhecer seu outro filho Leonardo dos Santos Pereira que teve com a empregada doméstica ou vai deixa-lo sem assistência?).
Fecha aspas

Todos sabem que de todos os presidentes da república da história mais recente do Brasil, nenhum casal viveu tão feliz e harmonicamente como Lula e D. Marisa.

Eram famosas, por exemplo, as festas de São João que os dois promoviam, em que todos, ministros e convidados, iam caracterizados com roupas juninas, enquanto a elite e os seus colunistas sociais (ainda existem?) torciam o nariz.

D. Marisa, a quem ele carinhosamente chamava de “galega”, expressão muito usada no Nordeste, sempre foi amada por Lula e todos sabem disso.

Um homem que ainda carrega consigo toda a sua formação simples e humilde, aliás, tão pejorativamente tratada e rejeitada pelas pessoas de fino trato.

Já viu como ele cumprimenta as mulheres?

Com abraços fortes e tapa nas costas, como se estivesse cumprimentando um homem.

Muitos são assim e se referem à mulher como “a federal, dona encrenca, patroa…”. 

Por acaso você nunca viu nenhum homem, mesmo esses que como você frequentam ambientes ditos seletos, usar expressões como essas?

E aí esse homem, desabituado com o linguajar de suas excelências, dirige-se ao juiz e diz; “o senhor sabe como é né doutor, as mulheres fazem as coisas como querem e depois é que comunicam à gente” e o mundo desaba sobre ele acusando-o de jogar a culpa das suas coisas na mulher.

Como podemos ficar surpresos diante dessa postura se sabemos o quanto eles são canalhas?

Todos.

Ao mesmo tempo que amada por seu marido, a primeira-dama do Brasil, D. Marisa, foi absurdamente rejeitada por essa “nata” da sociedade brasileira.

Ou ninguém lembra das tantas pessoas que a retrataram como uma mulher inferior?

Ninguém lembra, por exemplo, como uma delas, Danuza Leão, colunista social queridinha dessa pobre elite que cultiva e idolatra colunistas sociais (meu Deus!!!) se referia a D. Marisa?

Descabelada, deselegante, grosseira, não tem modos (!), inculta, que diferença de D. Ruth Cardoso, ali sim uma primeira-dama de verdade… era o mínimo que diziam dela.

Nem mesmo a morte impediu que ela fosse “desfigurada” pelo prazer de apresenta-la da pior forma possível.

Observe como a mulher descabelada e deselegante aparece na capa “photoshopada” da revista, com maquiagem carregada que a mostra como uma vamp.

Uma vagabunda, como se referem a Dilma Rousseff.

Quer mais?

Puta, como também se referiram e se referem à mesma Dilma Rousseff.

Não foram poucas as vezes em que D. Marisa foi humilhada.

Juntamente com filhos e netos, era a primeira vez que uma primeira-dama do país era jogada no calabouço dos inferiores por aqueles seres superiores, privilegiados pela estupidez que a vida lhes reservou.

Suas conversas pessoais com filhos e netos foram ilegalmente grampeadas e escancaradas na imprensa por um juiz de pequena estatura e um ministério privado (não houve erro de digitação, é privado mesmo), com a anuência de um STF covarde e de costas para o país.

Qual a importância que tinha para o país a conversa de D. Marisa Letícia com seus filhos e netos?

Absolutamente nenhuma.

Tudo isso para que? Para servir ao grande auditório do reality show de um público babando de ódio e sedento do lixo que alimenta suas vidas vazias, cujo objetivo maior é se fotografar em Miami ou Nova York, nesta de preferência sob a neve do Natal, ao som de White Christmas.

Misturam-se os dois Big Brother Brasil. O que ocorre em janeiro de cada ano e o que ocorre durante todas as manhãs, tardes, noites e madrugadas.

Ambos há anos, sob o patrocínio da mesma rede de televisão e para o mesmo seleto público.

Já não bastava a perseguição ao homem na tentativa de destruí-lo. Tinham que perseguir e destruir também a família.

Quantas mulheres, mães e avós resistiriam a tamanha perseguição à sua família?

Que outro fim poderia ter uma mulher que teve que suportar tudo isso?

Após a sua morte, restou aos filhos e netos ter que suportar a continuação da humilhação imposta à família, incumbência levada a ferro e fogo pelo pequeno juiz.

Mesmo a lei determinando que, independente do que quer que seja, a morte isenta a pessoa de qualquer culpa, Moro manteve a “culpa” de D. Marisa. Não se sabe de que, mas ela continua culpada aos olhos do nosso bom juiz.

O mesmo juiz e bom samaritano que confiscou a casa da mãe de José Dirceu no aniversário de 96 anos dela.

O que ele pretendeu com atitude tão altruísta?

Programar e esperar pelo aniversário de 96 anos de uma senhora para confiscar-lhe a casa.

Por favor, não seja mais canalha ainda dizendo que foi uma coincidência.

Em texto escrito no DCM, Kiko Nogueira definiu bem o momento em que resolveram abrir o caixão de D. Marisa para traze-la de volta e expor na sala de visitas do reality show; Já que Moro foi pífio em Curitiba, restou à mídia usar Marisa para transformar Lula no viúvo do mal.

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) escreveu um texto com o seguinte título; Avisei, os canalhas cumpririam as promessas sob aplausos dos cínicos.

Senador, os canalhas são conhecidos há muito tempo.

Mas o senhor acha realmente que os aplausos refletem somente cinismo?

Seriam somente cínicos os que aplaudem os canalhas?

Não seriam também eles canalhas, algo que foi tão bem definido por Pulitzer?

Joseph Pulitzer

Chegamos lá.

Ao fundo do poço da degradação de homens e mulheres que se perderam no preconceito e no ódio.