Não, não foi o Ba-Vi. Foi o Vi

Pelé e soco no ar

Por Ronaldo Souza

De modo geral, nada deveria ser analisado fora do contexto, seja ele político, religioso ou do futebol, para ficar nesses três temas.

Todos dentro de um contexto geral maior; a questão cultural da sociedade.

Sob essa perspectiva, pode-se entender mais facilmente alguns fenômenos.

A paixão maior do brasileiro, o futebol, pode e deve ser vista assim.

Diferentemente de outras atividades de lazer e cultura (literatura, teatro e cinema, por exemplo), o grande protagonista do futebol, o jogador, costuma ter a sua origem em camadas sociais com formação mais rudimentar.

Sem nenhuma conotação pejorativa, muito pelo contrário, há de se reconhecer e entender essa realidade social do futebol brasileiro, mesmo que se possa observar que nos últimos tempos houve uma melhora nesse sentido.

Uma das formas de se constatar isso é o famoso direito de pedir música no Fantástico (programa da TV Globo), dado ao jogador que faz três gols numa partida.

Apesar de compreensível, não é tão simples ver e ficar indiferente aos pedidos feitos pelos jogadores e, pior ainda, ouvir as músicas.

Não parece muito difícil identificar a influência que esse contexto exerce no momento mais importante do futebol; o gol.

Que não tivéssemos mais a força e o simbolismo de Pelé socando o ar na comemoração dos seus gols, mas que não chegássemos ao que chegamos.

Já há algum tempo, a maioria das comemorações de gol no futebol brasileiro é feita de maneira ridícula, algumas das quais grosseiras e de péssimo gosto.

São diversas, entre elas a de Vinícius, jogador do Bahia.

Entretanto, tentar transforma-la em justificativa para o que ocorreu no Ba-Vi é o mais escancarado diversionismo e só demonstra a incompetência, descompromisso e falta de seriedade para lidar com as coisas do futebol.

Diante do acontecido, a postura do comando do Vitória foi e vem sendo um verdadeiro desastre.

Digo comando porque, tendo em vista que não se sabe quem orientou, pode-se atribuir tanto ao presidente do clube e sua diretoria, quanto à comissão técnica, o que significa basicamente dizer Vagner Mancini.

Os erros de Vinicius

Comum nos diversos esportes (box, MMA, futebol), as provocações entre atletas são vistas como algo normal e aceitas por todos. Para alguns, entre os quais me incluo, são ridículas e desnecessárias.

O comportamento de Vinicius, jogador do Bahia, através do seu twitter antes do clássico do último domingo (18/02) é de baixíssimo nível e ofensivo. Nada o justifica.

A seu favor, somente o fato de que esse é o padrão adotado por muitos que frequentam as redes sociais, mesmo entre os que se veem diferenciados.

Quanto à comemoração do gol, algumas considerações são necessárias.

Vista dentro do contexto que ele próprio criou através do twitter, ela pode ser interpretada como algo acima do tom, como estão dizendo.

Antes, porém, faço uma pergunta.

É comum o jogador comemorar o gol perto das traves onde ele foi feito?

Claro que sim. A comemoração costuma acontecer nas imediações do mesmo local onde foi feito o gol e é para ali que correm os outros jogadores do time para comemorar junto com o artilheiro, inclusive os da defesa, que geralmente estão do lado oposto do campo.

Vinicius não fez o gol, virou, atravessou o campo e foi comemorar “lá” na torcida do Vitória. Ele já estava ali e ali também já estavam seus companheiros de time, considerando-se que se tratava de um pênalti.

Ele sai depois correndo por trás do gol dizendo “eu sou, eu sou, eu sou”, segundo legenda que uma TV colocou.

Alguém pode dizer que isso não é comum no futebol?

Para citar somente um, por acaso Cristiano Ronaldo, com toda justiça o tão idolatrado jogador do Real Madri, nunca foi visto dizendo coisas semelhantes na comemoração dos seus gols?

Entendo a cautela de parte da imprensa local e nacional para tratar do assunto, afinal há a preocupação de não parecer que estariam tomando partido a favor desse ou daquele time, no caso o Bahia.

No entanto, qualquer coisa além disso, como querer justificar as agressões ocorridas com a comemoração é tentativa ridícula e absurda.

Vinicius teria passado um pouco do ponto, teria exagerado, teria provocado, são observações válidas e quem sabe merecedoras de alguma discussão.

Tudo bem.

Mas, o que faremos então?

Racionalizar e engessar o futebol, cuja característica maior é a paixão, tida por todos os estudiosos do assunto como algo inexplicável e, sobretudo, incontrolável?

Exigir que o jogador todas as vezes se lembre que não está diante de sua torcida, atravesse todo o gramado e aí, do outro lado, quando perceber que está diante dela, só então comemorar?

Exigir dele essa racionalidade no momento da maior explosão de emoção que se conhece em todos os esportes?

Ou então agredi-lo por cada flecha imaginária atirada contra a torcida do Bahia, como fazia Índio, jogador do Vitória?

Agredi-lo por todas as provocações insistentemente feitas diante da torcida do Bahia, como fazia Neto Baiano, jogador do Vitória?

Agredi-lo por cavar simbolicamente covas para enterrar o Bahia diante da sua torcida, como fazia Júnior (Diabo Loiro), jogador do Vitória?

Agredi-los, todos, por escolherem comemorar o título de 2016 pisando no escudo do Bahia em plena Fonte Nova, como fizeram os jogadores do Vitória?

Senhores, todos têm o direito de ser ridículo, mas é recomendável que não se exponham tanto.

Os erros de Mancini

A movimentação em campo que precedeu a quinta expulsão no time do Vitória, a que levaria ao encerramento do jogo, e as declarações dos repórteres da TV Bahia sugerem fortemente que a orientação teria vindo dos escalões superiores pela voz do Sr. Mário Silva, supervisor do clube.

Esta teria sido levada até Mancini pelo jogador André Lima.

Como mostram as câmeras de televisão, Mancini então chama Ramon, cochicha ao seu ouvido, este vai direto falar com Fernando Miguel, goleiro que, até então caído no gramado, se levanta de imediato e ocorre então toda a cena que culminou com a expulsão de Bruno Bispo.

Veja o que disse Mancini.

– Não. Não partiu do banco a decisão. Estávamos falando e chamei várias vezes aos atletas para que organizássemos melhor a equipe. No momento em que o Jaílson fez as expulsões, nossa equipe tinha um jogador a menos. Tínhamos que fazer uma linha de quatro e uma de três. Quando ele expulsou o Correia, eu voltei a chamar os atletas, que estavam distantes, desgastados, eu não conseguia falar com eles e fui muito claro ao Bryan para fazer uma linha de quatro, com dois jogadores à frente da zaga. Não sei por que todo mundo está batendo nisso aí. Eu conheço a regra do futebol, fui atleta, sou técnico há 14 anos, estou há mais de 30 anos no futebol. Não sei porque está se batendo tanto nisso – afirmou.

Observe que desde o início o treinador disse; “não partiu do banco a decisão”.

A impressão que ficou é que todo o tempo ele tentou deixar bem claro que não foi ele e que teria sido somente o ponto de conexão da diretoria com o jogador no gramado, aliás, caminho que seria o mais natural.

Na coletiva logo após o jogo, Mancini cometeu vários erros primários e fatais.

O primeiro, apontar Vinicius, jogador do Bahia que fez o gol e a comemoração com a dancinha do creu, como o culpado da confusão.

Será que ele não percebeu que o que se chamou de algo acima do tom, a comemoração de Vinicius, foi interrompida com um “cachação” do goleiro do Vitória, Fernando Miguel, e na sequência “por empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço…”, como seria definido posteriormente pelo árbitro na súmula do jogo?

Segundo, dizer que aquele tipo de decisão, forçar a expulsão e provocar o encerramento do jogo, é tomada no campo; “a decisão é de quem está dentro de campo”.

Essas foram as suas palavras, o que faria do Vitória um time sem comando.

O Vitória como time sem comando é fato? A imprensa diz que Mancini tem o grupo de jogadores na mão, desde o ano passado quando salvou o time do rebaixamento.

Terceiro, em tom de intimidação e desafiante criticar e condenar os jornalistas pela insinuação de que teria partido da direção ou dele a ordem para o jogador provocar a expulsão. Fez isso com a frase que lhe parecia definitiva;

 “Quem tem prova disso? É uma acusação muito grave em cima de pessoas do bem, de caráter, profissionais que estão aqui. Quem tiver a prova, que apresente.”

Mancini se deu mal. A leitura labial mostrou que ele orientou sim Ramon a dizer a Bruno Bispo; Pede ao Bruno, pode tomar o segundo amarelo”.

Talvez se possa ver no gesto do treinador uma tentativa de proteger a diretoria, mas Mancini teria, na verdade, feito uma coisa imperdoável a um comandante; jogar os seus comandados às feras.

Se ali na coletiva os repórteres estavam falando com pessoas do bem, de caráter, profissionais que estão aqui” e a decisão foi tomada em campo, foram os jogadores, profissionais que não são sérios nem pessoas do bem, que fizeram a lambança em campo.

Pior ainda, Mancini jogava de forma absolutamente irresponsável e inescrupulosa a culpa maior sobre um garoto de 21 anos de idade, Bruno Bispo, jogador da base do Vitória que fazia seu primeiro Ba-Vi. Afinal, foi ele quem “tomou” a decisão de provocar a sua expulsão e com isso encerrar o jogo.

Uma vez que Mancini fez questão de dizer ”eu conheço a regra do futebol, fui atleta, sou técnico há 14 anos, estou há mais de 30 anos no futebol”, a culpa seria daquele jogador inexperiente de 21 anos, que, não conhecendo a regra do futebol, fez o que fez.

Parece sensato que um garoto de 21 anos de idade, vindo da base do time, jogando o seu primeiro Ba-Vi, portanto, sob o peso que isso significa e sonhando com um lugar ao Sol, tenha idealizado e assumido a responsabilidade de tamanha ousadia que é provocar a sua própria expulsão e assim encerrar o jogo, sem ter a menor noção do que poderia lhe acontecer?

Não foi uma atitude digna do técnico.

E como agiu a diretoria do Vitória?

Também da pior maneira possível.

O que dizer da infantil e tola argumentação de que na briga o juiz expulsou três do Vitória e somente dois do Bahia (quando na verdade foram quatro, só que dois estavam no banco)?

Não perceberam que foi nítida a agressividade de vários jogadores do seu clube, identificada e apontada por toda a imprensa brasileira?

Todas as expulsões foram registradas da mesma maneira na súmula; por conduta violenta.

Por que Lucas Fonseca foi expulso?

Veja o que disse o árbitro Jaílson Macedo de Freitas na súmula.

“Expulsei por conduta violenta, aos 20 minutos do segundo tempo, com cartão vermelho direto, o Sr. Lucas Silva Fonseca, N° 28 do E.C. Bahia, por empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço do Sr. Denilson Pereira Júnior, N° 95 do E.C. Vitória”.

Digamos que isso tenha ocorrido e alguma câmera tenha mostrado.

Quem começou a confusão atrás do gol ao dar o ‘cachação’ e empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço do” Vinicius, o jogador da dancinha?

Fernando Miguel, goleiro do Vitória.

Por que então o árbitro não o expulsou, dando somente o cartão amarelo?

Outra alegação foi a de que Diego Cerri, diretor do Bahia, teria feito pressão indevida e inaceitável sobre o árbitro no intervalo.

Os repórteres locais desmentiram isso, mas veja o que disse Jaílson de Freitas, o árbitro, na súmula:

Informo ainda, após o término do primeiro tempo, indo em direção ao vestiário da arbitragem, ouvimos as seguintes palavras: ‘Jailson, no gol do Vitória, a bola foi na mão claramente’. Palavras proferidas pelo diretor de futebol do Esporte Clube Bahia, o Sr. Diego Cerri”.

Foi essa a pressão indevida e inaceitável?

Veja mais o que disse o árbitro.

Relato que ao sair do vestiário em direção ao campo do jogo para o início do segundo tempo ouvimos do Sr. Erasmo Damiani as seguintes palavras: ‘Não aceite pressão do dirigente do Bahia’. O mesmo é diretor do Esporte Clube Vitória. Em tempo informo, após o término da partida, o referido diretor invadiu o campo de jogo em direção a equipe de arbitragem proferindo as seguintes palavras: ‘Você está de brincadeira, aceitou a pressão do Bahia’.

Se é para usar argumentações infantis e tolas, o Vitória teria feito duas pressões indevidas e inaceitáveis sobre o árbitro, o Bahia somente uma!

Meu Deus!

A diretoria do Vitória parece ainda não ter percebido a gravidade do problema que criou e a semana de treinamento com portões fechados no Barradão, além de sintomática, em nada ajuda. Desde quando se esconder é solução para os problemas?

É incrível a falta de percepção de que mancharam de forma irreversível a instituição Esporte Clube Vitória e não tenho nenhuma dúvida de que muitos torcedores rubro-negros já têm consciência disso.

O presidente, que tem se preocupado tanto em falar de mudança de postura do clube, dos novos tempos para o Vitória e para o futebol baiano, modernidade no futebol, tem mostrado uma inconsistência absurda e, pior, vem agindo à moda antiga, dos antigos homens que até pouco tempo comandavam esse mesmo futebol, alguns dos quais ainda estão incrustados no que ainda resta dessa estrutura arcaica.

Foi terrível o desfecho dado ao caso até agora pela diretoria do Vitória.

“O Esporte Clube Vitória reforça que não houve ordem ou orientação aos atletas por parte da direção para que houvessem expulsões suficientes para que a partida fosse encerrada pelo árbitro do jogo”.

Este é um trecho da nota oficial do clube.

Observe que ela tenta isentar a direção do clube, mas não cita Mancini. Ou seja, Mancini também foi jogado às feras junto com os jogadores.

O que se percebe em toda a imprensa nacional é que Vitória, Mancini e os jogadores saem menores desse episódio, com manchas nas suas histórias.

O que Mancini vai fazer não se sabe, mas, pelo visto, vai levar a culpa sozinho e episódios anteriores no seu histórico parecem tornar mais delicada ainda sua situação.

Ou será que ele não percebeu como vai sair desse episódio?

Com 21 anos, o pobre garoto Bruno Bispo carregará uma cruz muito pesada e sua carreira passa a ser uma incógnita.