Agradecimento a Fabio Jatoba

Lula no arraia do Torto

Por Ronaldo Souza

Em uma das minhas recentes postagens, em que falo de adolescentes em atitudes primaveris, Fábio Jatoba fez um comentário.

O comentário passaria despercebido não fosse a foto anexada.

E é por ela, foto, que lhe agradeço.

Ele não faz ideia do quão feliz me deixou.

Mesmo sem jamais tê-la visto antes, assim que a vi identifiquei o momento em que ocorreu e fui busca-la na Internet para mostrar; é esta que está aí em cima e que mostra o casal Lula e D. Marisa.

Ela me remeteu a duas coisas.

Não sei se Jatobá é nordestino. Se for, melhor ainda.

Sendo nordestino, tenho certeza de que em algum momento, mesmo inconscientemente, ele também deve ter adorado a foto, quem sabe até o casal que a compõe.

Conto a história dela.

Como sabemos, Lula é um nordestino que se tornou presidente do Brasil.

Foi reverenciado em todo o mundo e agraciado com uma quantidade invejável de títulos Doutor Honoris Causa das mais importantes universidades brasileiras e estrangeiras como nenhum outro brasileiro foi.

Também como nenhum outro brasileiro, foi recebido e saudado pelas maiores autoridades do mundo contemporâneo, reis e rainhas.

Reconhecido por Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, como o político mais popular da Terra, “o cara” jamais perdeu a sua simplicidade e jamais esqueceu as suas origens.

Há algo mais popular e “sagrado” do que o futebol no Brasil?

Ficaram famosos os babas (para os baianos, peladas para o resto do Brasil) no campo de futebol do Palácio do Jaburu.

Nunca se jogou tanto futebol nas esferas políticas.

E o São João?

A festa mais popular do Norte/Nordeste que, pelas diferenças culturais desse imenso país, não é festejada no Sul/Sudeste e Centro Oeste.

Essa festa tão nossa, tão nordestina, nunca tinha sido festejada por um presidente da república, muito menos nos ambientes palacianos da república brasileira.

Lula e D. Marisa fizeram isso.

Levaram o São João para Brasília, para dentro dos palácios, festejando-o várias vezes na Granja do Torto, uma das residências oficiais da presidência da república.

Dá para imaginar como alguns ministros e suas famílias e demais convidados devem ter “estranhado” a festa?

A verdade é que a festa tomou conta de todos.

Lula no arraia do Torto'

Até procissão teve, na sua tradução mais genuína e religiosa.

Lula e D. Marisa sempre caracterizados como manda o figurino.

Lá não foram servidos vinhos franceses e canapés, mas bebidas e comidas típicas do Nordeste, características do São João que tanto nos têm deliciado ao longo dos anos.

Ali estava um homem com a autenticidade de sempre.

Um homem ligado às coisas de sua terra.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

Lula e D. Marisa (paulista descendente de italianos) sempre foram chamados e tratados como caipiras.

Se for nordestino, é possível que Jatobá saiba o que isso significa.

É possível, torço muito para isso, que Jatobá saiba o que de fato significa ser “baiano” ou “paraíba” e que peso isso pode ter em determinados momentos.

Pesa, por exemplo, na avaliação e no tratamento dado pelos “analistas” ao casal que ocupa o Palácio da Alvorada por quatro anos, “renováveis” por mais quatro.

Não se tem conhecimento na história contemporânea da política brasileira de nenhum presidente e primeira-dama que tenham sido tão humilhados pelos analistas, imprensa e elite brasileiros quanto Lula e D. Marisa.

A nossa elite, um desastre falando e pior ainda escrevendo, mas que se vê falando e escrevendo bem, nunca perdoou e jamais vai perdoar o fato de Lula não ter formação de “nível superior”.

Nem falar inglês ele sabe!

Será que Lula já foi à Disney?

Marisa, que não era bela, mas recatada e do lar, foi humilhada como nenhuma outra primeira-dama jamais foi em toda a história do Brasil. A crueldade e a covardia com que fizeram isso eram até então inimagináveis.

Colunistas sociais, estilistas, designers…, interlocutores da nata da sociedade brasileira, com as suas vidas repletas de vazio nunca pouparam a mulher de “cabelos desgrenhados”, como já se referiram a ela.

A classe média, ah, a classe média!!!

Caipiras!

Lula e D. Marisa nunca passaram de caipiras.

E não convém a ninguém, muito menos a um presidente da república, ser caipira.

FHC e caipiras2

A nossa elite, Jatobá, não suporta gestos e atitudes paraíbas.

Jatobá, você é nordestino?

Ainda que Ariano Suassuna seja inalcançável por muitos, seria recomendável que as pessoas procurassem conhece-lo além das risadas que ele provoca em vídeos que todos adoram e “morrem” de rir e procurassem, acima de tudo, o que Suassuna quer dizer com aqueles vídeos “engraçados”.

Conto com a “nordestinidade” de Jatobá para perceber a importância que alguns gestos e atitudes assumem quando diante de uma perspectiva maior, que muitas vezes não é alcançada por olhares menos atentos.

Seria uma leviandade da minha parte pensar, por exemplo, que ao anexar ao seu comentário a foto de Lula e D. Marisa vestindo roupas típicas da festa de São João (é de uma das festas sobre as quais falei), ele teria desejado caracteriza-los como “adolescentes em atitudes primaveris”, numa nítida analogia com a foto que ilustrava a minha postagem.

Moro e Rosângela, adolescentes sob os holofotes

A foto que postei, que aproveito e trago para esta nossa conversa, tem um significado completamente diferente.

Aliás, ela não tem nenhum significado e nenhuma importância além de registrar o momento de dois adolescentes curtindo e se deixando iluminar pelas luzes dos holofotes da notoriedade.

Algo plenamente aceitável na vida de adolescentes e que não critico.

Fosse a foto de um casal adulto, aí sim, seria um desastre absoluto. Seria um alerta importante a denunciar o vazio da vida do casal.

A criança que chora pelo brinquedo que lhe foi retirado representa um momento típico e saudável do mágico mundo infantil.

Ao contrário, o adulto que, diante da contrariedade, se manifesta com comportamento infantil denuncia uma fragilidade psicológica preocupante.

Assim é a vida, que não transcorre de forma linear.

Pelo contrário, a vida se faz plena quando apresenta uma estrutura psicológica compatível com cada uma das etapas que se vive.

A vida que se mostra nem sempre é aquela que vivemos.

Não acredito, portanto, que Jatobá tenha pretendido fazer qualquer tipo de analogia, por impossível, entre a foto de dois adolescentes em festa e a de um casal caracterizado com o que há de mais genuinamente brasileiro em uma festa junina.

Aquela, repito, representa o momento de dois adolescentes curtindo e se deixando iluminar pelas luzes dos holofotes.

Nesta não brilham as luzes dos holofotes.

Brilham as luzes da alma, que se expressam no sorriso aberto como que a dizer; sejam bem-vindos.

Esta está cercada de todo um simbolismo, ainda que, lamentavelmente, as coisas simbólicas e emblemáticas não estejam ao alcance de olhares desatentos.

Mas não tenho nenhuma dúvida de que estão ao alcance da visão ampla de Jatobá, desprovida de qualquer tipo de preconceito.

A outra questão à qual me remeteu a foto é, para o mundo político, de menor interesse.

É mais de cunho pessoal.

Em tempos conturbados, de dificuldades de convivência entre as pessoas, de intolerância, preconceito e ódio exacerbados, ainda me comovo sempre que vejo relações pessoais lastreadas por companheirismo, compreensão, respeito, amizade e amor.

Sou sensível sim a esse tipo de relação.

E não há registro, caro Jatobá, de nenhum outro casal que tenha vivido naqueles palácios presidenciais de forma tão harmoniosa quanto esse de quem você anexou a foto.

Agora veja como somos pequenos.

Para esse casal comum, nove dedos (“nine”, como o chama um personagem do mundo das estrelas midiáticas) e cabelos desgrenhados, que vivia a vida como ela é, criaram muitas histórias, até casos de amantes.

Em uma foto, Lula aparece abraçado a duas mulheres. De um lado a “galega” (como ele carinhosamente chamava D. Marisa – coisa de paraíba) e do outro a amante. Isso ganhou espaço na televisão, jornal, internet…

Como você sabe, outros casais moraram ali, e um deles em especial, tinha um casamento pro forma; não existia mais.

A nossa querida e digna imprensa, que no caso do casal caipira até amante “apareceu”, abafava a todo custo a história do filho que o presidente teve com a empregada doméstica, história à qual já me reportei em outros momentos como neste texto A sujeira por baixo dos talheres de prata.

Como são questões familiares, particulares, ninguém tem nada a ver com isso, mas, diferentemente do presidente ignorante, que nem inglês fala e nunca foi a Disney, o presidente intelectual, que fala inglês (por sinal, muito mal, mas não vem ao caso) até hoje é tratado com todas as regalias.

Com a sua visão, Jatobá, tenho certeza de que você já percebeu essas coisas.

Como falei, politicamente talvez nada disso tenha importância, trata-se somente de um sentimento pessoal, algo que me toca.

Mas, “coincidentemente”, registrado por algumas pesquisas, aquele foi o período de maior felicidade que o povo brasileiro viveu nos últimos cerca de 70 anos.

Como explicar isso?

A resposta, caro Jatobá, como diz a canção de Bob Dylan, está soprando no vento.

A felicidade sopra forte no vento, se irradia e contamina as pessoas.

E eu estava perdendo um pouco isso.

Pelos dias que vivemos, vamos embrutecendo.

Mas, ao ver a foto que você anexou me enchi de alegria outra vez.

Vá lá em cima, Jatobá, e veja-a outra vez.

Quantas vezes vemos hoje sorriso tão expressivo quanto aquele, cheio de alegria?

De tão aberto, escancarado, espontâneo, nós, seres sociais, de sorriso contido, poderíamos chamá-los de bobos… caipiras.

Aquele sorriso soprava no vento, se irradiava e contaminava as pessoas.

Sorrir aquele sorriso nos tempos que estamos vivendo não é mais possível.

Sorrir aquele sorriso hoje, isso sim nos tornaria bobos.

Não são sorrisos para sorrir com dentes e boca.

Não são feitos para o facebook ou Instagram.

Sorrisos como aquele são construídos lá dentro do nosso ser e vão se convulsionando até explodir e tomar conta dos nossos corpos e almas.

São sorrisos da alma.

São sorrisos da alma de um povo quando está feliz.

* Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é – esta frase é de uma das belas músicas de Caetano Veloso, baiano.