A culpa é do queijo

NYT'

Por Ronaldo Souza

Você lembra daquelas matérias do Jornal Nacional, quando William Bonner capricha no franzir das sobrancelhas?

Geralmente eram feitas em parceria com a Veja.

Sim, ela mesma.

O Jornal Nacional repercutia a matéria da revista à noite, dando aqueles destaques que “puxam” algumas frases do corpo da reportagem em zoom para chamar a atenção sobre elas.

Ah, como vocês vibravam, não era mesmo?

Os repórteres da Globo trabalhando em cima da reportagem da Veja, caras e bocas, Bonner caprichando na locução, Renata Vasconcelos exibindo sua beleza que, por si só já dá uma embalagem maravilhosa que ajuda a esconder o conteúdo muitas vezes vergonhoso pela tradicional manipulação…, era uma festa o Jornal Nacional de Bonner.

Não havia o contraditório, o contraponto, em outras palavras, a opinião da defesa.

E quando havia, o tempo que lhe era dado era mínimo.

Mas, reconheçamos, são competentes os repórteres da Globo.

As reportagens eram caprichadas, tecnicamente muito bem feitas e isso “eliminava” a necessidade de se ouvir o outro. Ali, o que era dito era a verdade.

Como contestar a verdade?

Globo, meu rumo, minha vida.

No outro dia velhinhos caminhando ou sentados nos bancos das praças e exibindo todo o conhecimento politico adquirido na noite anterior também eram entusiasmo puro.

Nos consultórios, escritórios, nas ruas, também eram grandes o conhecimento exibido e o entusiasmo.

Lobotomizados, estavam todos prontos para as manifestações nas avenidas paulistas espalhadas por todo o país.

Não havia mais como reverter o golpe que viria na sequência e que terminaria por derrubar a Presidenta da República, sob o guarda-chuva das pedaladas fiscais.

Não importa que durante o processo de elaboração e conclusão do golpe já tinha sido comprovado que o argumento era furado; Dilma foi considerada inocente.

Mas não vem ao caso.

A vida era uma festa, cuja estrela mais reluzente era um juiz.

Um juiz que brilhava como nenhum outro jamais ousara.

Moro e a corrente

Moro na GloboMoro na IstoÉ

Moro e o poder

O juiz se tornou um pop star.

Um herói.

E herói não tem defeitos.

Mas tem identidade secreta.

Como será o herói na sua vida pessoal?

Como devem ser os heróis na intimidade?

Como devem ser os heróis com seus amigos e colegas de trabalho?

O que conversam?

Como se vê um homem com super poderes?

O homem com super poderes se vê homem ou super homem?

O que pode o homem?

O que pode o super homem?

Eu vejo, eu ouço

No primeiro momento o ex-juiz e o seu office boy, um procurador da república, reconheceram a veracidade dos diálogos.

Devo repetir?

O ex-juiz e o procurador da república disseram que era verdade o que estava nos diálogos divulgados pelo site The Intercept.

Mas ambos disseram que não viam nada de mais.

A expectativa do que ainda podia existir ficou grande e por isso gerou uma ansiedade na mesma proporção.

Estava bem claro que o ex-juiz não conseguia mais esconder o quanto estava ansioso mas, diante da divulgação de novos diálogos, por um momento imaginou-se salvo.

Não via nada de mais.

Sem falar que passou a dizer que não reconhecia a autenticidade daqueles diálogos, que aqueles vazamentos criminosos podiam estar adulterados, que criminosos haviam invadido os telefones deles…

Além do avião da presidência com cocaína, havia agora uma nova versão no ar.

Devidamente orientado (será que Faustão também fez parte dessa equipe de consultoria?), pareceu ao ex-juiz que ali estava a salvação.

Ficou tão animado que tentou navegar por águas mais profundas, algo sempre perigoso.

E entre os diversos atributos que não possui, recorreu ao que lhe é mais precário; aventurou-se pelos mares e oceanos do  conhecimento e apelou ao Latim, sem perceber que exibia o quanto lhe incomoda a identificação da sua ignorância.

Moro rato

Corre-se sempre um risco muito grande quando, na arrogância dos ignorantes, pretende-se mostrar uma coisa que não existe.

Recorrendo à célebre frase de Horácio, poeta romano, o ex-juiz disse, em Latim, “parturiunt montes, nascetur ridiculus mus”, que numa tradução livre significa “a montanha pariu um ridículo rato”. Frase que se aplica a todas as coisas pomposamente anunciadas e que, concretizadas, produzem uma grande decepção, um resultado pífio diante da expectativa gerada.

Estava ali, escancarado, o seu provincianismo, reconhecido e comentado pelos próprios colegas da Lava Jato, como mostraram os diálogos divulgados.

Ali estava a famosa ignorância ativa.

E na sequência, reportando-se às manifestações em seu apoio, ocorridas em 30/06, filosofou; “eu vejo, eu ouço”.

Deixemos de lado o fato de que as manifestações a favor de Moro e Bolsonaro de 30 de junho caíram quase que à metade em termos de cidades envolvidas em comparação com as de 26 de maio (88 e 155 cidades respectivamente) e com participação bem menor das pessoas do bem (padrão FIFA), mesmo em São Paulo, apesar de algumas imagens postadas e já identificadas como falsas.

Não vou perder tempo com essas baboseiras.

Volto ao sábio filósofo.

Eu também, Moro, vejo e ouço.

Vejo que a montanha pariu não um ridículo rato, mas diversos deles.

Atraídos pelo toque mágico do canto da sereia do golpe (“primeiro a gente tira a Dilma, depois a gente põe o Michel [Temer] e aí deita e rola…, com Supremo e tudo”).

Ratos que se instalaram em todos os segmentos da sociedade, inclusive e infelizmente em segmentos decisivos para ela, como o judiciário.

Vejo o que fazem e ouço o que dizem como se ratos não fossem.

Atingido de forma irreversível já a partir dos primeiros diálogos que foram divulgados pelo The Intercept, agora em parceria com a Band News (Reinaldo Azevedo), Folha e Veja, o ex-juiz vem se mostrando um herói com pés de barro que não se sustenta em pé.

Moro inflável

Todo boneco inflado se desinfla com rapidez surpreendente.

Vazio, não fica em pé e quando se percebe a inutilidade de um boneco vazio, ele perde a serventia.

É questão de tempo.

Aterrorizado e paralisado pela perspectiva do que ainda está por vir (segundo o jornalista Ricardo Noblat, só de áudio são cerca de 2.000), o ministro não tem mais o que dizer e se tornou uma figura patética na repetição de respostas evasivas.

Quando usou e abusou de depoimentos arrancados a fórceps, quando humilhou e intimidou depoentes, quando fez prisões preventivas que duravam uma eternidade, o ex-juiz usou e abusou de vazamentos para a imprensa, particularmente para a Globo.

Dizia abertamente que a operação que o inspirara, a italiana Operação Mãos Limpas, tinha tido o apoio indispensável da imprensa na divulgação dos vazamentos.

Fez o mesmo na sua lava Jato.

Os elogios eram muitos e frequentes à imprensa brasileira (Globo, Veja, Folha, Estadão…), pela divulgação dos vazamentos, muito frequentemente de forma sensacionalista.

Ele, o ex-juiz, defendia isso com unhas e dentes.

Com inteiro respaldo e apoio da sociedade brasileira.

Os fins justificam os meios.

Muitos homens e mulheres e suas famílias foram jogados na lama das acusações, julgamento e condenação automáticos por parte de um público sedento de sangue, em tudo igual à Roma antiga, ou mesmo ao julgamento e condenação de Cristo, já que muitos se dizem cristãos.

Mesmo o mais vergonhoso e ilegal dos vazamentos, o da conversa entre a presidenta da república (Dilma) e o ex-presidente (Lula), foi tranquilamente defendido pelo homem que devia preservar as leis do país.

E mais uma vez, com inteiro respaldo e apoio da sociedade brasileira.

E o fez dizendo que “onde há o problema ali não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo, o problema [o mais importante] era o diálogo em si, o conteúdo do diálogo”.

Ou seja, não importa como foi conseguido e sim que foi conseguido.

Mas esse homem, cuja forma como passaria para a história parecia já estar desenhada, vê agora o súbito assumir o comando da sua vida e da mesma maneira o destino, do qual nenhum homem consegue escapar, tomar as rédeas das suas mãos.

Encurralado pelo futuro que bateu à sua porta, sente na pele a amargura que muitas vezes cruel, covarde e injustamente proporcionou à vida de muitas pessoas.

Tentando escapar do inescapável, entrega-se dócil e covardemente a comandos sob os quais jamais se imaginou.

Com o poder que ainda possui, o que o ministro da justiça está tentando fazer neste momento é condenar publicamente um homem por mostrar à sociedade, sempre tão frágil e vulnerável, quem verdadeiramente ele é.

O que o tornou um herói, com inteiro respaldo e apoio da sociedade brasileira, agora é crime.

Confirma-se de maneira assustadora o que disse Millôr Fernandes:

“O Brasil é o único país em que os ratos conseguem botar a culpa no queijo”.

Tudo isso com inteiro respaldo e apoio da sociedade brasileira.

E esse é o grande problema.

Ao apoiar esses homens e mulheres e defende-los incondicionalmente, como fazem, importantes segmentos da sociedade brasileira se desnudam e mostram o seu caráter.

Caráter no mínimo preocupante para as futuras gerações, porque entre esses segmentos estão formadores de opinião.

Como serão formados os nossos filhos e netos por professores com esse perfil?

Estamos tratando aqui de princípios éticos básicos.

É muito triste e de uma indignidade incompreensível e inaceitável que parcela considerável da sociedade assuma esse comportamento tão absurdo motivado pelo preconceito e ódio que se incorporaram às suas vidas, invertendo e transgredindo valores tão importantes para a raça humana.

Serão tão incapazes ao ponto de não conseguir esquecer por alguns minutos o ódio que sentem e perceber que não se trata, pelo menos neste momento, de simplesmente libertar alguém, quem quer que seja, mas de endeusar e dar super poderes a homens e mulheres que manipulam, perseguem, infernizam a vida de pessoas aprisionando-nas quando querem e pelo tempo que querem e agora têm os seus métodos expostos através de diálogos entre eles, numa trama diabólica e cínica?

Ou será que acham que nada é verdade?

Que tipo de cegueira os impede de ver a veracidade dos diálogos que já foram divulgados, se foi pela divulgação de diálogos assim que os mesmos que estão fazendo de tudo para condenar foram transformados em heróis?

O que são vocês?

Ratos?

Como e por que estariam ali os conselhos de Faustão (famoso animador de auditório da Globo) a Moro e já confirmados pelo próprio Faustão?

Ou também não vale a confirmação de um Procurador?

Procurador confirma veracidade das mensagens

E quando vierem os áudios e os vídeos?

O que você fará quando perceber que seu filho estará desprotegido pela lei diante de qualquer eventualidade em que do outro lado esteja alguém mais poderoso ou protegido do “julgador”, em favor de quem a justiça não julgará, tomará partido.

Homens e mulheres poderosos e covardes estão fazendo isso nesse momento debaixo do seu nariz.

Hoje com alguém que não conhecemos.

Amanhã com seu filho, ou com você mesmo.

Para onde você irá quando perceber que seu filho está nas mãos de homens sujos?

É a pergunta que faz o The New York Times lá em cima.

“Para onde você corre quando os cruzados anticorrupção são sujos?”