
Da série Histórias que precisam ser contadas. E serão
Por Ronaldo Souza
Sob o título Quando as evidências não estão evidentes, abordei em sete artigos aqui no site a questão das evidências científicas que falei no texto A história de um trabalho. 2ª parte.
Veja o que eu disse no Quando as evidências não estão evidentes 3.
Não parece elementar que toda nova proposta, toda nova ideia, toda nova concepção, todo novo instrumento e toda nova técnica surjam sem evidências que as sustentem, mas que surgirão à medida que se aceite e se estude a ideia do novo?
Afinal, novo é o que ainda não existe, está surgindo.
De modo simples e direto, como surgem as evidências?
Todas ao mesmo tempo?
Como surge a primeira?
Uma vez que uma hipótese é levantada, a partir daí é que são efetuadas as etapas que construirão as evidências.
Como podem estas existirem se a simples possibilidade de discussão é negada desde o início por professores engessados que não aceitam o que lhes contradiz?
Não, não vou procurar saber onde estão a inteligência e o bom senso desse tipo de professor.
Não podiam ser diferentes a perplexidade e a reação do professor Pécora diante do argumento daquele professor quanto à não existência de evidências para negar aquela nova concepção que acabara de ser colocada em discussão.
Pensar é Transgredir
Se todos pensam da mesma maneira e ninguém propôs qualquer tipo de mudança, como podem existir evidências sobre a nova concepção que está sendo proposta?
Como podem existir evidências sobre algo em que ninguém tinha pensado até então?
Como podem existir evidências sobre o que ninguém viu ou pensou, o que ainda está por surgir?
Como moderador do debate me arrepiei com aquela argumentação.
Era 2009.
Agosto.
Aquela argumentação não poderia partir de quem partiu, pelo menos pelo que se imaginava que ele fosse.
Fiquei chocado.
Just my two cents (Ariano Suassuna há de me perdoar).
Pensando fora da caixa
Venha comigo.
Existem inúmeras patologias com as quais a Medicina tem que lidar. A depender de com qual o médico lida a abordagem poderá ser diferente.
Independentemente desse aspecto, existe um conhecimento que se tornou um axioma em Medicina:
“Remova a causa que cessa o efeito”.
Em outras palavras, ainda que existam diversas patologias que exigem tratamentos específicos e diferentes abordagens cirúrgicas, a Medicina estabelece que, independente de tudo isso, os tratamentos específicos e as diferentes abordagens cirúrgicas têm um objetivo; remover a causa.
Os diversos aspectos de uma cirurgia devem ser analisados, estudados e reconhecidos na sua importância.
Por exemplo.
Cirurgias que envolvem mais marcadamente a estética do paciente fazem com que, além de todos os outros passos, algo simples como a sutura ganhe grande relevância.
Afinal, a depender de como e com que materiais ela é realizada, a cicatrização e, portanto, a estética do paciente, poderão ser comprometidas.
Não consta, porém, que por conta desse fato a Medicina credite a cura do paciente à sutura.
Assim, mesmo considerando uma cirurgia cujo componente estético adquire grande relevância, é, no mínimo, muito pouco provável que a Medicina estabeleça que a qualidade da sutura seja o fator determinante da cura da patologia.
A sutura não pode ser o fator determinante do sucesso.
A sutura não é o fator determinante do sucesso.
Já fez a analogia?
Não?
Então façamos juntos.
Diferentemente da Medicina, a Endodontia lida basicamente com uma patologia; a periodontite apical.
Por que haveriam de ser justamente elas, a Endodontia e a periodontite apical, as únicas especialidade e patologia respectivamente em que o axioma da área da saúde, “remova a causa que cessa o efeito”, não seria verdadeiro?
Por que a obturação do canal (a sutura) seria o fator determinante para o reparo da lesão periapical, como vem sendo dito há mais de 60 anos?
Faz algum sentido isso?
Se a chave para a cura é a remoção da causa, por que o selamento do canal seria o fator determinante para o reparo da lesão periapical e não a remoção da causa?
Qual é a patologia?
A lesão periapical.
Qual é a causa da lesão periapical?
A infecção do canal.
Quem remove a infecção do canal?
A obturação?
Claro que não.
Doutrinado pela necessidade de evidências acima de todas as coisas, inclusive da inteligência e do bom senso, o professor não conseguia escapar do engessamento a que submetera sua forma de pensar e ao qual estava preso.
Era o muro ao qual me referi no artigo anterior, ao dizer que “sabia que ia ser muito difícil ir de encontro ao que estava estabelecido para esse tema, afinal era consagrado como unanimidade”.
E como também disse naquele artigo, bati de frente com ele:
O paradigma da obturação.
Depois de ter publicado Apical limit of root canal filling and its relationship with success on endodontic treatment of a mandibular molar: 11 year follow-up, chegara a hora de sentar e escrever o segundo artigo da tríade, sobre a qual também falei no referido artigo anterior.
Onde publicar?
Se algum dia tive dúvida sobre a minha baianidade, deixei de ter.
Abençoado por Dorival Caymmi e orientado por Caetano Veloso, foi o artigo que escrevi com mais “sem pressa” até hoje.
O texto não lhe dá as mesmas condições que a apresentação oral.
A entonação da voz, a ênfase, a veemência…, nada disso é possível na escrita, onde cada palavra tem que ser medida e pesada.
Ainda mais depois que vi a recepção proporcionada ao primeiro da tríade.
Imaginei que não seria tão simples escrever esse, mais importante, mais complexo e mais definitivo.
Ao terminar notei que “passava” um pouco dos limites geralmente estabelecidos de quantidade de páginas e figuras permitidas.
Feita a adequação, mas ainda excedendo os limites, veio a dúvida de onde publicar, uma vez que a seção de Endodontia do Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology, Oral Radiology and Endodontics não existia mais.
Através de um belo editorial “Are we doing enough?“, escrito em Junho de 2011, Spangberg, lamentavelmente, já preparava a sua despedida rumo a aposentadoria.
Submeti a periódicos, inclusive os que havia tentado no artigo anterior.
Rejeitado.
Definitivamente, os deuses da Endodontia pareciam não gostar do tema, da abordagem, da condução do artigo, de alguma coisa eles não gostavam.
Resolvi então escrever uma “apresentação” (um arrazoado) do artigo ao próximo periódico ao qual seria submetido.
Em rápidas palavras, justifiquei-o dizendo que era possível que o texto e as figuras ultrapassassem os limites de espaço estabelecidos pelo periódico, mas acreditava que a supressão de parte de qualquer um deles tiraria a força do artigo, razão pela qual…
O editor do JADA, Michael Glick, enviou uma mensagem duas semanas depois aceitando o artigo.

As tarjas pretas são para bloquear endereços que prefiro resguardar.
Não havia nenhuma sugestão para fazer correção em qualquer parte do artigo.
Nem no texto, nem nas figuras.
Havia somente uma pendência e você a vê na parte final da mensagem grifada em vermelho.
Uma vez que o trabalho não tinha sido submetido a nenhum órgão, o JADA pedia para providenciar uma autorização do Comitê de Ética para sua publicação.
Mais do que compreensível, até porque já esperava por isso.
Busquei a resolução de implantação do Comitê de Ética no Brasil; veja aqui Comitê de Ética – Resolução nº 196, 10 de outubro de 1996.
O Ministro da Saúde era o Prof. Adib Jatene, governo Fernando Henrique Cardoso.
Como já disse aqui na primeira parte deste texto, “o trabalho sobre o qual estamos conversando foi feito no meu consultório entre 1987 e 1996. Exatamente 10 anos o tempo em que foi realizado”.
O Comitê de Ética foi implantado no Brasil em 10 de outubro de 1996, ano em que conclui o trabalho. Não existia antes.
Enviei a resolução explicando do que se tratava.
Aceitaram e me pediram então que conseguisse a autorização para utilização das radiografias de acompanhamento dos casos clínicos, tendo em vista que a partir de outubro de 1986 elas tinham sido feitas já sob a vigência do Comitê de Ética.
Uma vez que não consegui imaginar qualquer dificuldade nesse sentido, pensei que tudo estava sob controle.
Não, não estava.
Para resumir e sem entrar em detalhes, o Comitê de Ética não me deu a autorização que permitiria ao JADA publicar o artigo.
Não haveria necessidade de qualquer tipo de intervenção nos pacientes.
Não haveria necessidade de novas radiografias.
Nada.
Mas, graças à recusa do Comitê de Ética em autorizar o uso das radiografias de controle dos meus arquivos, o trabalho não pôde ser publicado.
Comuniquei ao JADA que ia retirar o artigo do processo de submissão e, para minha surpresa, contei com grande boa vontade de Susan Lozinak, secretária do periódico que, sob orientação do Dr. Michael Glick (que a orientava sobre como proceder, com cópias das mensagens para mim), me deu alguns meses a mais para tentar contornar a dificuldade.
Não nego que guardo todas essas mensagens até hoje, seis anos depois.
Por que conto tudo isso?
Há razões para faze-lo, pode acreditar.
E se algum dia eu sentir que é necessário, algo que cada vez mais parece bater à porta, explicarei.
Os ventos que soprarão darão rumo às coisas.
O que não posso deixar de comentar agora é que fiquei muito chateado, claro.
Ao mesmo tempo, porém, fiquei sereno e resolvi “deixar pra lá”.
Não toquei mais no artigo.
Mas, há um final na história desse trabalho?
Há, sim.
E começo a conta-lo no próximo texto.
Obs. “Pensar é Transgredir” é o título de um dos livros de Lya Luft.