A coragem é o que dá sentido à liberdade

Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro, casado, pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi confirmada.

Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente não têm resposta.

Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?

Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez pensar em muitas outras que talvez, em meio a toda essa balbúrdia, merecem ser consideradas…

Você seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14 km pelo sertão do Ceará para poder frequentar uma escola? Teria a coragem suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um regime militar? Conseguiria aguentar torturas frequentes e constantes, como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos sem perder a cabeça e partir para a delação? Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime político de seu país lhe desse a liberdade?

E sigo…

Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os homossexuais, o aborto e os menos favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?

Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando reclamava de sua ausência: a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a vida das pessoas…

Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas…

Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?

Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.

Hoje, nesse dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus objetivos foram alcançados. Mas ao encontrar-me com meu pai e sua disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra, HONESTIDADE e defesa daquilo que sempre acreditou.

Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não sabemos o que virá e para que seja possível aguentar o que vem pela frente pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando esse e/ou outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de carinho. Nesse momento qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.

Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de sua INOCÊNCIA e de sua HONESTIDADE. Vocês que aqui nos leem sabem de nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que, agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir em frente.

Com toda minha gratidão, amor e carinho,

Miruna Genoino

09.10.2012

Ao povo brasileiro

No dia 12 de outubro de 1968, durante a realização do XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, fui preso, juntamente com centenas de estudantes que representavam todos os estados brasileiros naquele evento. Tomamos, naquele momento, lideranças e delegados, a decisão firme, caso a oportunidade se nos apresentasse, de não fugir.

Em 1969 fui banido do país e tive a minha nacionalidade cassada, uma ignomínia do regime de exceção que se instalara cinco anos antes.

Voltei clandestinamente ao país, enfrentando o risco de ser assassinado, para lutar pela liberdade do povo brasileiro.

Por 10 anos fui considerado, pelos que usurparam o poder legalmente constituído, um pária da sociedade, inimigo do Brasil.

Após a anistia, lutei, ao lado de tantos, pela conquista da democracia. Dediquei a minha vida ao PT e ao Brasil.

Na madrugada de dezembro de 2005, a Câmara dos Deputados cassou o mandato que o povo de São Paulo generosamente me concedeu.

A partir de então, em ação orquestrada e dirigida pelos que se opõem ao PT e seu governo, fui transformado em inimigo público numero 1 e, há sete anos, me acusam diariamente pela mídia, de corrupto e chefe de quadrilha.

Fui prejulgado e linchado. Não tive, em meu benefício, a presunção de inocência.

Hoje, a Suprema Corte do meu país, sob forte pressão da imprensa, me condena como corruptor, contrário ao que dizem os autos, que clamam por justiça e registram, para sempre, a ausência de provas e a minha inocência. O Estado de Direito Democrático e os princípios constitucionais não aceitam um juízo político e de exceção.

Lutei pela democracia e fiz dela minha razão de viver. Vou acatar a decisão, mas não me calarei. Continuarei a lutar até provar minha inocência. Não abandonarei a luta. Não me deixarei abater.

Minha sede de justiça, que não se confunde com o ódio, a vingança, a covardia moral e a hipocrisia que meus inimigos lançaram contra mim nestes últimos anos, será minha razão de viver.

Vinhedo, 09 de outubro de 2012
José Dirceu

PMDB é campeão em número de prefeitos, PT vence em total de votos

Da Folha de São Paulo

O PMDB foi, mais uma vez, o partido que mais elegeu prefeitos no Brasil. Até o fechamento desta edição, com 5.493 resultados anunciados (99% do total), 1.016 peemedebistas haviam conquistado mandato de prefeito.

O desempenho, porém, não pode ser considerado um êxito absoluto. Em relação a 2008, a sigla encolheu quase 15% em total de vitórias.

Essa conta é uma preliminar, pois não considera algumas cidades em que a apuração ainda estava aberta na noite de ontem nem as disputas de segundo turno, marcadas para o fim do mês.

Confira a página especial sobre as eleições 2012

Entre os partidos médios e grandes, PT e PSB foram as duas legendas com melhor desempenho nacional.

Até 23h25 de ontem, o PT já havia assegurado 627 prefeituras (14% a mais que em 2008). Em número total de votos, o PT ultrapassou o PMDB e tornou-se o partido mais sufragado para prefeito no país, com 17,3 milhões de votos, uma evolução de 4% em relação a 2008.

O desempenho proporcional do PSB foi ainda melhor. Cresceu 51% no total de votos e 41% em número de prefeitos eleitos. Nesta eleição, o PSB foi o quinto partido que mais elegeu prefeito.

O PSDB, principal sigla de oposição no plano federal, conseguiu manter a posição de segundo partido em número de prefeitos (688 eleitos), mas elegeu 13% a menos que em 2008. Em todo o país, candidatos tucanos tiveram 13,9 milhões de votos, queda 4% sobre 2008

Já o recém-criado PSD, liderado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, elegeu pelo menos 493 prefeitos ontem. Foram 219 vitórias a mais que o DEM, a sigla de origem de Kassab.

Das 83 cidades em que era possível acontecer segundo turno (as que têm mais de 200 mil eleitores), 50 terão novas eleições no próximo dia 28.

Nesse grupo de cidades, o PT foi o partido que mais venceu no primeiro turno, com oito triunfos. PSDB e PSB elegeram 5 prefeitos em primeiro turno cada um.

No fim do mês, PT e PSDB irão se enfrentar em pelo menos seis das maiores cidades: São Paulo, João Pessoa (PB), Rio Branco (AC), Pelotas (RS), Guarulhos e Taubaté (SP).

Um grande pequeno homem

A recente história política do Brasil está repleta de casos que mostram que alguns homens se perdem nos labirintos da vida com relativa facilidade.

Há quem conheça minimamente a política brasileira que possa duvidar da dignidade e da importância de Plínio de Arruda Sampaio? Simplesmente, não. Entretanto, admirador dele que sempre fui, confesso que a sua participação na campanha presidencial de 2010 me frustrou um pouco.

Em determinado momento, diante da iminente vitória de Dilma Roussef no primeiro turno, houve uma “necessidade” de segundo turno. A grande (?) mídia, para muitos o grande partido de oposição no Brasil, percebeu que, se dependesse de José Serra, não teria nenhuma chance de fazer valer o seu objetivo; chegar ao segundo turno e, com ele, tentar impedir a vitória que se anunciava.

Com todo o seu poder, deu espaço para dois outros candidatos. Um deles, Plínio de Arruda Sampaio. Entendo as mágoas do PT de homens como ele, Chico Alencar e alguns outros, e daí a dissidência e a fundação do PSOL. Mas, foi chocante a sua performance, principalmente nos debates, sob a luz dos holofotes. Ah, esses holofotes.

Ali não era o candidato que os anos de vida e a experiência política aconselhavam uma postura sóbria, como sempre fora a dele. Do alto dos seus 80 anos, fez até piadinhas, das quais ouviam-se claramente os aplausos e risos na platéia. Particularmente, um candidato era o mais atacado por ele. Com elegância, a candidata Dilma Roussef respondia aos seus questionamentos e provocações. Ela respeitou a história de Plínio de Arruda Sampaio. Por esse respeito, ela entendeu que naquele momento ele se transformara em uma ferramenta da mídia. Em nenhum momento o agrediu.

Na verdade, era o outro candidato a grande alternativa para a possibilidade do segundo turno. De origem humilde, lutadora, história de vida arrebatadora, Marina Silva foi esse instrumento. Apesar da inconsistência da sua fala, apesar da fragilidade do seu conhecimento dos males do Brasil, foi convenientemente conduzida ao pedestal salvadora do país. Ganhou um espaço na mídia jamais imaginado. Jamais teve a menor chance de chegar lá, mas, ela fez o segundo turno de 2010.

Pelos tapetes vermelhos postos aos seus pés, imaginou que seria ela. Permitiu que José Serra chegasse ao segundo turno e por sua vez mostrar toda a sua inconsistência-fragilidade-incompetência. Mas, isso era pouco. Mostrou de vez o seu caráter. Mas, isso é outra história.

Onde está Marina Silva? Por onde anda ela? Por que não a vemos mais? Devidamente adubada, uma fruta da qual, depois de chupada, só restou o bagaço à beira da estrada.

Há um conceito de que aquele que vence profissionalmente é um homem bem sucedido. Não é à toa que todos brigam por cargos “importantes”. Não é à toa que todos ostentam as suas posições, os seus carros, as suas belas casas; são vencedores. Recorro outra vez a um grande homem, Oscar Niemeyer: “o cara às vezes até cresce profissionalmente, mas não toma conhecimento da vida”.

Como não imaginar as dificuldades enfrentadas por ele para chegar aonde chegou. De origem humilde, negro, venceu profissionalmente e ocupando um dos mais importantes cargos do país, pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que o Sr. Joaquim Barbosa, Ministro do Supremo Tribunal Federal, é um homem muito bem sucedido.

Ao permitir histórias como a do Ministro Joaquim Barbosa, alguém que, apesar das dificuldades que enfrenta, vence na vida, o mundo parece querer mostrar que não é tão desumano. Porém, ao fazer o que faz de homens como ele, o mundo se mostra (e aí também se mostra o homem).

Os tapetes vermelhos o conduziram ao pedestal. É lá onde mora o reconhecimento da Casa Grande. Inocência? Digo há muito tempo que o poder não corrompe o homem, o poder mostra o homem. Agora, personagem de várias reportagens, capa de revista, “o menino pobre que mudou o Brasil” é a mais nova fruta a ser saboreada, cujo destino já sabemos qual será. Há sempre uma estrada à espera de um bagaço de fruta jogado pela janela.

O menino pobre, nordestino, pau de arara, semianalfabeto, que não fala inglês, que, ao mudar a vida de 40 milhões de brasileiros mudou o Brasil, foi quem levou Joaquim Barbosa ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal, primeiro negro a ocupar esse posto. O menino pobre, nordestino, pau de arara, semianalfabeto, que não fala inglês, que conduziu o menino pobre Joaquim Barbosa ao cargo de ministro tornou-se um homem generoso, qualidade que nem os seus inimigos (não são adversários) negam. O menino pobre que se tornou ministro simplesmente se vinga da vida.

O Ministro Joaquim Barbosa não soube tirar da sua trajetória pessoal algo que o tornasse de fato um vitorioso, um vencedor de verdade. Este, o vencedor de verdade, não se torna um homem pequeno, rancoroso, alguém que se vinga da vida. Pelo contrário, como ser humano tem como característica principal a generosidade de quem, de fato, venceu.

Nos arquivos da História, ele será registrado como um homem de origem humilde que se tornou poderoso. Jamais como um grande homem.

Carta aberta de Wilson Gomes a ACM Neto

Caro Antonio Carlos Magalhães Neto, sei que pode parecer não fazer falta para o seu estoque, mas como os seus votos estão minguando nesta “reta final”, considere a possibilidade de contar com o meu voto. É magrinho, mas é limpinho. Entretanto, como o meu DNA calvinista me impede de dar alguma coisa, assim, do nada, proponho uma barganha. Eu te dou o meu voto e a sua família devolve a minha Bahia.

Explico. Não é por nada, mas é que me incomoda o fato de a sua família ter marcado a Bahia inteira, como fazem os bichos territoriais que vejo no Animal Planet, com o seu cheiro…digo, nome. É difícil achar qualquer coisa pública criada nos últimos vinte anos nesta Província – viaduto, avenida, município, aeroporto, escola… monumento nem se fala – sem o nome de alguém da sua família ou de pessoas a ela consorciadas.

Quer prova? Dê um google. Se até mesmo a vovó (a sua) Arlete Magalhães, que ao que me resulta nunca recebeu um voto popular na Bahia, é nome de umas 15 escolas e centros de educação infantil e de umas três ruas no estado… Nem vou falar de vovô (o seu!) que deu mais nome a logradouros e edifícios públicos na Bahia que Luís XIV, o Rei Sol, foi capaz de dar ao Estado Francês durante os anos da sua glória. Titio (o seu, sempre o seu) nem se fala, não é mesmo? Começa pelo mausoléu em Pituaçu, guardado pela nossa força militar, com bandeira sempre tremulante e pira eternamente acesa, que daria uma pontinha de inveja a Shah Jahan, o imperador mongol que mandou fazer o Taj Mahal. Sem mencionar a, horror dos horrores!, usurpação do nome sagrado do Dois de Julho, trocado pelo de Dom Eduardo Magalhães, no aeroporto desta Cidade de São Salvador. E ainda tem outro monumento fúnebre, na Av. Garibaldi, para um sujeito cujo grande mérito público foi ter sido o candidato de ACM e morrido durante a campanha. Pois é.

Sei que tudo isso parece natural à sua família. Que talvez ainda ache pouco, e só lamente que essa porção de terra onde vivemos não seja oficialmente reconhecida como uma Capitania Hereditária dos Magalhães. Sei que eu estou me queixando de barriga cheia e que já dou sorte porque não deu tempo de estabelecer um Império Caronlígio Tropical – já que Carlos por Carlos, por que Carlos Magno estabeleceu uma dinastia e Antonio Carlos, não? Só por que o franco foi magno não quer dizer que o bahiense seja mínimo, não é mesmo? Reconheço isso tudo, embora um documentário que vi no Discovery tenha dito, para minha surpresa, que aquele Estreito de Magalhães lá do finzinho da América do Sul se refere a um obscuro navegador português e não a algum pródigo argonauta da sua família. Esse Discovery deve ser meio petista. Liga não.

Por outro lado, que sorte a de Antonio Vieira, Joana Angélica, Maria Quitéria, Ruy Barbosa e Castro Alves, heim? Já imaginou se tivessem morrido depois da instauração do direito feudal dos Magalhães de colocar o próprio nome em tudo o que é público? Não iria sobrar nada para os coitadinhos. Preocupa-me um pouco, claro, o fato de ter mais coisas na Bahia em nome de Dona Arlete do que de Raul Seixas, Glauber Rocha e Jorge Amado, mas são ossos do ofício, não é? Matriarca é uma coisa, artista é outra. Inda mais quando uma está viva e os outros, mortos. Agora o que me incomoda mesmo é que não sobre nada, nadica, para a gente perpetuar a memória de Caetano, João Ubaldo, Gilberto Gil e outros baianos sabidos que há por aí. É que gosto desses, sabe? Apego besta, sei que não são Magalhães, mas, coitados, isso não é dado a todos. Fico com medo de que ACM Bisneto ou ACM Tetraneto usem tudo quanto for logradouro, prédio, monumento, quiçá a própria Bahia, para colocar os nomes dos filhos de Luis Eduardo, do seu próprio, suas esposas, amigos, primos e apaniguados.

Bem era isso. Nem precisa que o Sr. devolva o nome dos logradouros e edifícios já recobertos pela honra do nome da sua família. Proponho quotas. Sei que é uma palavra petista aos seus ouvidos, mas não se assuste, pois, como vê, estou usando a grafia clássica. Uma quota de, digamos, 75% para os Magalhães e 25% para os demais, baianos e não-baianos, já me deixaria satisfeito. Mas também faço por 20% e não se fala mais nisso.

Pense com carinho. Qualquer coisa, me procure até o dia 7. Atenciosamente. Seu, humilíssimo, WG.

Conheça Dona Zelite

Nem bem escrevi sobre a Pobre Dona Zelite, no dia seguinte o Senador Roberto Requião (PR) fez um pronunciamento em que mostra justamente o que é e do que é capaz a Dona Zelite. Mas, ele vai mais além, bem mais além, ao mostrar o que a grande (?) mídia, componente importante e protetor das elites brasileiras, vem fazendo ao longo dos anos, particularmente dos últimos 10 anos.

Abaixo, pequeno trecho do que disse o senador. (Vale a pena ver o vídeo do pronunciamento aqui  http://www.youtube.com/watch?v=EzmFX_WIvJk – a partir do 1:48′ ele entra no tema).

Requião defende Lula

Em discurso nesta terça-feira (25), o senador Roberto Requião (PMDB-PR) fez um desagravo e demonstrou sua solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, disse ele, vem sofrendo uma campanha de tentativa de destruição de sua imagem movida por oportunismo, irresponsabilidade, ciumeira e ressentimento.

– Essa campanha o atinge quando ele está duplamente fragilizado, pela doença que lhe rouba um de seus dons mais notáveis, a voz, a palavra, o poder de comunicação, e pelo espetáculo midiático em que se transformou o julgamento do mensalão. Se algum respeito, alguma condescendência ainda havia com esse pau de arara, foi tudo pelo ralo, pelo esgoto em que costumam chafurdar historicamente os nossos meios de comunicação – declarou.

Requião disse que Lula está sendo atacado por setores da mídia – alguns poucos jornais, revistas, TVs e rádios – que são a verdadeira oposição do Brasil, somados aos partidos da minoria. Em sua avaliação, esse grupo, que recebe a maior parte dos recursos da publicidade governamental, jamais aceitou que um retirante nordestino chegasse à Presidência da República.

O senador chegou a encontrar “pontos de contato” entre o jornalismo e o colunismo político da época anterior ao golpe de 1964 – “a campanha de destruição de imagem de Getúlio e Jango” – com o jornalismo e o colunismo político dos dias de hoje. Na opinião de Requião, a imprensa nunca aceitou o modo de atuar de Lula, dando atenção aos mais pobres.

– Apenas corações empedrados por privilégios de classe, apenas almas endurecidas pelos séculos e séculos de mandonismo, de autoritarismo, de prepotência e de desprezo pelos trabalhadores podem explicar esse combate contínuo aos programas de inclusão das camadas mais pobres dos brasileiros ao maravilhoso mundo do consumo de três refeições por dia – afirmou Requião.

Requião afirmou que Lula “sempre surpreendeu a oposição/mídia, frustrou suas apostas, fez com que ela quebrasse a cara seguidamente, e por isso, ela nunca o perdoou”. A imprensa, disse o senador, age agora com uma baixeza que não se vê quando os presidentes são de seu agrado. E não está sendo diferente com a presidente Dilma Rousseff.

– Só um verdadeiro idiota pode considerar Lula imune a defeitos e erros, mas só outro idiota pode negar o reconhecimento das qualidades de Lula como presidente do Brasil – afirmou o senador.

Pobre Dona Zelite*

Vemos o que queremos ver. Apesar de imperceptível para alguns, é de uma clareza assustadora o que há por trás de determinadas ações.

São cada vez mais comuns as noticias de agressões físicas sobre as minorias (para usar um termo do momento) e por sua vez são também cada vez mais fortes os movimentos contra o preconceito e a discriminação.

É claro que, de um modo geral, as pessoas não concordam com a violência física, ainda mais nos níveis em que se pratica atualmente, mas, sem perceber, às vezes a estimulam. No ambiente familiar (onde tudo começa), na escola, no trabalho, os mais diversos comentários podem produzir resultados inimagináveis.

No ambiente familiar não é incomum transmitir-se às crianças, inconscientemente ou não, que o homossexualismo é um desvio de conduta. Nessa visão, a “negação ao corpo” é algo inaceitável. É a ponta do iceberg do preconceito e da discriminação sexuais. Ocorre que as crianças crescem e terão os seus filhos. Aí, já está enraizado. É claro que muitos negarão essa via.

E por aí vai, com os “pretos”, com os nordestinos, com as pessoas humildes, apesar das afirmações tipo “eu não sou racista”. Quem assumirá que é? Ainda mais quando “referências” dessa sociedade, como o todo poderoso da Globo, Ali Kamel, desejam, estupidamente, mostrar o contrário, como ele tentou faze-lo no seu livro “Não somos racistas”. Lógico que devidamente respaldado pelos Jabores da vida. Já disse Nietzsche que “a inteligência humana tem limite, a estupidez não”. Vamos a exemplos práticos?

Nunca houve qualquer política de governo voltada para a saúde bucal no Brasil. No entanto, com os programas implantados nos governos Lula, como o Brasil Sorridente (os CEOs – Centro de Especialidades Odontológicas – são um grande exemplo), esse panorama mudou completamente. Vamos aos dados oficiais.

Em 1999 (governo Fernando Henrique Cardoso), o atendimento ambulatorial em Endodontia foi de 49.236 procedimentos. Desde 2008 (governo Lula), a produção nesta especialidade tem alcançado mais de 2 milhões procedimentos/ano.

Quais foram as camadas da população beneficiadas com essa política? As mais baixas, as menos privilegiadas. A quem isso interessa? À elite? Porém, os membros dessa elite, bem típico dela, esquecem que os seus filhos, sobrinhos, netos …que se formam em Odontologia passam a ter, pela primeira vez no país, oportunidade de assegurar um bom emprego e evoluir dentro da sua especialidade.

Faça um levantamento de opinião entre as pessoas envolvidas nesse processo (família, amigos e os próprios profissionais da Odontologia) se já refletiram sobre isso e se tomaram conhecimento dessa política de governo. E, pergunta que não quer calar; que governo proporcionou isso?

Recentemente, a mobilidade social promovida nos governos Lula, proporcionando melhoria na vida de milhões de brasileiros, acentuou esse processo e pode ser observado no dia-a-dia da sociedade. Poucos estão conseguindo segurar a insatisfação diante da convivência com pessoas de “nível inferior”. Percebe-se isso sem nenhuma dificuldade em lugares como os aeroportos, por exemplo. É o que demonstram pesquisas como a que mostro em seguida, feita pelo Instituto Data Popular. Chamo a atenção para o fato de que está transposto como se encontra no original. Só pus negritos em algumas frases.

Classe C incomoda consumidores da classe AB

Os consumidores das classes A e B se mostram incomodados com algumas consequências da ascensão econômica da classe C, que passou a comprar produtos e serviços aos quais apenas a elite tinha acesso. É o que apontam dados de uma pesquisa do Instituto Data Popular feita durante o primeiro trimestre, com 15 mil pessoas das classes mais favorecidas, em todo o Brasil.

De acordo com o levantamento, 55,3% dos consumidores do topo da pirâmide acham que os produtos deveriam ter versões para rico e para pobre, 48,4% afirmam que a qualidade dos serviços piorou com o acesso da população, 49,7% preferem ambientes frequentados por pessoas do mesmo nível social, 16,5% acreditam que pessoas mal vestidas deveriam ser barradas em certos lugares e 26% dizem que um metrô traria "gente indesejada" para a região onde mora.

"Durante anos, a elite comprava e vivia num ‘mundinho’ só dela", diz Renato Meirelles, diretor do Data Popular. "Nos últimos anos, a classe C ‘invadiu’ shoppings, aeroportos e outros lugares aos quais não tinha acesso. Como é uma coisa nova, a classe AB ainda está aprendendo a conviver com isso. Parte da elite se incomoda, sim", afirma Meirelles.

Para especialistas, os consumidores da classe AB correm o risco de fazer críticas mal direcionadas aos chamados emergentes. "Existem setores, como o de viagens aéreas, que expandiram a quantidade de clientes e perderam em qualidade, deixando o serviço realmente pior", diz Rafael Costa Lima, professor de economia da FEA-USP e coordenador do Índice de Preços ao Consumidor, da FIPE. "A crítica deve ser feita às empresas e à infraestrutura dos aeroportos, não aos novos consumidores", diz Lima.

Para o professor, apesar dos aeroportos superlotados, de modo geral os consumidores de ambos estratos se beneficiam da ascensão da classe C. "Empresas como a Apple e montadoras de veículos vieram produzir e vender no Brasil, porque agora existe escala de consumo, o que trouxe mais opções de produtos para todos", diz Lima. "Além disso, a entrada de milhões de pessoas na classe consumidora foi o motor da estabilidade de crescimento brasileiro nos últimos anos", afirma.

Outro dado curioso da pesquisa do Data Popular mostra que 55% da classe AB acha que pertence à classe média (ou C), enquanto um terço acredita ser um "consumidor de baixa renda". "Ao responder a pesquisa, eles diziam que precisam pagar colégio e convênio de saúde particular para três filhos e viagem para a Disney todo ano, não sobrava dinheiro para quase nada, logo não poderiam ser chamados de classe AB", diz Meirelles, divertindo-se com a afirmação.

Segundo dados recentes, 30 milhões de brasileiros ascenderam à classe média nos últimos dez anos, levando essa camada social a representar 53,9% da população atual. "Se fosse um país, a classe C brasileira seria a 17º maior na&

ccedil;ão do mundo em mercado consumidor. O Brasil só não quebrou [ na crise econômica internacional ] por causa da ascensão da classe C, que garantiu o consumo interno", diz Meirelles.

A causa não é uma só, mas com pesquisas como essa fica mais fácil entender porque Dona Zelite tem tanta raiva de Lula e Dilma.

*Dona Zelite – transformação que sofreu a expressão “as elites” para linguagem com o vício popular de engolir o s do final das palavras “as elite”. Daí para “a zelite” e finalmente Dona Zelite.

FHC: um perdedor

Por Emir Sader*

O governo Lula recebeu uma herança maldita do governo FHC, refletida numa profunda e prolongada recessão, no desmonte do Estado, na multiplicação por 11 da dívida pública, no descontrole inflacionário. O controle da inflação jogou-a para baixo do tapete: transferiu-a para essa multiplicação da dívida pública.

O povo entendeu, rejeitou FHC e derrotou os seus candidatos: Serra duas vezes e Alckmin. Isso é história, tanto no sentido que é verdade incorporada à história do Brasil, como história porque o governo Lula, com grande esforços, superou a recessão profunda e prolongada herdada e conduziu o Brasil ao ciclo expansivo que dura até hoje.

Para não aguçar o clima de instabilidade que a direita pretendia impor no começo do seu governo, Lula preferiu não fazer o dossiê do governo FHC, que incluísse tudo o que foi mencionado, mais os escândalos das privatizações, da compra de votos para a reeleição, da tentativa de privatização da Petrobras, entre outros.

Não por acaso FHC é o político mais repudiado pelos brasileiros. Já na eleição de 2002, Serra tratou de distanciar-se do FHC. Em 2006, as privatizações, colocadas como tema central no segundo turno, levaram a uma derrota acachapante do Alckmin. Em 2010, de novo, o Serra nem mencionou FHC, tentou aparecer como o melhor continuador do governo Lula, para a desmoralização definitiva do governo FHC.

Ao lado disso, economistas da ultra-esquerda esposaram a bizarra tese de que não havia herança maldita, que o governo Lula era continuidade do governo FHC, que mantinha o modelo neoliberal. Além de se chocarem com a realidade das transformações econômicas e sociais do país, foram derrotados politicamente pelo total falta de apoio a essas teses no final do governo Lula, quando o candidato que defendeu essas posições, apesar de toda a exposição midiática, teve 1% dos votos.

FHC não ouve ninguém, despreza os que o cercam, mas sofre da teoria da dependência da dor de cotovelo. Dedica as pouco claras forças mentais que lhe restam para atacar Lula, cujo sucesso – espelhada no apoio de 69,8% dos brasileiros que querem Lula de volta como presidente em 2014 e nenhuma pesquisa sequer faz a mesma consulta sobre o FHC, para não espezinhá-lo ainda mais – fere seu orgulho à morte.

Esses amigos tentam convencê-lo a não escrever mais, a não se expor ainda mais à execração pública – com efeitos diminutos, porque ele não ouve, seu orgulho ferido é o maior dos sentimentos que ele tem, mas também porque ninguém lê seus artigos – a se retirar definitivamente da vida pública. Cada vez que ele se pronuncia, aumentam os apoios ao Lula e à Dilma.

A história diz, inequivocamente, que o Lula é um triunfador e FHC um perdedor. Isso a direita e seu segmento midiático não perdoam, mas é uma batalha perdida para todos eles.

 

*Emir Sader – Sociólogo e cientista político. Graduado em Filosofia pela USP, mestre em filosofia política e doutor em ciência política por essa mesma instituição.

Um canhão no cu

Este artigo incendiou a Espanha. Publicado em 14 de Agosto na secção de cultura de El Pais (jornal espanhol), em poucos dias tornou-se a peça mais lida de sempre naquele jornal e além disso teve milhares de acessos no Facebook. O autor é um escritor espanhol comprometido com os anseios do seu povo.

Um canhão no cu

por Juan José Millás

Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado tontos –, a economia financeira está para a economia real assim como o senhor feudal está para o servo, como o amo está para o escravo, como a metrópole está para a colónia, como capitalista manchesteriano está para o operário superexplorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de uma criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de a teres semeado. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, ainda que vás à merda se baixar. Se o baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que tenhas caído, ainda que não haja nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira. Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta geralmente compra é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um tabuleiro de jogos no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país, este no caso, pouco importa, e diz "compro" ou diz "vendo" com a impunidade com que aquele que joga Monopólio compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno de milhares ou milhões de pessoas que antes de irem para a labuta deixaram no infantário público, onde ainda existem, os seus filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas superprotegidos, é claro, por essa coisa a que temos chamado de Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres são desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, desviam-se num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro. Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem infantário ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos agora mera mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui alteram o preço das nossas vidas a cada dia sem que ninguém resolva o problema, pior, enviando as forças da ordem contra quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as forças da ordem empenham-se a fundo na protecção desse filho da puta que te vendeu, por meio de um roubo autorizado, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste as poupanças reais de toda a tua vida. O grande porco vendeu-lhe fumaça com o amparo das leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passe a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do seu sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

O original encontra-se em
http://cultura.elpais.com/cultura/2012/08/13/actualidad/1344875187_015708.html
e a tradução em
http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO056741.html?page=0