Tricresol e antibiótico

Victor Nóbrega:
Sou Academico do 7período, gostaria de pedir sua instrução relacionado a neutralização mediata e sua eficácia clínica, já que alguns estudos comentam que o fato de colocar uma pelota de algodão com ou sem tricresol tem o mesmo efeito! e se justifica o uso de antibiótico em endodontia em caso de abcessos e fistulas localizados sem envolvimento sistêmico

Victor, a pelota de algodão seca não é a mesma coisa que uma com o tricresol, pois este possui ação química de fixação de tecido. Porém, a eficácia clínica da neutralização mediata não é comprovada. A antigenicidade do tecido fixado é relatada na literatura. Não recomendo. Quanto ao uso do antibiótico, nas condições que você coloca não se justifica.

Pequenos grandes equívocos

Quando escrevi o artigo – Limpeza do forame, uma análise crítica (veja aqui) – já tinha percebido que havia uma grande incompreensão sobre patência e limpeza do forame. Não só nessa direção, também em outras há equívocos que se cometem com frequência.

1. A patência tem sido mostrada como algo que impede a formação da matriz apical (batente apical). Os dois procedimentos, patência foraminal e matriz apical, podem e devem ser alcançados no mesmo canal, um não impede o outro.

O primeiro aspecto que se deve ter em mente é que o batente apical muitas vezes não se forma. Como formar se canais como os MV dos molares, por exemplo, são instrumentados até a lima 25? Se 0,25 mm constitui a média do real diâmetro anatômico apical desses canais, instrumentar até a lima 25 não forma matriz apical. É possível que mesmo a 30 não forme, ou formaria um batente não muito consistente.

O segundo aspecto a se considerar é que, mesmo que a matriz apical se formasse com a lima 25, ou 30, sendo estes os diâmetros que passariam a ter os canais no comprimento de trabalho, como uma lima 10 (possivelmente a mais recomendada para se fazer patência), cujo diâmetro é 0,10 mm, poderia destruir um batente de 0,30 mm?

2. Desde o trabalho clássico de Kakehashi, Stanley e Fitzgerald, em 1965, parece estar consolidada a idéia de que a presença dos microorganismos (não só as bactérias) no canal representa a grande causa dos problemas endodônticos.

Mais recentemente tem-se afirmado, e isso tem sido feito com muita veemência, que a dificuldade no controle da infecção no tratamento endodôntico surge em função da falta de domínio da anatomia do canal radicular por parte do endodontista. Domine-se esta, resolve-se aquela. Assim, a anatomia do canal radicular tem sido colocada como algo a se dominar para o bom êxito do tratamento endodôntico. De fato é, mas mais uma vez simplifica-se demais a questão por ausência de um conhecimento consistente.

A curvatura radicular, mesmo a mais simples, sempre representou uma complexidade anatômica com a qual o endodontista sofreu por longo tempo. Hoje, graças às técnicas mais recentes de preparo e obturação, não há nenhuma dúvida de que esse problema pode ser e foi amenizado. Radiografias de belas obturações em canais com grau maior de curvatura têm sido exibidas como a prova incontestável do domínio da anatomia.

Sendo assim, a presença dos microorganismos na luz principal do canal pode também ser enfrentada mais facilmente. Mas, será essa a dificuldade? Quando se fala em dificuldade de eliminação dos microorganismos, será daqueles que estão na luz principal do canal? Vejamos.

Mesmo diante do conhecimento de que, apesar dos inegáveis avanços nesse sentido, determinadas partes das paredes dos canais (cerca de 40%) não são tocadas pelos instrumentos, admite-se que na luz principal do canal os microorganismos estão sujeitos a ação da limpeza mecânica direta dos instrumentos endodônticos, o aspecto mais importante. Na luz principal do canal, eles estão sujeitos a ação das substâncias químicas auxiliares do preparo (contato direto) e a ação física (arraste) das soluções irrigadoras. Na luz principal do canal, eles estão sujeitos a ação química (contato direto) da medicação intracanal.

O domínio dessa anatomia é importante? Claro que sim, mas, não parece vir da luz do canal principal a dificuldade maior do endodontista em eliminar os microorganismos. Discute-se já há algum tempo a dificuldade de se enfrentar os microorganismos no sistema de canais radiculares, do qual fazem parte os túbulos dentinários, canais laterais, recorrentes, secundários, acessórios, delta-apicais, istmos, reentrâncias, saliências… A pergunta que se impõe é uma só: há, com os recursos técnicos atuais, como ter domínio dessa anatomia?

Parece que o comportamento atual de alguns profissionais representa mais um momento de ignorância ativa.

3. Quem provou a superioridade das técnicas da guta-percha plastificada sobre a condensação lateral? Pelo contrário, tem sido mostrado que são semelhantes quanto ao resultado final. Maior rapidez? Ótimo. Melhor imagem radiográfica? Ótimo. Vamos faze-las, por algumas razões, mas os trabalhos sérios, sem envolvimentos comerciais, mostram que os resultados finais são superiores? Não, não mostram. Se os trabalhos mostram que são semelhantes (não há um trabalho confiável que comprove a superioridade dessas técnicas quanto ao resultado final), por que então não dizer que faço essa ou aquela porque é mais rápida, porque é mais moderna, porque impressiona? Mas não porque é superior.

E, por favor, não me venham falar de vedamento hermético, de sepultamento de bactérias pela obturação, bla, bla, bla. Seria o fim da picada.

Lesão cística!!!

Flavia Santos:
Qual a diferença entre lesão cistica e lesão periapical? Qual o procedimento p tratamento de cada uma? Obrigada.

Flavia, radiograficamente, que é a sua realidade como profissional de consultório, não há como fazer essa distinção. Como lesões periapicais de origem endodôntica, não faço distinção quanto ao tratamento.

Fazemos canal ou tratamos canal?

Flavia Santos:
Ao tentar fazer a odontometria do dente44, percebi q a lima so descia ate a metado do canal que se encontrava calcificado. Usei de varios artificios p alcançar o apice e nao consegui. O dente não apresentava lesão periapical. Posso obturar somente ate onde foi a lima ou o que fazer?
Flavia, costumo dizer que tratamos canal, não fazemos canal. Se ele não existe nada a fazer. De qualquer forma, converse com um colega próximo a você e discuta o caso com ele.

O que a mídia não lhe disse (mais uma vez)

A outra face do amigo do "filósofo" cansado…

Idelber Avelar: O que você não leu na mídia sobre Paulo Renato.

Morreu de infarto, no último dia 25, aos 65 anos, Paulo Renato Souza, fundador do PSDB. Paulo Renato foi Ministro da Educação no governo FHC, Deputado Federal pelo PSDB paulista, Secretário da Educação de São Paulo no governo José Serra e lobista de grupos privados. Exerceu outras atividades menos noticiadas pela mídia brasileira.

Por Idelber Avelar*

Nas hagiografias de Paulo Renato publicadas nos últimos dois dias, faltaram alguns detalhes. A Folha de São Paulo escalou Eliane Cantanhêde para dizer que Paulo Renato deixou um “legado e tanto” como Ministro da Educação. Esqueceu-se de dizer que esse “legado” incluiu o maior êxodo de pesquisadores da história do Brasil, nem uma única universidade ou escola técnica federal criada, nem um único aumento salarial para professores, congelamento do valor e redução do número de bolsas de pesquisa, uma onda de massivas aposentadorias precoces (causadas por medidas que retiravam direitos adquiridos dos docentes), a proliferação do “professor substituto” com salário de R$400,00 e um sucateamento que impôs às universidades federais penúria que lhes impedia até mesmo de pagar contas de luz. No blog de Cynthia Semíramis, é possível ler depoimentos às dezenas sobre o que era a universidade brasileira nos anos 90.

Ainda na Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein lamentou que o tucanato não tenha seguido a sugestão de Paulo Renato Souza de “lançar uma campanha publicitária falando dos programas de complementação de renda”. Dimenstein pareceu desconsolado com o fato de que “o PSDB perdeu a chance de garantir uma marca social”, atribuindo essa ausência a uma mera falha na campanha publicitária. O leitor talvez possa compreender melhor o lamento de Dimenstein ao saber que a sua Associação Cidade Escola Aprendiz recebeu de São Paulo a bagatela de três milhões, setecentos e vinte e cinco mil, duzentos e vinte e dois reais e setenta e quatro centavos, só no período 2006-2008.

Generosidade

Não surpreende que a Folha seja tão generosa com Paulo Renato. Gentileza gera gentileza, como dizemos na internet. A diferença é que a gentileza de Paulo Renato com o Grupo Folha foi sempre feita com dinheiro público. Numa canetada sem licitação, no dia 08 de junho de 2010, a FDE da Secretaria de Educação de São Paulo transfere para os cofres da Empresa Folha da Manhã S.A. a bagatela de R$ 2.581.280,00, referentes a assinaturas da Folha para escolas paulistas. Quatro anos antes, em 2006, a empresa Folha da Manhã havia doado a curiosa quantia – nas imortais palavras do Senhor Cloaca – de R$ 42.354,30 à campanha eleitoral de Paulo Renato. Foi a única doação feita pelo grupo Folha naquela eleição. Gentileza gera gentileza.

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor do Grupo Folha. Os grupos Abril, Estado e Globo também receberam seus quinhões, sempre com dinheiro público. Numa única canetada do dia 28 de maio de 2010, a empresa S/A Estado de São Paulo recebeu dos cofres públicos paulistas – sempre sem licitação, claro, porque “sigilo” no fiofó dos outros é refresco –a módica quantia de R$ 2.568.800,00, referente a assinaturas do Estadão para escolas paulistas. No dia 11 de junho de 2010, a Editora Globo S.A. recebe sua parte no bolo, R$ 1.202.968,00, destinadas a pagar assinaturas da Revista Época. No caso do grupo Abril, a matemática é mais complicada. São 5.200 assinaturas da Revista Veja no dia 29 de maio de 2010, totalizando a módica quantia de R$1.202.968,00, logo depois acrescida, no dia 02 de abril, da bagatela de R$ 3.177.400, 00, por Guias do Estudante – Atualidades, material de preparação para o Vestibular de qualidade, digamos, duvidosíssima. O caso de amor entre Paulo Renato e o Grupo de Civita é uma longa história. De 2004 a 2010, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo transfere dos cofres públicos para a mídia pelo menos duzentos e cinquenta milhões de reais, boa parte depois da entrada de Paulo Renato na Secretaria de Educação.

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grandes grupos de mídia brasileiros. Ele também atuou diligentemente em favor de g rupos estrangeiros, muito especialmente a Fundação Santillana, pertencente ao Grupo Prisa, dono do jornal espanhol El País. Trata-se de um jornal que, como sabemos, está disponível para leitura na internet. Isso não impediu que a Secretaria de Educação de São Paulo, sob Paulo Renato, no dia 28 de abril de 2010, transferisse mais dinheiro dos cofres públicos para o Grupo Prisa, referente a assinaturas do El País. O fato já seria curioso por si só, tratando-se de um jornal disponível gratuitamente na internet. Fica mais curioso ainda quando constatamos que o responsável pela compra, Paulo Renato, era Conselheiro Consultivo da própria Fundação Santillana! E as coincidências não param aí.

Além de lobista da Santillana, Paulo Renato trabalhou, através de seu escritório PRS Consultores – cujo site misteriosamente desapareceu da internet depois de revelações dos blogs NaMaria News e Cloaca News –, prestando serviços ao … Grupo Santillana!, inclusive com curiosíssima vizinhança, no mesmo prédio. De fato, gentileza gera gentileza. E coincidência gera coincidência: ao mesmo tempo em que El País “denunciava”, junto com grupos de mídia brasileiros, supostos “erros” ou “doutrinações” nos livros didáticos da sua concorrente Geração Editorial, uma das poucas ainda em mãos do capital nacional, Paulo Renato repetia as “denúncias” no Congresso. O fato de a Santillana controlar a Editora Moderna e Paulo Renato ser consultor pago pelo Grupo Santillana deve ter sido, evidentemente, uma mera coincidência.

Cursinhos pré-vestibular

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grupos de mídia, brasileiros e estrangeiros. O ex-Ministro também teve destacada atuação na defesa dos interesses de cursinhos pré-vestibular, conglomerados editoriais e empresas de software. Como noticiado na época pelo Cloaca News, no mesmo dia em que a FDE e a Secretaria de Educação de São Paulo dispensaram de licitação uma compra de mais R$10 milhões da InfoEducacional, mais uma inexigibilidade licitatória era anunciada, para comprar … o mesmíssimo produto!, no caso o software

“Tell me more pro”, do Colégio Bandeirantes, cujas doações em dinheiro irrigaram, em 2006, a campanha para Deputado Federal do candidato … Paulo Renato!

Tudo isso para não falar, claro, do parque temático de $100 milhões de reais da Microsoft em São Paulo, feito sob os auspícios de Paulo Renato, ou a compra sem licitação, pelo Ministério da Educação de Paulo Renato, em 2001, de 233.000 cópias do sistema operacional Windows. Um dos advogados da Microsoft no Brasil era Marco Antonio Costa Souza, irmão de … Paulo Renato! A tramoia foi tão cabeluda que até a Abril noticiou.

Pelo menos uma vez, portanto, a Revista Fórum terá que concordar com Eliane Cantanhêde. Foi um “legado e tanto”. Que o digam os grupos Folha, Abril, Santillana, Globo, Estado e Microsoft.

*Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum, professor da Tulane University, que fica em Nova Orleans-LA-EUA e mantém o blog O Biscoito Fino e a Massa.

Dental Press Endodontics

Durante o Circuito Nacional de Endodontia – Etapa Campinas, foi lançada a Dental Press Endodontics nas versões em portguês e em inglês. Como editores, amigos de longa data, os Professores Carlos Estrela, Gilson Sydney e José Antônio Poli de Figueiredo. Não só pelo grande êxito do lançamento como pela decisão de brindar a comunidade endodôntica brasileira com uma revista voltada para ela, da qual já nos ressentíamos há muito tempo, ficam aqui o nosso reconhecimento e desejo de pleno sucesso. Está de parabéns toda a equipe da Dental Press.

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Acesse as duas versões. Clique aqui

Endo na lha 2011

Registro a minha alegria por ter participado mais uma vez do Endo na Ilha (12 a 14 de maio), desta vez ao lado dos Professores Figueiredo (RS), Manoel Damião (SP) e Marco Antônio H. Duarte (SP). O Professor Fellipe promoveu um evento absolutamente independente, onde só os aspectos científicos e de congraçamento foram os objetivos. Ao professor Felippe e toda sua equipe, Ana Maria Hecke Alves, Cleonice da Silveira Teixeira, Eduardo Bortoluzzi, Mara Felippe e Maria Helena Pozzobon, os meus agradecimentos pela acolhida carinhosa de sempre. Faz bem ir a Florianópolis com vocês.

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