Cimentos obturadores

Ricardo Passos:
Olá prof. Ronaldo, gostaria de saber a sua opinião sobre a importancia na escolha do cimento obturador.E o seu comentario sobre alguns tipos de cimentos usados, como o pulp canal sealer e o AH Plus.

Ricardo, a minha idéia sobre os cimentos de um modo geral é bem clara e vai totalmente de encontro à que reina: não vejo neles a importância que dão. O principal papel do cimento obturador, como o nome diz, é obturar. Sob esse ponto de vista, nenhum consegue o tão preconizado vedamento hermético, porque todos são solúveis. Um possui melhor escoamento, outro maior radiopacidade, outro é mais biocompatível. Sob essa perspectiva, vou lhe responder. Não tenho nenhuma experiência com o Pulp Canal Sealer. É um cimento à base de óxido de zinco e eugenol e assim o vejo, ou seja, igual aos outros (volto a dizer, cada um apresenta esta ou aquela característica mais específica). O AH Plus é mais biocompatível do que ele e ainda possui uma vantagem interessante, que é, por não possuir eugenol, apresentar maior compatibilidade com os materiais resinosos, preocupação da dentística e da prótese. Sem nenhum constrangimento, por esta razão, poderia ser recomendável para essas situações específicas. Afora isso, não justifica pagar um preço bem maior do que outros cimentos, com os quais você alcança tranquilamente o objetivo da obturação: selar. Confinados no canal, como deve ser, mesmo os menos biocompatíveis se tornam “mais” biocompatíveis.

Stuart Angel

Você acha que Jesus Cristo foi um bandido? Como não? Claro que foi. Afinal, rompeu com o sistema da época. Possuidor de grande aceitação popular, subverteu as normas. Você não acha que ele foi um bandido, não é? Está bem, concordo com você, não foi. Mas você concorda comigo se eu disser que foi um subversivo, não concorda? Foi preso e torturado até a morte.

Você já ouviu falar de Antônio Conselheiro? Diante do atraso e descontentamento geral do povo, resolveu formar uma comunidade igualitária (que palavra horrorosa), que rapidamente cresceu e tornou-se uma das maiores cidades do nordeste à época, com 25.000 habitantes. Organizada, religiosa, produtiva e comunitária. A reação das pessoas de posses, dos políticos e de alguns setores da igreja (em outras palavras, a elite), deu início à Guerra de Canudos (1896-1897). Todos os habitantes foram mortos (nem as crianças foram poupadas). Canudos virou cinzas, mas também tornou-se, por seu sonho e resistência, símbolo de luta e esperança de um outro Brasil. A imprensa dos primeiros anos da República e muitos historiadores, para justificar o genocídio, retrataram Antônio Conselheiro como um louco, fanático religioso e contra-revolucionário monarquista perigoso. Morto pelo regime.

Nas suas aulas de história voce deve ter ouvido falar muito de um homem chamado Joaquim José da Silva Xavier. Não? E aquele chamado Tiradentes, da Inconfidência Mineira? Pois é, é ele. Vá ao dicionário e verá uma das definições de Inconfidência – falta de fidelidade para com o Estado (está lembrado que o Estado é a ordem, a lei?). Tiradentes era um inconfidente, um bandido. É lógico que tinha que ser punido. Foi executado e esquartejado, a cabeça erguida em um poste e os demais restos mortais foram distribuídos ao longo dos lugares onde fizera seus discursos revolucionários. Hoje, é um herói, cantado em prosa e verso em todas as escolas do Brasil (está lembrado que há um feriado nacional em sua homenagem?).

Em todos os tempos, qualquer cidadão que se posiciona contra a autoridade é motivo de cuidados especiais. Está contra a ordem ideológica, econômica e política, contra o establishment. Fora da lei, é bandido.

É infindável na história o registro sobre homens e mulheres que se rebelaram contra o sistema e por este foram apontados e mostrados à sociedade como perigosos, subversivos. Por que será que homens assim, banidos da sociedade, muitas vezes eliminados fisicamente, hoje, aos nossos filhos, são mostrados como heróis?

A história sempre reserva a esses homens e mulheres uma página especial. Homens e mulheres que, a despeito de serem mostrados como inimigos que ameaçam a segurança nacional, entregaram-se a causas cujo combustível eram os ideais.

Você já ouviu falar de Zuleika Angel Jones? Era mais conhecida pelo nome de Zuzu Angel. Estilista carioca (apesar de mineira) de grande sucesso (vestiu estrelas do cinema americano como Liza Minelli, Joan Crawford e Kim Novak), casada com o americano Norman Angel Jones. Teve três filhos, Hildegard Angel (jornalista), Ana Cristina Angel e Stuart Angel.

 Stuart Angel, foi militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Foi preso pelo regime militar aos 24 anos. Após inúmeras sessões de tortura, já com o corpo totalmente esfolado, foi amarrado à traseira de um jipe da aeronática e arrastado pelo pátio da Base Aérea do Galeão com a boca colada ao cano de escape do veículo, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono.

Enfrentando a ditadura militar, Zuzu tentou encontrar o corpo do filho até os últimos dias de sua vida. Por isso, falou-se da sua grande coragem. "Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade", foi como ela respondeu. A sua luta incessante era em vão; depois de preso, torturado e executado, Stuart Angel teve o seu corpo jogado ao mar (descobriu-se depois). Por sua vez, a morte de Zuzu até hoje não foi explicada (Clique aqui para ouvir a música que Chico Buarque e Miltinho fizeram para ela).

Veja a carta que Stuart Angel escreveu para sua mãe.

Mãe,

Você me pergunta se eu acredito em Deus e eu te pergunto, que Deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus dentro do homem, pois, somente no homem ele pode existir.

Não há homem pobre ou insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão. Todo homem por si só influencia a natureza do futuro. Através de nossas vidas nós criamos ações que resultam na multiplicação de reações.

Esse poder, que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da história, é o poder de Deus. Confrontado com essa responsabilidade divina eu me curvo diante do Deus dentro de mim.

Stuart Edgar Angel Jones

De fato, uma carta de quem não tem coração, de um homem frio e sanguinário, um terrorista assassino.

O que leva um homem ou uma mulher a abandonar bens materiais, conforto, família, e sair vida afora lutando por uma causa da qual não dependeriam?

Hildegard Angel se emociona ao falar do irmão

Por favor, não os chame de assassinos.

Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão (Paulo Freire).

O soldado americano

Ola Professor. Meu nome é Ricardo Molina, sou um ouvinte assíduo do seu blog desde do início nunca postei porque consigo tirar todas as minhas dúvidas, o que eu gosto mais são das suas postagens sobre assuntos diversos como este, do soldado americano. Nós precisávamos de mais pessoas que falassem destes assuntos, isso seria muito proveitoso e humanista com os blogs. Conseguiríamos que nos ouvissem. Admiro muito a sua história de vida e principalmente sobre a endodontia. Concordo muito com você quando diz que a obturação é um coadjuvante e não determina o sucesso da endodontia. Muito obrigado por você me proporcionar muitas alegrias porque sou um adorador da endodontia e sem querer encontrei alguém que pensa como eu, que sou apenas um iniciante na endodontia.
obs: Mando todos os endodontistas ler o seu blog ” eles não acreditam quando mostro as obturações aquém do ápice radicular e a não pensarem em receita de bolo “. Gostaria de mandar o meu trabalho para o senhor sobre MIC, estou associando uma medicação: o dersani, juntamente com as outras MIC. Obrigado.

Ricardo, muito obrigado pelas suas palavras. Não vou usar o velho charme da falsa modéstia (“O que é a modéstia, se não a humildade do hipócrita que, num mundo repleto de inveja, pede desculpas pelo mérito que tem a quem não tem?” – Schopenhauer): a “minha” endodontia é inteligente e, por isso, simples.
Quanto aos textos aos quais você se refere, como o do soldado americano, têm um único objetivo: abordar temas sobre os quais há uma tremenda manipulação dos fatos, tendo em vista que a sociedade não percebe o quão pequena e elitista é a nossa grande (???) imprensa. Não tenho nenhuma dúvida de que muitos pensam que estou fazendo campanha política. Pode ter certeza de que não é isso. Ficaria no meu canto, caladinho, se não visse tanto preconceito e discriminação contra aqueles que não tiveram o sopro dos deuses para fazerem parte das castas brasileiras e por isso pagam o preço absurdo da humilhação, por mais capazes que sejam. É claro que a minha opinião está explícita na minha indignação, mas perceba que, sempre que possível, também há um link mostrando a fonte, e não essa insensatez dos e-mails que recebo diariamente atribuindo a essa ou aquela pessoa (que sempre nega a autoria) colocações absurdas e bobas. Infelizmente, como sociedade, somos incapazes de ver o que de fato é a vida.

Perfuração radicular

Rita Valadares:
Qual a técnica de uso do MTA na raiz mesial perfurada do 47 com polpa necrosada? O Sr sugere o uso de outra substância para este caso? Grata. Parabéns pelo seu blog ,ele nos enriquece bastante.

Rita, para mim, necrose pulpar é sinônimo de infecção (a não ser necrose muito recente por trauma). Assim, há sempre necessidade de tratar o canal. Com o hidróxido de cálcio pode-se cuidar do canal e da perfuração. Quanto ao fechamento da perfuração, há uma série de considerações, o que não cabe aqui agora, mas não é tão simples quanto querem fazer parecer. Se foi por desvio na curvatura (comum de acontecer), por exemplo, como colocar o MTA na perfuração após a curvatura? Alguém pode responder, com o microscópio. Confesso que não tenho conhecimento de microscópio que mostre algo além da curvatura. E que mostrasse. As dificuldades técnicas não se resumem ao ver ou não. Ver não significa exatamente fazer. Em alguns casos, inclusive diante da sua colocação, trata-se o canal e preenche todo ele com MTA, isto é, ele é isolado. Analise bem o caso. Como você fez comigo, recorra a um colega um pouco mais experiente próximo a você, com quem poderá trocar idéias. Além disso, pode mandar mais detalhes e se possível as radiografias para ver se posso ajudar.

Respondendo a Marconny

Marconny Rios Sampaio:
Prof. Ronaldo, um paciente de 16 anos está com expansão da cortical óssea na região periapical vestibular da unidade 11, teste de vitalidade negativo,à palpação  uma leve sintomatologia dolorosa e  percebe-se facilmente lesão de aspecto arredondada na região citada. História de queda de bicicleta, com trauma na unidade à aproximadamente 06 anos atrás. Na radiografia percebo fratura com deslocamento de praticamente metade da raiz(segue em anexo). OBS: Radiografia tirada com posicionador. Existe a possibilidade de preservação da unidade? Qual conduta mais apropriada? pensei em cirurgia paraendodôntica(remoção do fragmento fraturado e da lesão) e endodontia do remanescente.

Marconny, acho que não me expressei muito bem quando disse “não deu para conseguir uma boa imagem (pelo menos eu não consegui) com a radiografia que você mandou”. A radiografia não está ruim, é que não ficaria boa para postar aqui no Blog, pois teria que ser ampliada e aí distorceria a imagem. De qualquer modo, aqui vai a minha opinião para o seu caso. Não só a fratura, mas vejo também uma reabsorção. Existe a possibilidade de preservação da unidade e concordo com os comentários de Ricardo. Se você conseguir penetrar no terço apical deslocado pela fratura, trate o canal, faça pelo menos duas sessões de medicação intracanal com hidróxido de cálcio e obture. É claro que vai depender de conseguir trabalhar o terço apical. Caso contrário, o mais provável é a remoção do fragmento apical.

Radiologia em Endodontia

Tâmara:
professor to tendo duvidas com relação a tomada radigráfica do dente 25 no qual gostaria de saber se é regra dizer que o canal palatino acompanha os feixes de rx..por ex se eu mesializar o canal palatino vai estar na mesial e o vestibular na distal e se eu distalizar,o canal palatino vai estar na distal e o vestibular na mesial…

Tâmara, é isso aí. O que “anda” é o canal vestibular.

Reabsorção interna

Juliana Medeiros:
Professor, estou tratando um paciente com reabsorção interna no elemento 11, ha dois meses com hidroxido de calcio como medicação. Ao acompanhamento radiográfico não vejo evolução da reabsorção. Em quanto tempo eu devo obturar o canal?

Juliana, era polpa viva ou necrosada? Se não há nenhum sinal de que a reabsorção está ativa, pode obturar.

Extravasamento de material obturador

Kely Cristina da Silva:
Olá tudo bem?Professor estou com um quadro clinico , uma paciente que esta realizando tratamento endodontico por finalidades proteticas, o dente era um dente higido, sem nenhum problema endodontico, realizei todos os procedimentos adequados e devidos do tratamento endodontico, a prova do cone ficou perfeita e a paciente não tinha nenhuma sintomatologia, foi realizado então a obturação do canal ocorreu estravasamento do material obturador, e a pciente começou a sentir sintomatologia logo apos o canal ter sido obturado, fiquei um pouco apreensiva, ja que o canal ficou bem obturado mais ocorreu este pequeno estravasamento ddo material, o que devo fazer retratar novamente o canal?ou agardar que esta sintomatologia vai passar e o proprio organismo reabsorve este material com o tempo?obrigada desde ja!!!

Kely, como você diz, se “o dente era um dente higido, sem nenhum problema endodôntico”, e foi só o extravasamento, não retrate. Mantenha o paciente sob controle.

Raciocínio correto

José Roberto Simões:
Prof.Ronaldo, parabéns pelo seu livro,muito bom. Gostaria de um esclarecimento:
Quando temos uma necro,promovemos a limpeza passiva do forame sempre,ok. O sr nunca teve um caso de necro com lesão, tratamento, onde fez a limpeza passiva do forame,(desbridou),colocou Hc , obturou e depois de um tempo esta lesão não regrediu? Penso o que fazer depois de instalada a prótese, e se o mesmo for pilar?
Pergunto:
Necro com lesão, porque não promover sempre a limagem ativa do forame como garantia nestes casos onde vai uma coroa ou pilar de uma prótese com varios elementos?
Porque usar a limagem ativa do forame só em casos de lesões refratárias? se o auxiliar de diagnóstico nosso(complementar) é uma imagem bi-dimensional, podendo não mostrar a real magnitude da  reabsorção cementária?
Ficaria grato pelos seus esclarecimentos
Um abraço

José Roberto, o seu raciocínio está muito bem elaborado e concordo com ele. Acredito que a limpeza ativa proporciona maiores chances de sucesso, porém, nos 23 anos em que faço limpeza do forame, não foram muitos os casos em que precisei recorrer a ela. Em outras palavras, na maioria das vezes a limpeza passiva foi suficiente. Existem razões para isso e vou explica-las em outro momento. Por exemplo, a ativa dificulta um pouco mais a boa adaptação do cone principal de guta percha e nesses casos procuro travar bem. Aproveito para reforçar o meu pensamento sobre travamento como sinônimo de vedamento: isso não existe. O objetivo aqui é “evitar” (na verdade, dificultar seria a palavra mais adequada) a ultrapassagem do cone para os tecidos periapicais. Uma vez que a limpeza passiva trouxe bons resultados ao longo dos anos, recomendo-a por minimizar a questão da obturação. É possível que eu escreva um texto sobre o tema para o Conversando com o Clínico, aqui no nosso site. Por enquanto, o tempo de que disponho não está permitindo. Volto a dizer; a sua linha de raciocínio está correta. Devo também adiantar a você e aos colegas que participam do nosso blog que tenho dados mais concretos sobre isso. Em momento oportuno eles serão mostrados.

Danada da anatomia 2

Lilian:
Prof. o dente 44  possue uma extensa cárie com exposição pulpar, sem sintomas. O dente possue 24 mm de comprimento e estou em 17mm e a lima não desce, nem a 06. Ao rx pude observar no inicio do terço apical um ¨obstaculo¨na luz do canal, formando um C. Pode ser calculo pulpar? Como trato este caso? Grata

Lilian, pelo visto você foi premiada com o caso no post anterior e este. Cheque a possibilidade de bifurcação ou trifurcação. Confira bem a radiografia e, se for o caso, faça outras, mesializada e distalizada.