Danada da anatomia

Lilian:
Prof. Ronaldo: estou tratando o dente 11, necrose pulpar e fistula na altura do inicio do terço apical. O comprimento do dente é 22mm. Pela odontometria eletronica lê em 18mm. Como era necrose nao anesteisei e quando inseria a lima chegando no comprimento de 18 mm a paciente sentia uma cutucada. Coloquei um cone de papel e havia sangramento. O por que do sangramento e da sensibilidade? se estou a 4 mm do final da raiz? Como  devo proceder com este tratamento? Grata

Lilian, você não está retratando, correto? Pergunto porque poderia ter um pino e aí haveria a possibilidade de perfuração. Sendo tratamento, vejo três possibilidades: forame apical saindo nesse nível. Sei que você pode achar “muito aquém” para ser a saída do forame, mas pode ser. Observe se há luz de canal nítida a partir desse comprimento ou se ela “desaparece repentinamente”. Faça radiografias na orto, mesializada e distalizada. Confira isso, e confirme com o localizador foraminal. As outras duas, bifurcação do canal e canal lateral.

E agora?

Aline:
Existe lima com mais de 31 mm? Eu estou tratando um canal de canino superior, com 35 mm. O que fazer?

Aline, não há no mercado. O que há de mais simples que você pode fazer é penetrar mais até o cabo do instrumento ficar por “baixo” da coroa (face palatina), ou seja, o ponto de referência ficaria próximo do cíngulo e o próprio cabo seria o cursor.

O insustentável preconceito do ser

– Recomendo um passeio pelo nosso “Central Park”, disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem “farofa” no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar… Leia mais

O insustentável preconceito do ser

Já tive oportunidade de falar sobre o que está escondido no nosso inconsciente. Sentimentos fortes, que incomodam, que muitas vezes queremos fazer de conta que não existem, não podem ser nossos. Não adianta esconder, estão lá, camuflados. Chamo de pontos escuros que existem dentro de nós e aqui mesmo no site já postei alguns artigos que remetem a esse tema (veja aqui, aqui e aqui).

Para outros, entretanto, não. Esses sentimentos não incomodam (quem sabe nem percebam que existe, é algo natural). Muitas vezes se manifestam sutilmente, no dia-a-dia, individual ou coletivamente. Em outras situações manifestam-se abertamente (veja aqui).

Depois que escrevi “Um metalúrgico presidente ou um presidente metalúrgico?” (mais um a abordar o tema – veja aqui), tive a felicidade de ler este texto de Rosana Jatobá*. O texto é irretocável. Vou me limitar a transcrevê-lo. Veja.

O insustentável preconceito do ser
Rosana Jatobá

Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.

Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:

– Recomendo um passeio pelo nosso "Central Park", disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem "farofa" no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar….

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que, de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.

Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os "Paraíba", que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a "Cabeça chata", outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.

Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:

-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:

"O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor".

"É ofensivo", diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.

A expressão "pé na cozinha", para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constrangimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.

O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:

"Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra ‘niger’ par

a humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:
‘Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe’…que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).
Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan ‘black is beautiful’. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém".

Será que na era Obama vão inventar "Pé na Presidência", para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como "inofensivos", mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

– A minha "criadagem" não entra pelo elevador social !

E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, "viado", maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:

– Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!
Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:
-Só podia ser loira!

Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
– Só podia ser judeu!

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia …

Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: "O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem".

Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.

A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.

O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque, em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorancia e alimenta o monstro da maldade.

Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:

-Só podia ser mendigo!

No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:

-Só podia ser bandido!

Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.

PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos…

Sem comentários.

* Rosana Jatobá é jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da Universidade de São Paulo. Também apresenta a Previsão do Tempo no Jornal Nacional, da Rede Globo.

Limpeza ativa do forame

Andréia Verri:
O que é a limpeza ativa do forame que o sr.recomenda?

Andréia, devo ter explicações sobre esse tema em alguns posts aqui no blog mesmo. De forma bem reduzida você encontra uma delas na página 5 do blog, com o título Limpeza ativa do forame. Além disso, você encontrará no site textos sobre o tema no Conversando com o Clínico e em Artigos Publicados (clique nos títulos). De forma bem detalhada, no meu livro Endodontia Clinica.

Não há regra fixa

Andréia Verri:
O senhor fala em MIC hidróxido de cálcio com soro fisiológico (seria HC Pró análise misturado ao soro?)01x e após obturação do canal, quando tem lesão. O sr usa para lavar intra canal apenas ou deixa como curativo de demora? Por quantos dias, apenas 7 dias seria o suficiente?

Andréia, hidróxido de cálcio PA com soro fisiológico. Cada caso merece uma análise, mas, normalmente, uma medicação e depois a obturação. Se por qualquer razão você achar necessário, faça outras sem constrangimento. É um grande equívoco a mesma terapia para todos os casos sem flexibilidade, pois prende o profissional a protocolos e não o leva a raciocinar. Se houver necessidade de mais de uma medicação, a primeira deve ser trocada com cerca de 15 dias (há razões para isso) e a partir daí pode ser de mês em mês (não é rígido). Lembre, porém que cada caso merece uma avaliação.

Revendo os passos

Mariana Virginelli:
Estou com um caso no consultório em um molar inferior que o dente foi tratado e o paciente continuou sentindo dor, com isso estou retratando o canal, mas a sensibilidade à mastigação o paciente ainda sente muito. Já usei HcaPa com PRP, já usei só o PRP, já usei o CFC mas nada melhora. Gostaria de saber se pode me ajudar com o caso.

Mariana, é muito difícil opinar sobre alguns casos (aliás, muitos casos) à distância, sem ter mais informações, inclusive radiográficas. Mas adianto que somente o uso de medicação intracanal, seja qual for, não deverá resolver. A sensibilidade à mastigação pode ocorrer mesmo em casos bem tratados e com o tempo (depende do tipo de agressão) deverá regredir. Diante da agressão decorrente de extravasamento de material obturador, por exemplo, o organismo requer um tempo mais prolongado. A dor provocada por agressão mecânica e/ou química regredirá com o tempo. Se for de origem microbiana, muda completamente o panorama. Cheque a possibilidade de ter havido sobreinstrumentação, necessidade de ajuste oclusal, fratura… se puder dar mais detalhes, tentarei ajudar.

Será que é fratura?

Ana Cecilia Grimaldi:
Boa noite! Gostei mto do blog! Em janeiro fui procurada para retratar o 47 de uma paciente que alegava sentir ainda muitas dores mesmo apos 1 ano e meio do canal finalizado, com um pino pre-fabricado no canal distal. No Rx não observei lesão periapical, e o canal aparentemente bem instrumentado e obturado ao nivel do  ápice radiográfico. Como ela alegava com certeza que era aquele dente realizei o retratamento, com duas trocas de medicação (utilizo HPG) e cerca de 1 mes depois ela relatou melhora na sintomatologia, entao obturei o canal com sealer 26 1mm aquem do apice. Ela continuou sentindo dores, mediquei com anitiinnflamatorios, ajustei oclusao e nada.Ela procurou outra endodontista da mesma clinica que tb disse q o canal estava bem tratatado e a paciente nao retornou mais. É posivel dentes com canal bem tratado por 2 vezes e sem lesao periapical alguma causar tanta dor??? Por favor, me ajude, estou ficando traumatizada com retratamentos!!!

Ana Cecilia, situações como essa geram algumas possibilidades, mas vamos pegar uma delas. Não é normal o paciente apresentar “muitas dores mesmo apos 1 ano e meio do canal finalizado, com um pino pre-fabricado no canal distal”. Pode-se suspeitar de fratura. Caso seja isso, pelo tempo decorrido deveria haver alterações radiográficas no espaço do ligamento periodontal nos locais correspondentes à fratura, ou então a fratura é recente. Faça um exame cuidadoso (palpação, percussão, radiografias com incidências diferentes, etc) e examine a possibilidade de ser outro dente. Talvez você precise recorrer a uma tomografia. A colocação de medicação intracanal somente não resolve. Se precisar faça outro contato.

Por conta de vocês

Marconny Rios Sampaio:
Professor Ronaldo, um paciente do sexo masculino, 16 anos chegou ao consultório relatando um “caroço” em cima da unidade 11. Foi percebido aumento da cortical óssea, teste de vitalidade negativo, História de trauma na unidade, na radiografia percebi fratura de metade da raiz. Tem alguma chance de tratamento conservador? ou tem que se optar pela exodontia mesmo? gostaria de experiências e opiniôes dos colegas e parabêns pelo Blog. OBS: mandei a radiografia para seu e-mail se possível poste-a no tópico

Marconny, não deu para conseguir uma boa imagem (pelo menos eu não consegui) com a radiografia que você mandou. Veja se pode escanear e mandar de outra forma. Aí ponho no blog.

Quem pode ajudar Marconny?

Responde ao teste de sensibilidade?

Hugo Bastos:
Prof. Ronaldo, em setembro do ano passado recebi uma paciente com relato de trauma na unidade 21 ocorrido há cerca de duas semanas. Já estava com contenção semi-rígida com fio ortodôntico de pequeno calibre. Radiograficamente observei uma fratura radicular entre os terços médio e apical. Havia discreta mobilidade e teste de sensibilidade positivo. Resolvi acompanhar o caso realizando radiografias periódicas trimestrais. Em todas as consultas fiz teste de sensibilidade sendo a resposta sempre positiva. Na última radiografia realizada dia 19 de julho deste ano, observei uma provável reabsorção externa na região da fratura. É importante destacar que não há sinal ou sintoma de infecção e nem lesão periapical em nenhuma das radiografias anteriores. A paciente tem um diastema significativo entre os incisivos centrais e me relatou desejo de ser submetida a tratamento ortodôntico para o fechamento do mesmo, mas encontra-se ciente de que não seja possível. Estou na dúvida se faço de imediato o tratamento endodôntico ou se aguardo mais tempo. Se for aguardar, por quanto tempo mais posso fazê-lo? Deveria ter realizado a endodontia de imediato? Qual a sua opinião sobre o tratamento ortodôntico nesses casos? Estarei enviando as radiografias para o seu email. Obrigado.

Hugo, apesar da “provável reabsorção externa na região da fratura” (observe se futuras radiografias confirmam a imagem), acho que a intervenção endodôntica não deve ser feita, pois o dente ainda responde ao teste de sensibilidade. Acompanhe a “evolução” do teste de sensibilidade e da provável reabsorção (algo como, quem aumenta, quem diminui). O tratamento ortodôntico que envolva essa unidade está contra-indicado. A contenção já foi removida, correto?