Dor pós-operatória

Marcos:
Prof. Tratei o canal do 15(polpa viva)paciente estava com pulpite, Primeira consulta fiz o acesso, pulpectomia e medicação intracanal, segunda sessão odontometria instrumentação medicação intracanal selamento, 15 dias após a primeira consulta paciente retornou assintomática quadro estável e normal fiz a obturação, radiografia final, tudo ok tudo certinho,  mas para minha surpresa paciente retornou com dois dias queixando-se de dor ao toque resolvi realizar um alívio articular e para surpresa maior ainda sentia dor ao estímulo da turbina fiz anestesia e realizei alivio articular mas a paciente continua com a sintomatologia. Pode me elucidar o ocorrido? Aguardo Resposta

Marcos, você diz “radiografia final, tudo ok tudo certinho”, mas mesmo assim vou perguntar, porque há quem ache que só está “certinho” se houver extravasamento. A obturação ficou muita próxima do ápice, no limite ou houve extravasamento? A polpa foi realmente removida ou teria ficado enovelada no CT? Alguma chance de outro canal que não foi tratado? Possibilidade de fratura (acontece com frequência com os premolares)? Dê uma conferida nessas possibilidades.

Endodontia baseada em evidência

Existem diversos momentos em que facilmente se observa a endodontia baseada na autoridade. Ainda hoje, conceitos absolutamente equivocados são defendidos sem a devida comprovação e pelo menos dois deles precisavam ser e estão sendo contestados: o limite apical de trabalho e o real papel da obturação. Por outro lado, sabe-se que a contestação do estabelecido é sempre muito difícil e gera muita polêmica, até porque muitas vezes alguns interesses entram em jogo.

Todos queremos ter o nome atrelado a um projeto de sucesso. O sucesso de algo que idealizamos/criamos/desenvolvemos é ótimo para o nosso ego. Para a Ciência, não importa quem descobriu e sim que foi descoberto. Leia mais

Branqueamento

Janaina Briguet:
Olá professor Ronaldo, Estou realizando a endodontia dos elementos 11 e 21 , a paciente sofreu trauma há 8 anos atrás ,apresenta lesão periapical extensa,sem sintomatologia.Por favor gostaria de saber quanto tempo após o tratamento podemos realizar o clareamento interno? Normalmente o Sr deixa a Mic(hidróxido de cálcio + soro) por quantos dias nesses casos? A paciente tem 16 anos e relatou que bateu os dentes com 8 anos, radiograficamente o ápice do dente 11 aparece com pequena reabsorção diferente do elemento 21(rizogenese completa sem nenhuma alteração). Iniciei o tratamento pelo 11 e coloquei o hidróxido de cálcio + soro semana passada pensei em completar 15 dias e realizar a obturação o que o Sr acha? Com relação ao clareamento fiquei com dúvida se deveria aguardar a lesão regredir um pouco? e usar o  peróxido de hidrogênio ou perborato de sódio?

Janaina, uma vez que o tratamento endodôntico é dado como concluído, o dente deve estar pronto para ser restaurado e voltar às suas condições de função e estética, o que inclui o branqueamento. Perceba que as alterações (periapicais) que você relata não têm ligação com o procedimento, que será feito na coroa. Espere cerca de 5 dias e então faça a proteção com substância seladora para diminuir as chances de eventuais reabsorções cervicais. O que gosto de recomendar é o uso de hidróxido de cálcio após o branqueamento por pelo menos 2 semanas, para “reverter” o pH ácido do local em função do branqueamento.

Neuropatia?

Everton:
Olá Prof. Tinha uma paciente com sensibilidade extrema a ácido e líquidos gelados no elemento 24. Recessão gengival acentuada. Sem êxito em outros tratamentos para sensibilidade optamos pela endodontia. Polpa viva, canal amplo com estreitamento mésio distal, relatou alguma dor durante o tratamento, mas após algumas sessões só uma pequena sensibilidade à percussão, resolvi obturar e o selamento do canal ficou perfeito e 1mm aquém do forâme. Uns 15 dias após liga para o consultório dizendo sentir dor espontânea e latejante naquele dente.Tomou antiinflamatório e analgésico e disse que a cada 4 horas a dor voltava. Paciente não quis repetir a endo e pediu que extraísse o dente. Realizamos a extração e curetagem do alvéolo, não havia qualquer anormalidade. Após extração paciente continua sentindo muita dor, tomou antibiótico e a dor continua. Qual será o motivo de tudo isso?
Aguardo uma ajuda tão logo possível colega!
Abraços!

Everton, é sempre recomendável examinar outros dentes, inclusive da arcada inferior, mas é possível que ela esteja com uma neuropatia.

Formocresol?

Leonardo:
Existe alguma restrição no uso de formocresol em paciente gestante? Estou com uma paciente no 5 mes de gestação com abcesso agudo. Tratei com antibiótico e o edema e a dor regrediram. O Canal apresenta-se seco. Qual o tipo de intervençao local indicada? Penetraçao desinfetante + MIC? Trato canal só apos o parto? Obrigado.

Leonardo, não preconizo o formocresol como medicação intracanal. Antes de dizer que o seu uso está errado, prefiro dizer que é desnecessário. Uma vez que você já prescreveu antibiótico “e o edema e a dor regrediram”, trate o canal da forma “convencional”. O preparo coroa-ápice é recomendável (e aí já estaria incluída a penetração desinfetante de que você fala) e medicação com hidróxido de cálcio. Nessa etapa da gravidez não há contra-indicação para o tratamento, além das medidas clássicas de proteção à paciente e o feto, porém respeite os anseios da paciente.

Endodontia baseada em evidência

Após três consultas em que não conseguia controlar a dor de uma paciente, provocada por um incisivo central superior direito (dezembro de 1986), em janeiro de 1987 fiz a limpeza do forame e controlei o caso (veja aqui). Era o primeiro tratamento endodôntico com limpeza do forame. A partir daí, passei a realizar esse procedimento em todos os casos de necrose pulpar, sem ou com lesão periapical.

Em 1992, após três meses de tentativa fazendo limpeza do forame e usando hidróxido de cálcio, a fístula de um 1º molar inferior direito persistia. Mudei a forma de fazer a limpeza do forame e controlei o caso (veja aqui). A partir daí, tornou-se procedimento de rotina fazer limpeza ativa do forame (como passei a chamar) em todos os casos que não respondiam à terapia com a limpeza (passiva) do forame.

Já se vão, portanto, vinte e três anos realizando a limpeza do canal cementário, com vários casos de anos de acompanhamento. O mais longo desses controles (clínico/radiográfico/tomográfico) foi realizado quando completou 21 anos (veja aqui).

Ao longo desse tempo, em quase todos os lugares onde dei aulas, algumas contestações, das mais diversas formas, inclusive violentas, têm sido feitas sempre que apresento essa concepção e os casos clínicos. Um dos argumentos: falta de evidências.

Apesar de muitos anos como clínico (24 anos dos quais em atividade exclusivamente voltada para o consultório), a minha carreira de professor de endodontia faz agora 10 anos, talvez ainda pouco tempo para dizer-me conhecedor da docência.

Nesse espaço de tempo, porém, aprendi a enxergar com alguma clareza as diferenças entre dois tipos de profissionais: o clínico e o professor. Nesse processo pude conhecer os anseios, a insegurança e outros sentimentos de cada um deles: eu fui cobaia nesse laboratório.

Em mais um desempenho irretocável, no filme O advogado do diabo, Al Pacino, interpretando o próprio, diz: “o sentimento humano de que mais gosto é a vaidade”. É de fato um sentimento muito presente na vida, em todos os seus segmentos, com uma força que muitas vezes sequer imaginamos. No entanto, é possível que em poucos momentos ele se manifeste tão claramente, ainda que com tentativas de disfarçar, como no mundo acadêmico.

No caso do Brasil, junta-se a isso o comportamento tupiniquim de um povo colonizado na sua alma. É nítida a influência de alguns países sobre o nosso, particularmente dos Estados Unidos. Talvez você, jovem, não conheça uma frase famosa dita por Juracy Magalhães (antigo político baiano) que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” (veja aqui). Tudo bem, você não ouviu. Mas, certamente já percebeu a fortíssima influência que esse país exerce em nosso povo.

Esse comportamento se projeta para dentro do país, entre as suas regiões. Percebe-se com relativa facilidade a influência marcante de algumas sobre outras, fazendo com que estas pratiquem uma verdadeira autofagia. Essa autofagia cultural está presente no mundo acadêmico.

Existem diversos momentos em que facilmente se observa a endodontia baseada na autoridade. Ainda hoje, conceitos absolutamente equivocados são defendidos sem a devida comprovação e pelo menos dois deles precisavam ser e estão sendo contestados: o limite apical de trabalho e o real papel da obturação. Por outro lado, sabe-se que a contestação do estabelecido é sempre muito difícil e gera muita polêmica, até porque muitas vezes alguns interesses entram em jogo.

Recentemente surgiu uma proposta muito interessante na endodontia e com ela a idéia de um instrumento, o Apexum, com o objetivo de instrumentar a lesão periapical. Veja parte do resumo do trabalho publicado no Journal of Endodontics:

At 3 and 6 months, 87% and 95% of the lesions in the Apexum-treated group, respectively, presented advanced or complete healing, whereas only 22% and 39% of the lesions in the conventional treatment group presented this degree of healing at 3 and 6 months, respectively (veja os originais aqui e aqui).

Há algum tempo li um texto sobre esse procedimento que achei interessante:

Deve-se notar que o procedimento com o Apexum é substancialmente diferente da sobreinstrumentação durante o tratamento endodôntico. Este traumatiza o tecido e pode também introduzir antígenos bacterianos no tecido cuja função primordial é combate-los. Quando isso acontece, é provável que ocorra uma reação inflamatória aguda nos tecidos periapicais com o consequente edema. Assim, sintomas de agudização devem ser esperados. Com o Apexum esses eventos não acontecem. Ao contrário, ele deve ter removido o tecido no qual tal resposta poderia ocorrer e permitir o preenchimento do local com um coágulo de sangue fresco, no qual os mecanismos acima não estão presentes. Isso deve explicar o resultado confortável e sem efeito adverso no pós-operatório observado nesse estudo”.

Mesmo enxergando pequenos equívocos na proposta e grandes equívocos no texto acima, estou inteiramente de acordo com a idéia. Apesar do pouquíssimo tempo destinado à observação dos resultados (percebeu que foi de 3 a 6 meses?), a mudança de concepção e sua divulgação através da publicação (primeira e até agora única evidência), já merecem atenção.

A aceitação do procedimento sem contestações é atribuída à confiabilidade do grupo que o propõe. Afinal, é um grupo internacional e, como vimos, isso tem um peso enorme entre nós. Uma pergunta, porém, não quer calar: onde será que deve existir mais confiabilidade, em comprovação de 6 meses ou de 21 anos?

Apesar dos diversos casos clínicos mostrados, com controle de muitos anos, dos artigos publicados sobre o tema (veja alguns aqui), não consegui demonstrar evidências que justificassem a limpeza do canal cementário da forma que proponho há anos. Vejo agora que algo semelhante (volto a dizer, com pequenos equívocos), respaldado por acompanhamento radiográfico de 6 meses, encontra as evidências necessárias para ser defendido e preconizado por quem contestou a nossa proposta alegando falta de evidências.

Um pouco conhecedor e acostumado com o comportamento humano, isso não me tira o sono, mas, indiferente não sou. Ou é má fé cínica ou obtusidade córnea*. Aborrecido? Não. Triste, por tanta pobreza de espírito onde deveriam reinar a inteligência e sensibilidade.

Todos queremos ter o nome atrelado a um projeto de sucesso. O sucesso de algo que idealizamos/criamos/desenvolvemos é ótimo para o nosso ego. Para a Ciência, não importa quem descobriu e sim que foi descoberto.

Não parece elementar que toda nova proposta, toda nova idéia, toda nova concepção, todo novo instrumento, toda nova técnica, surjam sem evidências que as sustentem? Afinal, o nome diz, é novo, está surgindo, precisa da comprovação daquilo que lhe é atribuído. A partir da primeira evidência deverão vir as outras, como parece que vai acontecer com o Apexum.

Por que algumas evidências são ignoradas e outras imediatamente aceitas? Será que a geografia condena? Ou há algo mais?

Então perguntaram a Olga Soffer**:
 – E o que está errado?
 – Não é a Ciência. Alguns acadêmicos é que são arrogantes e se esquecem da mera condição de ser humano.

 

* Essa frase é de (José Maria) Eça de Queiroz (25/11/1845 – 16/08/1900), diplomata e escritor apreciado em todo o mundo e considerado um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos.

** Olga Soffer. Antropóloga e arqueóloga. Universidade de Illinois, Co-autora do livro “Sexo Invisível”. Entrevista à revista Isto é, em setembro de  2009.

Dunga

O técnico (Luis) Felipe Scolari, o Felipão, parte para a Copa de 2002 sem levar nenhum jogador do Rio de Janeiro, inclusive um chamado Romário. A imprensa, leia-se particularmente, Rede Globo, com Galvão Bueno, fez uma campanha como eu nunca tinha visto antes para forçar uma convocação. De tanta pressão, pouco antes do time partir, em entrevista coletiva Felipão disse: “não fui eu que matei o futebol carioca”. Loucura, que parece que passou despercebida pela população. Infarto coletivo na imprensa carioca.

Não é que o homem voltou penta-campeão! Ronaldo (fenômeno) e companhia arrebentaram. Confesso que pensei que ele fosse perguntar: e agora Galvão, era para levar Romário? Acho que ele preferiu deixar para lá e curtir a glória do título. Mas, vale a ressalva, também não alisou muito com a imprensa.

Na seleção brasileira de futebol, com todos os técnicos, uns mais outros menos, a Rede Globo sempre fez o que quis. Jogadores sempre foram entrevistados a qualquer hora, mesmo na madrugada. Nesta copa ela tem uma central só para entrevistas exclusivas, com a conivência da CBF. Leia mais

Perfurou, e agora?

Rita Valadares:
Qual a técnica de uso do MTA na raiz mesial perfurada do 47 com polpa necrosada? O Sr sugere o uso de outra substância para este caso? Grata. Parabéns pelo seu blog ,ele nos enriquece bastante.

Rita, a raiz foi perfurada em que terço? Por lima ou broca? Lembre que não é só “fechar” a perfuração, você tem que recuperar as condições para começar/continuar o tratamento endodôntico, ainda mais que se trata de polpa necrosada, o que para mim significa caso de infecção. Fico feliz em saber que o Blog cumpre esse papel ao qual você se refere.

Dunga

Você acredita que se o Brasil for campeão da Copa do Mundo, meia hora depois os jogadores estarão nas ruas de Salvador? Claro que não. Mesmo com os modernos e rápidos meios de transporte atuais, não tem como isso acontecer aqui ou em qualquer outra das nossas cidades.

Em 1958 o Brasil foi campeão mundial pela primeira vez, na Suécia. Logo após a partida final, “jogadores” vestidos de verde e amarelo circulavam pelas ruas de Juazeiro (Bahia), onde eu ainda vivia a minha infância. Pai, são os jogadores da seleção? Como é bom ser criança.

Em 1962, Brasil bi-campeão. Em 1966, já sob o regime militar, todos tinham a vitória como certa. Festa, políticos, gente importante e a imprensa. Não ganhamos nada.

Copa do México, 1970. O grande time de todos os tempos, armado por João Saldanha, o João-sem-medo, jornalista, torcedor do Botafogo, comunista, valente, destemido. Diante da "sugestão" de Médici (então o militar presidente do Brasil na época da ditadura) para colocar o jogador Dario na seleção, disse que Médici  mandava no ministério, no time quem mandava era ele. Por algumas razões, deixou a seleção.

Com a base do time montada por Saldanha, Zagalo, que tinha sido o ponta esquerda de 58 e 62, assume o comando, elevando Rivelino à condição de titular. Brasil tri-campeão. Pela primeira vez, transmissão a cores. Já estava delineado o poder de uma rede de televisão.

De 1974 a 1990 não ganhamos nenhuma. Aí já estava bem estabelecido o poder da Rede Globo sobre as coisas do país (por coincidência, ela surge e cresce justamente no período da ditadura militar).

Um parêntese para aquela que foi a coisa mais bonita do mundo de se ver, a seleção de Telê (Santana), em 1982. Para muitos, a melhor de todos os tempos, com jogadores como Zico, Sócrates, Falcão e Júnior arrebentando. Infelizmente, por crueldade do destino, não foi campeã. Em 1986 repetiu-se parte do time, mas já não era a mesma coisa, era outro momento.

Em 1990, Copa da Itália, fatos marcantes. Motim dos jogadores reivindicando melhores “bichos” (dinheiro por cada jogo). (Sebastião) Lazaroni era o técnico da seleção. Recebeu dinheiro da Rede Globo (diz-se que Cr$60.000,00 [sessenta mil cruzeiros, moeda da época] muito dinheiro  então), para dar as notícias a ela antes das outras emissoras. O terreno e o modo de atuação do Sistema Globo de Comunicação já estavam bem definidos. Pela primeira e única vez, torci contra a seleção e fiquei satisfeito quando ela foi eliminada pela Argentina nas oitavas-de-final.

Em 1994, acho que com o pior time que já tivemos e na pior copa fomos tetra-campeões nos Estados Unidos. Entre os jogadores, estava um chamado Dunga, que já tinha jogado na de 90. Surgia o que se chamou de a era Dunga. Capitão do time, jogador de meio de campo sem talento criativo, mas bom marcador e aguerrido. Participou também da seleção de 1998, que nada ganhou.

O técnico (Luis) Felipe Scolari, o Felipão, parte para a Copa de 2002 sem levar nenhum jogador do Rio de Janeiro, inclusive um chamado Romário. A imprensa, leia-se particularmente, Rede Globo, com Galvão Bueno, fez uma campanha como eu nunca tinha visto antes para forçar uma convocação. De tanta pressão, pouco antes do time partir, em entrevista coletiva Felipão disse: “não fui eu que matei o futebol carioca”. Loucura, que parece que passou despercebida pela população. Infarto coletivo na imprensa carioca.

Não é que o homem voltou penta-campeão! Ronaldo (fenômeno) e companhia arrebentaram. Confesso que pensei que ele fosse perguntar: e agora Galvão, era para levar Romário? Acho que preferiu deixar para lá e curtir a glória do título. Mas, vale a ressalva, também não alisou muito com a imprensa.

Em 2006, sob o comando de (Carlos Alberto) Parreira, o fiasco já conhecido. Roberto Carlos e companhia exigindo respeito pela copa de 2002 que “eles” tinham ganho. Semi-deuses, intocáveis, um m…

Em 2010, a seleção brasileira parte para a Copa do Mundo na África sob o comando de um novo técnico: Dunga. Novo em idade e experiência como técnico, pela primeira vez à frente de um time de futebol. Como Dunga!!! Não tem experiência como treinador (já ouvi essa história em outro lugar).

Restrições a ele como técnico? Provavelmente. Cada um de nós dirá: não levou Neymar, Ganso, Ronaldinho Gaucho, não levou esse ou aquele, não levou Romário… Ele é burro, não entende nada, é retranqueiro. E ainda por cima, viu o que ele está fazendo com os repórteres da Globo? Além de burro, grosso.

Deixe eu voltar a 1950 (não, eu ainda não tinha nascido). A Copa do Mundo foi disputada no Brasil e a nossa seleção chegou à final com o Uruguai. Vitória garantida, dentro dos nossos domínios, impossível perder.

Meu pai me contou que os jogadores não puderam dormir direito, de tanta festa na véspera do jogo. Políticos tirando fotos ao lado deles, pessoas importantes, e, como sempre, a imprensa.

Final do jogo, Maracanã lotado, Uruguai campeão. Voce nunca viu alguma reportagem mostrando o Brasil chorando por causa desse jogo? Precisa ver.

Os jogos de futebol no Brasil começavam às 17:00 aos domingos e às 21:00 nas quartas-feiras. Hoje, não tem hora certa. Aos domingos costuma ser às 16:00, por causa do Domingão do Faustão, programa de televisão da Rede Globo, e em qualquer dia da semana às 22:00, por causa da novela das oito, da mesma emissora. Não cabe aqui discutir os detalhes dessas mudanças, mas alguma coisa deve ser comentada.

Não é hábito nosso nos colocarmos no lugar dos outros. Os problemas dos outros não nos interessam. Então, vamos ao futebol, os jogos terminam cerca de meia-noite, voltamos para casa nos nossos carros e vamos dormir felizes ou tristes, de acordo com o resultado do jogo.

Há quem, independente do resultado do jogo, sempre sofre para chegar em casa, porque vai de transporte coletivo (em quantidade e de grande qualidade no Brasil, como sabemos), e só vai chegar Deus sabe a que horas. Detalhe: tem que acordar no outro dia bem mais cedo para pegar mais transporte coletivo e ir trabalhar. Resumo da ópera, dorme muito pouco, quase nada.

Isso não tem nada a ver comigo, paciência. Tem sim. Doenças geradas por condições precárias e estresse, baixo rendimento no trabalho,
em alguns casos com riscos para ele e para quem depende do trabalho dele, são aspectos a considerar. É uma questão social importante. Qual será o custo desse processo para a saúde da população e consequentemente para o país? Não importa.

É bem possível que a nossa sociedade não saiba da missa a metade quanto ao que a grande (???)  imprensa faz com esse país. Não vou lhe encher com essa questão, mas que é uma pena que seja assim é.

Também é possível que você não saiba, mas essa grande (???) imprensa, que manipula as informações de acordo com os seus interesses, vem perdendo a sua força. Tudo isso graças à Internet, que de fato democratizou o acesso à verdadeira notícia. Para você ter uma idéia, todos os analistas dizem que Barack Obama ganhou as eleições nos Estados Unidos graças à Internet. Ele é blogueiro.

Revistas semanais e grandes jornais, antes poderosíssimos, estão perdendo milhares de assinantes e vivem fazendo promoções para manter o que ainda resta e recuperar pelo menos alguns que perderam. Redes de televisão, também poderosíssimas, estão vendo a sua audiência em queda. Acredito que poucos sabem, por exemplo, que, apesar de ainda grande, a audiência da Globo nesta copa é menor do que na de 2006.

Na seleção brasileira de futebol, com todos os técnicos, uns mais outros menos, a Rede Globo sempre fez o que quis. Jogadores sempre foram entrevistados a qualquer hora, mesmo na madrugada. Nesta copa ela tem uma central só para entrevistas exclusivas, com a conivência da CBF.

Isso está mudando com Dunga. Foi grosseiro em alguns momentos? Foi sim (pediu desculpas aos torcedores), mas só quem sofre sabe a dimensão da dor. Viram o que Tadeu Schmidt leu irado em tom editorial no Fantástico (dizem que foi escrito por William Bonner), após o jogo contra a Costa do Marfim? Não foi só ele ( clique aqui para ver o vídeo). Por que?

Porque mais uma vez a Globo tinha tentado entrevista exclusiva e ao vivo de Fátima Bernardes com alguns jogadores, entre os quais Luis Fabiano e Robinho, para logo após o Fantástico. A que horas termina o Fantástico? Lá pelas 11 horas da noite, é isso? A depender do término do programa, na África seriam 3 ou 4 horas da manhã. Pode? Dunga não deixou.

Não quero discutir Dunga, o técnico. Quero falar de Dunga, o brasileiro. Ele está fazendo a parte dele, de forma corajosa, destemida, diria até louca; um homem não pode lutar contra um império (ou será que pode?). Ele é o D. Quixote, de Miguel de Cervantes, lutando contra os moinhos dos tempos contemporâneos.

Já se sabe que a Globo está exigindo e ele vai perder o cargo de técnico da seleção, ganhando ou perdendo a copa. Se ganhar, só vão esperar a hora certa. Escreva aí.

Como lamento não ter mais a inocência da criança da copa de 1958. Poderia ver os jogadores da seleção circulando pelas ruas da minha querida Juazeiro logo após o jogo.

PS. Escrevi esse texto no dia 01/07/2010 (quinta-feira) e postei às 02:25 (madrugada do dia 02/07/2010, sexta-feira), portanto, antes do jogo contra a Holanda pelas quartas-de-final. Espero que Dunga ganhe esse jogo e depois a copa.

Chico Buarque

Fora os comunistas, comunista come criancinha. Meu pai, um homem simples, um comunista. Não pode ser, meu pai não come criancinhas. Por que então os livros jogados fora, às escondidas? Se é, então não é o que dizem. Começava a entender que o que dizem tem muitos sentidos, há sempre um outro significado por trás do que dizem.

Fora os comunistas, comunista come criancinha. Não pode ser verdade. Como pode alguém ser tão perverso, comer criancinhas, e fazer músicas como Com açúcar, com afeto. Como pode um comunista ser isso e cantar Carolina, Januária, que coisa ridícula.

Ali estava um comunista, que comia criancinhas, e cantava a mulher como nenhum outro compositor conseguiu. Uma sensibilidade que a cada dia se manifestava com mais força. Leia mais