Libera ou não?

Adriana Regina:
ola prof., foi me pedido por um colega um laudo sobre um tratamento endodontico já realizado , radiografei e notei uma pequena alteração da lamina dura, mas, esse trat. tem 5anos e ela n sente nada. como faço para libera-la para trat ortodôntico.obrigada

Adriana, deve-se ter muito cuidado com os laudos, principalmente se for para efeito de perícia, afinal pode envolver outros colegas. Ele será dado sobre o tratamento realizado por você ou por outro profissional? São situações diferentes e que requerem muita cautela. Além disso, o que havia antes? Foi um tratamento realizado em canal com polpa viva ou necrosada? Havia lesão periapical (estaria, portanto, evoluindo para a cura) ou não (seria o surgimento de uma lesão)? Existe trauma oclusal? A sua resposta depende de aspectos como esses. Diante disso, o tempo de tratado e a ausência de sintomatologia parecem sugerir que pode ser liberado para o tratamento ortodôntico.

Curso de especialização

O Prof. José Antônio P. de Figueiredo esteve essa semana na especialização da ABO-Bahia falando de Histologia, com aplicação na Endodontia. Como sempre, uma aula muito importante e também um momento de congraçamento com os novos alunos. O nosso agradecimento e carinho pelo Prof. Figueiredo.

DSCF2317'

Clique sobre a imagem para aumentá-la

Na frente (agachados): Marcela Rocha Silva, Daniela Cristina Diniz Ferreira, Jenila Pinto Costa, Paula Silva Borges.
No meio: Eliane Ferreira Campos, Camila Coimbra Pereira, Gabriela Martins Rodrigues, Prof. Figueiredo, Simone Cerqueira Cardoso, Débora Maria Oliveira Cruz, Maria Fernanda Teixeira Bastos.
Em pé atrás: Gabriel De Souza Petró e Igor Ricardo Fróes Cândido.

Uma lesão periapical “ao contrário”

Vanessa:
Olá! Estou atendendo uma paciente de 32 anos, a qual possuia grande destruição por cárie nos dentes 11 e 12. Ao radiografar, notei uma lesão radiopaca envolvendo o ápice radicular do dente 11. Tratei os canais dos respectivos dentes e no retorno a paciente relatou dor na mucosa alveolar em cima do ápice do 11, onde existe a lesão, estando o dente assintomático. Minha dúvida é, seria esta lesão uma osteíte condensante ou displasia cementária? Fazendo a proservação é possível que ela regrida ou deverá ser feito tratamento cirúrgico? Grata desde já, Dra. Vanessa

Vanessa, diagnóstico em Odontologia não é muito simples, principalmente porque não possuímos recursos muito adequados, mas a imagem sempre ajuda e eu não a tenho no seu caso. Pelo relato parece ser osteíte condensante. Como você diz que a paciente está assintomática, não faça tratamento cirúrgico. Acompanhe-a.

Dor pós-operatória

Hugo Bastos:
Prof. Ronaldo, existem casos onde vemos lesão radiográfica em dentes tratados endodonticamente e com indicação de retratamento para as devidas reabilitações. Pacientes assintomáticos, mas existe a necessidade de resolução do problema. Na primeira sessão conseguimos fazer a desobstrução dos canais, mas deixamos pra instrumentar num segundo momento. É quando o paciente cursa com dores intensas e aumento de volume na região do dente. O que fazer nesses casos? Em alguns deles, ao abrirmos não observamos drenagem de secreção purulenta. Penso que a saída seria medicação sistêmica para aliviar a sintomatologia para então continuarmos o tratamento. Mas como evitar essas reagudizações?
Um abraço

Hugo, a razão maior para o retratamento é o fracasso do tratamento, motivado por infecção do canal que geralmente se manifesta através de lesão periapical. Quando se retrata um canal, a preocupação básica tem sido com a desobturação, reinstrumentação e nova obturação. Perceba que não há aí o passo da “penetração desinfetante”, hoje melhor executado com técnicas coroa-ápice. Esse procedimento, neutralização de produtos tóxicos, é tão importante no tratamento como no retratamento. Apesar de não ser dito, tem-se observado com frequência considerável casos de dor pós-operatória, às vezes intensa, e uma das razões é a negligência com esse momento. Hoje, mais do que nunca, há uma idéia de qualidade intimamente associada ao pequeno tempo em que se faz um tratamento endodôntico, tanto que o tempo de realização do (re)tratamento é comumente divulgado ao lado do próprio caso, como uma prova da competência que diferencia os grandes profissionais. Por causa disso, recorre-se mais à medicação sistêmica do que se imagina. A incorporação no retratamento de princípios microbiológicos que são observados no tratamento deverá diminuir bastante o índice de reagudizações.

Endodontia em sessão única

Esse texto surgiu como resposta à pergunta de Juliana Medeiros feita no Blog da Endodontia (veja aqui).

Há basicamente três situações em que o tratamento endodôntico é realizado: em canais com polpa viva, polpa necrosada sem lesão e necrosada com lesão.

Você sabe que as maiores chances de sucesso registradas pela literatura estão nos casos de tratamento de canais com polpa viva. Por que? É bem simples e você sabe. Porque não há infecção. Restam-nos as outras duas situações.

De um modo geral, em ambas há infecção. Você sabe em qual situação os percentuais de sucesso são maiores? Nos casos sem lesão. Por que? Porque a infecção é mais “recente”.

A lesão periapical é uma reação imunológica que significa, entre outras coisas, que a infecção do canal já apresenta um considerável tempo de instalada, suficiente para sua disseminação pelo sistema de canais. Em outras palavras, os microorganismos já proliferaram mais e ocuparam os espaços desse sistema (túbulos dentinários e canais laterais, secundários, delta-apicais…).

As limitações do tratamento endodôntico são bastante conhecidas. Já se sabe, e não é de agora, que cerca de 35%, às vezes mais, das paredes dos canais não são tocadas pelos instrumentos. Onde você não toca, não limpa, ou terá muito mais dificuldades para faze-lo. Isso significa que a ação mecânica dos instrumentos, a despeito de ser o passo mais importante para se obter controle de infecção, enfrenta limitações claras nesse sentido.

Ao longo dos anos acreditou-se que, graças a algumas características específicas, as soluções irrigadoras seriam capazes de penetrar nos túbulos dentinários, canais laterais… e eliminar a infecção estabelecida nesses locais. Diversas foram estudadas, indicadas e usadas e associação do hipoclorito de sódio ao EDTA tem sido a que melhores resultados tem proporcionado. Nesse sentido, por razões óbvias, a ação solvente do hipoclorito de sódio tem desempenhado um papel da maior importância, razão pela qual o seu uso é consensual em todo o mundo.

O conhecimento atual, entretanto, deixa algumas dúvidas quanto à plenitude dessa ação por parte das soluções irrigadoras e entre as razões para isso estão a relação do volume da solução/tecido, tempo de ação, o diminuto espaço de alguns componentes do sistema de canais e resistência do ar.

Além das soluções irrigadoras, outras substâncias químicas têm sido propostas para aumentar as chances de controle infecção, e seriam utilizadas entre as consultas, o que lhes permitiria um maior tempo de ação sobre microorganismos residuais e seu substrato. Entre elas, o hidróxido de cálcio, puro ou associado, tem sido a mais estudada e indicada, e a que melhores resultados clínicos tem apresentado. Porém, a despeito de não parecer haver dúvidas sobre a sua capacidade antimicrobiana, também aqui alguns questionamentos foram e são feitos.

Temos então, um conjunto de procedimentos (instrumentação, irrigação e medicação intracanal) que se somam e cujo grande objetivo é exercer controle de infecção, a chave do sucesso.

Tem sido estabelecido que mesmo diante da ação conjunta desses três passos, os microorganismos não são totalmente eliminados, o que permite uma discussão sobre que efeito teria a infecção residual sobre o processo de reparo. É aqui que entra um outro passo do tratamento endodôntico; a obturação.

Apesar de se ter colocado durante pelo menos esses últimos cinquenta anos que todos os passos do tratamento endodôntico são elos de uma mesma corrente, e por isso com a mesma importância, é de uma clareza assustadora o fato de que a literatura sempre conferiu à obturação o papel de fator determinante do sucesso em endodontia.

Vou repetir para não deixar nenhuma dúvida. Apesar de se ter colocado durante pelo menos esses últimos cinquenta anos que todos os passos do tratamento endodôntico são elos de uma mesma corrente, e por isso com a mesma importância, é de uma clareza assustadora o fato de que a literatura sempre conferiu à obturação o papel de fator determinante do sucesso em endodontia.

Tudo isso graças ao vedamento hermético que ela proporcionaria. Ainda que forte e defendida por tantos anos, não se conhece um único trabalho que comprove essa crença. Sabe-se de há muito tempo que vedamento hermético não existe. Os estudos mostram que mesmo as mais recentes técnicas e materiais obturadores não conseguiram alcançar esse objetivo.

Já venho falando há muitos anos que o fator determinante do sucesso é o preparo do canal. A obturação é um complemento, importante, mas um complemento. Se é reconhecido que a ação conjunta da instrumentação, irrigação com soluções de comprovada ação antimicrobiana e solvente tecidual, medicação intracanal idem, não é capaz de eliminar a infecção, não é sensato imaginar-se que a obturação o fará.

Graças aos avanços da medicina, sobretudo no conhecimento científico, tornou-se mais fácil recuperar as condições de saúde dos pacientes. Em qualquer área médica, no entanto, sabe-se que uma patologia disseminada pelo organismo é muito mais difícil de ser eliminada e o maior exemplo disso é um câncer com metástase. Por se constituir em importante elemento de controle de infecção sobre uma doença disseminada, a medicação sistêmica em medicina é fator de fundamental importância para a promoção de saúde dos pacientes.

O controle de uma infecção endodôntica disseminada pelo sistema de canais representa uma dificuldade muito maior para o profissional, razão pela qual os percentuais de sucesso do tratamento de canais que apresentam essa condição são os mais baixos.

Por que será que a

s duas situações, polpa necrosada sem lesão e com lesão, apresentam resultados tão diferentes? Será válida para situações que se mostram tão diferentes a mesma forma de tratar? Existe alguma alternativa de tratamento que possua chances de melhorar o prognóstico dos casos com lesão periapical?

O enfrentamento dessa condição tem sido feito com a realização das três etapas que constituem o preparo do canal – instrumentação, irrigação e medicação intracanal. É possível que a supressão de uma delas venha a representar uma diminuição no potencial antimicrobiano da terapia endodôntica.

As conhecidas limitações da instrumentação e irrigação, brevemente comentadas aqui, para exercer controle de infecção não têm constituído motivo para a sua não realização. Em uma endodontia com o mínimo de seriedade e respaldo científico, não se tem conhecimento da realização de tratamento endodôntico sem ambas. Se não a única, a maior razão para isso é a importância desses passos na busca do controle de infecção do sistema de canais radiculares.

Entretanto, uma instrumentação bem feita, sem a ação química de solução irrigadora, levará à cura em muitos casos, aliás como já demonstrado na literatura. Porém, ao se fazer esse mesmo preparo com o uso de soluções irrigadoras com ação antimicrobiana e solvente, ninguém tem dúvidas de que as chances de sucesso serão maiores. Por que? Porque mais um elemento de combate à infecção foi incorporado ao tratamento.

Ao se sugerir a incorporação de um outro elemento para esse combate, a medicação intracanal, deseja-se tão somente que as chances de sucesso se tornem maiores. Há muitos anos, apoiada em pesquisas científicas sérias e resultados clínicos de profissionais espalhados pelo mundo inteiro, esse procedimento é consensual.

Mais recentemente, porém, surgiu com grande impacto a possibilidade de se fazer aquilo que ficou conhecido como endodontia em sessão única, ou seja, sem a necessidade da medicação intracanal. Algum erro nisso? Nenhum. O grande avanço da ciência e tecnologia na endodontia permite essa alternativa de tratamento. Basta que se respeitem princípios de maneira mais criteriosa.

O exsudato inflamatório assume características e consequências bem diferentes quando expressa a resposta a um tratamento endodôntico realizado em canais com polpa viva e necrosada com lesão periapical. Preconizar a obturação nessas condições, ou seja, na presença de exsudato inflamatório nos casos de infecção, demonstra uma absoluta ignorância dos princípios mais elementares da biologia. Diante de dor pós-operatória em sessão única com lesão periapical, argumentar-se com a prescrição de anti-inflamatório beira a insanidade.

É possível que se diga que não é assim que é preconizado. Será então que só ocorre isso na minha querida Bahia? Não, infelizmente não é. Tenho conhecimento de que vem ocorrendo também em outros locais.

É claro que além de tudo que foi colocado aqui, as características do profissional (indivíduo) devem ser levadas em consideração, tais como conhecimento, habilidade, treinamento, particularidade de cada paciente e/ou caso, etc.

Mesmo tendo sido publicado há sete anos, portanto idealizado e escrito antes, nesse artigo Tratamento endodôntico em sessão única – Uma análise crítica (veja aqui), eu já me colocava favorável à sessão única em endodontia, ressalvadas algumas condições. Mais recentemente, voltei a abordar o assunto aqui mesmo no site e da mesma forma defendi a sua realização sob critérios mais rigorosos (veja aqui).

Não se trata de pedir. Não, não peço. Eu imploro. Imploro que se assuma uma única coisa: seriedade. Até a ignorância ativa pode ser perdoada, mas a falta de seriedade, não. Muita coisa pode, deve e terá que ser discutida sobre esse tema. As diferentes concepções devem ser expostas e debatidas de forma madura, como deve ser em um ambiente que se pretende científico. Infelizmente, não é o que tem acontecido. Um tema da maior importância, cuja tendência é enriquecer a endodontia, infelizmente muitas vezes tem sido discutido não à luz da ciência, da clínica e do bom senso, mas de sentimentos menores, com tomadas de posição e atitudes que levaram a uma guerra surda tola, gerando uma discussão absolutamente estéril.

Trepanação

Juliana Medeiros:
Quais providências imediatas tomar após a trepanação de um canal radicular?

Depende da situação em que ocorreu (condições teciduais, local, tamanho…). Nos casos de polpa viva, se for possível, fechar a perfuração na mesma hora (MTA seria o material mais indicado) e obturar o canal. Nos casos de polpa necrosada, acho que o melhor a fazer é um tratamento com hidróxido de cálcio (2 ou 3 curativos, depende de cada situação) e daí em diante é igual à situação anterior. No entanto, não é uma questão tão simples e muito menos meramente técnica. Esse acidente pode trazer uma grande frustração ao profissional e as consequências serão de acordo com o perfil de cada um. Se traz uma desestabilização emocional (o que não é incomum), mesmo na polpa viva é melhor irrigar bem com água ou leite de cal (já começa a promover a hemostasia), secar o canal e preencher todo ele com hidróxido cálcio, de preferência preparado na hora com soro fisiológico ou água destilada. Na consulta seguinte, recuperado emocionalmente, o profissional pode dar sequência ao tratamento de acordo com cada caso. É bom lembrar que há casos em que não há como preservar o dente.

Pulpite e medicação intracanal

Juliana Medeiros:
Após diagnosticado uma pulpite irreversivel, qual a medicação intracanal mais recomendada para aliviar a dor aguda do paciente, após o acesso dos canais radiculares?

Juliana, a dor da pulpite deverá passar como consequência da remoção da causa, ou seja, da polpa inflamada. Isso ocorre principalmente pela descompressão tecidual promovida pelo sangramento, mas o preparo do canal poderá contribuir para o seu prolongamento, mesmo que com menor intensidade. A rigor, não há necessidade da ação antiinflamatória da medicação intracanal, o organismo se encarregará disso. Se, por qualquer razão, você deseja usa-la, a minha recomendação é o hidróxido de cálcio. Não posso deixar de dizer, no entanto, que, apesar de não utilizar e não preconizar, a melhor medicação de combate imediato à dor são os corticosteróides. Sugiro a leitura do artigo Análise da influência do uso de uma associação corticosteróide-antibiótico na ausência de dor no pós-operatório do tratamento das urgências em endodontia, que pode explicar melhor esse processo (veja aqui). Se quiser ver esse tema com mais detalhes leia o capítulo de Medicação Intracanal do nosso livro Endodontia Clínica (veja aqui).