Pode, mas nem sempre é necessário

Péricles:
Olá Professor Ronaldo,é com muito prazer que o parabenizo pela criação deste site de dúvidas,e considero muito as suas afirmações e orientações em endodontia.Por isso,quero lhe indagar se o senhor pode me orientar sobre o uso de motor rotatório ,seria adequado usá-lo em conjunto com motor oscilatório ou não?E quanto ao uso dos localizadores apicais eletrônicos,vale a pena?Estou pensando em adquirir o localizador e o motor rotatório,no entanto estou com dúvidas sobre as diversas marcas do mercado,por favor ,poderia me indicar alguma que valha a pena em relação ao custo/benefício

Péricles, em princípio você pode usar qualquer sistema/técnica ou associação de sistemas/técnicas no preparo do canal. O hidróxido de cálcio já foi “misturado” a inúmeras substâncias, muitas vezes sem nenhum respaldo científico, só pelo desejo de alguém ou de um grupo. Aí incorporam-se nomes, fulano sugeriu, grupo tal recomenda. É muito comum atualmente a citação de mistura de sistemas/técnicas, que ganhou o nome de hibridização, uma ou outra interessante, outras puro exagero. Na nossa sociedade, a coisa mais difícil é ser simples. Por incrível que pareça, quanto mais sofisticado mais atrelado o conceito de bem sucedido. Desde quando não haja perda de qualidade, tenha sempre em mente a simplificação dos procedimentos. Mesmo não sendo normalmente necessário, você pode associar a rotação contínua à oscilatória, nada impede. O uso de localizador foraminal vale a pena sim. Sobre marcas, permita-me não cita-las aqui no blog, por questão de ética profissional. Tenho certeza de que alguém próximo a você poderá lhe ajudar a escolher.

Como contornar?

Ofélia:
Olá, professor. Faço endodontia há 11 anos e me orgulho da capacidade que tenho de conseguir acesso à câmara pulpar independente da intensidade da dor do pac. (pulpite) ou do medo do pac. Geralmente consigo fazer o  acesso na primeira sessão. Porém, estou há 2 sessões com um paciente e NÃO consigo anestesia-lo, consegui um pouco de abertura mas mesmo a intra-pulpar não faz efeito Há algum medicamento que posso prescrever para diminuir essa sensilidade horrível. Penso em prescrever um antiinflamatório alguns dias antes da próxima sessão. Não sei, realmente, pela primeira vez, estou aflita.

Ofélia, não se aflija, alguns pacientes apresentam dificuldade maior para serem anestesiados. É mais comum encontrar-se esse tipo de dificuldade nos molares inferiores, mas você não diz qual é o dente, seria bom saber. Além disso, qual o anestésico que você tem utilizado? O paciente demonstra pavor ao tratamento odontológico, como é ele? Se você puder dar essas e outras informações talvez possa lhe ajudar. Independente disso, duas coisas. Além da técnica que voce etá utilizando, faça uma anestesia intraligamentar bem feita (observe se há isquemia tecidual bem definida). Na intrapulpar, se ainda necessária, não se apoie somente no efeito químico do anestésico, faça um pré curvamento na agulha anestésica, penetre o máximo que puder com ela nos canais, não só na câmara pulpar, e faça a anestesia também por pressão. Se necessário (por isso a importância de saber como é o paciente), uma medicação adequada pode ser o uso de um ansiolítico.

Dor ao mastigar

Fabiana:
Olá, gostaria de saber como proceder com um paciente que após realizado o tratamento endodôntico na unidade 46 ele refere sentir dor durante a mastigação?

Fabiana, o tratamento endodôntico é um ato operatório e como tal gera trauma, que por sua vez gera reação inflamatória. Esta pode se manifestar ou não clinicamente e uma das formas é através de estímulos, entre os quais a mastigação. Alguns fatores contribuem para isso, como a obturação feita no limite ou, pior ainda, extravasamento de material obturador. Em qualquer uma dessas situações, a dor pode persistir por um tempo mais prolongado, graças à presença física do material obturador nos tecidos periapicais. No canal bem preparado e obturado, a dor diante da mastigação não requer nova intervenção, não pense em retratar. Medidas como tirar o dente provisoriamente de oclusão ajudam. Não recomendo medicação sistêmica com antiinflamatórios para dor que só se manifesta quando estimulada.

Não é novo, mas vale a pena

Oi Professor Ronaldo
Existe algum trabalho (de preferência atual) na população, onde mostra as taxas de sucesso e insucesso nos dentes tratados endodônticamente.
Grato
Irineu

Irineu, há alguns desses trabalhos na literatura e podem ser facilmente encontrados. Veja por exemplo um clássico da literatura endodôntica – Sjogren, U. et al. Factors affecting the long-term results of endodontic treatment. J Endod, 1990, v. 16, n. 10, p. 498-504. Deste, parta para outros.

Canal com polpa necrosada e viva

Lorena:
Oi Profº, parabéns pelo blog! por favor, tenho uma dúvida… como devo proceder com relação a um 1ºmolar superior, com canal palatino e mesial totalmente necrosados, coroa com extensa destruição por cárie, mas durante o ascesso ao canal distal a polpa apresentava aspectos de vitalidade, sangramento abundante… devido a carencia no local do atendimento, coloquei formocresol e pulposan… será que vai haver dor pós operatória?
obrigada…

Lorena, não uso nem recomendo o formocresol. Se foi atendimento de urgência, por exemplo, a sua intervenção já é suficiente para alívio da dor (com o sangramento abundante então, ela tende a desaparecer). Entretanto, só pela utilização dessa substância não acredito que haja dor pós-operatória. Quanto ao tratamento, faça como se todos os canais estivessem com polpa necrosada, com os procedimentos sempre começando pelo distal.

Trata ou não o canal?

Marcel Araújo:
Boa noite …..estou com uma paciente que esta com o dente 21 escurecido mas sem nem um outro sinal e sintoma. Sera necessario o tratamento endodontico ou posso tentar o clareamento seguido de uma faceta para melhorar a estetica??

Marcel, qual a causa e há quanto tempo está com o escurecimento? Já fez o teste de sensibilidade para saber se a polpa está viva? Uma hemorragia pulpar transitória (trauma) pode levar a essa condição e a polpa continuar viva. Qual a idade do paciente? A depender de algumas respostas, o tratamento endodôntico poderá ser realizado ou não. Se estiver com necrose pulpar o tratamento endodôntico deve ser realizado.

Cone de guta-percha ultrapassou. Daí…

Poliana:
olá professor! retratei o canal da minha paciente, elemento 44 e na hora de obturar extravavou o cone de guta – percha, mais ou menos um 1mm. Gostaria de saber se pode acontecer alguma coisa séria. Obrigada

Poliana, apesar de a presença de material obturador nos tecidos periapicais não ser recomendável, fique tranquila. Não é um acidente tão incomum e, estando o canal bem preparado, não é isso que leva ao insucesso. Procure trabalhar melhor essa relação adaptação do cone/matriz apical para diminuir as chances de que isso ocorra outras vezes.

Pode obturar?

Bia:
Olá, prof. Ronaldo!!
Gostaria de saber se quando ocorre, durante a instrumentação, drenagem via canal de exsudato purulento, cessando o mesmo durante a propria instrumentação; poderia obturar o canal nesta mesma sessão?? Outra questão seria em relação ao alargamento dos canais mesiais do molares inferiores: alarguei a cervical com gates, fiz a odontometria, instrumentei os canais até a lima #20 com sucesso; porém a lima #25 não quer chegar ao meu CT.Teve irrigação abundante durante o procedimento. Existe a possibilidade da lima estar “com dificuldades” de passar no terço médio, necessitando de um alargamento a mais (com limas mais calibrosas?)  Agradeço desde já a ajuda!

Bia, aproveito a sua pergunta muito interessante para perguntar se você permite que eu faça uma resposta um pouco mais longa? Permite? Obrigado.
1. O abscesso em fase aguda denuncia a queda da resistência orgânica do paciente, aumento da quantidade e/ou virulência dos microorganismos, sendo estas últimas as causas mais comuns. Em outras palavras, a quantidade e as características dos microorganismos exercem um papel fundamental. Vamos usar dois exemplos para tentar explicar bem essa questão.
Diante de um caso com fístula e/ou exsudato intenso, você prepara o canal e na sessão seguinte percebe uma melhora na diminuição da fístula ou do exsudato. Observa, por exemplo, que este está menor. O que deve ter acontecido? O preparo do canal, onde se inclui a medicação intracanal, deve ter promovido uma redução significativa na quantidade e qualidade da infecção, suficiente para promover uma atenuação da sua manifestação clínica (diminuição do exsudato). Terá removido toda a infecção? Sabe-se que não. A infecção residual será suficiente para, a médio/longo prazo, diante de determinadas condições (que a literatura e a experiência clínica mostram que existem) aumentar e se manifestar clinicamente outra vez? Quem tem essa resposta? Sabe-se que é possível e tem acontecido (apesar de alguns não perceberem).
Por que se mudam as formas de prescrever antibióticos? Qual usar, qual a dosagem, por quanto tempo? Assim que cessarem os sintomas, remove-se o antibiótico ou deixa por mais tantos dias? Uma coisa tão “simples” que se faz há tantos anos, por que ninguém apresentou a palavra final? Porque na Medicina a coisa é séria, não se brinca com a saúde do paciente. Eles sabem que as infecções não são iguais, os pacientes não são iguais, as respostas imunológicas não são iguais. Por isso, eles, médicos, prescrevem e mudam quando teem que mudar, são “inseguros”. Nós, endodontistas, não, somos conhecedores profundos da biologia, sabemos o que vai acontecer com os nossos pacientes (com todos), por isso estabelecemos uma terapia única para todos eles, em série: abre e fecha (prepara e obtura).
Os ministradores de curso (hoje todo mundo é ministrador de curso), os formadores de opinião (hoje todo mundo é formador de opinião) trabalham muito no que pode ser feito, poucos trabalham no que deve ser feito. Nem sempre se sabe o que deve ser feito e por isso se mudam as prescrições de medicação sistêmica, numa tentativa de melhor controle da infecção. Assim, para a sua pergunta, “quando ocorre, durante a instrumentação, drenagem via canal de exsudato purulento, cessando o mesmo durante a propria instrumentação; poderia obturar o canal nesta mesma sessão??”, digo que pode, porém sugiro que analise cada caso isoladamente. Pode, nem sempre deve. Não se trata somente de habilidade técnica e experiência pela repetição do ato em si, é algo muito maior, que costumamos tratar de maneira pequena. Quem é o paciente e como está ele imunologicamente, qual é a história daquele caso, como é a infecção, como se manifestou e como se manifesta…? Esta infecção eu posso tratar assim, ou de outra maneira, devo ter um suporte medicamentoso sistêmico ou não…?
2. A sua segunda questão é técnica. Aqui, portanto, entra o que? Técnica. A possibilidade de a lima “estar com dificuldades de passar no terço médio” existe porque as brocas GG não trabalham em curvatura e muitas vezes estas se manifestam já no terço médio dos canais mesiais dos molares inferiores. Isso seria mais facilmente contornado com o preparo automatizado com limas NiTi. Se você não usa, faça uma ampliação (manual mesmo) do terço médio (fazendo a patência do terço apical para não haver entulhamento de raspas de dentina). Isso lhe dará maior liberdade de ação no terço apical. Além disso, veja também se o grau de curvatura que você dá à lima #25 é o mesmo que deu à #20. Também aqui, o preparo automatizado com limas NiTi tornaria essa passagem da #20 para #25 bem mais tranquila. Mais uma vez, não se aflija se não faz. Mesmo sem ainda ter desenvolvido essa parte você pode fazer um bom preparo. Porém, assim que puder, comece a usar os sistemas rotatórios, como são conhecidos.

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Ricardo:
Quais os riscos de obturar um canal onde o apice ainda nao foi fechado?Eu poderia fechar esse canal em uma polpa necrosada com cimentos a base de hidro. de calcio?

Ricardo, o risco maior é a possibilidade de extravasamento de material obturador, o que nunca é recomendável, pois interfere com o processo de reparo. É claro que existem os extravasamentos acidentais, mas, como o nome diz, são acidentais; não faça disso uma “técnica” de obturação. É um grande equívoco preconizar-se isso. Qualquer material obturador, seja guta percha ou cimento, é irritante e a presença deles nos tecidos periapicais constitui uma agressão física e química. Os cimentos com hidróxido de cálcio podem ser menos irritantes, mas também são irritantes.
Eu poderia dizer que você terá os mesmos resultados ao obturar sem extravasamento, mas não vou dizer, por uma razão bem simples: ao obturar assim, sem extravasamento, você terá resultados melhores. O seu sucesso será clínico, radiográfico e histológico. Alguém pode dizer, mas eu sou clínico, não sou histologista. Perfeito, só tem uma coisa. Como clínico você terá e só verá o sucesso clínico/radiográfico, mas somente assim terá a certeza de que o sucesso também será histológico. Você quer coisa melhor, sem fazer nada de excepcional ter a segurança de, como clínico, conseguir o sucesso nos três parâmetros usados para avaliação do sucesso? Estamos falando de endodontia clínica com suporte científico. Somente assim você estará conseguindo excelência em Endodontia. Somente assim você será, de fato, um grande endodontista. O organismo agradece.
Portanto, tente qualquer mecanismo (apificação, tampão apical com hidróxido de cálcio…) para “fechar” o ápice e obture com maior segurança.
Infelizmente, ando com muito pouco tempo disponível, razão pela qual não tenho colocado mais casos na seção Casos Clínicos aqui no site, mas veja os que estão lá e você encontrará vários que comprovam o que eu estou dizendo. Para lhe deixar sem nenhuma dúvida, clique aqui e veja particularmente os casos 30, 31, 32, 33, 34 e compare os resultados dos casos 35 (com extravasamento) e 36 (sem extravasamento). Observe que é o mesmo tempo de acompanhamento nos dois. Qual você achou melhor? Entende agora porque falei que você, como clínico, terá sucesso clínico, radiográfico e histológico? Em qual deles terá havido sucesso histológico, no 35 ou no 36?