A obturação e o espaço vazio

“Obturações curtas favorecem o acúmulo de maior volume de debris pulpares e dentinários, permitindo a instalação de microorganismos e consequentemente, contribuindo para o insucesso do tratamento endodôntico”.

Não importa a autoria, mas é possível que você concorde com essa afirmação. Ela está de acordo com a concepção que tem orientado a maioria absoluta dos profissionais da Endodontia pelo menos nos últimos cinqüenta anos; a obturação não pode ter falhas, não podem existir espaços vazios. O vedamento tem que ser hermético.

Volte lá, leia outra vez e pense comigo:

1. Como podem se acumular debris pulpares e dentinários depois que a obturação foi feita? De onde eles vieram?
2. Debris pulpares e dentinários já existem ou são produzidos pela instrumentação do canal?
3. Se existe um acúmulo de debris pulpares e dentinários é por causa da obturação curta?

O que você acha? Se eu disser que é lógico que o acúmulo de debris pulpares e dentinários não é por causa da obturação curta e sim porque o preparo não removeu, você concorda comigo?

Vamos pensar juntos outra vez?

1. Vimos que o acúmulo de debris pulpares e dentinários não é por causa da obturação curta, mas sim porque o preparo do canal não removeu.
2. Isso quer dizer que a “culpa” é do preparo e não da obturação, concorda?
3. Posso dizer então que não é o espaço vazio da obturação curta, mas o que está dentro dele?
4. Se é assim, foi o preparo mal feito que não limpou, que não removeu, correto?

Os passos do tratamento endodôntico não devem ser bem feitos, devem ser muito bem feitos, todos eles. Mas, em qualquer especialidade médica sabe-se que para curar uma doença basta eliminar a causa. Quem remove a causa na Endodontia, o preparo ou a obturação?

Vamos lá.

P. Por que será que um determinado dente está com rizogênese incompleta e lesão periapical?
R. Porque, por qualquer razão, quando o paciente era jovem, se já não for mais, a polpa necrosou, deixou de haver apicogênese e ainda surgiu a lesão periapical.
P. Você prepara e obtura logo?
R. Não, não é mesmo?
P. Por que?
R. Porque se fizer isso há uma grande possibilidade de a obturação extravasar, não é? Aí, você faz a apicificação e promove o fechamento do ápice, que leva alguns meses para ocorrer (depende de cada situação). Agora o canal pode ser obturado.

Você nunca observou que nesse momento muitas vezes a lesão já desapareceu, ou, pelo menos, quase toda ela? O que aconteceu? Você removeu a causa. Por causa desse “pequeno” detalhe, não só fechou o ápice como desapareceu a lesão. O que é isso? Reparo. Percebeu que você obteve reparo sem a obturação ter sido feita? Ela vai ser feita agora. Você não percebe isso em todos os outros casos por uma razão bem simples; você não precisa ficar esperando fechar o ápice para poder obturar. Simplesmente prepara, obtura, vê meses depois a lesão desaparecer e aí fica pensando que foi graças a obturação, como todos dizem a você.

Vamos agora, juntos, fechar o nosso raciocínio? O reparo de uma lesão periapical não depende da obturação.

Sei que é difícil pensar diferente do que você aprendeu, ainda mais que você lembra que todos pensam assim. Já pensou na possibilidade de que eles estão errados? Vou falar bem baixinho para ninguém ouvir, só você; estão errados.

Comece a pensar.

Endodontia moderna

No final do século XX (não foi há cem anos, lembre que o século foi até o ano 2000, ontem), podíamos ver cursos de Endodontia com títulos bem atrativos – “A Endodontia do novo século”, “A Endodontia do terceiro milênio” (lembre também que na mudança do século passamos do segundo para o terceiro  milênio), e por aí vai. Ainda é comum “Técnicas Avançadas em Endodontia, “A Endodontia Moderna”, etc.

São títulos interessantes, nada contra, mas confesso que eles me incomodam.

Certamente você tem visto e ouvido falar do grande aumento da quantidade de Faculdades de Odontologia no Brasil. Você faz idéia de quantos cursos de especialização existem hoje? Eu não faço, sei que são muitos.
                                                                                                                       
Você lembra do tempo, isso foi ontem, em que pouquíssimos eram Mestres e menos ainda eram Doutores? Já viu quantos são hoje? Onde todos parecem iguais, como fazer a diferença? Se você respondeu na qualidade respondeu errado. É no marketing.

Não é bom ter uma orientação sobre como conduzir o seu consultório, torna-lo mais rentável, atrair mais paciente? Bem-vindo o marketing. Mas, será que não está havendo um pouco de exagero?

Como “anunciar” qualidade? Não se anuncia. Quando você começa a mostrar uma boa Endodontia, uma boa Periodontia, uma boa Prótese, ela, a qualidade, aparece. Qualidade é uma coisa que se mostra ao longo do tempo. Mas tempo leva tempo. Não serve. Vou para o marketing, é mais rápido. Anuncio minhas qualidades e pronto. Se junto anuncio aparelhos, motores, técnicas modernas, é gol. Corro para o abraço.

Esse motor e essa técnica, aquele motor e aquela técnica, o outro motor e a outra técnica. Existiram outros antes deles, e existirão outros depois. Pense comigo: Se esse é o diferencial, você NUNCA fará uma boa Endodontia, porque os cursos precisam sempre mostrar aparelhos e técnicas “novas”, e você estará sempre sendo induzido a adotar o novo, o moderno, porque só aí você é bom. E você não quer ser chamado de ultrapassado, quer?

Em um texto recente, Oscar Niemeyer* diz que de acordo com Alvar Aalto** “não há Arquitetura antiga ou moderna e sim Arquitetura boa ou má”. Deixe-me beber um pouco da água de gênios da Arquitetura.

Gente, não existe Endodontia antiga ou moderna. O que existe é Endodontia bem feita ou mal feita. É evidente que hoje os recursos permitem mais facilmente fazer uma boa Endodontia. Temos esses recursos? Vamos usa-los. Mas o diferencial é quem está sentado no mocho: é você. E ninguém, isso mesmo, ninguém vai lhe transformar em endodontista. Somente a partir de bons cursos, com bons professores de fato, mas, sobretudo, a partir de você, da sua determinação, do seu desejo e da experiência que se adquire com o tempo, você será um bom endodontista. Marketing, qualquer um faz. E Endodontia bem feita, você tem visto qualquer um fazer?

Você está fazendo um curso de especialização. Você é bom. Parabéns ao curso que o faz bom. Olhe ao redor; são todos tão bons quanto você? Lógico que não. Alguns são melhores do que outros, ainda que façam o mesmo curso. Os parabéns acima são do curso ou seus?

Como sempre, os jovens são as grandes vítimas. Dificilmente eles identificam um vendedor de ilusões.

Vou parafrasear Chico Buarque: “Não quero o novo pelo novo. Quero o novo pelo que de bom ele pode trazer”. O manto da inovação sempre escondeu muita coisa e, é lógico, sempre o fará. Um colega nosso, Luiz Thadeu Poletto, a quem não conheço pessoalmente, diz que “inovar é fazer bem feito”. O que você acha?

 

* Oscar Niemeyer – Dispensa apresentações.
** Alvar Aalto – (1898-1976) Arquiteto finlandês, um dos primeiros e mais influentes arquitetos do movimento moderno escandinavo, que também se notabilizou como designer de mobília, tecidos, cristais, entre outros produtos.

Preparo e obturação do canal

A Medicina é uma profissão fantástica. É extremamente gratificante cuidar da saúde física e mental do ser humano.

Cuidar da saúde física e mental do ser humano. Dá para imaginar o tamanho da responsabilidade que isso representa? Seria possível um profissional ter todos os conhecimentos necessários para algo dessa grandeza? Humanamente impossível.

Daí surgem as diversas especialidades da Medicina. O conceito de um único organismo, mas a necessidade de “dividi-lo” em partes, para tornar possível o seu conhecimento. Cardiologia, Pneumologia, Ortopedia, Odontologia, Oftalmologia, Dermatologia e tantas outras especialidades, todas elas com um único objetivo; a saúde do homem.

Os primeiros cursos de Odontologia no Brasil surgiram como anexos das Faculdades de Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro. Assim também eram os cursos de Farmácia e Obstetrícia. Em São Paulo, o ensino de Odontologia já surgiu de forma distinta da Faculdade de Medicina e chegou a existir uma Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia. O modelo adotado no Brasil é o das escolas americanas, isto é, a “separação” da Odontologia das outras especialidades. Se essa separação foi acertada ou não, não cabe aqui discutir. Mas a discussão de pelo menos um dos seus aspectos é inevitável.

Parece que para os profissionais de ambas, a transformação da Odontologia e da Medicina em profissões distintas gerou a idéia de que, de fato, são distintas. A começar pelo fato de que os profissionais que nelas atuam não são colegas. Se existem, quantos médicos consideram seus colegas os dentistas, e vice-versa? Muito pelo contrário, há aí um sentimento de rixa (na verdade há um outro menor, mas… deixa pra lá), expresso de várias maneiras em vários momentos. Mas esse é um tema que pede uma outra hora para a sua discussão e é possível que eu volte a ele mais adiante. A distinção sobre a qual pretendo falar é outra.

Talvez os mais jovens não saibam, mas até há pouco tempo os representantes comerciais das indústrias farmacêuticas que visitavam os dentistas falavam de antibióticos, antiinflamatórios e analgésicos para dentista. Percebeu? Específicos para dentista. O organismo que o médico tratava exigia um antibiótico, o que o dentista tratava outro. “Existiam” dois organismos, um para o médico outro para o dentista. Se observarmos bem, é possível que essa concepção ainda não tenha sido inteiramente eliminada.

O organismo é um só. A compreensão desse aspecto não permite pensar que ele se mobiliza e reage diferentemente na Odontologia e na Medicina. As células que compõem os tecidos e órgãos são as mesmas, onde quer que eles estejam situados. Até onde o conhecimento científico permitiu chegar, não há como o sistema imune se comportar de maneiras diferentes pelo fato de estar atuando em uma patologia da Odontologia ou da Medicina. Isso não existe. Assim, onde quer que estejam ocorrendo, a reação inflamatória e o processo de reparo obedecem às mesmas leis do organismo.

Nenhuma especialidade da Medicina tem qualquer tipo de dúvida de que é removendo a causa que desaparece a patologia, a doença. Nenhuma especialidade da Medicina tem qualquer tipo de dúvida de que é o ato cirúrgico de remoção que elimina a causa. Nenhuma especialidade da Medicina tem qualquer tipo de dúvida de que, uma vez removida a causa, o organismo promove a cura. Na Endodontia, uma especialidade da Medicina, parece que querem que seja diferente.

O preparo do canal é a fase mais importante do tratamento endodôntico, pode ter absoluta certeza disso. Na Endodontia, a causa é o canal infectado, a patologia é a lesão periapical (exsudato persistente, fístula). Na Endodontia, quem remove a causa é o preparo, quem promove a cura é o organismo. Não sei por que ainda hoje queremos ir na contra-mão. Não sei por que ainda hoje queremos, e brigamos por isso, demonstrar que é a obturação que permite a cura. Nunca foi.

Preparo do canal significa acesso, instrumentação, irrigação e medicação intracanal (se e quando necessária). Todos esses procedimentos constituem uma única etapa, que visa a eliminação da causa. Que não se argumente com a impossibilidade de eliminar a infecção em Endodontia. Isso parece ser fato, porém pobre como argumento. Mais pobre do que ele é o que é colocado logo em seguida, e que parece a todos que se justifica: “Ao vedar hermeticamente, a obturação promove o enclausuramento das bactérias que não foram eliminadas. Isoladas entre a obturação hermética e o cemento, elas morrem”. Quem provou isso? Não se pretende uma Ciência que só se justifica com provas? Onde estão os trabalhos que provam a existência do vedamento hermético?

Você já observou quantas vezes uma antibioticoterapia é modificada no tratamento de pacientes em Medicina? Por que? As razões são diversas, mas há uma de fácil compreensão; com essa ou aquela medicação não se conseguiu a eliminação do processo infeccioso. Mas observe que o medicamento está sempre voltado para esse objetivo; eliminação da causa. Quando a medicação funciona e o tratamento controla a infecção, quem entra em cena? O sistema imune. Na verdade ele nunca esteve fora de cena, pelo contrário. No entanto, agora existem condições mais favoráveis para que ele possa fazer o seu papel; promover a cura. Quem criou essas condições? O tratamento, que exerceu controle de infecção.

Será difícil imaginar algo semelhante na Endodontia ? Por que alguns tratamentos podem falhar? Porque as medidas tomadas para controle de infecção não foram suficientes para este ou aquele caso. Em outras palavras, o tratamento endodôntico não foi suficientemente efetivo. Aí você poderá ter como explicação a permanência de microorganismos que não foram alcançados pelo preparo (alojados em locais inacessíveis a ele), microorganismos com maiores recursos de sobrevivência.

O que a literatura propõe além do enclausuramento pelo vedamento hermético? A utilização de cimentos obturadores com atividade antimicrobiana. Olha só que coisa. Perceba a inversão absurda que se faz. Atribuir ao cimento obturador o papel de matar microorganismos.

Vamos pensar juntos? Dispomos hoje de excelentes técnicas de instrumentação, você sabe disso. Você usou uma delas. Além disso, irrigou com solução com reconhecida ação antimicrobiana, solvente de matéria orgânica, em associação com solução de comprovada eficácia de ação sobre matéria inorgânica, e complementou com medicação intracanal, também com comprovada ação antimicrobiana. Várias ações que se somam e juntas ganham grande potencial antimicrobiano. Você realmente acha que os microorganismos que escaparam desse tratamento morrerão pela ação de um cimento obturador? Quais são as chances de isso acontecer? Já pensou que para isso o cimento obturador teria que ter uma ação antimicrobiana superior a todos aqueles procedimentos do preparo juntos? Você conhece algum que tenha? Qual seria a toxicidade desse cimento? Tendo em vista que alguns acreditam que cimentos obturadores com hidróxido de cálcio fariam esse papel com menor toxicidade, esse hidróxido de cálcio contido no cimento estaria em condições, concentração e quantidade mais adequadas e teria mais tempo de ação do que aquele da medicação intracanal?

Parece ser consenso que não se consegue a eliminação da infecção com o tratamento endodôntico. Também não há comprovação de que o reparo só se dá nessas condições. Por essa razão, hoje prefere-se dizer controle de infecção. Quando se consegue, ocorre a cura. Não parece muito difícil imaginar que as condições para isso são atingidas através do preparo e não da obturação.

Nenhuma especialidade da Medicina tem qualquer tipo de dúvida de que é removendo a causa que desaparece a patologia. É simples. Todos os procedimentos de remoção do conteúdo infectado do canal estão inseridos na fase do preparo do canal. Na Medicina, após o controle de infecção, a pele e as mucosas se reconstituem e “selam” o organismo contra a reinfecção. A reconstituição da pele e das mucosas é a síntese da demonstração de reparo que o organismo pode dar. Na Endodontia, após o controle de infecção que o preparo do canal proporciona, não há como o organismo formar novo esmalte e nova dentina. A obturação do canal e a restauração coronária selam o canal contra a reinfecção. Esse é o papel da obturação: selar.

Desde 1987 trabalho com essa linha de raciocínio e somente a partir de 1992 comecei a mostra-la nos cursos que tenho ministrado em algumas cidades do Brasil. Como era de se esperar, ocorreram as mais diversas reações, algumas das quais violentas. É natural. A História mostra que isso sempre acontece todas as vezes em que surge um novo pensamento, uma nova concepção. Dou um exemplo: a descoberta por Nicolau Copérnico, levada adiante por Galileu Galilei, de que não era a Terra e sim o Sol o centro do Universo, um dos grandes momentos da Ciência. Por ter ido contra o pensamento (errôneo) da época, Galileu foi condenado à prisão e forçado a admitir publicamente que estava errado. Somente quatro séculos depois (1997) ele foi perdoado oficialmente pela Igreja Católica.

Dizer que há 21 anos trabalho com essa linha de raciocínio não significa não dar importância à obturação. Todos os nossos alunos, em todos os níveis, graduação, aperfeiçoamento e especialização, sem exceção, são nossas testemunhas de que em vários momentos orientamos refazer a obturação por não estar bem feita. O fato de o reparo não depender da obturação não significa que ela pode ser feita de forma negligente ou, o que seria pior, não ser feita. O reparo não depende dela, mas a sua manutenção sim. A obturação do canal e a restauração coronária fazem o papel da pele, “evitar” a reinfecção.

Portanto, o argumento da negligência com a obturação ou, pior ainda, da sua supressão, que já foi utilizado contra mim, só encontra explicação na incompreensão do que tenho dito ou na má fé. Além do que já publiquei (pelo menos alguns artigos podem ser vistos na seção ARTIGOS PUBLICADOS desse site), inclusive o meu livro, trabalhos importantes de outros autores começam a surgir seguindo essa mesma linha de raciocínio. Veja, por exemplo, “Healing of Apical Periodontitis After Endodontic Treatment with and without Obturation in Dogs” (Journal of Endodontics, julho de 2006, p. 628-633) clique aqui.  Após acompanhamento histopatológico de canais tratados, os autores dizem que “o achado digno de registro do estudo é que não houve nenhuma diferença na cura de lesões periapicais entre canais obturados e não obturados”.

Atribuir o reparo à obturação do canal foi um dos grandes equívocos cometidos na Endodontia. O reparo ocorre graças ao preparo do canal. É a Endodontia em consonância com todas as outras especialidades da Medicina.

Caso Clínico 34

                                A

     B                                                         C

Tratamento endodôntico do 25, com lesão periapical. Em A determinação do CT. Como em todos os casos de necrose, foi feita limpeza do forame. Em B, a obturação foi feita intencionalmente aquém do ápice. Apesar do extenso espaço apical vazio, a radiografia de acompanhamento mostra completo reparo da lesão periapical (C).

Caso Clínico 33

      A                                                        B

                                 C

        D                                                      E

        F                                                        G

Retratamento do 36. Em A e B, radiografias trazidas pela paciente, com intervalo de 2 anos e 8 meses entre ambas. Perceba que há um instrumento fraturado no ápice da raiz mesial e o aumento da lesão periapical em B. Em C, retratamento com limpeza do forame (feita em todos os canais). O cones de guta percha são posicionados nos limites clássicos em D, onde deveriam ser obturados. Em E, os cones mesiais são intencionalmente colocados cerca de 5 mm aquém do ápice. Em F, obturação concluída. Observe a obturação curta nos canais mesiais. Radiografia de acompanhamento (G) mostra reparo das lesões periapicais, inclusive nos canais mesiais, onde o espaço vazio intencional deixado pela obturação é extenso. Observe que os espaços vazios dos canais mesiais mal obturados em A fizeram surgir a lesão periapical (o canal distal está bem obturado). Em B (2 anos e 8 meses depois), a lesão da raiz mesial aumentou e, mesmo com o canal distal bem obturado, surgiu lesão periapical também na raiz distal. Agora perceba que extensos espaços vazios nos mesmos canais mesiais (F) permitiram o reparo (G), tal qual no canal distal, com limite apical "normal". Como explicar? É simples. Não é a obturação que promove o reparo. O preparo do canal (modelagem e limpeza) mal feito em A não exerceu controle de infecção e os espaços vazios estavam contaminados. Em F o preparo do canal (instrumentação correta, irrigação com hipoclorito de sódio e EDTA, limpeza do forame e medicação intracanal com hidróxido de cálcio) promoveu controle de infecção; o espaço vazio, portanto a obturação, não impede o reparo. Este e outros casos clínicos, que serão colocados no site gradativamente (veja também o 31 e 32), foram realizados ao longo dos últimos 21 anos e têm como principal objetivo mostrar que a obturação não é o fator determinante do sucesso em Endodontia, mas sim o preparo do canal. A causa das lesões periapicais, exsudato, fístula, é a infecção do canal. O controle de infecção é que cria as condições para o organismo promover reparo e o controle de infecção é realizado pelo preparo do canal. Em qualquer especialidade da Medicina sabe-se que a remoção da causa faz cessar o efeito. Em Endodontia não é diferente. Que fique bem claro: NÃO É UMA PROPOSTA DE OBTURAÇÃO. O canal deve ser bem obturado, como foram todos os outros que já estão no site e outros que ainda serão postados. É possível que você esteja chocado com as imagens, por isso recomendo ver detalhes dessa concepção em Souza RA. Endodontia Clínica, Santos, 2003. Você pode também fazer os seus comentários ou tirar as dúvidas pelo Blog da Endodontia deste site.

Caso Clínico 32

Tratamento endodôntico do 41. A) Lesão periapical extensa com características císticas. B) O canal apresentava intensa exsudação purulenta e foi realizada limpeza do forame, como é feita em todos os casos. C) Medicação intracanal com hidróxido de cálcio. D) Diante da persistência do exsudato em grande intensidade nas consultas seguintes, foi feita limpeza ativa do forame e na lesão. Não é necessário a ultrapassagem da lima nessa extensão. Pela reabsorção acentuada do forame, a lima passou sem dificuldade e quando a radiografia foi feita a lima estava nessa posição. A sugestão é que ela ultrapasse cerca de 2 mm para fazer a limpeza ativa. Foi feita nova medicação intracanal com hidróxido de cálcio. Não houve mais exsudato. E) prova do cone de guta percha no limite clássico preconizado. F) Cone de guta percha intencionalmente colocado a mais de 7 mm aquém do ápice. G) Obturação feita. Observe que, como não havia matriz apical no local em que o cone estava em F, na condensação vertical ele "avança" um pouco e a obturação fica a pouco mais de 6 mm aquém, com pequena ultrapassagem de cimento obturador. H) Mesmo com a extensão do espaço apical vazio, o RX de controle (11 anos depois, 04.06.2008) mostra reparo da lesão periapical. I) A tomografia computadorizada (Cone Beam), também realizada em 04.06.2008, confirma o reparo. Compare o aspecto da luz do canal vazio no segmento apical em G e H, sugerindo formação de selamento biológico. Perceba também a reconstituição de todo o ápice radicular. Este e outros casos clínicos, que serão colocados no site gradativamente (veja também o 31 e 33), foram realizados ao longo dos últimos 21 anos e têm como principal objetivo mostrar que a obturação não é o fator determinante do sucesso em Endodontia, mas sim o preparo do canal. A causa das lesões periapicais, exsudato, fístula, é a infecção do canal. O controle de infecção é que cria as condições para o organismo promover reparo e o controle de infecção é realizado pelo preparo do canal. Em qualquer especialidade da Medicina sabe-se que a remoção da causa faz cessar o efeito. Em Endodontia não é diferente. Que fique bem claro: NÃO É UMA PROPOSTA DE OBTURAÇÃO. O canal deve ser bem obturado, como foram todos os outros que já estão no site e outros que ainda serão postados. É possível que você esteja chocado com as imagens, por isso recomendo ver detalhes dessa concepção em Souza RA. Endodontia Clínica, Santos, 2003. Você pode também fazer os seus comentários ou tirar as dúvidas pelo Blog da Endodontia deste site.

Untitled

Pergunta de Polyana Firmo: Olá Ronaldo!Tudo bem? Gostaria de saber sua opnião sobre um assunto que a mim gera algumas dúvidas.É sobre dentes com lesão periapical tratados endodonticamente que irão se submeter a movimentação ortodôntica.Eu recebo indicações de colegas ortodontistas para tratar dentes com lesão periapical e costumo recomendar que a movimenação ortodôntica seja realizada após um período de no mínimo 3 mêses(período no qual o sucesso do tratamento já pode ser percebido radiograficamente).Porém recentemente li um artigo do prof. Alberto Consolaro intitulado:Dentes com lesão periapical crônica diagnosticada e tratada durante o tratamento ortodôntico:quando retomar a aplicação de forças? Rev. Clin. ortodon. Dental Press,Maringá v.7 n1;no artigo Consolaro afirma que após 30 a 40 dias já pode-se considerar o dente apto à movimentação ortodôntica,pois o movimento dentário induzido não provocará desorganização e compressão vascular suficientes na região a ponto de dificultar o reparo periodontal.Fiquei em dúvida sobre o quanto devo esperar. Abraços!!!

R. Concordo Polyana. Já digo há muito tempo que não há porque não iniciar ou reiniciar o tratamento ortodôntico. O tratamento endodôntico bem conduzido promoverá controle de infecção, a causa da lesão periapical, e o tratamento ortodôntico não interfere nesse processo. Imagina-se que a terapia ortodôntica também será bem conduzida.

Resposta a Alírio

Alírio fez um comentário interessante sobre a pergunta de Breno Araújo Batista e a minha resposta no post aí embaixo. Junto com a própria pergunta de Breno, merece uma resposta mais detalhada.
Prezado Alírio, em termos de tempo, esse ano está sendo muito “corrido”, vários compromissos, viagens, etc. Se você me permitir, assim que eu puder escreverei algo sobre esse tema e é possível que o texto vá para o Conversando com o Clínico. Desde já, antecipo que a sua colocação também procede. Ela possui uma coisa que tem faltado ultimamente na Endodontia; ponderação. Não é incomum observar-se um certo radicalismo nas posições assumidas por alguns colegas. A sua colocação sugere uma reflexão. E a reflexão, em todos os momentos da vida, é sempre bem-vinda.

Caso Clínico 31

                                            A

  B                                        C                                      D

Retratamento do 22. Observe em A que o instrumento trabalha em toda a extensão do canal; foi feita a limpeza do forame. A obturação foi intencionalmente feita a cerca de 4 mm aquém do ápice (B). Em C, radiografia de 7 anos e em D de 21 anos depois mostram reparo completo. Observe que o espaço do ligamento periodontal e a lâmina dura estão absolutamente normais. Nessas imagens pode-se observar melhor a extensão apical do canal que ficou sem obturação. Perceba que a imagem "diferente" do trabeculado ósseo na região é devida à fossa incisiva. Este e outros casos clínicos, que serão colocados no site gradativamente (veja também o 32 e 33), foram realizados ao longo dos últimos 21 anos e têm como principal objetivo mostrar que a obturação não é o fator determinante do sucesso em Endodontia, mas sim o preparo do canal. A causa das lesões periapicais, exsudato, fístula, é a infecção do canal. O controle de infecção é que cria as condições para o organismo promover reparo e o controle de infecção é realizado pelo preparo do canal. Em qualquer especialidade da Medicina sabe-se que a remoção da causa faz cessar o efeito. Em Endodontia não é diferente. Que fique bem claro: NÃO É UMA PROPOSTA DE OBTURAÇÃO. O canal deve ser bem obturado, como foram todos os outros que já estão no site e outros que ainda serão postados. É possível que você esteja chocado com as imagens, por isso recomendo ver detalhes dessa concepção em Souza RA. Endodontia Clínica, Santos, 2003. Você pode também fazer os seus comentários ou tirar as dúvidas pelo Blog da Endodontia deste site.

Caso Clínico 30

                                    A

         B                                                       C

Tratamento endodôntico do 48, com reparo das lesões periapicais. O preparo cervical, de acordo com a Técnica da Inversão Sequencial (Souza, RA. Endodontia Clínica, 2003), permite que as limas dos canais mesiais penetrem sem interferências (A). A imagem da obturação em B e C permite observar melhor a fluidez do preparo dos canais. Perceba que mesmo com limite apical da obturação aquém dos limites clássicos, particularmente no canal distal, houve reparo.