Idolatria

Por Ronaldo Souza

Quem nunca teve ídolo(s)?

Acredito que o meu maior ídolo tenha sido Elvis Presley.

No começo da minha adolescência, vendo-o nos filmes eu me imaginava cercado daquelas belas e inalcançáveis mulheres.

Quanto desejo, quanta imaginação de “… um menino tão só no antigo banheiro, folheando as revistas, comendo as figuras, as cores das fotos te dando a completa emoção, como canta Gonzaguinha na sua belíssima música.

Daí para a adoração pelo Havaí (cenário de alguns dos seus filmes) e o sonho de um dia viver lá, foi um pulo, como também foi um pulo a adoração pelo cinema americano.

E, claro, a adoração pelos Estados Unidos.

Ah, os sonhos da infância e da adolescência!

Maravilhosos, inesquecíveis, experiência e prazer únicos nas nossas vidas.

Por quanto tempo nos acompanham?

Por quanto tempo devem nos acompanhar?

Hoje, vejo Elvis (permita-me a intimidade com quem já foi tão próximo de mim) não como quem embalou os meus sábados à noite, até porque não vivia as noites àquela época e sim as matinês, mas como um tempo inesquecível.

Vejo-o como grande cantor, que de fato foi, e “o único cantor branco de alma negra”, como disseram grandes nomes do Jazz.

Cantava muito e a música do vídeo acima era uma das minhas favoritas.

O Havaí ficou para trás e hoje muitas cidades ocupam o lugar que foi seu.

Não para morar, não consigo me ver fora do meu chão, mas para conhecer.

Apesar de vê-lo ainda capaz de fazer bons filmes, vejo o cinema americano com muitas restrições.

E já há muitos anos, meu olhar sobre os Estados Unidos não tem absolutamente mais nada a ver com o daquele menino.

Mas tudo isso teve papel importante na minha formação e me ajudou a crescer.

Foi aquele menino que fez o homem.

E o homem não é melhor nem pior do que a criança que viveu aqui e que por aqui ainda passeia.

Pertencem a mundos diferentes, ou talvez seja mais adequado dizer que veem o mesmo mundo de maneira diferente.

E não poderia ser de outra forma.

O homem se desenvolve a partir da criança; ele não continua criança.

A infância e a adolescência fazem o homem.

Se o homem expressa a sua infância e adolescência e delas é reflexo, não deveria haver dificuldade em identificar que alguns não devem ter conhecido a plenitude de cada momento da vida, particularmente a infância, reconhecida como fundamental para o equilíbrio emocional e afetivo do adulto.

Tendo-os vivido plenamente e de maneira saudável, os espaços para o surgimento de novos ídolos no adulto já não existem, ou no mínimo se encontram bastante reduzidos; ele já deverá estar “formado”. Até porque, não necessariamente no aspecto físico, alguns dos ídolos já se foram.

O surgimento de ídolos nesse momento tende a evidenciar espaços vazios no ser.

Em outras palavras, ele ainda não é.

A essa altura, não ser expõe vazios perigosos de homens incompletos, adolescentes que sofreram uma interrupção no seu desenvolvimento.

O meio já não faz o homem, ou, pelo menos, já perdeu em muito a capacidade de fazê-lo.

Ele já deverá estar bem menos vulnerável às influências externas.

Entretanto, não tendo uma base sólida, o adolescente resistirá ao tempo e pior ainda será se a criança o fizer.

A idade o fará adulto, a mente uma eterna criança.

Nada pior.

O ídolo ainda é necessário.

O Elvis Presley dele não morrerá e ele precisará de novos Elvis.

Nesse estágio tardio de sua formação, se boa parte da sua vida se der em ambiente que não se caracteriza por estimular o crescimento intelectual, ele, claro, não crescerá intelectualmente.

Se boa parte da sua vida se der em ambiente marcado pelo rigoroso cumprimento à ordem e absoluto respeito a comandos superiores, não serão grandes as chances de que nele se desenvolvam o apreço e o espírito pela liberdade. Ele precisará sempre de alguém a quem obedecer e por quem ser conduzido.

Assim, da mesma forma que na infância real, artistas e bandidos, bons e maus, serão o repertório do seu imaginário.

Saudável na verdadeira infância, um desastre na “infância adulta”.

Filmes de ação, particularmente os de guerra, continuarão sendo parte essencial do seu mundo.

Chuck Norris

Ele será eternamente um Chuck Norris e somente as armas lhe darão segurança e definição do que é ser homem.

A idolatria que Jair Bolsonaro faz questão de declarar ter por Olavo de Carvalho não tem origem na infância ou adolescência.

Ela surgiu na fase adulta.

Sendo um obscuro astrólogo, não deve ter sido a capacidade intelectual desse autoproclamado filósofo a razão do encantamento, até porque, reconheçamos, mesmo sendo um astrólogo sem talento e autoproclamado filósofo, ele jamais se faria entender pelo ex-capitão; a estrutura cognitiva do militar não lhe permitiria trilhar os caminhos da Filosofia.

Determinados segmentos da sociedade ainda não perceberam e, por viverem no mesmo mundo sem horizontes e medíocre, boa parte não perceberá que quando se trata de Jair Bolsonaro não é no terreno da incompetência que estamos trabalhando. Trata-se de uma questão de incapacidade.

Incapacidade de tudo.

As evidências são claras como o mais ensolarado dos dias numa cidade do Nordeste.

Se levarmos em consideração a sua agressiva aversão pelo conhecimento, recentemente assumida no tocante às questões da Filosofia e Sociologia, coisas sem nenhuma importância na sua forma de ver a vida, o abismo é intransponível.

Reflexos e consequências são enormes.

As pessoas de mal com a vida apresentam a característica de se vingar dela quando lhes surge a oportunidade.

Que o digam Joaquim Barbosa e Cármen Lúcia, ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal.

Quando parecia que a vida lhes sorria o melhor sorriso, eles não foram generosos com ela e se fizeram pequenos.

Hoje vivem a amargura da solidão do esquecimento dos que, brigados com a vida, um dia ocuparam o poder.

O que é hoje Joaquim Barbosa?

Onde está ele?

O que é hoje Cármen Lúcia?

Onde está ela?

Essas mesmas perguntas serão feitas em breve, num tempo bem mais curto do que se imaginava, a outro membro do judiciário brasileiro.

O que une o militar e o astrólogo?

Que tipo de jogo está sendo jogado?

O que está acontecendo com o Exército Brasileiro, para muitos uma instituição respeitável?

Que exército respeitável é esse que ao expulsar o então tenente (consta que a condição de capitão veio depois como compensação pela expulsão) fez constar no relatório que se tratava de um canalha, covarde e contrabandista e agora permite que, através de um astrólogo, o ex-capitão promova repetidas vezes a humilhação pública dos seus comandantes?

O que pretende o ex-capitão?

Submeter esse “respeitável” exército à sua vingança pessoal?

Ou se trata realmente somente da sua total incapacidade de perceber qualquer coisa?

“É má fé cínica ou obtusidade córnea”, diria Eça de Queiroz.

Por falar em Queiroz, por onde anda ele?

Criado para “controle” da corrupção, como ainda o veem inocentes nem sempre tão inocentes, o Coaf tem sido alvo recente de comentários carregados de idiotice.

O Coaf é na verdade, todos sabem, ao mesmo tempo um poderosíssimo instrumento de coação e proteção (a depender do alvo em questão), uma das razões pelas quais tanto se briga por ele.

Agora que saiu das mãos do Conje, será que o Coaf vai investigar o Queiroz e a família que o mantém há anos?

Voltemos.

“Seu merdinha, seu bosta” viraram linguagem diária e pública entre os homens que tomaram o poder do país e o mantêm sob rédeas curtas (segundo o Conje, seria sobre rédeas curtas).

Referindo-se ao General Villas Bôas, que até um dia desses era o Ministro do Exército, o astrólogo guru do ex-capitão disse:

“A quem me chama de desocupado não posso nem responder que desocupado é o cu dele, já q não para de cagar o dia inteiro”.

O General Villas Bôas é portador de doença degenerativa e este é o tratamento que lhe é dispensado pelo guru do ex-capitão.

E aí chega outro general, Paulo Chagas, e responde:

“O ânus é o órgão excretor, se faz sua função o dia inteiro, não é desocupado. Desocupado é o ânus do Olavo q foi substituído pela boca”.

São esses homens, absurdamente despreparados e sem nenhum equilíbrio emocional, que estão dirigindo o país.

Desequilíbrio que se transforma em palavras, gestos e ações de grande violência, como nunca antes visto na história desse país.

Um astrólogo cuja única característica marcante é o absurdo descontrole de si mesmo, num destempero agressivo e de baixíssimo nível, torna-se o conselheiro-mor do presidente da república.

Algo que, apesar de absolutamente desconectado com qualquer coisa que remeta ao bom senso e à razão, é facilmente explicável pela idolatria do presidente por ele, idolatria que não consegue disfarçar.

Pelo contrário, faz questão de reafirmar.

Por idolatra-lo e nele confiar muito, é ele que o presidente utiliza, e aos próprios filhos, como escudo protetor e porta voz do que, na sua reconhecida covardia, não tem coragem de dizer.

Seria bem mais fácil se tivesse que ser dito a uma mulher.

Aliás, o que confirma o relatório do próprio Exército quando o tratou como covarde no episódio da sua expulsão daquela Força Armada.

Covardia que se projetou e apareceu de forma clara e estarrecedora para a sociedade na campanha eleitoral, quando o ex-capitão fugiu de todos os debates.

Para um cérebro disfuncional, isso parece ser suficiente para que guru e filhos sejam condecorados pelo ex-capitão com a Ordem do Rio Branco, a medalha mais importante do país, numa exibição de profunda ignorância e desrespeito aos símbolos do país.

Incrível, mas aí está a resposta.

É justamente esta a resposta para a pergunta acima.

É o total e absurdo desequilíbrio que os une.

É esse incontornável desequilíbrio que carregam consigo que constitui o equilíbrio que existe entre eles e os torna tão afinados.

Bolsonaro em grande entrevista

Nessa corda de malabarista de circo prestes a cair a qualquer momento, equilibra-se o presidente que não governa.

E aí a imprensa descobre e anuncia que o governo paga para o presidente ser entrevistado e fazer propaganda de si e para conseguir a aprovação da reforma da Previdência, como fez com Ratinho (SBT) e Luciana Gimenez (Rede TV, a mesma que impediu a exibição da entrevista com Lula).

Ainda segundo a imprensa, ao ser procurado Milton Neves teria cobrado meio milhão de reais pelo mesmo tipo de entrevista (o que na imprensa é conhecido há muitos anos como “jabá”).

Na de Luciana Gimenez o clima foi de total alegria e descontração, bem compatível com o momento que vive o país, como na hora em que o racismo foi tratado tal qual o golpe militar de 1964; algo que não existiu, segundo o presidente.

https://www.youtube.com/watch?v=mEsl9Soq2Dw

O que pode explicar tanto cinismo desses dois monumentos à inteligência humana?

Logo ela, Luciana Gimenez, cuja mãe, Vera Gimenez, já foi condenada e multada por racismo:

Disse ela sobre o porteiro do prédio onde morava:

”Chamei mesmo de safado, vagabundo, sacana, canalha etc. Por um acaso da vida, ele é crioulo. Mas, se eu chamei ou não ele de crioulo, aí é a minha palavra contra a dele”.

O próprio presidente teve a sua condenação por racismo e homofobia confirmada agora no dia 09/05.

Bolsoracismo

Beirando a insanidade, como explicar porque o mito mitou tanto se tem sido insuperável na capacidade de protagonizar tantos episódios que o levaram a ser considerado um dos políticos mais obtusos e o mais obtuso presidente de toda a história da política brasileira?

O auditório.

O seu auditório é carente de tudo.

Bolsopistola

Além de revelar mais um momento de “grande concentração” do presidente na busca de soluções (que ele encontra no Twitter) para tirar o país do abismo em que está sendo jogado por ele próprio (o seu semblante mostra o quanto a sua reconhecida sensibilidade foi golpeada, por isso ele parece tão estressado na foto), qual teria sido o objetivo de gerar esta sutil imagem com uma pistola na cintura, mesmo estando dentro de casa e sendo um homem cercado de muitos seguranças?

Qual teria sido o objetivo de imagem tão inteligente e sutil?

O auditório ao qual se dirige.

Quantos orgasmos essa imagem deve ter provocado entre os bravos machos desse país?

Talvez experiências desagradáveis e negativas na infância e na adolescência possam explicar algumas idolatrias.

Como já vimos, a do mito pelo seu guru astrólogo não parece difícil de entender.

Já é por demais reconhecido pela Psicologia e Psicanálise que é particularmente a infância que “faz” o adulto, mas não podemos deixar de reconhecer que também a adolescência desempenha papel importante nesse processo.

E o meio no qual viveu parte da sua vida não lhe fez bem e acentuou o que a vida pessoal talvez não lhe tenha permitido conhecer; o carinho, o bem querer, o afeto.

O amor.

https://www.youtube.com/watch?v=Y3w-zjH3CuA

Homens despreparados que veem nas armas a solução para tudo.

E aí sim, ainda que possa parecer fácil de explicar por raciocínio elementar e indutivo, seria mais prudente recorrer à ajuda de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras para entender como homens tão primitivos conseguem seduzir tantas pessoas e fazer aflorar nelas instintos e sentimentos tão primitivos e bestiais com tamanha intensidade.

Freud explica?

O medo da inteligência e do saber

Por Ronaldo Souza

O presidente da república, guru do deputado federal do vídeo acima (conhecido como Hélio Bolsonaro, subtenente do exército e deputado federal mais votado do Rio de Janeiro), foi chamado de covarde por Fernando Haddad em plena campanha eleitoral por fugir dos debates e nada respondeu.

Não tinha como responder.

Ele se vê no espelho todos os dias.

Se o líder político de Hélio Bolsonaro foge do enfrentamento como o diabo foge da cruz, por que ele participaria de um debate, como insinuado pela repórter?

Quando o homem da janela fala em emprestar um livro de Karl Marx, a repórter da GloboNews só falta sair correndo.

E o que ele diz?

“Isso é Democracia…”

Não sabe o que é um (Karl Marx), muito menos o outro (Democracia).

Esse pobre coitado é a negação de tudo, inclusive dele mesmo, e não tem a menor ideia do que significa conseguir ser, como ele conseguiu, mais pobre coitado que o seu chefe.

Homens (!) assim carregam muito medo e, traídos pelo inconsciente, costumam se entregar, como ele o fez:

“… sobrinha que vota naquilo que ela acredita, fizeram Universidade…”

O medo é incontornável.

Sai lá de dentro, bem lá de dentro, sem que eles percebam.

O medo do saber e a inveja de quem o tem.

E, no caso dele, na própria família.

Como deve incomodar conviver com uma pessoa “que vota naquilo que ela acredita…”.

Por isso, os primeiro alvos a serem atacados são a inteligência e o saber.

Daqui por diante, entretanto, poderão ficar tranquilos.

Com a devida contribuição de determinado tipo de professor que anda por aí, talvez não restem no futuro muitas pessoas como a sobrinha do deputado Nelson Bolsonaro.

Com seus títulos vazios e inexpressivos, esses professores são na verdade técnicos, práticos com diploma nas mãos.

Reflexo da indigência intelectual deles, a Universidade deixará de ser o centro do saber, onde a liberdade de pensamento e expressão sempre foi o pilar maior do desenvolvimento.

Mas não passará a ser, como às vezes leio e ouço, um lugar de pensamento único.

Será um lugar onde não existirá pensamento.

Em momentos como esse, o pensamento não pode existir.

Escondam-no, matem-no.

https://www.youtube.com/watch?v=LO_xoq10gBs

Dessa vez, porém, diferentemente de um passado bem recente, não precisa mais jogar ninguém no fundo do mar.

Deixem os corpos.

Joguem as mentes.

Finalmente, encontraram a forma mais rápida de fazer isso; destruindo a Universidade.

É lá onde moram a inteligência e o saber.

O saber, poucas vezes tão bem representado como por Paulo Freire, brasileiro reverenciado em todo o mundo.

Nova York, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, aberta às diversas formas de pensamento, vai homenagear esse ilustre brasileiro. A instituição de ensino Exalt Youth, reconhecida pelo trabalho com crianças e adolescentes, vai inaugurar sede em Manhattan com sala de aula batizada com o nome desse pernambucano.

Aqui, ele é agredido e desrespeitado.

O presidente Bolsonaro quer revogar o título de patrono da Educação dado em 2012 a Paulo Freire.

Incansável na glorificação da ignorância, o mito não cansa de mitar.

Sob os aplausos de seus miquinhos amestrados.

Frase que, dita pelo Conje, ex-professor da Universidade Federal do Paraná, ex-juiz de direito e atual ministro da justiça, seria:

“SOBRE os aplausos de seus miquinhos amestrados”.

Os professores e doutorzinhos brasileiros estão de parabéns.

Universidades Federais: THE END?

UFPel

Prof. Dr. Pedro Rodrigues Curi Hallal, Reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

And in the end…
The love you take…
Is equal to the love you make…
The Beatles

Pensei muito para escrever algo hoje à noite. E pela segunda vez na vida, acabo recorrendo aos Beatles, que no final de sua brilhante trajetória, disseram que “no final, o amor que recebemos é igual ao amor que fazemos” (tradução livre). 

É preciso muita calma para compreender o que está acontecendo e planejar os necessários enfrentamentos de forma pacífica, mas efetiva. E quando digo enfrentamentos, não estou falando em guerra ou armas (reais ou fictícias) apontadas para inimigos imaginários, mas sim o enfrentamento de ideias entre pessoas que convivem em sociedade e que buscam o bem comum. 

Até por isso, é necessário deixar explícito que esse texto não abordará a polarização que divide o nosso país há vários anos. Convido a todos que acessarem a esse texto a se aventurarem a lê-lo com a devida atenção, analisando e refletindo sobre seu conteúdo, ao invés de simplesmente tentarem rotular seu autor. 

As Universidades Federais são um patrimônio da sociedade brasileira. Elas são responsáveis por 90% da produção científica do país, mesmo contando com apenas 20% dos alunos de ensino superior do Brasil. Só para citar um exemplo da UFPel, ajudamos a prevenir a morte de milhões de crianças no mundo por meio da descoberta de que a amamentação exclusiva até os seis meses de vida reduz o risco de morte infantil. Por essa descoberta científica, um professor nosso é cotado para receber o Prêmio Nobel. 

Assim, comparar o custo de um aluno numa Universidade pública com aquele de uma creche não apenas demonstra desconhecimento, como também demonstra desonestidade intelectual. Não é razoável imaginar que instituições responsáveis por 90% da produção científica do país tenham o mesmo custo que outras com enfoque exclusivo no ensino. 

As estruturas de ensino superior no mundo são bastante diversas. Entre os 20 países com os sistemas educacionais mais bem avaliados do mundo, vários possuem um sistema baseado em Universidades públicas e gratuitas, como Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega. Países como a Alemanha, a França e a Áustria possuem sistemas baseados em cobranças de taxas anuais baixas. Realmente, em outros países, como a Coréia do Sul, o Japão e os Estados Unidos, o ensino superior é predominantemente pago. 

Desta forma, é fácil concluir que um país não está fadado ao sucesso ou ao fracasso educacional apenas com base na cobrança ou não de mensalidade nas Universidades. Ao contrário, o que leva um país a ter bons indicadores educacionais é investir nas suas Universidades, caminho exatamente contrário ao adotado no Brasil atualmente. 

Por todas essas razões, é inadmissível o ataque que as Universidades Federais vêm sofrendo recentemente por parte do Governo Federal e mais especificamente do Ministério da Educação. Nessa semana, nosso já apertado orçamento foi subtraído em 30%. Pior, o próprio Ministério da Educação informa, por meio de nota à imprensa, que, caso a Reforma da Previdência seja aprovada, o corte no orçamento pode ser revisto. 

Ora, não é preciso amplo conhecimento de economia, orçamento e finanças para compreender que: (a) o orçamento de 2019 das Universidades Federais foi definido em 2018, prevendo a arrecadação do país com as regras vigentes à época; (b) qualquer eventual receita extra gerada pela Reforma da Previdência será refletida a partir do exercício posterior a sua aprovação, ou seja, 2020, caso o projeto seja aprovado em 2019.   

O Governo Federal tenta distorcer a realidade do que ocorre nas Universidades Federais, numa tentativa desesperada de jogar a população brasileira contra suas Universidades. Primeiro, o Governo Federal demonstra ignorância ao desconhecer (ou fingir desconhecer) que mais de 90% do conhecimento científico produzido no país é oriundo das Universidades Federais. Depois, o Ministério da Educação impõe uma censura orçamentária a três Universidades Federais por supostos atos de “balbúrdia” no ambiente universitário, medida que é revogada em menos de 24 horas, para evitar uma óbvia condenação por improbidade administrativa. 

Sr. Ministro, venha passar uns dias na UFPel. Venha assistir as aulas que fazem com que nossos 96 cursos de graduação venham sendo avaliados com notas 4 ou 5 em todas as avaliações do MEC. Venha conhecer as quatro unidades básicas de saúde administradas pela UFPel em Pelotas. Venha conhecer o único hospital 100% SUS da cidade. Venha visitar centenas de projetos de extensão, que aproximam a comunidade da UFPel. Venha almoçar no nosso RU, andar no nosso transporte de apoio, conhecer a nossa moradia estudantil. Certamente, o Sr. notará que o nosso cotidiano não é de balbúrdia. 

É imperativo lembrar que o Governo Federal foi eleito há quase um semestre e já está governando há mais de quatro meses. Já está mais do que na hora de encerrar de vez o processo eleitoral e iniciar a administração do país. E certamente administrar o país significa tratar com seriedade a pauta da educação. 

Por fim, peço a comunidade da UFPel que se mobilize, de forma pacífica, para dizer “não” aos cortes propostos pelo Governo Federal. Lembrem que:

And in the end…
The love you take…
Is equal to the love you make…

Engravidando pelo ouvido

BolsonaroMoro

Por Ronaldo Souza

A sociedade, aquela que Elis Regina canta como “High Society”, da qual fazem parte, ou imaginam fazer, os doutores, altera o uso das palavras conforme o seu charme e finesse.

Assim, minha mulher se transforma em minha esposa, mais fino e elegante.

Cônjuge em conje.

Opa, perdão, cometi um erro.

Conje só é utilizado por um grande orador brasileiro, um grande tribuno, um ex-juiz de direito “reconhecido” pela sua inteligência e cultura e ridicularizado na sua mediocridade ao tentar passar por grande leitor de biografias no programa de Pedro Bial.

Parir se transforma em dar à luz.

Não, não, Paris é Paris mesmo, mas se puder fazer um biquinho e dizer “Parrir”, é a glória.

Mas tem que fazer biquinho.

Treine primeiro com Côte D’Azur.

Depois ensaie bastante com Cointreau, um pouquinho mais chato de pronunciar.

Entre os animais a palavra é prenhe (a cachorra está prenhe, a gata está prenhe), mas entre aqueles tidos como racionais é grávida.

Dizer-se-ia (lá vou eu de novo com o imperador anterior ao atual), portanto, emprenhar.

“Quando a sua filha emprenhou?”

Esqueça.

Eu, que não sou bobo, no fundo, no fundo (lá deles), quis aproveitar o português dos finos e sofisticados para chamar a atenção para dois momentos de grande fineza e sofisticação de membros da nossa atual nobreza política, particularmente no que toca à inteligência e sensibilidade deles:

Onyx Lorenzoni e Flavio Bolsonaro.

Do primeiro, apesar de acreditar que sim, confesso que não posso afirmar, mas quanto ao segundo, trata-se de uma característica de família.

Sim, falo da intelectualidade.

Onyx Lorenzoni (ministro da casa civil), que já foi flagrado em momentos diferentes de… “descuidos” ao tratar com dinheiro público, disse que a roubalheira que domina o país hoje é culpa do PT.

Ponto.

Por sua vez, Flavio Bolsonaro (ministro de todas as casas), um homem admirável pela capacidade de ter muitos amigos, todos de reconhecida conduta ilibada, disse que a crise na Venezuela é culpa do PT.

Ponto.

Esclareça-se que esses “pontos” são finais.

Quem ousaria retocar algo dito por esses dois ilustres membros da mais fina flor da nossa sociedade?

Ícones da inteligência e do conhecimento do Brasil atual, os dois sabem muito bem o que estão dizendo, porque estão dizendo e para quem estão dizendo.

É invejável o fasc… opa, quase, fascínio que exercem sobre as manadas das avenidas paulistas Brasil afora.

Sabem que não podem mantê-las sem o controle de adequada ração.

Absoluto rigor no tempo e na dosagem.

Prescrição de uso diário.

Por isso, não usei como título do meu texto a expressão mais popular, a que todos conhecem; “emprenhando pelo ouvido”.

Aqui não cabe o popular.

Apesar de soar esquisito, “Engravidando pelo ouvido”, usei esse título numa tentativa, provavelmente vã, de, pelo menos por alguns minutos (o tempo que escrevi este texto), ser o mais fino e sofisticado possível e assim me imaginar entre eles.

Sonho dos sonhos.

O imperador e o professor

Professor imperador

Por Ronaldo Souza

Há algum tempo circulou nas redes sociais uma mensagem que diz que todos os japoneses têm que se curvar diante do seu imperador, menos um; o professor.

Na verdade, essa mensagem circula de vez em quando.

Muitas coisas podem ser ditas sobre isso.

A primeira é que tratar-se-ia, como diria o último imperador do Brasil, anterior ao atual, de uma tradição cultural daquele país. E todas as tradições e costumes de um povo, seja ele qual for, devem ser respeitadas.

A segunda coisa a se considerar é que a mensagem não é verdadeira.

Todos os homens e mulheres se curvam sim diante do imperador, mas nesse todos estão incluídos os professores; o Imperador do Japão não se curva diante de nenhum homem ou mulher.

Ressalve-se que o professor é, se não a mais, uma das categorias profissionais mais respeitadas em todas as sociedades civilizadas, inclusive, claro, a japonesa.

É interessante notar que, apesar de não ser verdadeira, os professores tiveram o devido cuidado de tornar maior a circulação da notícia em questão.

O professor quis chamar a atenção para a conveniência do quase fato e nada é melhor do que a conveniência.

É conveniente ser conveniente.

Nenhum homem deveria se curvar diante de outro, seja ele imperador ou não.

Nada justifica isso.

Entenda-se que, por razões diversas, homenagens e reverências devem existir. Há um simbolismo nesse processo.

Insisto, para não deixar dúvidas, respeitem-se as tradições de cada país.

Aliás, o que já é feito com deleite e admiração por determinados segmentos da nossa sociedade quando se trata de algumas culturas em particular, como por exemplo a própria japonesa e a inglesa, diante da sua Família Real.

De uma certa forma isso pode ser explicado por uma expressão criada por Nelson Rodrigues e citada por um sábio (não é professor) da política brasileira nessa semana que finda; “complexo de vira-latas”.

Nenhum homem deveria se curvar diante de outro, mas, caso existisse esse homem diante do qual todos deveriam se curvar, este seria o professor.

Talvez nenhum outro.

Enumerar as razões para isso seria um exercício de pouca imaginação, o que não farei.

Seja como for e independente de opiniões pessoais e mesmo tradições culturais, pode-se imaginar a importância do professor em uma sociedade, qualquer que seja ela.

Dia do Trabalhador

Hoje é o Dia do Trabalhador, uma data da mais alta importância, razão pela qual festejada em todo o mundo.

Um dia criado para cravar a importância daquele que é a alma de um país.

Seja com festa, para festejar as conquistas, seja com protestos, para protestar contra as injustiças, um dia especial.

Um dia que não pertence ao profissional liberal.

Ele não se vê trabalhador.

No reino da meritocracia, a sua carteira profissional, por exemplo, deixa bem clara a sua merecida distinção; ele é um doutor.

Para dar um só exemplo, ele não pode ser preso em cela comum, misturado com todos.

Que objetivo têm as distinções que criamos para nós, seres privilegiados e predestinados?

O de nos fazer seres… distintos.

O profissional liberal, o doutor, enquanto professor (eles acham o máximo falar assim), tem carteira assinada?

Tem ou não tem?

“Enquanto professor”, ele está liberado para determinar as suas ações, ou subordinado a uma hierarquia à qual deve satisfações?

Mas, como uma vez disse um juiz de direito (não há erro de digitação) na sua peculiar sensibilidade, “na sua cabecinha” o doutor continua se vendo um profissional liberal.

Vendo-se ou não trabalhador (“enquanto” professor), é a esse professor que dedico o dia de hoje.

Dedico não só o dia de hoje, mas todos os dias, semanas, meses, anos e décadas que estão por vir, aos professores que de dentro do seu mundo particular e inatingível, o do ser professor diante do qual se curvariam todos os imperadores, por deixarem como legado para os nossos filhos e netos o futuro que já se apressou em se apresentar como presente.

Parasitas de uma sociedade que, admiradora dos seres diante dos quais até o imperador do Japão se curvaria, em boa parte se deixou levar pelas orientações e ensinamentos dos donos do saber que, do alto dos altares destinados aos deuses, a todos levaram de roldão, inclusive os seus incultos e incautos alunos, numa cruel, covarde e avassaladora corrente, que desagua nesse oceano de preconceitos, ódio e estupidez em que se transformou o Brasil.

A catástrofe anunciada em plena campanha eleitoral pelos homens que tomaram de assalto o país e o fazem com volúpia incontrolável com o ensino brasileiro aumenta ainda mais a perplexidade que começa a tomar conta da sociedade, que agora sente na pele a dor e a amargura de ter feito parte desse processo.

Mesmo não sendo trabalhadores, porque nos seus pequenos orgasmos se veem somente como profissionais liberais, o dia de hoje, o Dia do Trabalhado Brasileiro, deve ser dedicado a esses professores.

Professores que no seu atual habitat, as redes sociais, tentaram chamar para si a glória da reverência do curvar-se diante deles.

Não poderia haver ambiente mais adequado para quem hoje não alcança a dimensão do que é ser professor e nada mais almeja além da notoriedade fugaz dos tolos.

Foram pequenos, muito pequenos.

Pequenos continuarão.

Por que o futebol iria escapar?

Felipe Melo, realmente uma fera

Por Ronaldo Souza

Li na manhã dessa segunda-feira, 29/04:

“Jogamos muito abaixo, a gente sabia que seria difícil jogar aqui, por causa do calor. Mas não é desculpa, a gente sabe que tem a melhorar”.

Os jogadores do Corinthians são uns privilegiados.

Todos devem ter nascido em São Paulo, portanto, são paulistas, só jogam em São Paulo, e por isso estranham as coisas que existem no Brasil, como por exemplo, o calor.

De repente, é possível que algumas coisas só existem no Brasil, em São Paulo não.

Por isso, torna-se mais fácil compreende-los quando dizem que a gente sabia que seria difícil jogar aqui.

Fico imaginando o quanto deve ser difícil jogar fora de São Paulo.

“Rio, 40 Graus” é um filme de Nelson Pereira dos Santos, que retrata “um dia na vida de cinco garotos de uma favela que, num domingo tipicamente carioca e de sol escaldante, vendem amendoim em Copacabana, no Pão de Açúcar e no Maracanã”.

O filme foi censurado pelos militares. O argumento utilizado foi brilhante, o que não surpreende. Segundo notícias da época, o censor e chefe de polícia teria argumentado que “a média da temperatura do Rio nunca passou dos 39,6°C”.

“Jênios”.

“Jênios”.

Como se o “40 graus” do título do filme fosse…, oh, me poupe.

Na sinopse do filme está “… vendem amendoim em Copacabana, no Pão de Açúcar e no Maracanã.”

Ainda que o filme não deseje se reportar aos 40º do calor do Rio, coisa que só “eles” imaginaram (?), o diretor aproveita um “domingo tipicamente carioca e de sol escaldante” para vender amendoim.

E entre os locais onde os cinco garotos da favela foram lutar para ganhar uns trocadinhos para ajudar no sustento da família estava o velho e saudoso Maracanã.

Nada mais típico de um dia no Rio de Janeiro que um “domingo tipicamente carioca e de sol escaldante” no Maracanã.

Procuro me lembrar se os jogadores do time de São Jorge (o guerreiro padroeiro do Corinthians) já jogaram alguma vez ou eventualmente jogam no Rio de Janeiro.

Ou, se o fazem, fazem-no somente no inverno, no conhecido, rigoroso e insuportável inverno do Rio de Janeiro.

Algum dia os veremos jogar naquela cidade e dizerem que “a gente sabia que seria difícil jogar aqui, por causa do calor” ou isso é reservado a cidades como Salvador, Recife, Fortaleza…?

Méritos não existem nessas cidades, muito menos nos seus times de futebol, que expliquem as suas conquistas; só o calor dos infernos.

A notícia do calor broxante para os jogadores do Corinthians é complementada por essa abaixo:

Os jogadores do Corinthians reconheceram que a semana com decisões pelo Campeonato Paulista e pela Copa do Brasil contribuíram para o alto número de erros e a queda de rendimento do time no segundo tempo da derrota para o Bahia por 3 a 2, neste domingo (28), na Arena Fonte Nova, em Salvador, pela estreia no Campeonato Brasileiro.

Como também é possível que as notícias do Brasil não cheguem em São Paulo, talvez fosse interessante a imprensa nativa informa-los que o Bahia, time que, talvez não saibam, ganhou do Corinthians, também participou de decisões pelo Campeonato baiano e pela Copa do Brasil.

Apesar do calor que faz aqui, que poderia afetar os nossos neurônios e quem sabe dificultar a nossa capacidade de pensar, entendemos que o Campeonato Paulista exigiria maior esforço do Corinthians no confronto com adversários do que o Campeonato Baiano exige do Bahia.

Talvez se deva salientar, entretanto, que a relatividade das coisas é conhecida, o que deveria nos ensinar a proporcionalidade existente entre elas.

Por tudo que se conhece do futebol, como por exemplo as cotas da televisão recebidas pelos clubes, há algumas condições que alteram de forma significativa a capacidade financeira de cada um deles.

Assim, as dificuldades que o Bahia encontra ao enfrentar os seus adversários no Campeonato Baiano devem ser proporcionais a aquelas enfrentadas pelos times de São Paulo no seu campeonato.

Além disso, o Bahia também participa da Copa do Brasil que, até onde sabemos, é a mesma usada pelos jogadores do Corinthians para justificar o alto número de erros e a queda de rendimento do time.

Portanto, a argumentação de que os jogadores do Corinthians reconheceram que a semana com decisões pelo Campeonato Paulista e pela Copa do Brasil contribuíram para o alto número de erros e a queda de rendimento do time também pode ser utilizada pelo tricolor da outrora “Boa Terra” e agora do infeliz e insuportável calor, para dizer que se não fosse o calor o Bahia jogaria melhor ainda, tendo em vista que muitos dos seus jogadores não são baianos (na verdade, a maioria) mas, nesse momento, têm a infelicidade de aqui jogar.

Em tudo isso, nenhuma surpresa.

Não seria o futebol, sempre tão convenientemente atrelado aos aspectos sócio-políticos nesse país e justamente por isso tão explorado e mal gerido, que iria escapar do FEBEAPÁ* (Festival de Besteira que Assola o País), que nos últimos tempos dita as regras no Brasil.

* Livro escrito por Stanislaw Ponte Preta, jornalista e escritor carioca, cujo nome verdadeiro era Sérgio Porto.

A essência do ser professor

Professor

Por Ronaldo Souza

Sempre que ouço falar em sucesso, de alguma forma ele está atrelado ou é atribuído a materiais ou instrumentos.

Para usar como exemplo, o grande objetivo do tratamento de um dente com rizogênese incompleta deve ser permitir que ele complete a sua rizogênese.

O conhecimento e prática da Endodontia no tratamento de casos de rizogênese incompleta com polpa viva pedem que procedimentos que visem a preservação do tecido pulpar na sua plenitude ou o mais próximo possível disso sejam os escolhidos. 

Oferecer as condições mais favoráveis para que a polpa desempenhe o seu papel, no caso específico, formação de dentina radicular, é o grande papel do profissional da Odontologia, particularmente do endodontista.

Nos casos de rizogênese incompleta com polpa necrosada, a apicogênese não mais será possível.

O objetivo do tratamento deverá ser então o controle de infecção para que se dê a apicificação (fechamento apical), impossibilitada de ocorrer pela paralisação da rizogênese.

Dessa vez, isso se dará às expensas dos tecidos periodontais.

É da maior importância que o aluno de Odontologia aprenda que em uma ou na outra situação, tratamento da rizogênese incompleta com polpa viva ou polpa necrosada, cabe aos próprios tecidos do organismo desempenhar esses papeis.

Será da polpa o grande papel de permitir a continuação da rizogênese.

Nenhum material fará isso por ela.

Da mesma maneira, cabe aos tecidos periodontais promover o processo de reparo da patologia periapical.

Nenhum material fará isso por eles ou, pior ainda, melhor do que eles.

Tecidos do corpo humano são formados por células do corpo humano.

E em nenhum momento essas células deixam de existir e desempenhar seu papel; elas são continuamente formadas e não param de trabalhar.

Mas ainda que sejam continuamente formadas, elas podem ser “impedidas” de cumprir os seus papéis pelo trinômio -morte celular, necrose tecidual, infecção.

Cabe ao bom endodontista, ao remover o conteúdo necrótico através de um bom preparo do canal, exercer o controle de infecção

Tendo recuperado as melhores condições para que as suas células continuem formando os tecidos, será o organismo do paciente o grande responsável pela resolução da patologia instalada.   

Alguém poderá dizer que é assim que se ensina.

Não é.

De forma velada ou não, mecanismos de indução são acionados nesses momentos.

Não será, por exemplo, o MTA, ou qualquer outro material, o responsável pela formação de tecidos do corpo humano.

Não será, portanto, o MTA, ou qualquer outro material, o responsável pela formação do tecido que irá entrar em processo de mineralização e na sequência dos acontecimentos promover o fechamento apical.

Da mesma maneira, não será o cimento obturador, seja ele qual for, o responsável pelo reparo nos tratamentos endodônticos.

Não será.

A nenhum material cabe esse papel.

Determinados materiais podem, isso sim, contribuir, mas, deles, não depende esse processo.

Professores que viajam de um canto ao outro desse país deveriam ter mais cuidados.

Sair por aí, por esse Brasil afora fazendo a apologia de materiais e instrumentos não é conduta recomendável ao professor.

Afinal, eles são professores.

Por mais sedutor que seja o mundo que pode se descortinar à sua frente, o ser professor o torna diferente.

Referência, sem dúvida.

Mas é justamente o tornar-se referência que o deixa muito exposto, ainda que não o perceba.

Invertendo a ordem do que se costuma dizer, não há bônus sem ônus.

A apologia de materiais, sejam eles quais forem, não deveria ser a matéria prima do professor.

É o conhecimento técnico/científico que gera a boa informação.

Mas é o objetivo de vida de cada professor e de cada professora que gera a verdadeira formação.

Os nossos alunos são o que de melhor podemos oferecer à sociedade para a qual trabalhamos, nessa nobre missão de ser professor.

Sociedade que caminha para o aprendizado da observação mais astuta, como resposta às tantas vezes em que é enganada.

Não podemos perder isso de vista.

Se não tiverem alguns cuidados, professores, não demorará muito e serão identificados como mercadores.

E isso não será bom.

Cérebros disfuncionais

 Homer Simpson cérebro

Por Ronaldo Souza

Há coisas que não se explicam.

Quer um exemplo?

Como explicar a imortalidade de Merval Pereira?

Não, não falo da sua eterna presença como um dos principais jornalistas da Globo.

Falo de Merval Pereira ser membro da academia brasileira de letras.

Repito, Merval Pereira é membro da academia brasileira de letras, portanto, um imortal.

Não consigo imaginar um homem irrelevante, que fala e escreve mal e errado, cuja “obra literária” não tem nenhuma relevância, razão pela qual sequer é citada, pode fazer parte da Academia de Letras de um país.

Não foi por outra razão que neste momento escrevi academia brasileira de letras em letras minúsculas.

Às vezes chego a pensar que, na verdade, eles são tão “jeniais” que o que dizem e escrevem está acima da minha compreensão.

E aí, claro, o que me resta?

A depressão.

Daqui do meu escritório, na janela, olhando as árvores, fico meditando e fazendo para mim mesmo o mais cruel dos questionamentos:

Onde foi que errei?

Mas, isso, ainda é pouco.

Ricardo Amorim, comentarista do Manhattan Connection, programa da Globo, disse há algum tempo que “só três coisas” funcionam em Cuba: segurança, educação e saúde

Quando um jornalista que faz parte da toda poderosa Globo, uma empresa de comunicação que arrebanha milhares de pessoas em manifestações na luta contra a corrupção (bastaria isso para se perceber a enorme farsa que se nos apresenta todos os dias) diz que “só três coisas” funcionam em Cuba; segurança, educação e saúde, ele não pode ser mais imbecil.

Segurança, educação e saúde!!!

Gente, o que um país pode oferecer ao seu povo melhor do que isso???

Passagens para Miami.

Só se for isso.

Um país desse “tamaninho” como Cuba, com embargo por tudo quanto é lado, literalmente bloqueado por vários países amigos do nosso irmão do Norte (agora mais do que nunca), consegue dar ao seu povo segurança, educação e saúde, esse jornalista não poderia ser mais… Merval.

E é esse Merval e programas como o Manhattan Connection que fazem a cabeça de um bocado de gente, que não consegue perceber mais nada, porque também essas pessoas se mervalizaram.

Fica mais fácil entender a imortalidade de Merval Pereira.

Mas, nesses últimos tempos, muitos, muitos, muitos mais se mervalizaram.

Não, por favor, não inclua o presidente Bolsonaro.

Ele já nasceu assim e talvez não tenha culpa por ser a anomalia que é.

Mas pode pôr os seus eleitores, todos mervalizados.

Entre os Mervais, está Sérgio Moro.

Sei que muitos ficam chocados e devem me imaginar um tolo pretensioso e pedante quando digo que o ministro Moro representa a burrice e a ignorância personificadas.

Entre tantas asneiras que já disse e diz, como pode um juiz de direito chamar Câmara dos Deputados de “Câmera” dos Deputados.

E, pior.

Incansável, ele sempre se supera.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=ZEiTn5cLIMY

CONJE!!!

CONJE!!!

Superou Merval fácil, fácil.

“Jênio”.

Por favor, não me peça para comentar sobre seus admiradores.

Não me cause esse constrangimento.

O que estamos fazendo?

Ampliação foraminal 2

Por Ronaldo Souza

Às vezes tenho a nítida impressão de que estamos cedendo demais e é daí, pelo menos assim vejo, que vem a perda de qualidade de muito do que estamos fazendo.

Fala-se muito hoje de uma geração que…

Fala-se muito, mas, paradoxalmente, de forma velada.

A verdade é que isso mostra outra faceta desse processo; estamos todos com medo.

Medo de desagradar ao amigo, ao colega, ao professor, ao aluno…

As instituições estão com medo, inclusive as de ensino.

O medo ronda e reina.

Há um que se impõe a olhos vistos; desagradar às novas gerações.

Todos dizem baixinho, sussurrando, para que ninguém ouça, que a geração atual não lê. O seu descomprometimento, impaciência, dispersão, tudo é falado.

Não para eles.

Medo.

Calamos.

Ninguém mais quer ler, ouvir, saber.

Mas tudo agora é sermão.

Traga técnica, não riqueza de conhecimento, para a aula.

E aí percebeu-se que vídeos eram a ferramenta adequada.

Práticos, confortáveis, não exigem esforço.

Daí essa grande enxurrada existente hoje.

ATENÇÃO!!!

Não podem ser longos.

Exigem esforço.

Tornam-se cansativos.

Dão hoje ao professor 20 minutos para falar nos eventos!!!

O que dizer em 20 minutos?

O que fazem eles?

Aceitam.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”.

A vitrine é necessária, o ensino não.

O fragmento, não o contexto.

A informação incompleta e medíocre, não o pleno.

Ah, quase esqueço.

Tudo isso me veio, numa rapidíssima viagem com origem na mente, no momento em que sentei para dizer “duas ou três palavras” sobre o vídeo que tinha acabado de postar no YouTube (está aí embaixo).

“Duas ou três palavras”, rapidinho, para falar de um vídeo que tem muito mais que “duas ou três palavras”.

Sei que todos dizem que vídeos longos são contraindicados para a Internet, perdem o poder de sedução.

Praticidade, rapidez, pragmatismo, come rápido, vamos embora.

Sem que eu percebesse, quando me dei conta estava escrevendo “coisas” que estavam em algum canto da mente há algum tempo.

Desejo contido?

Medo?

Talvez.

Mas não costumo ter medo de satisfazer aos meus desejos.

Talvez um defeito da minha geração.

Que sempre lutou por seus sentimentos e pela liberdade de pensamento e expressão.