“O mundo é um lugar ruim para viver…”

Rio

Por Ronaldo Souza

Nem sei se ainda se usa essa expressão e se ela pode ser usada aqui, mas não navego nas redes sociais.

Quando faço as postagens dos meus textos costumo ir na “Página inicial” do Face Book para conferir se está tudo certo, se o link para o site está funcionando e aí saio; é hábito desde quando comecei a fazer postagens.

Quando posteiMulheres da vidaontem (09.01) pela manhã, fiz isso.

Ao fazer, notei que logo abaixo da minha estava uma postagem feita pelo professor Wantuil.

Wantuil Rodrigues Araújo Filho, este é o seu nome.

Já fui inúmeras vezes ao Rio nesses últimos mais de 40 anos, pois, além de ter ido lá algumas poucas vezes antes, desde quando casei ia pelo menos a cada 2 anos, para passar Natal e Reveillon com a família da minha mulher. Era um ano aqui em Salvador, outro lá.

Digo ia porque com a morte recente dos pais dela, isso mudou um pouco.

Ela continua indo de vez em quando por causa das irmãs, eu, não.

Apesar disso, nunca tive amigos no Rio de Janeiro além dos meus concunhados.

É comum dizer-se “Freud explica”.

Mas não preciso de Freud para explicar.

Afinidades e empatias não são obrigatórias; existem ou não.

E relações profissionais não significam e não devem significar necessariamente amizades que surgem. Essas relações muitas vezes não têm a consistência que poderiam ter.

O tempo, senhor de tudo, se encarrega de nos orientar.

Ambas, amizade e relação profissional, têm razões que só a alma e o coração conhecem.

Wantuil mora no Rio.

Só estive pessoalmente com ele uma única vez (e não foi lá) e nos falamos por telefone cerca de 4 ou 5 vezes, acho que não mais do que isso.

Uma dessas vezes foi para lhe pedir um favor, que foi atendido com a maior gentileza do mundo.

A postagem dele, foi o vídeo abaixo.

Vi o vídeo.

Como me fez bem.

Poucas vezes me senti tão tocado.

A música é ali dos anos 1970, quando para mim ainda se misturavam o final da adolescência e o início da fase adulta.

The Marmalade, a música, a gravação, a minha vida, tudo se misturou naquele momento inexplicável de grande emoção em que senti a insuportável leveza da beleza da vida.

“Insuportável leveza da beleza da vida” numa música que diz “the world is a bad place, a bad place, a terrible place to live…”?

Sim.

Porque em seguida vem “oh, but I don’t wanna die”.

É a beleza da poesia e do poeta.

Não se explica.

Mas por que aquela música “solta” me tocou tanto?

Só à noite entendi.

Recebi de outro amigo, este aqui de Salvador, uma mensagem no whatsapp com o mesmo vídeo falando da morte de Dean Ford, o cantor do The Marmalade.

Mais uma vez o coração se agitou.

E só aí tive a sensação de que algo estranho tinha acontecido.

De repente, pareceu-me que a música e as reminiscências que me vieram à mente traziam alguma mensagem.

Aquela postagem logo abaixo da minha pareceu então não estar ali à toa.

“Afinidades e empatias não são obrigatórias; existem ou não”.

Lembra que falei isso aí em cima?

Uma vez um amigo psicanalista me disse:

– Ronaldo, o mundo é sujo.

Com outras palavras, Dean Ford disse a mesma coisa; “o mundo é um lugar ruim para viver”.

Sim, o mundo é sujo e um lugar mau para viver.

“Oh, mas eu não quero morrer”, como diz o mesmo Dean Ford na sequência da música.

O poeta precisa nos provocar e assim nos chamar para a vida.

“As saudações de pessoas com problemas… oh, como elas enchem meus olhos…”, diz outro trecho da música.

Da dor das suas reflexões ele tira a beleza da essência das coisas.

E como estamos precisando dessa essência.

A morte pode significar a “insuportável leveza da beleza da vida”.

The Marmalade, a música, a gravação, a minha vida e agora aquela música “solta”, tudo parecia se misturar como que numa mensagem naquele momento inexplicável.

Aquele único contato pessoal que tive com ele, os outros por telefone e algumas coisas mais já tinham me dito muito dele e aparentemente eu não soube perceber.

Durante todo esse tempo existira uma pessoa com afinidades e empatias no Rio.

Wantuil.

Assim é a vida.

A vida como ela é, como diria Nelson Rodrigues, pernambucano-carioca apaixonado pelo Fluminense do Rio, o Rio de Wantuil.

Que é um Rio diferente.

Nele há mais poesia, mais beleza, mais sentimento.

Fiz questão de trazer a música como foi gravada à época em que foi um grande sucesso com o The Marmalade e que está no mix do vídeo lá em cima.

Que maravilha.

Estamos necessitados de beleza.

De poetas.

E amigos.

Abraço, Wantuil.

https://www.youtube.com/watch?v=xTeI65yrhGw

Mulheres da vida

Por Ronaldo Souza

Ainda lembro da minha alegria.

Era criança, quando saí com meu pai para comprar o presente de Natal de minha mãe.

Eu estava radiante e me sentia importante por acompanha-lo naquela nobre missão.

Da rua Antônio Pedro, onde morávamos, para a Rua D’Apolo, o principal “centro” comercial de Juazeiro (BA), andávamos cerca de 5 minutos. “Atravessávamos” somente duas ruas transversais para chegar lá.

Na noite de Natal, a alegria de minha mãe quando recebeu o presente não cabia dentro dela.

Imagino hoje que deve ter sido uma das suas “grandes” noites.

Uma enceradeira.

Esse foi o presente de minha mãe, uma mulher incrível.

A primeira com quem aprendi a respeitar e admirar a mulher.

Talvez você não imagine o que é uma enceradeira, por isso trouxe uma para lhe ajudar.

Enceradeira Arno

Não eram muitas as mulheres em Juazeiro que podiam ter uma.

A minha mãe podia.

Maravilha, não é mesmo?

Isso foi há cerca de 58 anos.

Esse era o modelo na época dos nossos pais e avós.

Bela ou não, a mulher tinha que ser recatada e do lar.

Vivia para o marido e os filhos.

Assim fez a minha mãe.

Feliz.

Literalmente.

Ainda que possível (quem sabe para algumas mulheres ainda é normal), é no mínimo difícil imaginar hoje uma mulher irradiando alegria por ganhar um eletrodoméstico como presente de Natal, seja uma enceradeira (ainda existe?) ou qualquer outro.

Muito além do jardim

Mas a mulher já sonhava com horizontes maiores.

O seu jardim já não era suficiente.

Saiu de casa e ganhou o mundo.

Foi conhecer a vida.

Viu e gostou.

E conquistou o que era seu; o direito de vive-la.

Fico pasmo quando vejo algumas mulheres tratarem o feminismo, e consequentemente as feministas, como algo a ser repudiado.

Mulheres que para terem filhas precisam que os seus machos deem uma fraquejada.

Vamos simplificar?

Feminismo é o direito da mulher de ser mulher, na sua plenitude.

A mulher é dona do seu mundo.

E do seu corpo.

Só sendo plena ela será livre, independente, por mais que isso assuste alguns homens.

Só se é feliz sendo livre.

Parece haver um medo (mal disfarçado) da independência da mulher.

Como sentir-se ameaçado por ver a mulher lutando para ser… mulher?

Da mesma forma que negros nunca foram tratados como gente e tiveram e têm que lutar por isso, por historicamente não terem sido tratadas como mulheres, elas tiveram e têm que continuar lutando cada vez mais por esse direito.

E nessa luta terão sempre o apoio do homem.

Do homem, não do macho.

Não desses protótipos que se espalham pelo país (alguns dos quais agora em cargos de governo) e não só ignoram como estimulam o feminicídio e o fazem explodir em sucessivos casos nos dias atuais.

Protótipos cujas mulheres sofridas cultivam no íntimo da sua infelicidade o desejo de ser mulher.

Pobres homens.

Pobres mulheres.

“Ei mulher, não abaixe a cabeça pra homem nenhum.
Seja e faça o que você quiser, não se prenda aos padrões sociais impostos por nossa sociedade machista.
Seja a mulher da sua vida!!”
Fernanda Lima

https://www.youtube.com/watch?v=67DLC0j8ZWE

O passado nos espera

Passado

Por Ronaldo Souza

Durante as manifestações que culminaram com o golpe que pôs Michel Temer na presidência, os eleitores de Aécio Bolsonaro chegaram a pedir muitas vezes “intervenção militar democrática”.

???

Se alguém souber explicar o que é isso, por favor fique à vontade.

Essa e tantas outras coisas ditas por eles deixavam bem claro que estava em processo a ascensão fulminante e irresistível do idiota, como bem descreveu Paulo Nogueira Batista Jr., economista e ex-diretor do FMI, em Os falsos idiotas.

Já tive oportunidade de dizer aqui que se todos os idiotas percebessem que são idiotas, haveria um suicídio coletivo em larga escala.

Como é impossível que o idiota perceba alguma coisa, é claro que esse suicídio coletivo jamais aconteceu ou acontecerá.

Como também é claro que, por razões óbvias, nunca desejei esse suicídio.

A constatação do fenômeno não me leva necessariamente a desejar que ocorra. Até porque o mundo tem seus pesos e contrapesos e é isso que permite o seu “equilíbrio”.

Recorro novamente a Paulo Nogueira Jr.

“De repente, tudo mudou. O idiota descobriu o próprio peso e desencadeou-se por toda parte com força brutal. Passou a publicar, dar entrevistas, gerir empresas e – o que é pior – ocupar cargos públicos da maior importância. Isso foi, como dizia, no século passado.”

O mundo azul e rosa dos mentecaptos

Quem poderia acusar Hitler de idiota?

Negar-lhe inteligência?

Não, muito menos a quem estava ao seu lado; Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha nazista, um gênio da comunicação e o grande mentor do regime.

Não é muito preciso o tempo que durou o império nazista. Teria sido de 1933 a 1945, 12 anos, portanto.

Por mais tempo durou o Fascismo de Mussolini na Itália, 23 anos (1922-1945).

O primeiro existiu por um tempo bem menor que a ditadura brasileira; 21 anos (1964-1985). O segundo, um pouco mais.

O Salazarismo, regime também fascista, sem dúvida, foi o mais longo deles (1933-1974). Foi deposto pela “Revolução dos Cravos”, um momento de grande beleza e riqueza da história do povo português.

Considerando-se todas as proporções e possibilidades de cada momento na história, pode parecer que não cabem comparações com a ditadura brasileira.

Não é bem por aí.

Não se trata de comparar, por exemplo, a dramaticidade das condições e quantidade de mortes do nazismo e a ditadura brasileira.

Trata-se tão somente de traze-los para um contexto e nesse sentido existiria pelo menos uma coisa a unir esses momentos.

Parece não haver dúvidas de que em todos eles a humanidade deu passos para trás.

Da mesma maneira, é certo que haveria menor semelhança ainda com a atual situação do Brasil, a começar pelo fato de não haver como comparar os líderes dos dois momentos.

Hitler, por si só, e seu mentor intelectual, Goebbels, um homem de inteligência e intelectualidade inegáveis.

Quem teríamos em cargos equivalentes no momento que estamos vivendo para comparar?

Bolsonaro e Olavo de Carvalho (mentor do atual governo).

Sem chances.

https://www.youtube.com/watch?v=NZWKScoj3s0

Dispensam-se comentários.

“Duas coisas não têm limites: o universo e a estupidez humana”.
Einstein

Bolsonaro, armas e automóveis

O que disse recentemente um dos mais ativos ministros do novo governo e um dos seus consultores, o general Augusto Heleno?

“A posse da arma, desde que seja concedida a quem está habilitado legalmente, e essa habilitação legal virá por meio de algum instrumento, decreto, alguma lei, alguma coisa que regule quem terá direito à posse da arma, ela se assemelha à posse de um automóvel. Está em torno de 50 mil (o número) de vítimas de acidente de automóvel. Se formos considerar isso, vamos proibir o pessoal de dirigir. Ninguém pode dirigir, ninguém pode sair de casa com o carro, porque alguém está correndo o risco de morrer porque o motorista é irresponsável.”

Há como manter um diálogo minimamente inteligente diante disso?

“A nossa bandeira jamais será vermelha”

Tudo para eles é binário.

Ou é azul ou é rosa.

https://www.youtube.com/watch?v=6myjru-e81U

A incapacidade que exibem todos os dias não vai permitir que enxerguem qualquer coisa nesse panorama de tamanha complexidade que vivemos atualmente.

É difícil de acreditar que algo tão patético quanto “A nossa bandeira jamais será vermelha” teria alguma chance de se tornar o lema de qualquer coisa que fosse.

Exibem da forma mais despudorada possível o quanto são medíocres e ridículos.

Fazem-no por conhecerem muito bem a plateia para quem falam.

Um dos textos recentes do sociólogo e professor Celso Rocha Barros tem como título a expressão “Nunca fomos tão repulsivos”. Nele, Celso Barros faz uma crítica contundente às elites brasileiras.

Viver nos dias de hoje, século XXI, 2019, 30 anos depois da queda do Muro de Berlim, com coisas como “A nossa bandeira jamais será vermelha” é assumir; nunca fomos tão medíocres.

Vamos lá.

O que pode ser mais emblemático do que o “Outubro Rosa”, movimento que pretende chamar a atenção para a luta contra o câncer?

Nessa luta, os monumentos Brasil afora foram iluminados com a cor rosa, representação do “Outubro Rosa”.

Assim foi, por exemplo, com a Catedral de Brasília.

Veja o que eles conseguiram fazer.

Inoculados com o vírus da estupidez, os bolsonaristas confundiram o “Outubro Rosa” com comunismo e, na sua incapacidade de ver as coisas, destilaram todo o seu ódio.

Eles são os passos para trás que nesse momento dá o nosso país.

O atraso será gigantesco.

Recorro novamente a Paulo Nogueira:

“O que temos, hoje, não é mais a ascensão do idiota, mas o seu completo e indiscutível triunfo”.

Se alguém ainda duvida é só olhar para o primeiro dia do ano.

“Macdonaldização da Escola”

Identidade'

Cumprindo metas

Por Ronaldo Souza

Não há um título no texto abaixo de Silvana Tuleski.

Fui eu que coloquei “Macdonaldização da Escola”, mas ressalvo que a expressão foi retirada do próprio texto, como você verá.

Trata-se de um editorial de “Psicologia em Estudo”, periódico do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá.

É um artigo muito interessante que trata de uma grave distorção do ensino brasileiro atual, da qual poucos conseguem escapar.

Nesse cenário, o professor se acomoda e cumpre a função de “ensinador”. Não mais uma presença marcante e definidora de rumos, mas um vulto.

Também ele está em busca de resultados.

Ele agora tem metas e interesses bem definidos.

Assim todos se veem produzindo, num “enorme campeonato, no qual o indivíduo mais produtivo na lanchonete recebe prêmios que vão desde o quadro com a fotografia destacado na parede até…”, como define Silvana Tuleski.

Leia e reflita.

Vale a pena.
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Macdonaldização da Escola

Por Silvana Tuleski

A árvore que não dá fruto
É xingada de estéril.
Quem examinou o solo?

O galho que quebra
É xingado de podre, mas
Não haveria neve sobre ele?

Do rio que tudo arrasta
Se diz que é violento
Ninguém diz violentas
As margens que o cerceiam.
(Bertold Brecht).

A partir do poema de Brecht percebemos que lidar com a palavra é sempre uma arte, podemos dizer que é a arte de tecer significados. Por exemplo, quando tomamos a palavra “ilusão” e verificamos no dicionário seu significado, encontramos as seguintes definições: 1. Engano dos sentidos ou da mente, que faz tomar uma coisa por outra; 2. Sonho, devaneio. Por outro lado, quando tomamos a palavra “óptica” temos as seguintes definições: 1. Parte da física que trata da luz e da visão; 2. Casa onde se vendem e/ou fabricam instrumentos ópticos; 3. Maneira de ver, de julgar, de sentir. Quando, por outro lado, unimos as duas palavras na expressão “ilusão de óptica”, poderíamos combinar e recombinar tais significados, pensando que se trata de uma “enganação dos sentidos ou da percepção visual”, ou talvez um “olhar que se satisfaz somente com a aparência das coisas”? No primeiro significado da expressão podemos pensar no objeto de investigação da Física, da Medicina em uma de suas especialidades como a Oftalmologia, e no segundo significado podemos adentrar o mundo das ciências humanas, como as Ciências Sociais, a Psicologia e outras.

Não obstante, para tecermos os significados, como para qualquer tecelão, é necessário o instrumento real, objetivo e concreto, que pode ser desde o tear mais simples até a máquina mais moderna. No caso do escritor o instrumento é a língua, que também pode ser trabalhada do modo mais simples, cotidiano, até o mais complexo e científico; mas, tal como para o tecelão, além do instrumento, que é o meio para se efetivar o trabalho, fundamental é também a matéria-prima. O fio do tecelão é, pois, para o escritor cotidiano, literário ou científico, o tema ou assunto a ser tratado.

No número atual da revista Psicologia em Estudo, diversos escritores (ou tecelões de ideias?) nos oferecem suas contribuições, a partir de várias abordagens teóricas, para que reflitamos sobre os problemas humanos tangentes à Psicologia, seja na esfera da saúde física e mental, das relações familiares atuais e suas contradições e da religiosidade humana, seja no tocante às condições e relações – saudáveis ou não – das configurações do trabalho em tempos de produtivismo. Outros, por sua vez, hão de conduzir-nos a conhecer áreas novas e emergentes na Psicologia, como, por exemplo, a voltada ao esporte, ou nos possibilitarão a análise de dispositivos como a imagem digital e seu impacto sobre a subjetividade.

Desta forma, tanto o escritor científico quanto o literário elegem um tema que corresponda a uma realidade e que, ao ser tratado em prosa, em verso ou de acordo com as normas científicas, como os aqui socializados, busca (des)velar esta realidade. Para Marx 1 (1985, p.271), por exemplo, “(…) toda ciência seria supérflua se a forma de aparecimento e a essência das coisas coincidissem imediatamente”; portanto, para ele, à ciência cumpre a função de ir além da “enganação dos sentidos”, ou o bom cientista é aquele que não se satisfaz com a aparência das coisas, e é nisto que ele se diferencia dos que se limitam a conhecer as coisas do cotidiano ou do senso comum. E ir além da aparência exige tempo para a investigação, reflexão e problematização, pois requer aprofundamento.

Em um texto de Pablo Gentili que li recentemente, denominado “Neoliberalismo e Educação: manual do usuário” 2 , o autor retrata o impacto do neoliberalismo na educação e utiliza um termo que considero interessante para uma reflexão que vá além da aparência dos fenômenos que nos impactam na atualidade: a crescente “macdonaldização da escola”. Ele nos explica que o ponto fulcral deste processo está no fato de as instituições educacionais estarem sendo reorganizadas a partir do modelo e padrão produtivista e empresarial. Em suma, a mercadoria a ser oferecida nestas instituições, tal como nas lanchonetes de fast food deve ser produzida o mais rápido possível e de acordo com normas rigorosas de controle, eficiência e produtividade. Tudo é pensado como um enorme campeonato, no qual o indivíduo mais produtivo na lanchonete recebe prêmios que vão desde o quadro com a fotografia destacado na parede até valores em dinheiro.

Gentili (2010) nos aponta que os fast foods surgiram para atender à demanda desta sociedade moderna pós-industrial, em que todos correm “muito”, estão sempre fora de casa e sem tempo para nada. A migração desta estrutura e dinâmica para a educação em todos os níveis e para a pesquisa científica determina o “fazer mais em menos tempo” em detrimento da qualidade e da “capacidade digestiva”, isto é, da capacidade de refletir e problematizar. Tem-se somente a “ilusão de óptica” de que se está produzindo e consumindo mais, mas não se observa que tal produção e consumo nem sempre representam o melhor. Quantitativamente, talvez estejamos alcançando o hanking nacional (ou internacional?), mas no aspecto qualitativo não recebemos, ainda, no Brasil, nenhum prêmio Nobel 3 , cuja outorga não se respalda na quantidade de pesquisas ou artigos disponibilizados em indexadores. Parece-me que estamos buscando mais a fotografia na parede que nos ateste a competência quantitativa do funcionário do mês, com pouca reflexão sobre os caminhos que estão sendo trilhados pelos pensadores brasileiros. Se deixarmos de ser os tecelões de ideias para revelar as mazelas do mundo, sucumbiremos, também nós, à “macdonaldização” da ciência?

Odeio os indiferentes.
Acredito que viver significa tomar partido.
Indiferença é apatia, parasitismo, covardia.
Não é vida.
Por isso, abomino os indiferentes.
Desprezo os indiferentes, também,
porque provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes.
Vivo, sou militante.
Por isso, detesto quem não toma partido.
Odeio os indiferentes
(Antonio Gramsci)

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1 MARX, Karl. Manuscritos Economia y Filosofia. Madri: Editorial Alianza, 11º Ed., 1985.

2 Publicado em Escola e desigualdade Social – APPSindicato/UFPR, Caderno I, projeto 2010/2012, Eixo I – Ano 2010.

3 A indicação ao prêmio Nobel de Medicina ocorreu pelo menos duas vezes para o brasileiro Carlos Chagas, em 1913 e 1921, mas não se concretizou. Disponível em http://www.iesc.ufrj.br/csc/2009_4/artigos/SeEspecial_2.pdf

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Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 233-234, abr./jun. 2010

Quantos ouvem o canto do sabiá?

Sabiá

Por Ronaldo Souza

Adoro Rubem Alves.

Professor, escritor, psicanalista, teólogo, avô, um homem diferenciado na sua forma de pensar.

Um sábio.

O seu lado professor sempre foi muito forte, indo muitas vezes de encontro ao que o professor, numa quantidade considerável de vezes, representa:

Arrogância.

Quem assumirá que é arrogante, prepotente, preconceituoso…?

Vaidoso?

Não, não somos vaidosos.

A vaidade é algo que passa ao largo nas nossas vidas.

Somos todos humildes, simples, gente boa.

E tolos.

Não percebemos que, por mais que tentemos disfarçar, nós nos exibimos mais do que somos capazes de imaginar.

Passe um, dois, três dias em um evento da sua classe.

Meu Deus!

A vaidade desfila tranquila, leve e solta pelas salas, auditórios e corredores, como que rindo de todos.

Ah, os títulos, como somos importantes!!!

Sem eles, nada somos.

Quantas publicações, em quais periódicos, qualis, fator de impacto, evidências científicas que dançam ao sabor dos ventos (e das conveniências), revisor, editor; não, nem venha com seu canto bonito, com seu talento, procure outra floresta.

Com a visão embotada, o óbvio lhes foge.

Humildade e simplicidade são características muito difíceis de encontrar nos tempos atuais.

Entre professores mais ainda.

“Vinde a mim os humildes, pois deles será o Reino dos Céus”.

Alguém consegue imaginar a passagem bíblica no mundo acadêmico?

“Vinde a mim os humildes, pois deles será o Reino das Ciências”.

Rubem Alves sabia disso como poucos.

Mas nunca deixou de alçar seus voos.

Belos.

E perigosos.

Há sempre alguém que ousa.

Ele cantava como um sabiá.
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Urubus e sabiás

Por Rubem Alves

Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam… Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás… Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

– Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente…

– Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás…

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.

Os falsos idiotas

Escola sem partido'

Por Paulo Nogueira Batista Jr.
(Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países)

Há muito tempo, leitor, não trato de um tema que me era caro outrora: a ascensão fulminante e irresistível do idiota. E, no entanto, hoje mais do que nunca vivemos as consequências desse fenômeno arrasador – não só no Brasil, mas em grande parte do mundo.

Tudo começou no século 20. O primeiro a diagnosticar o fenômeno foi, salvo engano, o filósofo espanhol Ortega y Gasset. A sua obra “A Rebelião das Massas” marcou época. Décadas depois, Nelson Rodrigues retomou o tema com mais verve e mais graça. Os idiotas sempre existiram – e em grande número. Sempre foram a maioria –sólida e compacta maioria. Mas até o século passado, os idiotas ignoravam a sua condição de maioria e, portanto, viviam omissos e acomodados, ignorantes da força que a sua condição lhes proporcionava. A deferência era seu traço característico. Nunca lhes ocorreria incomodar os outros com opiniões, ideias, projetos.

De repente, tudo mudou. O idiota descobriu o próprio peso e desencadeou-se por toda parte com força brutal. Passou a publicar, dar entrevistas, gerir empresas e – o que é pior – ocupar cargos públicos da maior importância. Isso foi, como dizia, no século passado.

De lá para cá, o campo ocupado pelo idiota só fez se expandir. É notório, por exemplo, que as redes sociais ampliaram sobremaneira as suas possibilidades de atuação. Convenhamos, leitor: o que temos, hoje, não é mais a ascensão do idiota, mas o seu completo e indiscutível triunfo. Os não-idiotas sobrevivem assustados e acuados. Quando botam a cabeça para fora, sofrem as piores agressões.

O fenômeno se reproduz em todas as esferas. Começa no seio das famílias. Em outros tempos, os idiotas da família eram bem-comportados; não arriscavam um palpite, um parecer, sequer faziam perguntas. Hoje, não. As reuniões familiares são dominadas pelos patetas, sempre ruidosos e cheios de convicções. Nunca lhes ocorrerá, é claro, que a dúvida tem um papel salutar. Nietzsche, não por acaso, escolheu o jumento como metáfora para o portador de convicções…

Obviamente, os patetas não se contentam em tumultuar reuniões familiares ou sociais; querem “influir nos destinos da nação”. Em 2016, leitor, quem é que marchava atrás de pato na Avenida Paulista, na Avenida Atlântica e em tantas outras avenidas Brasil afora? O idiota, ora, o idiota na sua mais límpida e cristalina manifestação. E ali começou a nossa desgraça atual.

Mas o fenômeno está longe de ser apenas nacional. Basta dar uma espiada nos Estados Unidos, por exemplo. É uma grande nação. Já teve um Abraham Lincoln como Presidente da República. Lincoln, além de grande líder político, era um artista da palavra. Escrevia ele mesmo, com grande cuidado, os seus discursos e pronunciamentos. Alguns deles são verdadeiras obras de arte. 

Bem. Esse mesmo país elegeu George W. Bush para a presidência (duas vezes!) e agora Donald Trump. Bush tinha, pelo menos, certo senso de humor. Trump, nem isso. Mas, enfim, quem sou eu para menosprezar o presidente dos EUA? Trump tem, sem dúvida, pontos fortes e qualidades apreciáveis. Mas aí é que está: consegue disfarçá-los de maneira magistral. Pode parecer estranho, mas não há mistério nem paradoxo. Num mundo dominado inapelavelmente pelos idiotas, um homem de talento como Trump tem que se comportar como se idiota fosse.

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, trilha exatamente o mesmo caminho. Comporta-se, às vezes, como perfeito idiota. Mas é tudo manobra, tudo disfarce. Na campanha, Fernando Haddad deu um show de inteligência e cultura. Chegou a lançar expressões em latim na cara do eleitor. Um grande erro, evidentemente.

Bolsonaro, assim como Trump, mostra traços de verdadeira genialidade no modo como simula idiotice. A escolha de alguns ministros causou sensação. Um exemplo: o embaixador Ernesto Araújo, futuro ministro das Relações Exteriores. Pelos seus escritos, percebe-se que é um diplomata de vasta cultura. Mas, para subir na vida, é obrigado a fazer concessões medonhas.

Em texto recente, citado na imprensa, Araújo sugeriu que o Brasil questione os Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A sua ideia é que se tente, no lugar, constituir “um agrupamento nacionalista Brasil – EUA – Itália – (Rússia?) – (Índia?) – (Japão?) – (países de Visegrado?)”, em suma “um Bricsantiglobalista sem a China”. O futuro chanceler sugere ainda que o governo explore “a possibilidade de um núcleo composto pelos três maiores países cristãos, Brasil-EUA-Rússia”.

Insuperável.

Falando da Vida: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.
Nelson Rodrigues

O futuro do Brasil no quintal de uma casa

Crianças

Por Ronaldo Souza

Não costumo me indignar com pessoas com pensamento binário. Tenho, isso sim, pena delas

O que dizer então de Bolsonaro e o seu não pensar?

Como ficar indignado diante de duas ou três frases suas, quando ele consegue formular e dizer?

Não se pode exigir nada dele.

É claro que incomodam as suas baixarias.

O Brasil se tornou uma extensão da casa da família Bolsonaro.

Tudo agora é baixaria.

Entram em nossas casas todos os dias com as maiores e mais diversas baixarias, em flagrante desrespeito às famílias brasileiras e aos seus filhos.

Quando existiu isso?

Nunca.

Jamais, em nenhum tempo, um governo no Brasil exibiu tão absurda falta de civilidade. Incluam-se aí os anos de chumbo da ditadura militar, que ele tanto exalta.

Falta de civilidade identificada por todos, porque eles próprios perceberam a necessidade de propagar para alimentar a matilha.

Bolsonaro, Josias e a doença

Veja o que diz Josias de Souza no seu blog.

“Não foi ninguém da oposição. Foi o vereador Carlos Bolsonaro, chamado pelo pai-presidente de “meu pitbull”, quem difundiu nas redes sociais vídeo com uma coletânea de baixarias pronunciadas por Jair Bolsonaro. Em meio a palavrões, o novo presidente da República ensina na peça que ‘assaltante precisa é de pancada’, revela o seu  desejo de que ‘matassem 200 mil vagabundos’ e exibe para a câmera uma camiseta onde se lê: ‘Direitos humanos: esterco da bandidagem.’

Veja o vídeo que o pitbull de Bolsonaro está divulgando.

Por uma obsessão facilmente explicada, eles vivem e se alimentam de Lula e do PT. Observe como o título do vídeo é “A esquerdalha chora! Vamos pra cima!”

O que mais eles têm pra dizer além de “frases” tão sábias?

Nada.

Não fica mais fácil entender melhor os também sábios comentários dos seus eleitores? “Idiota; você é um idiota; você também é corrupto; quanta bobagem; putz… muita”.

Assim eles se retroalimentam e preservam a espécie.

O que resta à esquerdalha?

Chorar.

Claro!

Como não chorar diante diante da degradação do ser humano?

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
John Donne

A degradação do homem pode ser vista como a morte no poema de John Donne (poeta inglês do século XVII).

“A morte (degradação) de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano.

Os sinos dobram para todos.

Mesmo para os que se degradam.

Ainda que se tornem irremediavelmente degradados.

Engana-se redondamente quem imagina que os eleitores de Bolsonaro refutam suas grosserias.

Muito pelo contrário.

Aplaudem.

A exaltação do macho pelo macho é, além de identificação entre eles, um reflexo da necessidade de autoafirmação.

As carências são conhecidas.

Eles precisam se encontrar.

Para piorar mais ainda e deixar sob nuvens escuras as perspectivas do futuro que já é presente, Josias de Souza termina o seu texto com uma profecia de mau agouro, um tipo de terrorismo enviesado:

“Dentro de poucas horas, o autor dos comentários vestirá a faixa de presidente da República”.

Não, não somos iguais

Tempos difíceis, muito difíceis, virão. Isso está claro como a mais límpida e pura das águas.

No entanto, não importa quão difícil pode ser, temos que continuar lutando contra o primitivismo que toma conta do país.

A oposição covarde que fizeram a Dilma Rousseff foi apenas uma das formas de manifestação desse primitivismo, onde, entre outras coisas, o macho se impõe.

Sob o manto da ignorância que já tomava conta de boa parte da sociedade brasileira, à base de ofensas, xingamentos, difamação, inauguraram um novo tempo, cujo ápice foi a enorme traição ao país com um golpe que já se mostrou como farsa.

Mas a nossa luta não é e jamais será igual à deles.

A nossa dor não é por uma eleição perdida.

No mundo das enormes limitações intelectuais em que vivem, que nunca foram tão evidentes como agora, pensam que choramos a eleição perdida.

Ainda que eles jamais consigam perceber e muito menos sentir algo igual, o que nos dói e muito é ver no que transformaram o país.

Mas nem mesmo essa dor, que dói como nenhuma outra, nos fará agir como animais irracionais.

Em nós, ela chega e se transforma e nos faz reagir com o lirismo dos poetas e artistas desse grande país.

Não somos ofensa, xingamento.

Não somos violência.

Somos música.

Somos poesia.

Somos Fernando Pessoa, Neruda, Chico Buarque…

Somos amor.

Lutem, lutem, lutem.

Jamais parem de lutar.

Mas como sempre fizemos.

Com a leveza que a nossa inteligência e sensibilidade sempre nos ensinaram e permitiram fazer.

Apesar dos tempos que virão, cabe-nos continuar lutando pela preservação dos nossos ideais com toda a força que tivermos, mas com amor e delicadeza.

Cabe-nos continuar amando, na eterna busca do encontro de todos.

Ninguém solta a mão de ninguém

“Ele é cínico demais”, diz juiz sobre Moro

BolsoMoro

Por Cláudia Motta, no Rede Brasil Atual

Para o juiz aposentado Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira, não foi surpresa a denúncia surgida de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em torno da família Bolsonaro. O órgão, subordinado ao Ministério da Fazenda, apontou movimentação financeira suspeita de um ex-assessor do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL/RJ), o policial militar Fabrício José Carlos Queiroz. “A família Bolsonaro foi toda construída dentro da estrutura do Estado”, afirma.

“Toda aquela retórica de anticorrupção nunca existiu. Imagine um parlamentar com 30 anos de legislatura no estado do Rio de Janeiro e todos esses episódios lá e nada disso ele tinha conhecimento? Claro que tinha. Agora está provado e não só sabia como dele se utilizou”, ressalta.

Segundo Oliveira, da forma como está construído o sistema político, todos os partidos utilizaram um caminho que não é formalmente correto. “Ele seria diferente de quê, esse homem puro veio de onde, do Rio de Janeiro? Família Bolsonaro pura, do Rio de Janeiro? Como é possível? Seria um aborto da natureza”, ironiza.

Sobre o R$ 1,2 milhão movimentado pelo assessor e os valores transferidos para a conta de Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama, o ex-juiz acredita que a família não vai ter como justificar. “Um ex-soldado PM, com remuneração de 8 mil contos, como é que vai movimentar isso. Eu, como juiz de direito, passo anos pra ter essa quantia na minha conta”, compara. “As justificativas apresentadas até agora são fraquíssimas, acho até que vão optar em ficar em silêncio porque não vão ter como corrigir o que está lá. Não tem como.”

As consequências da denúncia para o presidente eleito, Jair Bolsonaro, são muito graves, na opinião de Oliveira. “Vai tomar posse já enfraquecido e, se precisar do Congresso para a governabilidade, vai ficar mais caro ainda o apoio, não só para implementar as ideias macabras dele, como para se manter no poder. Qualquer movimento que implique numa fragilidade de apoiamento político, pode levar a uma cassação.”

Para o advogado, Bolsonaro vai tomar posse precisando mais do que nunca do Congresso. E acha, ainda, que o ex-capitão perde força para escolha dos presidentes (da Câmara dos Deputados e do Senado). “Estavam batendo forte na pessoa do senador Renan Calheiros, por exemplo, na disputa à presidência do Senado. Flavio Bolsonaro, que vai tomar posse como senador, que tinha no seu gabinete esse PM lotado e nomeado por ele, dizia que Renan não seria nunca (o presidente do Senado) porque afinal de contas era um homem cheios de processos, com corrupção. E agora, Flavio?”

Nada disso, no entanto, é um acaso, na opinião de Marcelo Tadeu. “Aparecer isso agora é uma resposta, um aviso que está sendo dado à família Bolsonaro. Ou ele se alinha e se ajusta ou dança”, avalia. “Essa é a opinião de quem foi magistrado por 25 anos e já foi candidato a deputado federal, no microssistema político de Alagoas. Bolsonaro entra com a corda no pescoço e o Congresso pode puxar a qualquer momento.”

Moral inabalável?

Agora advogando em Maceió (AL), Recife (PE) e Brasília (DF), Oliveira diz ter “certeza” de que é muito constrangedor para Sergio Moro fazer parte de um governo como esse. “Para quem alardeou para o povo brasileiro que se tratava de um juiz de uma atuação do ponto de vista moral e ético inabalável, está provado que não é”, afirma.

Ele ressalta que o ex-juiz da Lava Jato, e futuro Ministro da Justiça e Segurança de Bolsonaro, decidiu servir a um governo “com problemas mais graves ainda do que aquele que ele tanto perseguiu, que foi o Lula”. E compara: “No caso de Lula é ‘parece’, ‘seria’, ‘teria’”, diz, em relação às acusações que levaram o ex-presidente à condenação. “Com Bolsonaro não é ‘teria’, mas ‘tem’, não é ‘faria’, é ‘fez’, não é ‘se corromperia’, mas ‘se corrompeu’”.

Para o juiz aposentado, Moro deveria ter vergonha e pedir exoneração se quisesse manter a história dele. “Ou a falsa história ou o verniz de verdade. Porque agora ele vai se desmoralizar por completo. Esse juiz Sergio Moro nunca me enganou.”

Nesta segunda-feira (10), após quatro dias das denúncias originadas no relatório do Coaf – que inclusive ficará subordinado à sua pasta, Moro afirmou que os fatos precisam ser “esclarecidos” e que seria “inapropriado”, como futuro ministro da Justiça, comentar.

“Ele (Moro) só comentava casos do Lula. Minha visão é de que se trata de um magistrado, ou ex-magistrado, que tem o cinismo como ponto de apresentação em sua personalidade. Ele é cínico demais!”, afirma Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira.

Moro teria dito ainda a uma emissora de rádio: “Sobre o relatório do Coaf sobre movimentação financeira atípica do sr. Queiroz, o sr. presidente eleito já esclareceu a parte que lhe cabe no episódio. O restante dos fatos deve ser esclarecido pelas demais pessoas envolvidas, especialmente o ex-assessor, ou por apuração”.

Quebrando a minha resistência

A imagem confunde

Por Ronaldo Souza

Durante todos esses anos evitei trazer determinados artigos para o “feicibuqui”.

A convicção de que os eleitores de Aécio Bolsonaro não conseguiriam entender sempre me fez ver que não valia a pena traze-los. De modo geral eles apresentam grande dificuldade para ler qualquer coisa que tenha mais do que cinco linhas.

Observo há algum tempo, por exemplo, que quando ponho textos mais simples e diretos eles ficam mais excitados e aí fazem aqueles belos comentários – idiota; você é um idiota; você também é corrupto; quanta bobagem – e outras coisas assim que exigem grande esforço mental.

Contra argumentação que é bom, nem pensar! Não se pode exigir tanto.

Um já chegou a perguntar quanto eu estava recebendo para escrever e outro disse que não aguentava mais ler meus textos.

Sensacional, não é mesmo?

Cheguei a me imaginar como alguém que escreve tão bem que as pessoas, mesmo odiando, não conseguem ficar sem ler.

Mas eu os entendo.

Exercícios diários de extremo esforço para entender melhor o mundo no qual vivem me fizeram compreende-los melhor. Pelo menos a cada noite durmo com essa convicção.

Não nego, eu próprio melhorei e me tornei mais tolerante com eles.

Sempre resisti em postar textos mais elaborados, mais sutis, entre eles, os de Janio de Freitas, da Folha de São Paulo.

Janio, um dos jornalistas mais importantes do Brasil, é dono de um texto mais elaborado e normalmente sutil, razão pela qual são grandes os riscos de que não seja entendido pelos sem noção.

Se muito, devo ter postado uns dois textos dele.

Dessa vez, não.

Acredito que, buscando ser compreendido pelos eleitores de Aécio Bolsonaro, Janio foi, como sempre, elegante (não tem quem faça ele baixar o nível), mas, sobretudo, simples e direto.

Temo ainda pela compreensão de muitos, mas aí, paciência. Para esses, o jeito mesmo é continuar lendo Augusto Nunes, Merval Pereira, Joice Hasselmann…

Vamos ao texto, mas depois dele volto para falar com você.

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Bolsonaro e a Folha

Jair Bolsonaro não se conforma em ver na Folha textos que não lhe convêm. Tamanha é a sua consideração pelo jornal que reage com insultos, trata mal gente da casa, adverte que prejudicará a empresa, quando dos seus desagrados. Vê-se que é uma distinção exclusiva, e dessas que não se tem como agradecer nem corresponder. Mas é ainda mais rica a sua reação à importante e bem realizada reportagem de Thais Bilenky, baseada na observação de que, “pela primeira vez na história da República”, um presidente se empossará “sem nenhum representante” do Nordeste e do Norte “no primeiro escalão” do novo governo.

Primeiro, o Bolsonaro convencional: “A Folha de S.Paulo continua a fazer um jornalismo sujo e baixo nível”. E assim segue, esperando convencer de que fez “escolhas técnicas”. O que, mesmo se verdadeiro, não impediria a escolha de técnicos capazes e representativos das regiões que compõem cerca de metade do país.

Desta vez apareceu o segundo Bolsonaro, já sacando uma pretensa resposta técnica do seu governo: “Ainda em janeiro” o governo vai “construir instalação piloto para retirar água salobra do poço, dessalinizar, armazenar e distribuir” no Nordeste. Tudo a jato, porque será no mesmo janeiro a ida do ministro da Ciência e Tecnologia a Israel, ainda para procurar parcerias e a tecnologia necessária.

Está claro que Bolsonaro ignora o indispensável sobre a sua solução técnica. O interesse pela dessalinização vem de longe também no Brasil. A tecnologia não é problema. Suas modalidades são conhecidas aqui, já foram testadas, técnicos para aplicá-las não faltariam. Caso alguma dessas modalidades se mostrasse suportável financeiramente. Nem são as instalações, que custam uma só vez. O custo operacional é muito alto e permanente, em descompasso com as condições socioeconômicas da região.

Outras soluções para as dificuldades prementes dos nordestinos são consideradas preferíveis. Prova disso, e sem excluir a continuidade dos estudos de dessalinização, é o feito da ministra Thereza Campello no governo Dilma, já citado aqui mais de uma vez: em torno de um milhão —sim, um milhão— de cisternas familiares instaladas, eficiência rara em qualquer setor brasileiro em qualquer tempo. E, de pasmar, sem nem sequer um arremedo de escândalo.

Israel vale-se da dessalinização, sim. Mas conta com um suporte financeiro sem igual no mundo. Tem a contribuição segura, regular e fartamente generosa de judeus em numerosos países, além da colaboração múltipla dos Estados Unidos, por sua aliança. O Brasil, sem enganações convenientes aos da riqueza especulativa e não produtiva, está destroçado, desacreditado e sem dinheiro até para alimentar os sinais de vida.

Bolsonaro diz, por escrito, que os repórteres da Folha “vão quebrar a cara!” Se ele não quebrar a sua e o Brasil, com seus propósitos desatinados, não faz mal.

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De volta.

“…pela primeira vez na história da República”, um presidente se empossará “sem nenhum representante” do Nordeste e do Norte “no primeiro escalão” do novo governo.

A respeito dessa questão, só há o que lamentar pelo lamentável posicionamento de alguns nordestinos nos últimos tempos. Falarei sobre isso um dia, espero que em breve.

Sobre a questão da dessalinização, observe que Bolsonaro fará o país gastar milhões de dólares pelo projeto de Israel (interesse dos Estados Unidos), algo em que o Brasil já investe com sucesso desde 2004 em vários estados do Nordeste, Norte e em Minas Gerais.

Do jeito que as coisas andam, é possível que alguma mente débil queira comparar os dois modus operandi (de Brasil e Israel) para conseguir a dessalinização, desejando atribuir vantagens ao de Israel.

Tratar-se-á (como diria Michel Temer) tão somente de comparação vazia de algum cérebro disfuncional.

Nada mais.

Pelo menos em parte, Janio de Freitas derruba essa comparação tola argumentando com o alto custo de manutenção do projeto de Israel.

Especialistas usam o mesmo argumento.

Aliado de primeira linha dos Estados Unidos, uma das razões pelas quais o presidente eleito demonstra tanto empenho pelo projeto, dinheiro não é problema para Israel.

E as empresas israelenses vão faturar bonito.

Além da grande ignorância do governo eleito, que desconhece o país e o povo que vai governar, e de outros interesses, existem outros aspectos.

Criado pelo Ministério do Meio Ambiente na gestão do ex-presidente Lula, até pouco tempo o Programa Água Doce já tinha instalado 575 dessalinizadores em diversos estados nordestinos.

Veja o que diz o Rede Brasil Atual:

“A tecnologia, que o novo presidente acredita ser ‘inédita’, existe no Brasil há pelo menos 14 anos. É o Programa Água Doce (PAD), concebido em 2003 e lançado em 2004, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em parceria com instituições federais, estaduais, municipais e da sociedade civil”.

Há mais.

Bolsonaro e desassinilização'

Projetos como esse podem ser incorporados, mas aí entra em cena o enorme desconforto do governo eleito pelo fato de um prêmio internacional dessa importância ter sido ganho por Nadia Ayad, brasileira, negra, que faz parte de um projeto vitorioso, “Ciência sem Fronteiras”, criado no Governo Dilma.

Surpreende a atitude do governo que tomará posse daqui a três dias dizendo que vai acabar com as obras atreladas à ideologia?

Nem um pouco.

Como alguém ainda pode se surpreender com o Brasil?

Surpreende surpreender-se com as surpreendentes surpresas desse surpreendente país.

Isso sim.

Entretanto, engana-se quem pensa que responsabilizo Bolsonaro.

Como culpá-lo se ele nada sabe?

Na verdade, tenho muita pena dele.

Sabendo-se incapacitado, ele se submete (o que mais lhe cabe fazer?) a cumprir a agenda de outros.

A agenda de quem o pôs lá.

Que saudade, hein Jair!

Bolsonaro preocupado

Por Arthur Andrade, no Polêmica Paraíba

Daquele tempo em que vc xingava sem reservas, ameaçava mulheres, defendia torturas, atacava negros, gays, indios… e nada acontecia.

Tá bom… acontecia sim, uma frágil indignação da plateia que vc amava indignar.

Saudade do tempo em que vc era o escroto folclórico, o insano inconsequente, o raivoso brincalhão e o mito para os iguais.  Vc era o mito!!

Saudade do tempo em que vc pedia impeachment aos berros e com isso se sentia dono do mundo, o inatingível, o guerreiro sedento por guerra. 

Do tempo em que era o discípulo homenageando o herói torturador e assim ganhava, no máximo, matérias assustadas. E vc amava assustar.

Saudade do tempo em que vc, do baixo clero, podia ser o ladrão invisível, o corrupto disfarçado, a reserva imoral, a mentira deslavada. E nada acontecia. Ah quanta saudade, hein Jair!!

Saudade do tempo em que podia roubar sem ninguém ver, empregar fantasmas ao bel prazer e distribuir dinheiro público com a família sem ninguém perceber. Vc era a insignificância produtiva.

Saudade do início do estrelato. Saudade dos gestos de armas. Saudade de ser carregado. Saudade de provocar petistas, ciristas, comunistas, socialistas e até capitalistas. Sim, vc já foi nacionalista, embora não conseguisse cantar o Hino Nacional. 

Saudade, saudade de honrar a bandeira americana e receber tapinhas de “meu querido escravo”. 

E faz tão pouco tempo, não é? 

Agora vc olha pro lado e vê uma traíra. Olha pra trás e vê uma arma engatilhada. Olha pra frente e vê o precipício. 

Agora vc está diplomado presidente do maior país da América Latina. Um gigante que enxerga vc como a formiga miuda e vc olha pro gigante como uma célula intestinal. 

Agora vc nem tem mais família. A família Bolsonaro virou sinônimo de falcatrua. Então, Jair, isola a família. 

Sua família oficial vai vigiar seus passos com chicotes de 4 ou 5 estrelas. Sua família oficial vai massacrar seus dias e noites com tarefas oficiais que vc odeia, odeia, odeia. 

Trabalhar, Jair, nunca foi seu forte.

Agora vc vê os filhos fugirem das redes com medo do povo. Agora vc tem medo até do seu povo. E medo de abrir a boca, quem diria, vc que era um boquirroto incansável. 

Seu silêncio durante o Hino Nacional foi esse medo da boca, não foi Jair? Abrir a boca é um perigo, disseram a vc. E vc tem saudade até disso, bons tempos da boca aberta sem medo da lingua. 

E comer porcarias? Nunca mais, Jair. Beber água, tomar suco de caixa, uma pinga, nunca mais. 

Porque seu medo chegou à comida. E comida é boca! 

Vc precisa de provadores. Vc precisa de seguranças, 12 mil. Vc precisa de vigilantes, vc precisa de sono. Vc precisa sumir. Dá vontade de sumir, não dá Jair?

E pensar que tudo o que vc queria era brincar de super-herói.