À procura de um povo, à procura de um tempo

Povo brasileiro

Por Ronaldo Souza

Lembro que havia algo no ar, irreconhecível, sem cheiro, sem cor, impalpável.

Naquela praça, sentados nas cadeiras que tinham trazido de suas próprias casas, todos sentiam aquela coisa que não se reconhecia, não tinha cheiro, nem cor e não se podia tocar porque não se via.

Sentiam.

E sentiam lá dentro, bem no fundo, no âmago, nas profundezas da alma, onde reina o amor.

Respiravam e sentiam o frescor das manhãs que costumam trazer consigo o alento para a vida.

Estavam todos na praça da Igreja, sentados do lado de fora. Lá dentro não caberia tanta gente.

Estavam todos na frente da Catedral.

Com sentimentos tão nobres e puros que víamos subir para se encontrar com as estrelas, que em nenhum outro lugar do mundo resplandecem como nas noites do Natal de Juazeiro.

Correndo e brincando pelos espaços entre as cadeiras, veias daquele organismo, estávamos nós, as crianças.

Correr e brincar ajudava a esquecer um pouco a hora esperada, a hora em que pela chaminé (que não existia) da minha casa, entraria Papai Noel e deixaria o tão sonhado e esperado presente.

Ah, como seria bom se pudesse ter outra vez um pouco daquelas noites.

Abraçaria a todos, inclusive aqueles que mesmo sob o manto divino do espírito que reina nesses dias condenam o indulto de Natal, mas o fazem pensando particularmente na possibilidade de alguém ser libertado, ainda que seja somente durante as festas.

Abraçaria a todos, inclusive aqueles que mesmo no Natal levantam suas taças e fazem brindes orgásticos pela manutenção de um homem na cadeia.

O meu esforço, em vão, me deixou cansado.

Não consigo abraçar essas pessoas.

Hoje desejei ser criança outra vez.

Só a criança, no seu mundo impenetrável e cheio de magia, conseguiria isso.

Só ela, por não ver, na sua inocência, no que nos transformamos.

Onde estão aquelas cadeiras?

Onde estão aquelas mulheres e homens?

Onde estão aqueles sentimentos tão nobres e puros que víamos subir para se encontrar…

Para onde estamos indo?

Feliz Natal!

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Assis Valente

De volta para o futuro

Futuro e passado

Por Ronaldo Souza

Em 1958 o Brasil ganhava a sua primeira Copa do Mundo.

Fui às ruas de Juazeiro (BA) com meu pai e a cidade, claro, era só festa.

Ao ver vários homens vestidos com a roupa da Seleção Brasileira, perguntei:

– Pai, são os jogadores da seleção?

Uma conquista que acabara de acontecer na Suécia permitiu mais uma viagem que somente a criança é capaz de fazer; os jogadores que ganharam a Copa do Mundo tinham “escolhido” as ruas de Juazeiro para comemorar o feito inédito.

A alegria daquela criança se irradiava pelo mundo.

Em 1962, dessa vez no Chile, o Brasil ganhava pela segunda vez a Copa do Mundo, mais uma grande conquista.

Novamente aquela criança vibrava, como vibrara e chorara com as vitórias e derrotas do seu time do coração, o Fluminense, do Rio de Janeiro.

No Rio, a alguns mil quilômetros de distância de Juazeiro, “morava” o seu time do coração e por ele já aprendera a rir e a chorar.

Para aquela criança do interior da Bahia, passara inteiramente despercebida uma grande conquista conseguida no seu próprio estado.

Em 1959, entre as duas Copas do Mundo ganhas pelo Brasil, o Bahia conseguira conquistar a 1ª Taça Brasil, a primeira competição nacional de futebol do Brasil.

O título foi decidido em uma série de três partidas com o famoso, inesquecível e poderoso Santos de Pelé e Coutinho, considerado por muitos o melhor time de futebol de todos os tempos.

O Bahia ganhou a primeira na Vila Belmiro (Santos) e o Santos ganhou a segunda na Fonte Nova (Salvador). Houve então necessidade de uma terceira partida, que tinha que ser em campo neutro.

Foi no Maracanã.

O Bahia venceu.

Teve assim a honra de ser o primeiro time brasileiro a representar o Brasil na Copa Libertadores da América.

Como tantas outras, aquela criança não tomou conhecimento da grande conquista do Bahia.

Como tantas outras, aquela criança literalmente desconhecia o futebol de sua terra.

Mas não eram somente as crianças.

Também os adultos, afinal, foi do seu pai, referência maior de sua vida, que ela herdou o amor pelo Fluminense.

Um amor, uma paixão, que nascera graças à imprensa do Rio de Janeiro, à época a mais poderosa do Brasil em se tratando de futebol.

Sem que o soubesse, já estava incorporado no seu ser o poder da imprensa e do que ela é capaz; de mexer com sentimentos fortes no coração das pessoas.

Somente a partir de 1963, quando a família se mudou para a capital, Salvador, o Bahia começou a dar os primeiros passos na direção do seu coração.

E, como um predestinado, dessa vez não foi a imprensa quem orientou os primeiros passos da viagem do Bahia para a conquista de mais um coração; “mais um, mais um Bahia…”, como canta o seu hino.

Foi o seu irmão caçula.

Foi ele que fez surgir no coração do irmão e do ainda jovem pai o amor pelo Bahia.

Surgiu assim a paixão pelo Bahia naquele menino de Juazeiro e do seu pai; levada pelo filho e irmão mais novo.

Sem contaminação.

Da forma mais pura; o filho mais novo apresentou o Bahia ao pai.

Talvez isso explique a paixão de meu pai pelo Bahia.

Como no campeonato de 1959, que foi decidido em 1960, o Bahia conquistou o título do campeonato brasileiro de 1988, decidido também no ano seguinte; 1989.

Tornara-se bi-campeão brasileiro.

E aquele era o momento para o grande salto.

O Bahia já era membro do famoso Clube dos 13, como único time do Brasil além dos tradicionais grandes do Rio, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

No momento de mudança de patamar, os dirigentes pensaram pequeno.

Continuaram voltados para o campeonato baiano e quando muito para o Nordeste, visão que tornou pequeno o  horizonte do clube.

Além disso, a vaidade de alguns deles.

Mas, o pior ainda estava por vir.

Sob o comando de dirigentes inescrupulosos, cujos interesses se puseram acima dos interesses do clube, o time mais popular, mais vencedor e de maior tradição do Norte e Nordeste do país viveu uma longa noite de escuridão e trevas.

E foi a sua torcida, a Torcida de Ouro, que desceu às profundezas em que o tinham jogado para resgata-lo.

Foram vários momentos de luta, uma luta incansável para resgatar o Bahia, na campanha “Devolva meu Bahia”.

Em um desses momentos, cinquenta mil torcedores foram às ruas de Salvador.

Devolva meu Bahia

Veja o que disse Juca Kfouri no seu blog.

“Resta dizer que jamais, repita-se, jamais uma torcida fez manifestação semelhante no Brasil”.

Ninguém parece resistir a ela.

Com essa força, como poderia alguém resistir?

Democracia tricolor

Todo esse movimento resultou no afastamento do presidente do Bahia e de sua diretoria.

Eleiçoes diretas no Bahia

O Sol então entrou por todas as portas e janelas.

Após inédita eleição com votos dos torcedores, Fernando Schmidt foi eleito para um mandato “tampão” de um ano e três meses, como fora estabelecido, até que houvesse novas eleições no clube.

“Vamos iniciar uma nova era, de transparência e democracia, no Bahia”, disse o novo presidente.

Após essa grande vitória da torcida tricolor, surgia um novo momento na vida do clube.

Em setembro de 2013 instalava-se a democracia no Bahia.

O momento era propício.

Respirava-se Democracia no país.

Em 13 de dezembro de 2014, exatamente 1 ano e 3 meses depois da eleição de Fernando Schmidt, Marcelo Sant’Ana foi eleito o novo presidente, agora sim pelo período de 3 anos.

Como em qualquer gestão, acertos e erros marcaram o tempo de Marcelo à frente do Bahia.

Sem dúvidas, porém, mais acertos que erros e, o mais importante, o clube dava sinais de que, de fato, tomava outro rumo; a moralização era evidente.

Jogadores e comissões técnicas já não deixavam o clube com queixas e processos na Justiça, algo corriqueiro nas gestões anteriores.

Começou a ficar comum ouvir-se algo que a mim, confesso, começou a “incomodar” um pouco.

Técnicos e jogadores que vinham para o Bahia diziam que estavam assinando com o clube pelas condições oferecidas, mas principalmente por causa do seu “projeto”.

Mesmo entendendo que há um jogo de palavras nesses momentos, aquele “projeto” me soava estranho e, também não nego, fiz pouco caso dele.

As experiências anteriores tinham me tornado um incrédulo.

Mas era sim verdade, e o grande mérito e legado da administração Marcelo Sant’Ana.

É possível que muitos não tenham atentado para isso e por esta razão não consigam dimensionar de fato a importância de sua gestão.

Aqueles que vinham trabalhar no Bahia, quando saíam já não o faziam com queixas e processos, mas sim com elogios, pelo respeito com que foram tratados. Incluam-se aí os salários pagos em dia, algo que deveria ser comum, mas não era no nosso futebol, particularmente no mesmo Bahia agora merecedor de elogios.

Não tenho nenhuma dúvida de que hoje a torcida tricolor reconhece esse grande legado de Marcelo Sant’Ana.

Mas foi na passagem de Marcelo Sant’Ana para Guilherme Bellintani, novo presidente do clube, eleito em dezembro de 2017, que o projeto do Bahia se fez evidente.

Pela primeira vez, vejo com clareza que há sim algo que nunca existiu; um projeto para o Bahia, um projeto de verdade.

E foi graças a esse projeto que tivemos agora em 2018 o melhor elenco pelo menos desses últimos 10 ou 15 anos.

Um elenco perfeito?

Não, até porque isso não existe.

Um elenco que não rendeu aquilo que podia render. Para usar uma expressão do momento, um time que não deu liga como poderia dar (coisas do futebol), mas que passou o ano sendo elogiado por toda a imprensa nacional e técnicos de futebol pelo futebol apresentado.

https://www.youtube.com/watch?v=DPkOgsIpTbE

E, ainda que estivessem indo para grandes times e com salários melhores, o ano se encerrou com jogadores deixando o time chorando, numa prova evidente do bom momento do clube.

Se falei particularmente de Marcelo Sant’Ana e Guilherme Bellintani, como presidentes, que se sintam reconhecidas na sua importância as respectivas diretorias.

Um nome, porém, deve ser destacado; Diego Cerri.

Equilibrado, discreto e competente, Diego Cerri soube reconhecer a importância de se manter fiel a um projeto, do qual ele tem sido peça fundamental,

Num futebol em que diante da primeira oportunidade de ir para um grande time, ficam para trás o bom senso e o discernimento em nome da possibilidade de maior destaque nacional, Diego Cerri mostrou sua lucidez ao recusar convites de outros times e assim permanecer no Bahia.

Se ele tiver que sair do clube e quando o fizer, sairá mais reconhecido e, portanto, mais valorizado.

Poucos conseguem ter a sensibilidade para análises e tomada de posição como ele fez.

O torcedor, e eu sou um deles, quer saber de resultados em campo, que o seu time ganhe títulos.

Nesse sentido, parabéns aos presidentes e diretorias que trabalharam para que conquistas importantes tenham sido conseguidas e pelo que se fez para que o clube chegasse até aqui.

Como torcedor, bato palmas e agradeço.

Mas não posso deixar de reconhecer e registrar que hoje o que mais me deixa entusiasmado é que, finalmente, há sim um projeto que olha para o passado de glórias, nele se fortalece e caminha com passos planejados e firmes para o futuro.

O Bahia tem sim um projeto, um projeto voltado para o futuro.

Um futuro que resgata o passado de um time de glórias.

Um time que nasceu para vencer.

1959, o começo da glória

Por Ronaldo Souza

Não é a primeira vez que isso acontece.

De vez em quando me deparo com um texto que escrevi e nunca postei. Simplesmente deixei para faze-lo em outro momento e terminei esquecendo.

Depois é comum não publicar mais.

Claro que há a possibilidade de reler e, se ainda está atual, analisar se vale a pena publica-lo.

Mas confesso que não me lembro de ter feito isso.

Ao buscar um texto para citar no que estava escrevendo, achei este que está aí embaixo e aí percebi que ele não foi postado aqui no site endodontiaclinica.odo.br

Procuro lembrar se o postei no Facebook, mas no site não foi.

Li e achei legal.

Mesmo tendo sido escrito há mais de 3 anos (2015), achei que poderia traze-lo, até porque, por uma feliz coincidência, terminei-o com uma frase que é o tema de um artigo que acabei de escrever e que devo postar ainda neste final de semana.

Vamos lá.

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É o Bahia

1959, o começo da glória

Por Ronaldo Souza

– Pai, manda esse menino desligar o rádio que eu quero dormir.

Foi assim que, sem fazer a menor ideia do que já estava acontecendo, nasceu a minha paixão pelo Bahia.

Vindos de Juazeiro (BA) e morando em Salvador há pouco tempo, já vestíamos as cores tricolores.

Mas eram cores de lugares mais distantes, distantes dos olhos.

Mas o amor não precisa de olhos que não sejam os do amor.

Era o amor pelo tricolor das Laranjeiras, o tricolor do Rio de Janeiro; o Fluminense.

Como era comum acontecer, pelo maior alcance das rádios cariocas no interior do Nordeste torcia-se pelos times do Rio.

Como também é comum acontecer, esse amor foi passado de meu pai para o meu irmão mais velho e para mim, o do meio.

Foi o caçula, cuja infância já acontecia em Salvador, que se “rebelou” e nos fez conhecer outras cores.

Criança, não tinha como ver o time que já começava a fazer parte da sua vida. Só podia ouvir. E ainda encontrava o irmão chato do meio para “impedir” que assim o fizesse.

– Pai, manda esse menino desligar o rádio que eu quero dormir.

O que fazem os pais?

Incomodado com a situação, meu pai começou a levar o filho caçula à Fonte Nova.

Cumpria o papel de pai.

Mal sabia que iria além.

E foi, muito além.

Irmanados, pai e filho já não conseguiam ficar sem ir à Fonte Nova.

Já não conseguiam viver sem o Bahia.

O amor pelas cores tricolores que o pai já conhecia trocava o verde do Fluminense pelo azul do Bahia.

E algo muito mais forte do que pode parecer a simples troca de uma cor surgia na vida dele.

Quando não se consegue viver sem, deixa de ser só amor e se transforma no mais fantástico e perigoso dos sentimentos; a paixão.

Aquele mesmo pai que já sabia o que significavam amor e paixão juntos, porque os dedicava aos seus filhos, particularmente a aquele “pirralhinho”, sentia nascer, crescer e tomar conta dele uma nova forma de amor e paixão.

Surgia ali o amor e a paixão de meu pai pelo Bahia.

Tornou-se um apaixonado.

Quantas vezes viajou para acompanhar o time!

Acredito firmemente que ali, na arquibancada, vendo o Bahia jogar, completava-se o homem completo.

Amor e paixão por tudo que fez na vida.

Nesses últimos tristes anos em que quase acabaram com o time e que, ainda que pleno, a idade já limitava as suas idas ao futebol, já sabíamos.

Assim que terminava um jogo em que o Bahia ganhava, o celular tocava. Era ele com a sua inesquecível frase:

– Torcer, só pra time bom.

O irmão caçula, entre tantos méritos, teve também esse; fez surgir no pai uma enorme paixão, acompanhado pela minha mãe, que também passou a torcer pelo Bahia.

Dessa vez, o filho guiou o pai.

Que bom que meu irmão não desligou o rádio quando eu pedia.

Enquanto baixava o volume, sugestão do pai para satisfazer aos dois filhos, explodia dentro dele a paixão pelo Bahia.

O que fez o irmão do meio?

Pegou carona e passou a fazer parte do time.

Devo aos dois, irmão e pai, ambos de saudosíssima memória, o mesmo amor e paixão pelo maior time do Norte e Nordeste brasileiro:

O Bahia.

Hoje, 29 de março de 2015.

Há exatos 55 anos, em 29 de março de 1960, o Bahia ganhava o seu primeiro título nacional.

A Taça Brasil de 1959.

Ainda que num momento em que paga um altíssimo preço por administrações vergonhosas, às quais só resistiu pela sua força, o Bahia é isso:

O maior time do Norte e Nordeste.

E voltará a ser um dos maiores do futebol brasileiro.

O que fazer com o coto pulpar? Final

Dúvida''

Por Ronaldo Souza

Estivemos conversando sobre esse assunto nas três primeiras partes desse texto (aqui, aqui e aqui)

Como finalmente responder a essa pergunta?

A primeira coisa a ser feita é reforçar que não existe preparo de canal atraumático. Como qualquer outro ato cirúrgico, o preparo do canal gera trauma aos tecidos, no caso em particular, ao coto “pulpar”.

Uma coisa é preparo do canal sem dor pós-operatória, outra, completamente diferente, é preparo do canal sem trauma.

Isso não existe.

Sendo assim, qual será a resposta ao trauma do preparo do canal?

Poderemos ter basicamente três situações.

  1. Ausência de dor
  2. Dor provocada
  3. Dor “espontânea”

Ausência de dor

Diante de um preparo bem conduzido, não deverá haver dor pós-operatória.

Perceba que não estou dizendo que não haverá reação inflamatória e sim que não haverá dor.

No preparo de canal bem conduzido, com pouco potencial agressivo, haverá resposta inflamatória de pequena intensidade.

Assim também deverá ser o edema inflamatório consequente ao preparo.

Nessas condições, com pouco volume, o edema terá menor ou nenhum potencial de compressão tecidual e células sensitivas. Acomoda-se nos espaços medulares dos tecidos periapicais e o paciente se apresenta assintomático.

Dor provocada

A ação mecânica menos cuidadosa da instrumentação, ação física negligente durante a irrigação e o uso de soluções irrigadoras quimicamente mais agressivas configuram um preparo de canal com maior potencial de agressão aos tecidos tratados.

Em situações assim o edema tenderá a se apresentar com maior volume.

A depender disso ele ainda poderá “se acomodar” nos tecidos periapicais e não gerar dor pós-operatória. Nesses casos o paciente deverá permanecer assintomático, a não ser quando houver “provocações adicionais”, como mastigação, toques do dente antagonista…

Em outras palavras, diante dos impactos sofridos pelo dente ao exercer as suas funções ou outros estímulos, o edema sofre compressão e por sua vez comprime tecido e células sensitivas. O resultado é a dor.

São as dores provocadas.

Dor “espontânea”

Existem dois fatores geradores de dor; os externos e os internos.

Vamos lá.

Quando você faz o teste de sensibilidade pulpar ao frio, o surgimento da dor se dá pela aplicação do frio, um estímulo externo.

Quando o estímulo é removido, cessa a dor.

No entanto, quando o paciente se apresenta com alterações vasculares mais avançadas ou, pior ainda, já com sintomas bem definidos de pulpite, diante da remoção do estímulo a dor não desaparece. Ela se mantém “espontaneamente” (não está sendo provocada) graças a fatores internos.

É o que ocorre quando o paciente se queixa de dor “espontânea” ao deitar ou quando faz atividade física mais intensa. Diante do maior aporte sanguíneo em situações em que o fluxo sanguíneo está alterado, a pressão pulpar se acentua e se manifesta através da dor.

Para o paciente, é espontânea porque, de fato, ele nada fez que a justifique, tendo em vista que deitar e fazer atividade física são coisas comuns na sua vida. 

Assim, quando o preparo do canal é malconduzido, com instrumentação muito traumática, irrigação feita com ação física intempestiva, de forma descuidada, com soluções irrigadoras de potencial químico agressivo, a reação inflamatória também deverá ser mais intensa.

Nessas condições o edema tenderá a ser bem maior.

Sem espaço para se acomodar nos tecidos periapicais, ele não precisa ser “provocado” para gerar dor. Pelo seu maior volume, todo o tempo estará fazendo compressão e daí virá a dor, definida como espontânea.

Há acontecimentos muito interessantes durante todo esse processo que mostram a beleza e importância da reação inflamatória, cuja discussão em detalhes não cabe aqui por não ser o objetivo deste texto.

Intencionalmente, deixei de lado e o faço também agora alguns aspectos da reação inflamatória, como por exemplo a liberação de citocinas.

Se falo em “deixar de lado” aspectos tão importantes como a participação de citocinas na reação inflamatória é tão somente por pretender, através de abordagem bem clínica, tornar mais didática a compreensão do que acontece com os tecidos periapicais após o preparo do canal.

Entretanto, é necessário entender que, seja qual for a situação (ausência de dor, dor provocada ou dor “espontânea”), haverá sempre uma reação inflamatória.

Neste momento torna-se fundamental a compreensão de que morte celular e necrose tecidual são inerentes à reação inflamatória pós ato operatório.

Assim, é de grande relevância a compreensão de que na maioria das vezes após o preparo do canal o coto pulpar deve entrar em necrose, parcial ou total.

Catanzaro Guimarães

Ora, se na maioria das vezes ocorre necrose do coto pulpar, na maioria das vezes os canais com polpa viva que tratamos ao longo de todos esses anos teriam se tornado insucessos. A literatura afirmou isso em vários momentos.

Coto pulpar M Leonardo'

E não parece ser esse o relato dos endodontistas.

“Com relação ao chamado coto pulpar, em condições normais…”

Coto pulpar M Leonardo

Se morte celular e necrose tecidual são inerentes à reação inflamatória pós ato operatório e “na maioria dos casos o processo necrótico envolve todo o coto pulpar”, como diz Catanzaro Guimarães, elas, morte celular e necrose tecidual, parecem estar inseridas nas condições normais.

E aqui está a confirmação do que acabo de dizer; “…os fibroblastos jovens e outras células da região se mobilizam em direção ao coágulo e iniciam a deposição de um novo tecido, o chamado tecido de granulação”.

Dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Se um novo tecido, o chamado tecido de granulação, está sendo depositado é porque o que estava lá, o coto pulpar, não está sendo preservado.

Se ele não é preservado, não parece correto afirmar que “a reparação não se produz quando não se preserva a vitalidade do coto pulpar”.

Não lhe parece óbvio?

As contradições da literatura sempre existiram e sempre exigiram maior cautela por parte de quem a produz e sobretudo na sua interpretação, aspectos que parecem não ter merecido a devida atenção.

Por essa razão, há de se repensar algumas recomendações que têm sido feitas nos últimos tempos.

Ampliação foraminal

Uma vez que o coto pulpar vai entrar em processo de necrose, o que levaria ao insucesso do tratamento, ele deve ser removido.

Esta era a concepção que reinava; coto pulpar necrosado era sinônimo de caso perdido.

Imaginou-se inicialmente que, removendo-o, a ampliação foraminal seria necessária para que houvesse espaço físico suficiente para a invaginação tecidual e a consequente formação de um novo coto “pulpar”.

À luz do momento em que está ocorrendo o desenvolvimento radicular, é fato que o espaço físico apical apresenta grande diâmetro (rizogênese incompleta).

Por conta desses aspectos, surgiu a nova onda.

Passou-se à disseminação ampla, total e irrestrita da necessidade de se fazer ampliação foraminal. Ao mesmo tempo em que se removia o coto pulpar, criava-se o espaço necessário para a invaginação tecidual e consequente formação do novo coto.

As ondas são perversas, não têm compromisso e são bem coordenadas.

Massifica-se um determinado conceito, cria-se uma enorme corrente que a tudo e a todos arrasta, de maneira que, mesmo quem discorda ou não concorda inteiramente, fica acuado, entra e passa a fazer parte dela.

Uma vez nela, não é permitido pensar.

Ainda que a linha de raciocínio da necessidade de maior diâmetro apical para a invaginação tecidual e formação do novo coto pareça lógica, é possível que um olhar mais cuidadoso não apresente convergência com esse modo de pensar.

Como de fato aconteceu. Não se confirmou a relação de causa e efeito que se pretendeu dar ao procedimento.

Questionamentos básicos precisam de uma explicação e aqui vão pelo menos alguns deles.

  1. Qual lima ou quantas limas seriam necessárias para se remover o coto pulpar?
  2. Quantas análises, estudos de relação das limas com os forames, foram feitos para investigar isso?
  3. Nessas condições, em quantos casos os cotos foram de fato removidos ou simplesmente lacerados?

Não, não houve esse tipo de preocupação.

A regra era e é fazer ampliação foraminal.

Porque e como, não importa.

Finalmente, faz ou não a ampliação foraminal?

Não.

Ela é inteiramente desnecessária.

Sobre isso já falei anteriormente, particularmente na parte 2 desse texto (veja aqui).

Repito.

Ampliação foraminal nos casos de polpa viva não traz nenhum benefício ao tratamento.

Nenhum.

A História de um trabalho. Além do final

Relationship between the apical limit of root canal filling and repair

Por Ronaldo Souza

“São 20 casos clínicos, dos quais 10 são apresentados no artigo.
Como falei, são todos do meu consultório, realizados entre 1987 e 1996 (10 anos), com tempo de acompanhamento de até 21 anos e com tomografia de alguns deles. O último acompanhamento foi feito em 2008.
Quando vi o material que tinha nas mãos (aí já era professor), resolvi que um dia sentaria para escrever sobre ele.
Sem pressa, como também já falei, só comecei a escrever entre 2010-2011 e se desenrolou então toda essa “história” que contei aqui.
Por tudo que relatei, no final do ano passado resolvi voltar a “pensar” na publicação.
Dei a ela um novo rumo e aí escolhi o Endodontic Practice, uma revista inglesa bem clínica.
Achei que devia contar a você.
Em virtude do que tenho visto ultimamente, essa conversa certamente não morre aqui”.

Assim terminei o texto de A história de um trabalho. Final.

Uma vez que falei que o artigo foi publicado num periódico inglês que não é on line, só impresso, ficaria muito difícil para a maioria conseguir lê-lo, particularmente os brasileiros.

Argumentei isso com Dr. Julian English, editor do Endodontic Practice, (até janeiro deste ano era Julian Weber) e ele, aceitando a ponderação, me autorizou a postar o PDF aqui no site.

A partir de hoje, portanto, o artigo “Relationship between the apical limit of root canal filling and repair”, publicado em maio de 2018, está à sua disposição. Para ler e baixar, clique aqui em Publicações.

Permita-me acrescentar um detalhe.

Pelas suas características, entre as quais o fato de ir no sentido contrário de toda a literatura endodôntica, até onde eu sei nenhum outro artigo igual a esse foi publicado em qualquer parte do mundo.

Daí a necessidade de chamar a sua atenção para o fato de que se você ainda não leu as outras partes que compõem essa “história”, leia a 1ª parte aquisegunda aqui e terceira aqui.

Faço isso em nome da melhor compreensão de todo o processo.

O Natal chegou

Natal

Por Ronaldo Souza

Não faço minhas caminhadas pela manhã. Geralmente faço isso no final de tarde-começo da noite.

Como sempre, hoje acordei bem cedo, mas resolvi caminhar um pouco na praça bem na frente do prédio onde moro.

Não deixou de ser uma atividade física, mas não foi daquelas em que você acelera o ritmo, faz respiração, tempo determinado…

Não, nada disso.

Foi mais para deixar virem os pensamentos livres, conversar comigo mesmo.

Às 07:30 já estava no supermercado comprando algumas coisas.

E aí aconteceu.

Ao fundo, comecei a ouvir “White Christmas”, com Bing Crosby.

Conta a lenda que Crosby chegou a ganhar um concurso em que tinha como concorrente nada mais nada menos que Frank Sinatra, “Mr. Blue Eyes“.

Bing Crosby, também de olhos azuis, era a nata da música americana.

Um digno representante do “american way of life“.

Não saio muito, gosto de ficar na minha casa, entretanto, não há como e porque negar que essa época do ano me toca muito.

Iremos aos shoppings, faremos as nossas compras e faremos o nosso amigo oculto.

Oculto e reservado; somente eu, ela e as nossas filhas.

Algo que fazemos há anos, desde que a mais nova sugeriu.

O famoso “espírito do Natal” sempre chega na minha vida.

Há anos em que chega mais cedo, há outros em que o faz mais tarde, mas sempre chega.

Depende do meu estado de espírito.

No Natal tudo é mais alegre, mas também tudo que tem que doer dói mais.

Desde a minha infância conheço Bing Crosby, graças a essa música e ao filme, estrelado por ele.

E o que faz parte da nossa infância jamais será esquecido.

Bing Crosby era, certamente, o homem mais feliz do mundo.

E tudo que aquela criança de Juazeiro (BA) queria da vida era ser feliz.

Estava ali o meu espelho.

Somente muitos anos depois li que Bing Crosby, o cantor da voz privilegiada que vencera Frank Sinatra num concurso, o artista consagrado em todo o mundo, não era tão feliz.

Um documentário sobre ele, que assisti há alguns anos, mostrava a infelicidade daquele homem que era a felicidade personificada.

O mito da música americana não era mito para os filhos.

O pai que imaginávamos, pelo que víamos no cinema, não existia.

A ausência, que só os filhos conhecem, estava presente naquelas vidas ricas, famosas e… vazias.

Ah, a vida como ela é.

E que poucos vivem.

O ganhar mais, o querer ter mais, a posição, o status, os títulos…, quantas coisas nos afastam da vida real sem que sequer percebamos.

É essa irrealização que nos realiza nos dias atuais.

É ela que traz o vazio que aí está.

A incompatibilidade do momento que vivemos com qualquer coisa que nos remeta ao amor e à tolerância entre as pessoas certamente faria com que o espírito do Natal chegasse bem mais tarde esse ano ou, quem sabe, nem viesse.

Alheio a isso, Bing Crosby me anunciou a chegada do Natal.

O espírito do Natal, porém, insiste em não querer chegar.

Terei que recorrer à família, como sempre faço e onde sempre encontro abertos os portões que me levam de volta ao mundo em que parece ser mais possível um novo encontro com ela, a felicidade.

Sabendo-a agora mais fugaz e que, como eu, vive de momentos.

Como estar hoje no almoço de aniversário de meu irmão.

Momentos, mas de muita felicidade.

Endodontia e o Laboratório de Microscopia

ABO

Departamento de Endodontia

Por Ronaldo Souza

Já tive oportunidade de falar aqui sobre as mudanças que vêm sendo implementadas na atual gestão da ABO Bahia.

Não são poucas, algumas das quais claramente perceptíveis.

Não há, porém, como não destacar a mais recente.

Era um desejo antigo e estivemos perto de concretiza-lo há algum tempo, porém não foi possível com a empresa com a qual conversávamos.

Agora, entretanto, o Departamento de Endodontia da ABO-BA tem a alegria de comunicar a criação de um Laboratório de Microscopia, cuja construção será iniciada no começo de 2019.

Os microscópios já foram adquiridos.

Nesse momento inicial, serão 6 microscópios de bancada e um clínico.

Os microscópios de bancada servirão para o treinamento contínuo do aluno.

Estarão lá à disposição dele em cada módulo, para que o seu treinamento seja o mais completo possível.

Em outras palavras, um aprendizado consistente, pois o aluno terá tempo suficiente para, além de “conhecer”, aprender de fato a usar o microscópio.

Na sequência, ele fará uso do microscópio clínico em paciente.

Em breve teremos notícias com mais detalhes, mas, desde já ficam os cumprimentos e agradecimentos à Dra. Maria Angélica Behrens (presidente), Maria Rita Sancho Rios Xavier, Maria Amélia Ferreira Drummond e toda a diretoria por essa realização da ABO-BA.

Abraços

A Endodontia e o CIOBA

CIOBA 2018

Por Ronaldo Souza

Em novembro de 2016 escrevi e postei A ABO Bahia está de parabéns, no qual me reportei à feliz condução do CIOBA daquele ano.

Tendo havido um desabamento de parte da estrutura do Centro de Convenções da Bahia um mês antes do congresso, Dra Maria Angélica Behrens (presidente da ABO) e sua diretoria foram heroicos.

No curto espaço de tempo de um mês “construíram” um novo CIOBA, realizado na Fonte Nova.

Sobre essa questão, encerrei o meu texto assim:

É nítido que a ABO-BA respira novos ares e dá sinais de viver um novo momento.

Mesmo desvinculado por razões pessoais de participação no CIOBA desde a sua última versão em 2014, por estar no dia-a-dia da ABO através dos nossos cursos de Especialização e Atualização pude ver o “sufoco” que foi a vida de Dra. Angélica e de alguns membros de sua equipe durante o mês que antecedeu o Congresso.

Posso dizer, portanto, que qualquer crítica nesse sentido não tem pertinência.

A ABO Bahia está de parabéns.

E então abordei outro tema, dessa forma:

Entretanto, se, diante do que foi exposto, essas eventuais críticas devem ser desconsideradas, outras talvez não.

Durante os encontros pelas “ruas” do Congresso, alguns colegas (posso assegurar que não foram poucos) conversaram comigo e houve uma crítica de todos eles, alguns de forma tímida outros mais veementes, sobre o apelo comercial em algumas palestras.

Disseram que o nome do instrumento, do sistema, do material, o que fosse, aparecia com frequência inaceitável.

Alguns comentaram que já tinham percebido isso antes, mas a surpresa é que mais recentemente tem sido exagerado e que o envolvimento de alguns ministradores estaria ficando muito evidente.

Se pudesse fazer uma síntese do que ouvi, seria esta: não se falou ou pouco se falou do tratamento em si, mas sim do instrumento para fazê-lo.

Parece que as plateias estão percebendo algo estranho, algo que não seria de agora e muito menos estaria acontecendo somente no CIOBA.

E no estranhamento desses colegas parecia haver um pedido implícito.

Não deixem que isso aconteça também com o CIOBA.

Falei aí em cima que “mesmo desvinculado por razões pessoais de participação no CIOBA desde a sua última versão em 2014…

De fato, afastei-me da elaboração e organização da parte científica da Endodontia nos congressos de 2014 e 2016.

Assisti a todos os cursos dos professores convidados nos dois congressos, mas sem qualquer participação na sua elaboração.

Em conversas com a Dra. Maria Angélica Behrens, sempre atenta às coisas, ela não tardou a perceber; “alguma coisa está fora da ordem”, como diz Caetano Veloso em uma de suas músicas.

Os cursos do CIOBA voltariam, como voltaram, às mãos dos coordenadores dos departamentos da ABO.

Corrigiram-se os rumos de algo que não tinha sido bem traçado.

Tive o prazer de trabalhar com a Profa. Eneida Araújo na elaboração e organização do módulo Endodontia. Sua reconhecida simplicidade torna bem mais fácil a relação profissional. A sua também reconhecida humildade torna agradável o convívio.

Ficamos todos felizes diante dos elogios ao módulo Endodontia, particularmente o debate final, que, por questões de disponibilidade de horário, não estava previsto na programação oficial, mas pelo qual “briguei” até a quinta-feira (25/10), véspera do módulo.

Assim, em meu nome e no de Eneida, ficam aqui os parabéns pela qualidade das aulas e do debate e os agradecimentos aos professores Alexandre Capelli, Antônio Batista, Eudes Gondim Jr. e Rodrigo Vivan.

Afinal, foram eles que deram brilho a aquele momento e o fizeram “bombar”, segundo as palavras de Dr. Luciano Castelucci, vice-presidente do congresso.

Todos os parabéns a Maria Angélica Behrens, Luciano Castelucci, Paulo Feitosa, Cláudia Albernaz, Maria Rita Sanches e a todos os membros das comissões que organizaram o CIOBA e aos funcionários da ABO Bahia.

Vocês fizeram um belo congresso.

Quero falar de nós

Por Ronaldo Souza

No fundo, sabíamos que não tínhamos chances.

Como enfrentar os donos do dinheiro e do poder, daqui e de fora, tão vis e canalhas como se mostraram, que tinham a lhes proteger a imprensa, a parte mais poderosa do judiciário, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal?

Nunca houve campanha tão sórdida, tão covarde, tão indigna.

Quanto xingamento, quanta ofensa, quanta canalhice, quanta mentira.

E quanto dinheiro, num espetáculo escancarado de corrupção.

Sim, aquela que eles dizem combater.

Mas não quero falar deles.

Você viu como foi bonito?

Onde conseguimos arranjar tanta força?

Quando menos se esperava, lá estávamos nós.

Com o sorriso que só nós temos.

Nada parecia justificar aquele sorriso.

Mas, como um vulcão que irrompe incontrolável, uma força descomunal originada nas nossas entranhas corria pelas nossas veias, explodia nas nossas faces e se espalhava por todo o país.

E as nossas roupas alegres e coloridas de todas as cores?

Sim, não precisamos ostentar as cores da nossa bandeira porque estas estão eternamente fincadas nos nossos corações.

O nosso verde-amarelo não se exibe para em seguida reverenciar e prestar continência a outras bandeiras, com cores estranhas à nossa.

O nosso verde-amarelo não entrega as riquezas do nosso povo a outros povos.

O nosso verde-amarelo não espalha o preconceito, o horror, o ódio, a violência.

O nosso verde-amarelo não mata.

Estamos tristes, muito tristes.

Mas sabemos que o Sol voltará a nascer.

Um dia, não importa quando.

Esteja com o seu amigo, com a sua amiga.

Esteja com o seu companheiro, com a sua companheira.

Esteja com os seus filhos e com as suas filhas.

É neles que você vai encontrar aquela mesma força que contagiou o país e tornou tudo tão bonito, tão alegre, tão colorido, tão vivo.

É ao lado deles que você vai ver o Sol voltar a brilhar.

É sob esse Sol que iremos nos encontrar novamente.

Para sorrir.

Aquele sorriso que só nós temos.

Aquele sorriso que só nós sabemos sorrir.

Ninguém solta a mão de ninguém

O que fazer com o coto pulpar? Parte 3

Por Ronaldo Souza

Esses homens maravilhosos e suas máquinas localizadoras de CDC

Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras

Terminamos assim a parte 2 dessa conversa, com esse cartaz de um velho e divertido filme, que aproveito para falar do homem e suas máquinas.

Falemos antes, entretanto, de uma máquina maravilhosa e poderosíssima; o cérebro.

Estávamos falando de coto pulpar e coto periodontal.

E o coto pulpo-periodontal?

Coto pulpar''

Observe a figura acima. Imaginemos que o tecido periodontal se estende até o limite delimitado pela linha amarela; até ali teríamos então um coto periodontal. Para efeito didático, imaginemos também que ali estaríamos a 1 mm aquém do ápice radicular.

Imaginemos agora que o comprimento de trabalho (CT) fosse de 2 mm aquém do ápice radicular, muito comum para alguns profissionais, particularmente nos casos de polpa viva.

Assim, cortaríamos a polpa (sabia que até há pouco tempo preconizava-se isso, “cortar” a polpa?) um pouco mais alto, ali onde está a linha azul tracejada. Também para efeito didático, digamos que ali seja 2 mm aquém.

Teríamos então 1 mm de tecido periodontal e 1 mm de tecido pulpar.

Poderíamos chama-lo então de coto pulpo-periodontal, concorda?

Já sabemos que se o coto periodontal necrosar forma-se um novo coto, graças ao excepcional índice metabólico desse tecido.

E o que acontecerá se o 1 mm correspondente ao coto pulpar necrosar, o que segundo Catanzaro Guimarães é o mais provável?

Tendo em vista que polpa necrosada não regenera, o que acontecerá e o que fazer?

Não se preocupe, o organismo faz por você.

Aliás, deixe-me aproveitar e dizer uma coisa.

O organismo do paciente adora ele, o paciente. Todos os organismos são assim, adoram os seus “donos”.

Se é assim, tudo que você fizer para o bem do paciente vai contar com a ajuda dele.

Sabe qual é o grande problema?

É que é muito comum o endodontista atrapalhar o organismo.

Quer um exemplo?

O organismo não suporta que joguem coisa nos tecidos periapicais.

Mas você sabe como é o endodontista, né?

Se acha.

O que faz ele?

A cada obturação joga 3 quilos de material obturador lá nos tecidos periapicais.

Resultado.

O organismo vai passar horas, dias, semanas, meses, anos, se virando para eliminar aquilo.

Sabe o que é pior?

Numa grande quantidade de vezes não consegue.

Você acha que ele gosta disso?

Em outras palavras, o organismo do paciente está do seu lado, ele joga no seu time. Ele jamais vai querer lhe atrapalhar.

Portanto, não o atrapalhe.

Voltemos.

Se essa parte do tecido que corresponde à polpa necrosar, também vai se refazer, às custas do tecido… periodontal.

Isso mesmo.

É o tecido periodontal que vai se refazer e se estender, “caminhando” um pouco mais até o espaço outrora ocupado pela polpa. Formará assim um novo coto, que terá 2 mm de extensão; 1 mm que já era tecido periodontal e 1 mm que era polpa.

Assim, o novo coto terá 2 mm de extensão.

Você ainda tem alguma dúvida de que será periodontal?

Mesmo esse novo coto, sobre o qual não pode haver dúvidas de que é periodontal, foi chamado por diversos autores de coto “pulpar”. Assim, entre aspas.

Um grande equívoco.

Percebe o “poder” do tecido periodontal?

Percebe porque a Natureza (lembra que chamei assim?) é sábia?

Ela colocou ali um tecido conjuntivo fibroso para suportar os impactos que o dente sofrerá ao longo do tempo, mas deu a ele um excepcional índice metabólico, pois, ali, na porção final do canal, ele terá outra função; a de constituir o novo coto, sobre o qual é colocada a responsabilidade de promover reparo.

Como se vê, uma função nobre.

A precisão imprecisa

Apesar do uso que tem sido dado a eles, os localizadores apicais eletrônicos, como eram chamados inicialmente, vieram para reforçar o conceito de preservação do coto pulpar e as chances de se alcançar esse objetivo.

Pela diferença de impedância elétrica existente entre o tecido contido no canal dentinário (pulpar) e o do canal cementário (periodontal) e com a precisão atribuída aos localizadores, conseguiríamos identificar o momento em que ultrapassaríamos o limite CDC.

Nesse momento, os sinais auditivo e visual do localizador nos diriam; pare aqui. Daqui em diante não é mais polpa. Se não é mais polpa, não lhe cabe entrar. Saia. Este território é sagrado.

E assim o coto pulpar seria preservado.

Foi assim que foi ensinado no início.

Nessa forma de ensinar era como se tecido pulpar e periodontal estivessem configurados como na imagem abaixo, ou seja, teriam as suas fronteiras bem definidas e delimitadas. Onde termina um, começa o outro.

Mãos 1

Não é assim. O limite CDC não corresponde ao que se imaginava anteriormente.

Veja as imagens abaixo. As setas vermelhas em A e B apontam para um limite CDC e no mesmo canal as verdes apontam para outro.

Coto pulpar'''

Ainda que sejam canais observados sob microscopia eletrônica de varredura, são apresentados sob uma perspectiva bidimensional estática, tal qual uma radiografia periapical. Quantos limites mais devem existir sob a perspectiva tridimensional dinâmica?

Olhando a imagem em B, onde os limites CDC estão identificados em milímetros, surgem algumas questões:

  1. Onde se daria a passagem de tecido pulpar para periodontal, em 2,1 mm ou em 1,5 mm?
  2. Em que local ocorreria o registro de mudança de impedância entre o tecido pulpar e o periodontal acusando que ali é o limite CDC, local de parada para não traumatizar o coto pulpar; em 2,1 mm ou em 1,5 mm?
  3. Não lhe parece que os pontos de constrição (você vê só um?) não estão nem em 2,1 nem em 1,5, mas sim acima deles, já em tecido periodontal. Em outras palavras, você percebe que o ponto de constrição não está “separando” o tecido pulpar do periodontal?

Além dessas considerações, o encontro entre polpa e periodonto teria uma configuração mais próxima do que se vê na figura abaixo, onde os tecidos se entrelaçam.

Mãos 2

Haveria como registrar passagem de um tecido para o outro e estabelecer limite preciso nessas condições?

Já passou da hora de compreendermos e ensinarmos o tecido contido na porção final do canal como periodontal e não pulpar para entendermos o tratamento endodôntico.

Foi esse o grande equívoco que se cometeu ao longo de todos esses anos, equívoco que nos fez tratar o limite apical de trabalho como uma questão numérica.

Imaginar que o problema e sua consequente solução é estabelecer a quantos milímetros aquém do ápice devemos ficar é erro grosseiro.

Erro que se comete ainda nos dias de hoje.

Ficar falando, discutindo, ensinando o comprimento de trabalho em detalhes milimétricos é insistir no erro cometido no passado.

Apontando para esses aspectos, abro agora um parêntese na nossa conversa.

O Velho versus O Novo

Ao pensar em escolher um caminho, nunca esqueça:

Não há o caminho a seguir.

Insisto; se você trabalha apoiado no conceito de certo e errado, é certo que você está errado.

Não é assim.

Tudo é feito de tal maneira que a “novidade” cause grande impacto, seja ela qual for.

É preciso dizer que o “velho” não resiste ao “novo”, não importa o que isso signifique.

Dão aos instrumentos características definidoras de tratamento, protocolos infalíveis (se não deu certo foi porque você errou em alguma coisa), enfim, procedimentos que encaixotam a atividade clínica em compartimentos.

“Para isso, isso; para aquilo, aquilo; para aquilo outro… ah, aí agora é diferente, aí só com este instrumento…”

Aquela máquina maravilhosa e poderosíssima, o cérebro, sobre a qual falei no início, perde a função.

Há que oferecer muito mais além de técnica.

Exploda as caixas ou, melhor ainda, abra todas e faça o seguinte.

Como já estão cheias de instrumentos, ponha algumas coisinhas mais lá dentro; conhecimento, boas técnicas de preparo do canal, bons materiais e técnicas de obturação e, essencial, a sua inteligência e o seu bom senso.

É isso que está faltando no seu kit; você.

Não existe outra maneira de ser um bom profissional.

O resto é marketing.

A briguinha boba que vivem criando e fomentando entre o velho e o novo sai da cabeça do velho que tem pouca idade; o novo velho.

E tolo.

No cérebro dele não há espaço para o que se consolidou com o tempo (através da comprovação científica e experiência clínica) e o que está chegando para melhorar o que está consolidado.

Para ele, ou é um ou é outro.

Nem o “velho” nem o “novo” tem importância para ele, mas sim o marketing e sempre será mais fácil fazer marketing em cima do “novo”.

Vamos fechar?

A radiografia periapical representa a medição clássica para determinação do comprimento de trabalho. Os localizadores foraminais eletrônicos constituem uma nova e excelente ferramenta para ajudar ao endodontista a alcançar esse objetivo.

Assim ensino aos meus alunos.

Ninguém pode ter dúvidas da importância dos localizadores foraminais, recurso que deve fazer parte do arsenal do endodontista, entretanto, algo precisa ser entendido:

O que fazer com o coto pulpar nada tem a ver com tecnologia.

A maior prova disso parece não ser percebida.

Depois da chegada dos localizadores foraminais,

  1. descobriu-se finalmente qual é o comprimento de trabalho adotado pelos autores, professores e profissionais?
  2. qual é ele?
  3. ou ainda são adotados alguns, como 0,5 ou 1,0 ou 1,5, ou 2,0 aquém?

Provavelmente o CT mais preconizado seja de 1 mm aquém do ápice radicular, concorda comigo?

Ótimo.

Qual é o comprimento médio do canal cementário encontrado por Kuttler, para citar talvez o estudo mais clássico da literatura? 0,5 mm no paciente jovem e 0,8 mm no paciente idoso.

O que é um paciente jovem, vai de qual idade a qual idade?

O que é um paciente adulto, vai de qual idade a qual idade?

Fiquemos com os números de Kuttler.

Alguém usa 0,8 mm aquém como CT em pacientes adultos?

Ou usam 1 mm?

Essa medida foi “determinada” pelo localizador foraminal eletrônico ou foi adotada por consenso?

Vai-se ao zero e recua 1 mm.

É uma medida “coletiva”, para todos os canais.

Como poderia ser 1,5 ou 2.

Que precisão é essa?

Aí o “professor” faz 335 vídeos no YouTube.

Em todos vende tecnologia.

“… hoje ninguém mais faz endodontia sem localizador foraminal, porque ele dá 100% de precisão”.

Ninguém mais faz Endodontia sem localizador foraminal???

Cem por cento???

Por que coisas assim são ditas?

Isso é de uma tolice sem tamanho.

O que está por trás de tudo isso?

Deixa pra lá, você já sabe.

O que o endodontista precisa, isso sim, é saber que tecido está “ali dentro” do 0,5, 0,8, ou 1,0, o que seja, e em que condições ele se encontra, isto é, conhecer os tecidos com os quais lida no seu dia-a-dia.

Esse é o aspecto fundamental.

Até a próxima conversa.