Veja na breve matéria do Brasil 247 o que diz FHC.
Depois de apoiar o golpe de 2016, que substituiu a presidente honesta Dilma Rousseff por uma quadrilha, e de incitar a prisão sem provas do ex-presidente Lula, FHC agora se diz assustado com o grau de intolerância no Brasil e ensaia um recuo diante do atual cenário do País; em uma longa entrevista concedida a Fernando Grostein, irmão de Luciano Huck, o tucano admitiu que a Justiça brasileira é parcial; o ex-presidente agora diz lamentar não ter se aproximado mais de Lula; Se eu pudesse reviver a história eu tentaria me aproximar não só do Lula, mas de forças políticas que eu achasse progressistas em geral. Que ajudasse a governar. E acho que o PT deveria ter feito a mesma coisa
“A justiça é de classe, seletiva. Se você for negro você vai pra cadeia mais depressa do que se você for branco, ainda mais na área de droga. Isso é indiscutível”, afirmou.
“Se eu pudesse reviver a história eu tentaria me aproximar não só do Lula, mas de forças políticas que eu achasse progressistas em geral. Que ajudasse a governar…”.
Por saber mais do que ninguém o quanto ele próprio é blindado, Fernando Henrique Cardoso, mesmo que muito sutilmente, estaria reconhecendo a perseguição da justiça (com letra minúscula mesmo) a Lula.
Lamentavelmente, porém, FHC é hoje um homem sem nenhuma credibilidade, ele próprio se desmoralizou.
Não tenho constrangimento em dizer que, como nos últimos anos, o que ele diz e escreve vai ao sabor dos ventos.
Ao dizer que a Justiça brasileira é parcial, de classe, seletiva, ele diz a mais pura verdade, mas ela é muito pior do que isso.
Há adjetivos que a definem bem, como covardia, mas há outros mais.
Entretanto, nada assegura de que amanhã mais uma vez ele desdiga o que diz nessa entrevista.
Basta um plim plim.
É triste, mas é verdade.
Que bom seria se fosse o homem que um dia se imaginou que ele era e não só mantivesse o que disse como agisse nesse sentido.
Também sem nenhum constrangimento, viria aqui e aplaudiria.
Quando eu era ainda muito jovem, nos meus 18 anos, França Teixeira era o radialista esportivo mais famoso e festejado de Salvador.
Era muito inteligente, sagaz e dono de humor sarcástico e ferino. Com virtudes e defeitos, como qualquer um de nós, era de fato uma personalidade do nosso futebol.
Sempre que se reportava ao Tribunal de Justiça Desportiva da Bahia (TJD-BA), fazia-o com cuidados e elogios.
Contribuiu assim para que eu crescesse nutrindo respeito pelos membros dos tribunais de um modo geral.
Somente anos depois, quando aprendi a ouvir e ler o que não é dito nem escrito, as entrelinhas, entendi melhor o significado das palavras de França Teixeira.
Mesmo reconhecendo que cenas como as que foram vistas agradam a parte considerável da torcida, o último Ba-Vi deixará marcas negativas para o futebol da Bahia.
Por razões diversas, é compreensível a satisfação pessoal que podem gerar aquelas cenas a alguns, mas daí a serem aplaudidas vai uma diferença enorme.
Já tive oportunidade de dizer em outro texto quenão foi o Ba-Vi, mas sim o Vi, o grande responsável pelo ocorrido, algo facilmente comprovável.
Não poderiam deixar de chamar a atenção a agressividade de jogadores como Kanu e Denilson, pelo Vitória, e a ostensiva reação de Edson, do Bahia.
No entanto, o grande destaque vai para os obscenos Yago e Rhayner, pela covardia demonstrada.
Ainda no tocante à briga, merece louvor a postura de vários jogadores como André Lima, Kaike e outros pelo rubro-negro e Lucas Fonseca, Nilton, Regis e outros pelo tricolor.
Pela contundência e confusão generalizada, a briga dos jogadores chamou a atenção de todo o Brasil, gerando os mais diversos comentários da imprensa local e nacional, todos exigindo punições severas.
Entretanto, para além das brigas, a cobrança mais forte e veemente de punição que ecoou Brasil afora foi no sentido das condições em que se deu o encerramento do jogo.
Foi consenso em todo o país a exigência por severa punição de quem teria orientado o término do jogo naquelas condições.
Ainda que inteiramente condenáveis, não são incomuns as brigas entre jogadores de futebol, ainda mais em clássicos como o Ba-Vi. Vide passado recente, um dos Ba-Vis do ano passado.
No entanto, a absurda orientação de provocar a expulsão de um atleta para, diante de número insuficiente de jogadores por parte de um dos times, promover o encerramento da partida, é simplesmente vergonhosa.
Recorre-se aqui à hipocrisia por não “ver” que não teria sido a primeira vez que um time abandona o jogo nas condições descritas e, quem sabe, não será a última?
De maneira nenhuma.
Mas essa atitude e a sua argumentação jamais poderão ser comparadas à briga de jogadores, mesmo com a contundência com que ocorreu, porque para esta pode-se argumentar com o calor do jogo, ânimos acirrados, o peso de um clássico…
Diferentemente, o encerramento do jogo da forma que aconteceu constitui prática antidesportiva vergonhosa sob todos os aspectos.
Ela nos atinge fortemente no que deve haver de mais sagrado para um povo que busca continuamente atingir o grau de desenvolvimento que o permita se ver como sociedade civilizada; a dignidade.
Como ficam os nossos filhos vendo aquilo?
Como aceitar e conviver com atitudes tão indecentes e pretender que a nossa juventude cresça saudável e digna?
De diferentes maneiras, foi obsceno o comportamento de Vagner Mancini.
A começar pela orientação que teria passado para Ramon para que Bruno Bispo provocasse o segundo cartão amarelo e a consequente expulsão.
Em seguida, a inútil tentativa de negar que teria dado essa orientação.
Na sequência, desafiar os repórteres a provarem a acusação de que ele teria feito aquilo, sob o argumento de que eles, repórteres, estavam lidando com”pessoas do bem, de caráter, e em tom desafiador provocar; quem tiver a prova, que apresente.”
Apresentaram.
Por leitura labial, cinco peritos comprovaram o que Mancini, estupidamente, tentou negar.
Inteiramente compreensível a sua alegria e o consequente abraço de comemoração com os advogados ao final do julgamento, mas fica uma enorme e indelével mancha no seu currículo, razão pela qual Mancini sai bem menor desse episódio.
Se foi realmente Mancini quem autorizou a expulsão, apesar das bobagens ditas a diretoria do clube não sofreria maiores consequências.
Caso contrário, ou seja, se, através do senhor Mário Silva, saiu dela a orientação para Mancini tomar aquela atitude, sai também desmoralizada.
Por outro lado, ainda que o tempo dissipe essa nuvem, a instituição Esporte Clube Vitória sai bastante prejudicada e terá essa grande mancha na sua história.
O que parece bastante improvável, no entanto, é que um garoto de 21 anos de idade, Bruno Bispo, jogando o seu primeiro Ba-Vi, cheio de sonhos, tenha idealizado e patrocinado sozinho aquela cena.
Creditar-lhe essa conta aponta para a covardia cometida contra ele.
Mas aí vem o que talvez represente o gesto mais significativo de toda a lambança.
O endosso de toda essa obscenidade.
A quem coube essa responsabilidade?
Para o bem do futebol brasileiro, particularmente do baiano, e em nome de toda a juventude desse país, imaginava-se que os homens da justiça desportiva puniriam exemplarmente os patrocinadores desse triste episódio.
Mas não foi isso que aconteceu.
Os jogadores, a parte mais fraca da corrente, bem ou mal foram punidos.
Punição que possivelmente será contornada com uma liminar que permitirá que joguem as partidas restantes do campeonato, aliás, prática recorrente no futebol.
Mas simplesmente resolveram ignorar todas as evidências que flagrantemente mostravam o acinte, o desrespeito e a má fé que revestiram o circo armado.
E o fizeram com argumentos inconsistentes e frágeis.
Foram nocauteados os princípios mais elementares não só do futebol, mas também daquilo que se espera de julgamentos de episódios que mancham indelevelmente a sociedade como um todo.
Nacionalmente, o futebol baiano sofre um grande prejuízo.
Internacionalmente, o futebol brasileiro também foi inegável e irreversivelmente atingido.
Mas, como sempre acontece, a história não guarda lugar para alguns homens.
A história, isso sim, terá um lugar reservado para esse julgamento do TJD-BA.
Lamenta-se que nesse caso não deverá ser dos mais honrosos.
Diante de toda essa obscenidade, a dança de Vinicius ganhou contornos de coisa de adolescente.
Todo o baile, não.
Esse foi obsceno.
Mesmo com sua esperteza e sagacidade, é muito pouco provável que hoje, se estivesse vivo, França Teixeira fosse capaz de fazer comentários que desconsiderassem o real significado de tudo que ocorreu.
De modo geral, nada deveria ser analisado fora do contexto, seja ele político, religioso ou do futebol, para ficar nesses três temas.
Todos dentro de um contexto geral maior; a questão cultural da sociedade.
Sob essa perspectiva, pode-se entender mais facilmente alguns fenômenos.
A paixão maior do brasileiro, o futebol, pode e deve ser vista assim.
Diferentemente de outras atividades de lazer e cultura (literatura, teatro e cinema, por exemplo), o grande protagonista do futebol, o jogador, costuma ter a sua origem em camadas sociais com formação mais rudimentar.
Sem nenhuma conotação pejorativa, muito pelo contrário, há de se reconhecer e entender essa realidade social do futebol brasileiro, mesmo que se possa observar que nos últimos tempos houve uma melhora nesse sentido.
Uma das formas de se constatar isso é o famoso direito de pedir música no Fantástico (programa da TV Globo), dado ao jogador que faz três gols numa partida.
Apesar de compreensível, não é tão simples ver e ficar indiferente aos pedidos feitos pelos jogadores e, pior ainda, ouvir as músicas.
Não parece muito difícil identificar a influência que esse contexto exerce no momento mais importante do futebol; o gol.
Que não tivéssemos mais a força e o simbolismo de Pelé socando o ar na comemoração dos seus gols, mas que não chegássemos ao que chegamos.
Já há algum tempo, a maioria das comemorações de gol no futebol brasileiro é feita de maneira ridícula, algumas das quais grosseiras e de péssimo gosto.
São diversas, entre elas a de Vinícius, jogador do Bahia.
Entretanto, tentar transforma-la em justificativa para o que ocorreu no Ba-Vi é o mais escancarado diversionismo e só demonstra a incompetência, descompromisso e falta de seriedade para lidar com as coisas do futebol.
Diante do acontecido, a postura do comando do Vitória foi e vem sendo um verdadeiro desastre.
Digo comando porque, tendo em vista que não se sabe quem orientou, pode-se atribuir tanto ao presidente do clube e sua diretoria, quanto à comissão técnica, o que significa basicamente dizer Vagner Mancini.
Os erros de Vinicius
Comum nos diversos esportes (box, MMA, futebol), as provocações entre atletas são vistas como algo normal e aceitas por todos. Para alguns, entre os quais me incluo, são ridículas e desnecessárias.
O comportamento de Vinicius, jogador do Bahia, através do seu twitter antes do clássico do último domingo (18/02) é de baixíssimo nível e ofensivo. Nada o justifica.
A seu favor, somente o fato de que esse é o padrão adotado por muitos que frequentam as redes sociais, mesmo entre os que se veem diferenciados.
Quanto à comemoração do gol, algumas considerações são necessárias.
Vista dentro do contexto que ele próprio criou através do twitter, ela pode ser interpretada como algo acima do tom, como estão dizendo.
Antes, porém, faço uma pergunta.
É comum o jogador comemorar o gol perto das traves onde ele foi feito?
Claro que sim. A comemoração costuma acontecer nas imediações do mesmo local onde foi feito o gol e é para ali que correm os outros jogadores do time para comemorar junto com o artilheiro, inclusive os da defesa, que geralmente estão do lado oposto do campo.
Vinicius não fez o gol, virou, atravessou o campo e foi comemorar “lá” na torcida do Vitória. Ele já estava ali e ali também já estavam seus companheiros de time, considerando-se que se tratava de um pênalti.
Ele sai depois correndo por trás do gol dizendo “eu sou, eu sou, eu sou”, segundo legenda que uma TV colocou.
Alguém pode dizer que isso não é comum no futebol?
Para citar somente um, por acaso Cristiano Ronaldo, com toda justiça o tão idolatrado jogador do Real Madri, nunca foi visto dizendo coisas semelhantes na comemoração dos seus gols?
Entendo a cautela de parte da imprensa local e nacional para tratar do assunto, afinal há a preocupação de não parecer que estariam tomando partido a favor desse ou daquele time, no caso o Bahia.
No entanto, qualquer coisa além disso, como querer justificar as agressões ocorridas com a comemoração é tentativa ridícula e absurda.
Vinicius teria passado um pouco do ponto, teria exagerado, teria provocado, são observações válidas e quem sabe merecedoras de alguma discussão.
Tudo bem.
Mas, o que faremos então?
Racionalizar e engessar o futebol, cuja característica maior é a paixão, tida por todos os estudiosos do assunto como algo inexplicável e, sobretudo, incontrolável?
Exigir que o jogador todas as vezes se lembre que não está diante de sua torcida, atravesse todo o gramado e aí, do outro lado, quando perceber que está diante dela, só então comemorar?
Exigir dele essa racionalidade no momento da maior explosão de emoção que se conhece em todos os esportes?
Ou então agredi-lo por cada flecha imaginária atirada contra a torcida do Bahia, como fazia Índio, jogador do Vitória?
Agredi-lo por todas as provocações insistentemente feitas diante da torcida do Bahia, como fazia Neto Baiano, jogador do Vitória?
Agredi-lo por cavar simbolicamente covas para enterrar o Bahia diante da sua torcida, como fazia Júnior (Diabo Loiro), jogador do Vitória?
Agredi-los, todos, por escolherem comemorar o título de 2016 pisando no escudo do Bahia em plena Fonte Nova, como fizeram os jogadores do Vitória?
Senhores, todos têm o direito de ser ridículo, mas é recomendável que não se exponham tanto.
Os erros de Mancini
A movimentação em campo que precedeu a quinta expulsão no time do Vitória, a que levaria ao encerramento do jogo, e as declarações dos repórteres da TV Bahia sugerem fortemente que a orientação teria vindo dos escalões superiores pela voz do Sr. Mário Silva, supervisor do clube.
Esta teria sido levada até Mancini pelo jogador André Lima.
Como mostram as câmeras de televisão, Mancini então chama Ramon, cochicha ao seu ouvido, este vai direto falar com Fernando Miguel, goleiro que, até então caído no gramado, se levanta de imediato e ocorre então toda a cena que culminou com a expulsão de Bruno Bispo.
Veja o que disse Mancini.
– Não. Não partiu do banco a decisão. Estávamos falando e chamei várias vezes aos atletas para que organizássemos melhor a equipe. No momento em que o Jaílson fez as expulsões, nossa equipe tinha um jogador a menos. Tínhamos que fazer uma linha de quatro e uma de três. Quando ele expulsou o Correia, eu voltei a chamar os atletas, que estavam distantes, desgastados, eu não conseguia falar com eles e fui muito claro ao Bryan para fazer uma linha de quatro, com dois jogadores à frente da zaga. Não sei por que todo mundo está batendo nisso aí. Eu conheço a regra do futebol, fui atleta, sou técnico há 14 anos, estou há mais de 30 anos no futebol. Não sei porque está se batendo tanto nisso – afirmou.
Observe que desde o início o treinador disse;“não partiu do banco a decisão”.
A impressão que ficou é que todo o tempo ele tentou deixar bem claro que não foi ele e que teria sido somente o ponto de conexão da diretoria com o jogador no gramado, aliás, caminho que seria o mais natural.
Na coletiva logo após o jogo, Mancini cometeu vários erros primários e fatais.
O primeiro, apontar Vinicius, jogador do Bahia que fez o gol e a comemoração com a dancinha do creu, como o culpado da confusão.
Será que ele não percebeu que o que se chamou de algo acima do tom, a comemoração de Vinicius, foi interrompida com um “cachação” do goleiro do Vitória, Fernando Miguel, e na sequência“por empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço…”, como seria definido posteriormente pelo árbitro na súmula do jogo?
Segundo, dizer que aquele tipo de decisão, forçar a expulsão e provocar o encerramento do jogo, é tomada no campo;“a decisão é de quem está dentro de campo”.
Essas foram as suas palavras, o que faria do Vitória um time sem comando.
O Vitória como time sem comando é fato? A imprensa diz que Mancini tem o grupo de jogadores na mão, desde o ano passado quando salvou o time do rebaixamento.
Terceiro, em tom de intimidação e desafiante criticar e condenar os jornalistas pela insinuação de que teria partido da direção ou dele a ordem para o jogador provocar a expulsão. Fez isso com a frase que lhe parecia definitiva;
“Quem tem prova disso? É uma acusação muito grave em cima de pessoas do bem, de caráter, profissionais que estão aqui. Quem tiver a prova, que apresente.”
Mancini se deu mal. A leitura labial mostrou que ele orientou sim Ramon a dizer a Bruno Bispo;“Pede ao Bruno, pode tomar o segundo amarelo”.
Talvez se possa ver no gesto do treinador uma tentativa de proteger a diretoria, mas Mancini teria, na verdade, feito uma coisa imperdoável a um comandante; jogar os seus comandados às feras.
Se ali na coletiva os repórteres estavam falando com“pessoas do bem, de caráter, profissionais que estão aqui”e a decisão foi tomada em campo, foram os jogadores, profissionais que não são sérios nem pessoas do bem, que fizeram a lambança em campo.
Pior ainda, Mancini jogava de forma absolutamente irresponsável e inescrupulosa a culpa maior sobre um garoto de 21 anos de idade, Bruno Bispo, jogador da base do Vitória que fazia seu primeiro Ba-Vi. Afinal, foi ele quem “tomou” a decisão de provocar a sua expulsão e com isso encerrar o jogo.
Uma vez que Mancini fez questão de dizer”eu conheço a regra do futebol, fui atleta, sou técnico há 14 anos, estou há mais de 30 anos no futebol”, a culpa seria daquele jogador inexperiente de 21 anos, que, não conhecendo a regra do futebol, fez o que fez.
Parece sensato que um garoto de 21 anos de idade, vindo da base do time, jogando o seu primeiro Ba-Vi, portanto, sob o peso que isso significa e sonhando com um lugar ao Sol, tenha idealizado e assumido a responsabilidade de tamanha ousadia que é provocar a sua própria expulsão e assim encerrar o jogo, sem ter a menor noção do que poderia lhe acontecer?
Não foi uma atitude digna do técnico.
E como agiu a diretoria do Vitória?
Também da pior maneira possível.
O que dizer da infantil e tola argumentação de que na briga o juiz expulsou três do Vitória e somente dois do Bahia (quando na verdade foram quatro, só que dois estavam no banco)?
Não perceberam que foi nítida a agressividade de vários jogadores do seu clube, identificada e apontada por toda a imprensa brasileira?
Todas as expulsões foram registradas da mesma maneira na súmula; por conduta violenta.
Por que Lucas Fonseca foi expulso?
Veja o que disse o árbitro Jaílson Macedo de Freitas na súmula.
“Expulsei por conduta violenta, aos 20 minutos do segundo tempo, com cartão vermelho direto, o Sr. Lucas Silva Fonseca, N° 28 do E.C. Bahia, por empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço do Sr. Denilson Pereira Júnior, N° 95 do E.C. Vitória”.
Digamos que isso tenha ocorrido e alguma câmera tenha mostrado.
Quem começou a confusão atrás do gol ao dar o ‘cachação’ e“empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço do”Vinicius, o jogador da dancinha?
Fernando Miguel, goleiro do Vitória.
Por que então o árbitro não o expulsou, dando somente o cartão amarelo?
Outra alegação foi a de que Diego Cerri, diretor do Bahia, teria feito pressão indevida e inaceitável sobre o árbitro no intervalo.
Os repórteres locais desmentiram isso, mas veja o que disse Jaílson de Freitas, o árbitro, na súmula:
“Informo ainda, após o término do primeiro tempo, indo em direção ao vestiário da arbitragem, ouvimos as seguintes palavras: ‘Jailson, no gol do Vitória, a bola foi na mão claramente’. Palavras proferidas pelo diretor de futebol do Esporte Clube Bahia, o Sr. Diego Cerri”.
Foi essa a pressão indevida e inaceitável?
Veja mais o que disse o árbitro.
“Relato que ao sair do vestiário em direção ao campo do jogo para o início do segundo tempo ouvimos do Sr. Erasmo Damiani as seguintes palavras: ‘Não aceite pressão do dirigente do Bahia’. O mesmo é diretor do Esporte Clube Vitória. Em tempo informo, após o término da partida, o referido diretor invadiu o campo de jogo em direção a equipe de arbitragem proferindo as seguintes palavras: ‘Você está de brincadeira, aceitou a pressão do Bahia’.
Se é para usar argumentações infantis e tolas, o Vitória teria feito duas pressões indevidas e inaceitáveis sobre o árbitro, o Bahia somente uma!
Meu Deus!
A diretoria do Vitória parece ainda não ter percebido a gravidade do problema que criou e a semana de treinamento com portões fechados no Barradão, além de sintomática, em nada ajuda. Desde quando se esconder é solução para os problemas?
É incrível a falta de percepção de que mancharam de forma irreversível a instituição Esporte Clube Vitória e não tenho nenhuma dúvida de que muitos torcedores rubro-negros já têm consciência disso.
O presidente, que tem se preocupado tanto em falar de mudança de postura do clube, dos novos tempos para o Vitória e para o futebol baiano, modernidade no futebol, tem mostrado uma inconsistência absurda e, pior, vem agindo à moda antiga, dos antigos homens que até pouco tempo comandavam esse mesmo futebol, alguns dos quais ainda estão incrustados no que ainda resta dessa estrutura arcaica.
Foi terrível o desfecho dado ao caso até agora pela diretoria do Vitória.
“O Esporte Clube Vitória reforça que não houve ordem ou orientação aos atletas por parte da direção para que houvessem expulsões suficientes para que a partida fosse encerrada pelo árbitro do jogo”.
Este é um trecho da nota oficial do clube.
Observe que ela tenta isentar a direção do clube, mas não cita Mancini. Ou seja, Mancini também foi jogado às feras junto com os jogadores.
O que se percebe em toda a imprensa nacional é que Vitória, Mancini e os jogadores saem menores desse episódio, com manchas nas suas histórias.
O que Mancini vai fazer não se sabe, mas, pelo visto, vai levar a culpa sozinho e episódios anteriores no seu histórico parecem tornar mais delicada ainda sua situação.
Ou será que ele não percebeu como vai sair desse episódio?
Com 21 anos, o pobre garoto Bruno Bispo carregará uma cruz muito pesada e sua carreira passa a ser uma incógnita.
A intensidade com que brinquei o carnaval por muitos anos tinha um custo alto.
A quarta-feira.
Ah, como doíam as minhas quartas-feiras de cinzas.
Parecia que o mundo desabava sobre mim.
Lembro de uma em que o trio elétrico ainda insistia em tocar dentro da minha cabeça na quarta-feira à noite.
Ainda solteiro, morando com meus pais, não conseguia dormir.
A minha conexão com o mundo real parecia ter-se perdido.
Não tive dúvidas.
Peguei um colchonete e pus no chão aos pés dos meus pais.
Alheio às notícias que eles viam na televisão, num esforço tremendo fui tentando sair daquele mundo gostoso e surreal.
Aos poucos o som do trio elétrico e todas as imagens que o acompanhavam foram se arrefecendo e, de lá de longe, começavam a chegar sinais cada vez mais perceptíveis do mundo real. As vozes dos meus pais e irmãos já ocupavam espaço bem maior do que aqueles sons que ainda ecoavam da festa.
O carnaval me ensinava, sem que eu já tivesse a devida percepção, os perigos da ilusão, quando a quarta-feira se mostrava mais longa e dolorosa.
Mas haverá sempre outro carnaval.
E a dor das quartas-feiras será cada vez menor.
Há, porém, outras quartas-feiras. Estas, muitas vezes traiçoeiras.
Hoje, imortal pela Academia Brasileira de Letras, Fernando Henrique Cardoso se sente atormentado pela verdadeira imortalidade de um homem que, operário, para ele sempre foi e é inferior.
A sua quarta-feira de cinzas não tem fim.
Sentimentos pequenos lhe corroem qualquer possibilidade de gesto ou ação com o mínimo de grandeza que se pode esperar de um homem que caminha para os 90 anos de idade sem mais nenhuma dignidade.
Diante da condenação do homem que o fez um perdedor, a pobre alma de Fernando Henrique Cardoso ainda encontrou forças para um ato que já não representava mais nada.
Ao dizer após a referida condenação “agora é que começa o jogo”, o pobre FHC pareceu antecipar o que pode ser a frase da sua lápide; “aqui jaz um homem sem honra”.
Nos momentos iniciais da sua crescente pusilanimidade, em que cada vez mais FHC subia os degraus da corrosão moral, houve momentos em que se imaginou que Fernando Henrique Cardoso traía o seu passado.
Mais recentemente, ao se tornar cabo eleitoral de Luciano Huck e apresenta-lo como o novo na política brasileira, como já o fez com João Dória e o faria (e fará caso seja necessário) com Bolsonaro, apontou-se para a sua possível senilidade.
Entenda-se “caso seja necessário” como uma eventual mudança de rumo da Globo na direção do homem que vai metralhar a Rocinha. No outro dia FHC estará com a taça de champanhe para dar as boas-vindas a Bolsonaro como o novo na política brasileira.
Não, não se trata de traição ao passado nem senilidade.
As duas alternativas de diagnóstico estão erradas.
Não se trai o passado quando este é uma farsa.
E esta, a farsa, quando chega o momento, faz com que caia a máscara para então se mostrar inteira.
Por outro lado, não parece sensato acusar a senilidade pelos percalços desse homem.
Pode-se lançar hoje um olhar diferente sobre o desespero de FHC ao dizer anos atrás “esqueçam o que escrevi” e, quem sabe, até entende-lo.
O seu evidente sedentarismo intelectual poderia sim antecipar-lhe a senilidade.
Também poderia ter semelhante papel a sua confortável vida material, desde a longínqua, privilegiadíssima e cara vida na Avenue Foch em Paris, para qual os olhares dos homens da lei que agem fora dela jamais se voltaram.
A sua cada vez mais frequente rejeição pelos meios acadêmicos certamente também pesariam nesse sentido.
Entretanto, o exercício da sua intelectualidade cansada e vencida em textos que ainda parecem exercer fascínio sobre segmentos carentes de um mínimo de razoabilidade nas colunas da nossa decadente imprensa, deve ter algum efeito atenuante sobre isso.
Mas que, ao mesmo tempo, parece não funcionar mais, mesmo entre os seus antigos admiradores.
Veja o que diz em sua coluna nestaquarta-feira de cinzaso jornalista Elio Gaspari, um dos que sempre aplaudiram de pé o ex-presidente.
Abre aspas Não se pode responsabilizar FHC pela ruína do PSDB, mas ele foi parte dela. Quando saiu do MDB, acompanhando Mário Covas e Franco Montoro para livrar-se das práticas que o haviam contaminado, buscava algo novo e foi bem-sucedido. O tucanato envelheceu, em vários sentidos.
Indo buscar o ‘novo’ na telinha, FHC e os articuladores da candidatura de Huck atestam o fracasso de suas práticas políticas. Huck é um profissional bem-sucedido no seu ofício, nada mais que isso…
Huck é um bom candidato para quem tem medo de perder eleição, e só. De Sartre a Huck, FHC percorreu sua curva… Fecha aspas
Em outras palavras, é o fim.
De um homem que a ilusão da festa fez acreditar que tudo aquilo era real.
De um homem que tentaram mostrar ao país como grande presidente, mesmo diante das desastrosas estatísticas do seu governo e que só agora jornalistas como Gaspari começam a mostrar como atestado do “fracasso de suas práticas políticas”.
De um homem que se acostumou a trair seus parceiros do PSDB, como agora mais uma vez faz com Alckmin em favor de Huck.
De um homem que traiu o país dando-o de bandeja aos interesses internacionais, leia-se particularmente Estados Unidos, com a famosa Privataria Tucana, para qual os olhares dos homens da lei que agem fora dela jamais se voltaram.
De um homem cuja vida se tornou um suplício por não conseguir entender e admitir a grandeza de outro homem que, companheiro de lutas anteriores, tornou-o pequeno e desprezível.
É o fim de um homem que já há algum tempo se deixou levar pela decrepitude moral e chega de forma melancólica ao final da vida.
E deixa para trás uma legião de admiradores que jamais teve a menor capacidade de perceber o quanto foi manipulada durante tantos anos.
Logo no início do livro de Carlos Heitor Cony, “Antes, o Verão”, um garoto pergunta a um velho escritor:
“Por que você escreve livros se tudo já foi dito?”
Uma pergunta complicada.
Não, nem tudo já foi dito.
Ainda há muito por dizer.
Mas, digamos que tudo já tivesse sido dito.
Ainda assim, haveria algo a se considerar.
O jeito de dizer.
Muitas vezes o jeito de dizer faz a diferença.
Uma vez em um evento de Endodontia um colega disse a outro, e este me contou, que não me levava para dar aula no seu estado porque eu derrubo tudo que o grupo dele diz.
Se derrubo tudo que dizem, não sei, não faço ideia.
Só sei que já fui lá, no estado dele, incansáveis vezes levado por outros professores, nunca pelo grupo do qual faz parte; eles, realmente, nunca me levaram lá.
O detalhe é que não tenho nenhuma intenção de derrubar o que dizem, o que quer que se diga, onde quer que se diga.
Até porque seria uma tremenda indelicadeza, na verdade uma grosseria.
O que ocorre é que não sigo o padrão.
Sim, isso mesmo, não sigo o padrão.
Bons psicólogos e psicanalistas não lhe dizem o que fazer.
Procuram lhe mostrar a resposta que está em você.
Não aponto para a verdade.
Por uma razão bem simples.
Ela não existe.
Quer um exemplo?
Todos têm protocolos a ensinar.
Eu não tenho.
Todos sabem que nas minhas aulas desenvolvo linhas de raciocínio e convido a plateia a me acompanhar.
Seja num grande auditório, seja numa pequena sala de aula de curso de especialização.
Ao final, concordam ou não.
Se concordarem, ótimo.
Se não, naturalmente irão procurar quem lhes diga o que e como fazer.
Há muito tempo sei que o segredo para ser convidado é não dizer nada fora da caixa.
Muitos agem assim.
Não é conveniente convidar alguém que não vai falar o que se quer ouvir.
Há eventos de Endodontia que têm comportamento semelhante.
Alguns professores dizem a mesma coisa e ninguém percebe.
Vamos lá.
Eu falo de instrumentação do canal e, claro, de instrumentos.
De instrumentação mesmo, falo pouco, mas não faltam muitas informações sobre os instrumentos.
Mas há “aquele” instrumento sobre o qual eu falo mais e aí os detalhes chegam a níveis profundos, como quem parece saber sobre ele o que os outros não sabem.
Aí vem outro palestrante e faz o mesmo.
Fala de instrumentação do canal e, claro, de instrumentos.
De instrumentação mesmo, fala pouco, mas não faltam muitas informações sobre os instrumentos.
Mas também para ele há “aquele” instrumento sobre o qual fala mais e aí os detalhes chegam a níveis profundos, como quem parece saber sobre ele o que os outros não sabem.
Vem outro e faz a mesma coisa, mas “pensando” em outro instrumento.
Como repeti aqui as mesmas palavras para descrever os mesmos comportamentos, repetem-se nos eventos as mesmas aulas.
Sob o patrocínio de causas diferentes.
Resultado!
Não vamos a lugar nenhum.
A Endodontia não anda.
Quem percebe?
Mas saímos dos auditórios doidos para comprar.
Até o próximo evento, que nos espera de braços abertos com novos instrumentos de última geração.
O título é “Limpeza Química do Sistema de Canais – Um Capítulo Especial na Endodontia”.
Estou arrumando a SeçãoPublicaçõespela ordem do ano de publicação dos artigos. Ele está postado de acordo com a data em que foi publicado, razão pela qual você vai localiza-lo mais ou menos no “meio” da página da seção.
Apesar de recém postado, o que o torna “novo”, na verdade ele é “velho”, porque se trata de um artigo publicado em 2005, portanto há 13 anos.
Eu não o tinha digital. Como alguns que já estão postados, resolvi então digitalizar para poder posta-lo no site.
Leia com atenção.
Apesar de publicado há 13 anos, há algumas considerações que talvez sejam interessantes para uma melhor compreensão sobre irrigação em Endodontia.
São 10 páginas, uma de referências e as demais somente texto, sem nenhuma figura. Por essas características, à época cheguei a imaginar que não seria aceito para publicação.
Mas foi.
Obs. Pretendo digitalizar (buscando tempo para isso) alguns artigos que publiquei e não estão no site. Assim que for conseguindo posta-los, falo com vocês.
Já tivemos oportunidade de dizer que o Circuito Nacional de Endodontia nasceu de uma “conversa” entre as disciplinas de Endodontia dos Cursos de Odontologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Universidade Federal do Paraná e Universidade Federal de Goiás.
Era um momento especial; concretizava-se o desejo de três amigos; Carlos Estrela; Gilson Sydney e Ronaldo Souza.
Nada melhor do que dar as boas-vindas a um projeto em um ambiente de amizade.
Na sequência, chegou Campinas e mais um amigo se incorporou; Rielson Cardoso.
Cada um desses professores com os seus respectivos grupos.
Tivemos também oportunidade de falar que, desde o primeiro momento, ali não estava outro grande amigo; Figueiredo.
E não estava simplesmente porque à época ele era professor da Universidade de Eastman, em Londres. Não estava morando no Brasil.
Hoje, infelizmente, não temos mais Gilson conosco.
A etapa do Paraná está sob a responsabilidade do professor Antônio Batista, mais um amigo a fazer parte desse grupo.
Mas Figueiredo agora está conosco.
O coração do Circuito Nacional de Endodontia, ainda que sob a tristeza da ausência de Gilson, agora se enche de alegria pela chegada dele.
Juntamente com o GPERGS (Grupo de Professores de Endodontia do Rio Grande do Sul), importante grupo da Endodontia brasileira, o Professor José Antônio Poli de Figueiredo e o Rio Grande do Sul agora são Circuito Nacional de Endodontia.
E já temos um encontro marcado com a Endodontia para os dias 06 e 07 de abril de 2018, em Porto Alegre.
Figueiredo, que bom estarmos juntos nesse projeto.
Que bom estarmos com o GPERGS, juntos nesse projeto que se chama Circuito Nacional de Endodontia.
Sejam muito bem-vindos.
Antônio Batista, Carlos Estrela, Rielson Alves Cardoso, Ronaldo Souza
Volto a uma frase que escrevi naparte 2deste texto
Ao ler o artigo de Edward Green (publicado em 1958), percebi que tudo que eu aprendera estava apoiado em bases equivocadas.
Instrumentos e técnicas de instrumentação podem e devem ser vistos sob duas perspectivas; mecânica e biológica.
Como temos feito aqui, tratemos isso de maneira bem simples e direta.
Perspectiva mecânica:
A literatura ensina que o instrumento que clinicamente dá a sensação tátil de ajuste no CT não está ajustado. Pelo contrário, está folgado.
Se está folgado no CT (que seria o ponto de constrição do canal – limite CDC, lembra?), não deve tocar em muitas paredes do corpo do canal.
A literatura demonstra que mesmo a instrumentação do canal com algumas limas de maior calibre além da que ajustou no CT não toca em considerável quantidade de paredes.
Você concorda comigo se eu disser que onde não toco, não limpo? Ou, pelo menos, onde não toco serão bem maiores as minhas dificuldades para limpar?
Existem trabalhos demonstrando que o instrumento único toca em todas as paredes dos canais ou pelo menos toca em mais paredes do que os das técnicas que usam cerca de 4 a 5 instrumentos?
Perspectiva biológica:
Existem trabalhos em animais demonstrando que o instrumento único promove mais reparo de lesões periapicais ou pelo menos da mesma forma que a instrumentação com as técnicas convencionais?
Existem trabalhos em humanos demonstrando que o instrumento único promove mais reparo de lesões periapicais ou pelo menos da mesma forma que a instrumentação com as técnicas convencionais?
Façamos as correlações.
Se a literatura diz que o instrumento ajustado está folgado (a frase é intencional) e mesmo com a sua ação e de mais 3 ou 4 instrumentos em aumento sequencial de calibre algumas paredes do canal não são tocadas, ficam evidentes as limitações mecânicas da instrumentação.
Precisamos então de trabalhos que demonstrem que o instrumento único exerce ação mecânica mais efetiva do que a postura clássica que sugere o uso de alguns instrumentos. Esta ação se traduziria pela maior capacidade de tocar em mais paredes do canal. É do que trata o item 5 da perspectiva mecânica.
Esses trabalhos existem?
Sob vários aspectos, no ato operatório a ação mecânica dos instrumentos desempenha papel fundamental.
Por exemplo, a Periodontia aprendeu que somente o uso de substâncias químicas para a remoção do biofilme periodontal era inefetivo sem que houvesse a ação mecânica de raspagem radicular.
A Endodontia parece ter demorado um pouco mais para perceber isso. Sabe-se hoje, porém, que sem efetiva ação mecânica sobre as paredes do canal a remoção do biofilme não ocorre.
Sob essa perspectiva biológica, há suporte científico suficiente que demonstre que o instrumento único proporciona reparo das lesões periapicais com mais qualidade e maior frequência?
Vou lhe fazer uma pergunta bem simples e direta.
Se não há respostas confirmando os questionamentos acima, como professor de Endodontia posso sair Brasil afora recomendando que se adote a proposta de instrumentar os canais com um único instrumento?
Há algum conflito de interesses entre esse papel de divulgador do instrumento e a condição de professor?
Gostaria que você refletisse sobre essas questões.
De volta ao passado?
Por outro lado, já há recomendações de “pequenas modificações” sugerindo que mais instrumentos (os outros dois do próprio sistema, por exemplo, ou quaisquer outros) devem ser incorporados à proposta original.
Ou seja, recomenda-se que, além do instrumento único, outros mais sejam usados. Mais 1 ou 2, quem sabe 3? Quantos?
Talvez alguns nem conheçam a regra do 1+3 e 1+4, sobre a qual já falei aqui.
Cito-a porque durante muitos anos ela se tornou uma referência e, para muitos, algo obrigatório quando o assunto era quanto instrumentar os canais.
Como geralmente se fala dos molares (canais MV, ML e DV), como seria então esta “nova” técnica
Instrumento único + 2 instrumentos? Quem sabe 3?
Ah, você já ouviu falar dessa proposta.
E isso não lhe fez pensar?
Por que será que já estão começando a dizer que pode usar mais instrumentos além do único?
O único deixa de ser único?
Interessante.
A exigência por evidências que suportem o que se preconiza é primordial nas ciências.
Se algum dia eu tivesse tido dúvidas quanto a isso, elas teriam deixado de existir depois de agosto de 2009.
Foi durante um evento de Endodontia em Salvador.
Diante de um tema que estava sendo discutido, vi um professor negar a sua validade pela ausência de evidências.
A argumentação, entretanto, era pouco consistente, na verdade, equivocada.
Ocorre que um importante professor, que fazia parte do debate, também percebeu (por ele jamais ela passaria despercebida, dada a sua inteligência) e se manifestou desconstruindo a argumentação.
Não passou despercebida também para a plateia, que ficou bastante inquieta e a sua inquietação se manifestou principalmente através de perguntas escritas. Ressalve-se que todas eram encaminhadas para mim que em seguida lia para os debatedores.
Uma particularmente me chamou a atenção, pela qualidade e pela força. Ela não deixava dúvidas quanto à discordância ao professor que cobrava evidências da forma como o fizera.
Lembro que no intervalo do café uma endodontista do Paraná veio falar comigo, perguntando se eu não ia me manifestar (ela já tinha visto aulas em que eu abordava o mesmo tema). Era ela, a “dona” da pergunta.
Foram tantas as pessoas que me cobraram uma manifestação, que na volta do intervalo me vi “forçado” a explicar que eu era apenas o moderador, não simposiasta, e como tal não deveria emitir minha opinião.
Mas a vida segue e ao dobrar a primeira esquina, veio-me a tristeza de ver que nem sempre as evidências são merecedoras dos cuidados e carinhos a elas eventualmente dedicados.
Como dizer para não melindrar…, as evidências também têm suas conveniências.
Recomenda a honestidade científica que as evidências não devem se movimentar ao sabor dos ventos das conveniências.
Sobrepor-se à ciência, por qualquer outro interesse que não seja ela própria, não deveria encontrar respaldo entre professores.
Há conflitos de interesse conhecidos na Endodontia e, com boa vontade, é possível que pelo menos alguns desses encontrem alguma explicação para sua existência.
Outros não.
Por isso, hoje vejo como preocupante, muito preocupante, a defesa tão veemente que ora se faz de uma proposta que claramente precisa de evidências que lhe deem algum suporte.
E elas não foram apresentadas até o momento.
Isso me remete a 2009.
Só que agora a exigência por evidências foi deixada de lado.
Enfatizo com o “claramente” por conta de algo que me parece óbvio.
Se o uso de cerca de 4 a 5 instrumentos não atende às expectativas do mundo endodôntico por não se mostrar capaz de tocar em considerável quantidade de paredes do canal, em que bases está apoiada a proposta de uso de um único instrumento?
Antes que me ataquem em nome da “endodontia moderna”, raciocinemos juntos.
Para onde conduz a lógica quando a instrumentação com cerca de 4 a 5 instrumentos se mostra insuficiente para o bom preparo do canal?
Se não conduz para o uso de mais instrumentos, parece bem menos provável que conduza para o uso de um só.
Você não acha que contrariar a lógica exigiria não só muitas evidências como também que elas fossem robustas?
Pergunto outra vez.
Essas evidências existem?
Que não se tente contra argumentar dizendo que para isso existe hipoclorito de sódio. Não seria inteligente.
Ainda é a solução irrigadora mais adequada e por isso a mais corretamente indicada para uso no tratamento endodôntico, mas a contra argumentação não é válida porque o hipoclorito de sódio também é usado na “técnica convencional”, com 4 a 5 instrumentos.
A imaginação é mais importante que o conhecimento
Talvez só ele pudesse dizer essa frase.
Einstein.
Um físico teórico.
“A imaginação é mais importante que o conhecimento”.
Não parece difícil imaginar o quanto essa frase deve ter incomodado o mundo acadêmico.
Ao longo dos anos as pesquisas nos mostraram a complexidade da anatomia do sistema de canais radiculares. Que se prestem homenagens hoje e sempre a esses pioneiros da Endodontia, ainda mais diante das condições de que se dispunha à época.
Ao mesmo tempo, brindemos às ferramentas que temos hoje nas nossas mãos. Mas sem esquecer que foram eles que construíram esse conhecimento.
Graças a eles, o “trabalhar no escuro” que se atribuía à Endodontia não era mais tão no escuro. Para isso existia a imaginação de alguns professores e endodontistas. Uma vez que se pode imaginar o que não se vê, as coisas ficam mais claras, ou, se você preferir, menos escuras.
Enxerga-se mais.
E essa característica de imaginar, pensar, refletir, inerente ao humano e não ao animal, só se fortalece à medida em que pesquisadores e professores, no sentido verdadeiro das palavras, estimulam esse processo.
Assim, foi ficando cada vez mais fácil entender o que é de fato o tratamento endodôntico.
O que já sabíamos por imaginar como seria, a tecnologia nos mostrou; a terceira dimensão na Endodontia.
A computação gráfica percorre o mundo através das publicações na literatura endodôntica mostrando em detalhes a anatomia da cavidade pulpar.
Ao ver esse “novo” mundo me senti muito bem e ao mesmo tempo frustrado.
A sensação de bem-estar se explica na confirmação de que a minha imaginação, que viajou comigo todo esse tempo e me fez “ver” o sistema de canais, nunca permitiu que eu trabalhasse no escuro.
E a frustração veio pela confirmação da complexidade do sistema de canais.
Como ser bem-sucedido diante daquela complexidade que eu estava vendo?
Foi a pergunta que insinuou me atormentar.
Novamente, estava diante de mais uma limitação que se impunha a mim. Eu, que já aprendera a identificar e conviver com tantas outras.
Sereno, entendi que seria tarefa para tolos pretender dominar aquela anatomia.
Dormi em paz.
E um dia acordei sob as trombetas da insensatez.
Alguém dizia que estava tudo resolvido; bastava um instrumento.
Um único instrumento.
E uma grande preocupação tomou conta de mim.
Não por conta do instrumento único, mas pelo horizonte que se desenhava.
Será que não estão percebendo que ao proporem uma única lima para algo tão complexo e desafiador evidencia-se uma enorme contradição?
Será que não estão percebendo que tratar a complexidade tridimensional do sistema de canais, que tanto fizeram questão de nos ensinar, com o pensamento unidimensional demonstra que o que estão fazendo é absolutamente paradoxal?
Dizem uma coisa e douram a pílula.
Fazem outra e tudo se resolve.
Sempre digo aos meus alunos para “fugir” de regras pré-estabelecidas em Endodontia.
Mas que façam isso apoiados em algo sólido, consistente.
O 1+3 e 1+4 se tornou uma regra pré-estabelecida?
Para muitos, sim. Tornou-se algo a ser cumprido.
Então vamos “fugir” dele.
Por que ensino aos alunos algo tão vago quanto “vamos instrumentar com cerca de 4 a 5 instrumentos”, às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos?
Por que escrevi no livro que “o comprimento de trabalho deve ser em torno de 1,5 mm aquém do ápice radicular?”
Por que “cerca de”, “em torno de” no mundo da precisão?
Porque simplesmente não há espaço para essa precisão em Endodontia.
Ela não existe.
A proposta da lima única vem apoiada no pragmatismo, divulgado e defendido como algo inerente ao “mundo moderno”.
Dizem, afirmam, repetem aos quatro cantos do “mundo moderno” que os não pragmáticos terão como prêmio o fracasso profissional.
“A vantagem competitiva de uma sociedade não virá da eficiência com que a escola ensina multiplicação e tabela periódica, mas do modo como estimula a imaginação e a criatividade”. Walter Isaacson (autor da biografia, “Einstein – Sua vida, seu universo”)
É inimaginável imaginar que a imaginação é mais importante que o conhecimento onde falta imaginação para imaginar.
Triste sim.
Não pela formação do trenzinho da alegria que percorre o Brasil conduzindo a um único pensamento, a um único lugar, por um único caminho, quando tantos outros existem.
Triste sim, mas por saber que entre os tripulantes estão professores que poderiam levar muitas cores para a vida dos endodontistas e não somente uma cor.
O que os faz agirem assim?
O azul às minhas costas, que “entra” pela janela do local onde escrevo este texto, não está sozinho. Com ele estão o branco das nuvens, o verde das árvores, do mar, o colorido das flores e dos pássaros.
Todos banhados pelo frescor dos ventos que se renovam a cada minuto, trazendo o sopro da diversidade da vida.
Ah, como são tantos e diversos os caminhos que a vida nos oferece.
Sempre houve e há uma grande preocupação com a questão de quantos instrumentos usar.
Nunca saberemos.
É um erro que se comete determinar previamente o quanto o canal deve ser instrumentado. Não deve haver regras pré-estabelecidas para algo que sofre tantas interferências, a mais importante delas a anatomia. Já deveria estar claro que cada caso deve ser analisado e “sentido” pelo profissional.
“É imperioso deixar bem claro que os limites de ampliação do canal encontram-se condicionados aos aspectos anatomopatológicos”. Siqueira Jr JF; Lopes H; Elias CN. Endodontia-Biologia e Técnica 2015
Esta é a ideia que se difunde há muito tempo na Endodontia.
Vejamos isso mais de perto, imaginando duas situações.
Caso 1. Imaginemos o tratamento endodôntico de um incisivo central superior com polpa viva.
Tão normalmente volumoso é esse canal que o instrumento que vai dar a sensação tátil de ajuste no CT deverá ficar entre as limas 35 e 45, nessa faixa. Usemos a #40 como exemplo. E para efeito didático, o 1 + 3.
40 + 45 – 50 – 55
Concluído o tratamento, o paciente é liberado, faz a restauração…
Um dia esse paciente volta ao seu consultório apresentando uma lesão periapical no referido dente e você percebe que terá que fazer o retratamento.
Diante da patologia, lesão periapical, o que lhe vem à mente?
Como vou ter que retratar, vou alargar mais porque aí tenho mais segurança. Vou usar pelo menos uns quatro. Seria esta então a sequência.
60 – 70 – 80 – 90
Tranquilo. Fez a nova instrumentação e a nova obturação. O paciente é liberado para fazer a restauração.
Caso 2. Imaginemos agora o tratamento endodôntico de um primeiro molar superior com polpa viva.
Com as técnicas atuais, tornou-se mais fácil “alargar” os canais. Assim, consegue-se instrumentar mais facilmente o canal mésio-vestibular até a lima 40, por exemplo.
O tratamento foi realizado e um dia esse paciente volta ao seu consultório apresentando uma lesão periapical no canal MV. Você vai então fazer o retratamento.
Diante da patologia, lesão periapical, o que lhe vem à mente?
Como vou ter que retratar, vou alargar mais porque aí tenho mais segurança. Vou usar pelo menos uns quatro.
Pelo mesmo raciocínio, como você sabe que fez um bom preparo, usou rotatório, conseguiu instrumentar até a #40, provavelmente seria esta a nova sequência para o retratamento:
45 – 50 – 55 – 60
Talvez aí surjam algumas questões.
É comum instrumentar o canal mésio-vestibular do primeiro molar superior até a lima 60?
Os endodontistas conseguem sempre numa boa?
Em quantos canais MV se consegue esse nível de ampliação?
Sabemos que diante de casos com necrose pulpar e lesão periapical, a orientação tem sido alargar bem o canal.
Nas duas situações acima estamos diante da mesma patologia; lesão periapical.
No incisivo central superior fizemos o alargamento idealizado sem nenhuma dificuldade e poderíamos tranquilamente alargar mais se assim desejássemos.
Podemos fazer o mesmo no canal mesio-vestibular, isto é, alargar o quanto desejar?
Não.
Por que?
Por causa da anatomia, que aqui particularmente se traduz como a presença da curvatura inerente ao canal mesio-vestibular do primeiro molar superior.
Posso fechar o meu raciocínio?
Diferentemente de toda a literatura, para mim o que determina o quanto instrumentar não são os aspectos anatomopatológicos.
São os aspectos anatômicos.
É a anatomia. É ela quem dá as cartas.
Repito. A tentativa de pré-estabelecer regras em Endodontia é um grande equívoco.
Tem que ser 0,5 aquém, tem que ser 1 aquém; tem que instrumentar no mínimo até lima X, tem que alargar com tantos instrumentos; tem que obturar a 0,5 mm aquém, tem que obturar a 1 mm aquém, tem que fazer “surplus” (meu Deus!!!), tem que usar cimento Y, tem que usar técnica de plastificação da guta percha…
Nada disso.
O que há, isso sim, é um padrão que deve servir única e exclusivamente como orientação, nada mais do que isso.
Esse “padrão” de instrumentação tem sido estabelecido como algo em torno de 4 a 5 instrumentos.
Um pouco mais, um pouco menos?
O pouco mais ou o pouco menos será definido na hora em que o canal estiver sendo tratado por um bom endodontista, pois somente nessa hora ele saberá “quem” é aquele canal.
Somente nessa hora, o bom endodontista conhecerá as facilidades e dificuldades que podem existir em cada tratamento endodôntico.
E só um bom endodontista, treinado para fazer bem e sobretudo estimulado a pensar cada caso, conseguirá fazer assim.
Pensar cada caso
Em endodontia, muitas escolas reduziram a disciplina a um curso de treinamento em ’como fazer um canal’. Lars Spangberg
Muitos considerarão uma tolice convidar para ‘pensar cada caso’ ao se trabalhar num espaço tão reduzido que, excetuando-se os caninos, numa visão bidimensional teria em média cerca de 22 mm de extensão por 0,40 mm de largura no plano mesio-distal.
Talvez se deva lembrar que há outros atos operatórios cuja redução de espaço em que são realizados não lhes tira a importância.
Ainda que se considerem as diferenças, atos operatórios em espaços reduzidos na Medicina não lhes confere a irrelevância que se dá ao ato operatório no reduzido espaço do canal radicular.
Mesmo que se distribuam pelo corpo humano com características próprias a cada função a desempenhar, os tecidos pulpar e perirradiculares, com os quais se lida na Endodontia, possuem basicamente as mesmas características dos demais tecidos conjuntivos.
Seria assim sensato que fossem vistos como semelhantes e, como tal, merecedores de uma visão menos mecânica no tratamento, visão essa que empobrece a Endodontia e a torna pequena como especialidade da área da Saúde.
Transmitir essa visão aos alunos de Odontologia explica em boa parte a pouca importância que historicamente se dá a essa profissão.
Especificamente pensando em Endodontia, é esse raciocínio curto que permite a disseminação e aceitação da ideia de se ter o “controle da anatomia”.
É nesse universo que disseminam o pensamento único.
O que ocorre normalmente?
O paciente ainda não chegou ao seu consultório, você não o conhece, mas já sabe:
O CT dos canais do molar que você vai tratar será X mm aquém
Vai instrumentar somente com a lima Y
Vai fazer ampliação foraminal com a lima Z
Vai ajustar o cone a 2 mm aquém porque sabe que ao condensar ele vai avançar exatamente mais 1 mm e ali vai travar perfeitamente (malabarismo no mais alto grau, já no campo do ilusionismo), obtendo a tão desejada obturação 3D, com a incontestável comprovação de vedamento hermético pela visualização do “surplus”
Como não há possibilidade de imprevistos, tudo será feito em 50 minutos, se muito.
Tá pronto.
Que entre o outro paciente.
Temos hoje uma diversidade de instrumentos de grande qualidade, com diferentes conicidades, técnicas de instrumentação bem interessantes, técnicas, materiais e sistemas de obturação que permitem obturações com qualidade e praticidade, tudo a favor do endodontista.
Se limitações existem, elas ocorrerão fundamentalmente em função da anatomia; ainda é ela quem determina o que é possível fazer.
Observe, porém, que as eventuais limitações impostas pela anatomia dizem respeito ao desejo de maiores alargamentos.
Se há dúvidas e limitações quanto a isso, ou seja, o quanto instrumentar, não parece haver quanto à necessidade de um nível mínimo de instrumentação.
Que nível mínimo é esse?
A minha resposta é a mesma; nunca saberemos.
Como saber quais são o mínimo e o máximo de instrumentos a utilizar no preparo dos canais?
Sem chance.
Como saber qual exatamente o antibiótico e em que dosagem para todos os casos?
Alguma chance?
Nenhuma.
Não só nos dois exemplos citados como em muitas outras situações, são muitas as variáveis.
Outro fato a se observar é que quando se fala até a lima 25, ela também instrumenta o canal.
Esse nível de instrumentação, até a lima 25 (inclusive ela), é contestado porque 0,25 mm é o real diâmetro anatômico apical.
Como reconhecer que instrumentar até a lima 25 seria insuficiente e aceitar que instrumentar somente com a lima 25 é suficiente?
Qual a lógica que há nisso?
Para muitos, a lógica parece depender de onde vem a proposta. A proposta de João jamais terá a mesma repercussão e aceitação que a de John, assim como a de José não terá a mesma que a de Joseph.
Dessa lógica, que atravessa os oceanos e nos chega em outras línguas, pode vir a aceitação ou a negação.
Ariano Suassuna, esse paraibano-pernambucano fantástico, conta a história de uma mulher que parece classificar a humanidade em duas categorias; quem foi a Disney e quem não foi.
Todos riem, mas, como sempre, muitos não captam a mensagem dele (um mestre na arte de mandar “recados” nas suas falas).
Tal qual a história de Ariano Suassuna, onde a inteligência e a sensibilidade da mulher da Disney trazem perplexidade, traz perplexidade também a divisão da Endodontia em grupos:
Os que fazem sessão única e os que não fazem
Os que usam instrumento único e os que não usam
Os que fazem molar em 45 minutos e os que são abestalhados
Talvez seja interessante acrescentar mais um.
Os que falam inglês e os que não falam.
Just my two cents.
Vamos fazer a imersão final no tema no próximo texto.
Meu caro Diógenes, não se trata de uma mensagem. Foi um texto sobre um tema recente da Endodontia que, para minha alegria, gerou o seu comentário e daí as minhas colocações.
O que se trata, isso sim, é de um momento em que pessoas de quem se esperava gestos e atitudes com um pouco mais de dignidade entraram num jogo perverso.
Em qualquer tempo, em qualquer categoria profissional, onde quer que seja, sempre foi assim. Disso tenho plena consciência.
Portanto, que não se imagine inocência da minha parte. Na verdade, depois de alguns anos vividos seria estupidez, não inocência.
No entanto, fatos mais recentes têm trazido muita preocupação, às vezes tristeza.
No nosso tempo, sem qualquer desejo de olhar para trás como saudosista, porque não sou, quantas faculdades de Odontologia existiam em Pernambuco e na Bahia?
Quantos profissionais saiam dessas faculdades por ano?
Quantas faculdades existem hoje em Pernambuco e na Bahia?
Quantos profissionais saem hoje por semestre?
Com que idade?
Mais do que nós quando nos formamos, não só pela quantidade, mas, sobretudo, pela inexperiência, eles se tornaram alvos fáceis para a sedução barata.
Sempre discordei, hoje mais ainda, de uma frase muito conhecida; o jovem sabe o que quer.
Será que de fato alguém aos 18 anos de idade sabe o que quer?
Olhemos para nós lá atrás e encontraremos a resposta.
Pelo desconhecimento das coisas, a insegurança é uma constante nessa idade.
Natural.
Olhemos agora também, mas de frente, para alguns (muitos?) professores.
Exibem-se diariamente como adolescentes carentes.
As redes sociais não possuem filtros, elas expõem tantos quantos queiram se expor.
E esses que querem se expor o fazem com tanto ímpeto que se perdem.
Há muitos anos meu pai me contou uma “história” que sempre gostei muito e jamais esqueci e muito menos imaginei que um dia a contaria aqui, como faço agora. Até como uma homenagem a ele, vou conta-la com o mesmo personagem de quando ele me contou.
Um alfaiate chega numa cidade (coloquemos Salvador), monta sua alfaiataria numa rua e põe uma “placa” na porta; Fulano de Tal, o melhor alfaiate de Salvador.
Começou a trabalhar bem, ganhar seu dinheiro e seguiu feliz da vida.
Um belo dia, talvez vendo o sucesso daquele alfaiate, vem alguém, monta outra alfaiataria na mesma rua e põe a placa na porta; Fulano de Tal, o melhor alfaiate da Bahia.
Ficaram os dois ganhando um bom dinheiro.
Mas todos estão de olhos abertos.
Vendo o sucesso daqueles dois alfaiates, outro resolveu seguir os mesmos passos e na mesma rua montou a terceira alfaiataria. Do mesmo jeito, a placa na porta; Fulano de Tal, o melhor alfaiate do Nordeste.
E assim foi.
O quarto pôs a placa na porta; Fulano de Tal, o melhor alfaiate do Brasil.
O quinto; Fulano de Tal, o melhor alfaiate da Terra.
O sexto; Fulano de Tal, o melhor alfaiate do Universo.
Aquela rua ficou famosa pelos alfaiates que tinha, cada um melhor que o outro, todos ganhando um bom dinheiro e tudo parecia resolvido.
Um dia, porém, para o espanto de todos, porque parecia não haver mais como destacar outra alfaiataria, chegou alguém e se instalou.
Foi enorme a curiosidade na cidade e o reboliço no dia da inauguração nem se fala.
Alfaiataria pronta, ele mesmo, o novato, subiu na escada, colocou a placa e desceu.
Estava lá.
Fulano de Tal, o melhor alfaiate dessa rua.
A Endodontia hoje é ensinada nas redes sociais e nos vídeos do YouTube e as placas precisam ser cada vez mais atraentes e sedutoras, não importa a que preço.
Há cerca de 6 anos, ao sugerir um livro para uma aluna estudar, eu mesmo tive o ‘privilégio’ de ouvir; “professor, por que eu vou estudar se vejo tudo na Internet? ”
Hoje muitos profissionais contratam equipes de marketing caras, algumas fora do seu estado e de reconhecimento nacional, para terem mais curtidas ou seguidores, como bem disse você no seu primeiro comentário.
Como você falou, “a importância de alguém está sendo mais valorizada pelo número de curtidas ou seguidores, do que pelos seus conhecimentos”.
Eles sabem que é assim.
Pagam bem aos marqueteiros pelas curtidas, têm muitos seguidores e aí se veem os melhores.
É o olho que faz o horizonte. Ralph Valdo Emerson
Dentro desse pequeno mundo, todos se tornaram os melhores de Salvador, da Bahia, do Nordeste, do Brasil, da Terra, do Universo.
Por que se preocupar com esses melhores?
O exibicionismo tolo e infantil alimenta tolos e infantis.
Desde quando esses são considerados?
O problema está no que veio embutido nesse processo.
Quando falei da frustração com alguns professores que pareciam promissores, mas que se perderam e estão caindo em descrédito, este é um dos grandes problemas.
Concorde-se ou não, alguns se tornaram referências.
Entraram nessa luta insana pela luz dos holofotes, quando os egos se inflam sem controle. Conseguem mais curtidas e arrastam um número maior de seguidores e, pior ainda, entre professores.
Ainda que não percebam no que se transformaram e o preço a pagar.
E quando não se percebe o que está à sua volta, tudo parece normal.
Sabe aquele gesto que se faz com a mão tentando enxergar quando um foco de luz se põe entre você e o objeto que deseja ver?
Eles não conseguirão enxergar porque terão a visão ofuscada pelas fortes luzes dos holofotes.
A motivação é a mesma de sempre.
E é aí que se perde a credibilidade.
Há sim, Diógenes, algo obscuro nisso tudo.
Há qualquer coisa no ar além dos aviões da PanAir.
Mas não precisamos nos preocupar com a sua identificação.
As coisas acontecem naturalmente.
Para o bem ou para o mal.
Não preciso abrir os olhos para vê-los.
Como alguns já o fizeram, quem sabe outros também percebam.
Tornaram-se os melhores de Salvador, da Bahia, do Nordeste, do Brasil, da Terra, do Universo, mas, dessa rua, não.
Dessa rua chamada Endodontia.
Nela, ainda existem os de fato grandes alfaiates, que precisam somente despertar para o momento.
O homem deve alguma coisa ao homem. Se ele ignora a dívida, isto o envenena e se ele tenta pagá-la, o débito só faz crescer. Sim, o homem deve alguma coisa ao homem e a qualidade da sua doação é a medida do homem. John Steinbeck