Sobre pavões e balões

Pavão

Por Ronaldo Souza

Como é difícil construir um nome.

Não é fácil.

Pode parecer que hoje é mais fácil.

Talvez até seja.

Afinal, estamos na era da comunicação.

E para muitos, comunicação virou sinônimo de marketing pessoal.

Cada vez mais fácil, escancarado e…

“Às favas com os escrúpulos de consciência”.

Disse uma certa vez Jarbas Passarinho.

É por aí.

E as redes sociais?

Terreno “ideal” para isso.

Casos e mais casos clínicos postados todos os dias.

Um desfile sem fim.

O ego?

Inflado.

Lá em cima.

Como um balão.

Não consigo lembrar de ter visto postagens mostrando casos clínicos concluídos, com acompanhamento radiográfico do paciente e cura da lesão periapical.

Como mostrar se acabaram de ser feitos?

O caso acabou de ser feito e já está no facebook, Instagram…

Às vezes dá a impressão de que o paciente ainda nem saiu do consultório.

“Olha, esse caso acabou de sair do forno, terminei agora. Sei que não está muito bonito, foi final de dia, já estava cansado, mas acho que dá pra quebrar o galho”.

E aí vem a pergunta que já sabe das respostas.

“O que vocês acham?” Podem criticar.

Elogio da carência

Trezentas mil curtições!

– Excelência em endodontia
– Professor, parabéns, o senhor é a lima de ouro
– Nunca vi tanta competência e tanta humildade juntas
– Vindo de você, só podia esperar toda essa competência
– Maravilha, como é que eu faço para ter um extravasamento desse?

E por aí vai.

Nesses pedidos de elogio mal disfarçados de humildade está expressa a necessidade de reconhecimento.

Ou será imperceptível uma coisa tão clara?

Não deveria haver perdão para a humildade hipócrita que se traduz em modéstia e provoca elogios.

Ainda que desfile pelos melhores salões, sua falsidade é tola e beira o ridículo.

Talvez por isso desfila pelos melhores salões.

É insuportável.

Erasmo de Rotterdam enalteceu o poder da retórica no seu livro “Elogio da Loucura”.

Tornou-se um clássico da literatura universal e como tal exerceu grande influência, como por exemplo na adoxografia.

Adoxografia é o enaltecimento desmerecido sobre algo ou alguém; elogio imerecido.

É a “arte” de se fazer o elogio imerecido de pessoas ou coisas sem valor, pessoas vulgares.

Elogiar a carência de reconhecimento é uma forma de perpetuar a humildade hipócrita.

Elogiar a carência é também uma forma de perpetuar a pobreza mental.

E há sempre um preço a pagar.

Lembremos Thomas Fuller:

“Elogios tornam os bons melhores e os maus piores”.

Há nesse movimento uma coisa ao mesmo tempo interessante e preocupante.

Alguns casos postados, todos com extravasamento (“surplus”), veem acompanhados, como já comentei, de 300 mil curtições.

Parabéns.

Aí eu olho para “dentro” dos canais, onde a obturação deveria estar, e não a vejo.

Procuro.

Cadê ela?

Sabe onde está?

No periápice.

Às vezes tem mais fora do que dentro.

Obturações cheias de vazios

Você acha que exagero um pouco?

Claro que exagero.

É para chamar a atenção e “mostrar” que não estão percebendo que algumas obturações estão lá, nos tecidos periapicais, como manda o figurino (deles), mas cá, dentro do canal, elas apresentam evidentes falhas de preenchimento.

Obturações vazias

Exibem as obturações sem perceber as diferenças de radiopacidade que existem nelas.

Exibem espirros da obturação para os tecidos periapicais como prova da qualidade da obturação.

E encantam o mundo.

Sabe o que as diferenças de radiopacidade estão doidinhas pra dizer?

Que não há homogeneidade na obturação!!!

Se não há homogeneidade é porque ela não está preenchendo igualmente o canal.

Se não está igualmente preenchendo o canal é porque tem um pouquinho mais aqui, um pouquinho menos ali, um pouquinho mais cá, um pouquinho menos acolá…

Naquele ponto em que a radiopacidade é menor faltou um pouco de guta percha, naquele outro faltou um pouco de cimento, mais adiante um pouquinho de um e do outro.

Vamos lá.

Você concorda comigo se eu disser que onde tem um pouco menos de obturação significa que ali não está tão bem preenchido?

Se não está tão bem preenchido, selou bem?

Concorda comigo se eu disser que onde a obturação não selou tão bem não está vedando hermeticamente?

Concorda comigo se eu disser que, diante do exposto, o extravasamento de material obturador não é sinônimo de vedamento hermético?

O profissional realmente competente e sensato sabe que, mesmo com todas as facilidades de comunicação, redes sociais, postagem em tudo quanto é lugar, o trabalho que não for de fato bem feito não deverá ter vida longa.

O protesista, clínico geral, periodontista… não vão ficar indicando sempre só porque você faz tudo rapidinho e está “aparecendo”.

Com o tempo deverão perceber que os casos do simplista que faz tudo rapidinho e simplesinho não estão dando muito certo.

Deixarão de encaminhar seus pacientes.

Por uma razão bem simples.

A indicação do seu nome partiu deles. Dando errado e precisando retratar ou operar, os pacientes irão se aborrecer também com quem indicou.

Sem falar que, ao começar a ter que remover as próteses que fez por trabalhar confiando no “seu canal”, o profissional que lhe indicou também terá prejuízo financeiro.

E aí, prevalecerá o antigo e famoso boca-a-boca.

– Ah, agora tô mandando meus pacientes pra fulano.

Balão

Mais cedo falei de balão.

Pra que fui falar?

Passei o resto do texto pensando nas noites de São João da infância, vivida na minha querida Juazeiro (BA).

Inesquecíveis.

Meu pai comprava muitos vulcões e eu ficava maravilhado com aquilo tudo.

E os balões?

Subiam, subiam, subiam…

Meu Deus, como era lindo!

Eu me encantava, mesmo sabendo da frustração por vir, porque logo em seguida eu os via cair.

Sem saber, estava aprendendo com eles a efemeridade das coisas.

Aprendi a ver e admirar a beleza do efêmero.

Mas também aprendi sobre a desilusão que ele pode trazer.

Como é difícil construir um nome.

Um nome que pode se tornar um balão de noite de São João.

Fugaz.

Uma tarde com a Endodontia

Principal

Olá pessoal, vamos bater um papo sobre Endodontia?

Será bem informal. A qualquer momento você poderá levantar a mão e fazer o seu questionamento.

Se preferir, pode mandar por escrito. A resposta será dada na mesma hora.

Além disso, ao final estarei à disposição para trocarmos opiniões.

Até que horas?

Não sei.

Vamos conversar o quanto for necessário, sem pressa.

Espero por vocês no dia 23 de agosto, às 14:00, na ABO-Bahia.

A entrada é gratuita e não precisa se inscrever.

Até lá.

A Constituição por uma condenação

Moro descontrolado

Por Ronaldo Souza

O Direito não é regido somente por normas e leis rígidas. 

O bom senso também ocupa lugar de destaque.

Aliás, onde poderia ser diferente?

O leigo também pode entender um pouco de Direito. Basta que tenha bom senso.

Por exemplo, basta o bom senso para, só ao ouvir, você saber o que é presunção de inocência e entender que isso deve constituir regra elementar.

Você precisa entender de Direito para saber que todos são inocentes até que se prove o contrário?

Por que você precisaria entender de Direito para saber que presunção de  inocência deve ser, como é, cláusula pétrea da Constituição Brasileira?

Fui buscar o texto “Garantia constitucional da presunção de inocência” num site jurídico, o Âmbito Jurídico, para trazer este parágrafo para você:

A “presunção de inocência”, está prevista no art. 5º, LVII, portanto, trata-se de espécie de direito e garantia individual, de modo que nem emenda constitucional poderá se abater sobre ela.

Não tenho a menor dúvida de que as vezes que falei do juiz (letra minúscula mesmo) Moro, muita gente se indignou e imaginou algo como; quem ele pensa que é para falar do Juiz Sérgio Moro?

Falar sobre determinados temas e pessoas é mais fácil do que se imagina. Quando se trata de Moro então, fica mais fácil ainda.

O juiz Moro é um homem limitado e já deu várias provas disso.

Quando ele chega a dizer a um advogado de defesa “então doutor, faça concurso e seja juiz”, não consegue perceber a estupidez que está dizendo.

“Concursado”, como ele é, não faz ideia da mediocridade que muitas vezes coexiste com essa condição.

Um espelho seria recomendável.

Além do espelho, outra prova que ele tem está ao seu lado; Deltan Dallagnol.

O advogado a quem Moro mandou fazer concurso para ser juiz foi o de Lula.

Foi compreensível, portanto, o pipocar de champanhe nas redes sociais quando Moro fez isso.

Afinal, o raciocínio primário não é exclusividade do juiz.

Pois fique sabendo que até a presunção de inocência, que se trata “de espécie de direito e garantia individual, de modo que nem emenda constitucional poderá se abater sobre ela, está ganhando “outra” interpretação pelos homens do direito (aí é letra minúscula também) no Brasil.

Com o apoio do… STF.

Como também a questão da prisão.

O famoso “trânsito em julgado”. 

Antes, sabia-se que a prisão de um réu não podia ser decretada antes do fim do processo.

Assim diz a Constituição Brasileira.

Mudou.

Agora o réu pode ser preso antes mesmo de encerrado o seu processo.

Violação injustificável de princípio básico da Constituição Brasileira.

Obra de Moro.

Claro, também com o necessário respaldo do… STF.

Você é capaz de imaginar porque tantas mudanças de tamanha magnitude em tão pouco tempo?

É capaz de imaginar porque tanta pressa?

Faz alguma ideia de qual é o objetivo?

Vou dar só uma dica.

Lula alvo

Moro é um juiz desmoralizado.

Juristas renomados e professores de Direito de todo o Brasil já mostraram seus grosseiros erros jurídicos e suas inúmeras violações à Constituição  Brasileira.

Imprensa e entidades internacionais (na Alemanha, França, Inglaterra…) têm chamado a atenção sobre isso e apontam para a perseguição a Lula há algum tempo.

Mas, ainda que lhe custe caro, ele tem um roteiro a cumprir.

Caso não o faça, ele será o condenado.

Pelo Quarto poder.

O tribunal superior ao Supremo Tribunal Federal, a quem este deve satisfação.

E os sem noção, aqueles segmentos mais privilegiados da nossa sociedade (sob o aspecto financeiro, claro), como sempre alheios a tudo, só tomarão conhecimento de tudo isso depois de algum tempo.

Lembra de Aécio?

Mas não quero ficar falando de Moro.

O meu objetivo é trazer um texto do Prof. Wanderley Guilherme dos Santos​.

Este, sem dúvida, pode dizer com muito mais profundidade, quem é o juiz Moro.

Veja com seus próprios olhos uma pequena mostra da incompetência e desequilíbrio do juiz.

——

O juiz que sequestra liberdade

Por Wanderley Guilherme dos Santos

O Tribunal Regional Federal da Quarta Região (TRF-4) modificou 34 das 48 apelações de sentenças do juiz Sergio Moro em processos da Lava Jato, assim distribuídas: 18 penas foram aumentadas, 10 reduzidas e, 6, anuladas. A taxa de acerto impecável limitou-se a 30% das sentenças. Os estatísticos da magistratura avaliarão a normalidade ou a excepcionalidade das correções impostas a um juiz primário. Surpreende que o número de sentenças modificadas por maior severidade (18) seja praticamente igual ao de sentenças retificadas em favor dos réus (16). Em estatística geral, decisões que ora caem 50% de um lado e ora 50% do outro indicam a predominância do acaso. Estatisticamente, as chances de um acusado ser favorecido ou injustiçado seriam as mesmas, mas este não é o caso de nenhum dos 50% das sentenças do juiz Sergio Moro, seja condenando, seja passando a mão na cabeça do réu.

Em algumas sentenças, a revisão da TRF-4 condenou a quem o juiz Sergio Moro havia declarado ser inocente. Não são erros de pequena monta para um magistrado que defende suas decisões com o argumento da imparcialidade e da estrita aplicação da lei. A avaliação da TRF-4 de que 18 sentenças, em 48, estiveram aquém do que a justiça recomendava expôs o discernimento do juiz Sergio Moro a justas interpelações, afinal, trata-se de número superior ou de sentenças impecáveis (14). E permanece em suspenso a avaliação da soltura do doleiro Alberto Youssef, anteriormente condenado pelo mesmo juiz Moro, pelos mesmos crimes, e também posto em liberdade vigiada pela benesse da delação premiada. Pois não é que o criminoso repete os crimes, agora em escala gigantesca, e o juiz Sergio Moro decide com a mesma benevolência, devolvendo Alberto Youssef e esposa, sua cúmplice, ao aconchego do lar?

As penas modificadas em favor dos réus incluíram a redução de 10 e anulação de 6. Ou seja, a correção absoluta das sentenças condenatórias, anulando-as, somou cerca de 40% do total de 16 sentenças modificadas em favor dos réus, também superior ao número de sentenças impecáveis. Das sentenças modificadas em favor dos réus, quase 50% (6) foram simplesmente anuladas, sem retificação possível, imperitas. Entre elas, alguns casos célebres; por exemplo, o de João Vaccari Neto, sentenciado a 15 anos de reclusão, a maior das condenações impostas por Sergio Moro. Atenção, a maior pena deliberada por Sergio Moro entre as sentenças por ele aplicadas a João Vaccari Neto, foi considerada insubsistente, vazia, sem provas, por se socorrer tão somente de duas delações premiadas e, ademais, por nenhuma das duas haver afirmado ter tratado de propina com o réu. Convido o leitor a reler esta última frase. Não fosse o Brasil de hoje um hospício continental, como o qualificou um jurista, e nenhuma sentença do juiz Sergio Moro, assentada estritamente em sua convicção, mereceria credibilidade. O juiz Sergio Moro, pela amostra aqui examinada, não é equilibrado.

Trinta e seis anos seriam subtraídos à vida em liberdade, se as pessoas entregues ao profissionalismo do juiz Sergio Moro não tivessem as penas anuladas pela TRF-4. Esse é o total dos anos de cadeia que o juiz Sergio Moro distribuiu passionalmente, inclusive a dois apenados que, como verificou a turma da apelação, não fizeram mais do que, por função administrativa assalariada, promoveram a movimentação de recursos da empresa OAS. A iluminada convicção do juiz Sergio Moro não hesitou, contudo, e gratificou a um com 11 anos de cadeia e com 4 anos a outro. Se não havia evidência para a condenação, é óbvio que também não existia base probatória para a incrível diferença no tamanho das penas. Finalmente, quantos anos de liberdade foram resgatados a favor dos réus que conseguiram, de justiça, redução das penas. De que é feita, afinal, a subjetividade desse juiz? O que quer ele dizer quando se refere à sua convicção ao sequestrar a liberdade de cidadãos e cidadãs brasileiros?

Para onde estão levando a Endodontia?

Caminho a seguir

Por Ronaldo Souza

– E o que está errado?

– Não é a Ciência. Alguns acadêmicos é que são arrogantes e se esquecem da mera condição de ser humano.

Foi assim que Olga Soffer, antropóloga e arqueóloga da Universidade de Illinois, respondeu à pergunta de uma entrevista à revista IstoÉ, em setembro de 2009.

A arrogância é bastante conhecida no mundo acadêmico, mas recomenda a prudência que ela não pode andar se exibindo por aí.

Por isso o arrogante se mostra humilde.

Pelo menos ele acha.

Na verdade, se há algo difícil de conter é a arrogância.

A todo instante ela se mostra, ainda que “controlada”.

Formas em Endodontia

Figuras geométricas planas

Lembra da imagem acima do texto Redondinho que nem moeda?

Se você não o leu, talvez seja interessante faze-lo para conversarmos melhor agora.

Qual a relação existente entre as formas?

O que elas podem representar?

Como seria preencher o espaço de um trapézio com um objeto circular?

O que as formas podem significar na Endodontia?

Qual é a forma dos canais?

Cônica.

Os canais radiculares são cônicos, como são os instrumentos.

Formas de canais e limas 1'

A figura acima nos mostra isso. Aí aparecem 5 instrumentos de diferentes fabricantes. Quatro são para instrumentação rotacional e um para o movimento reciprocante.

A conicidade dos instrumentos visa “copiar” a dos canais. Assim, a possibilidade de que toquem nas suas paredes se torna muito maior. Objetiva-se alcançar mais facilmente o desgaste das mesmas.

Por que isso?

Porque, estando as paredes também contaminadas, desgasta-las significa remover a contaminação ali impregnada, como também em parte dos túbulos dentinários.

O papel da infecção no sistema de canais

Se pudéssemos dizer uma verdade na Endodontia, qual poderia ser?

  1. A obturação do canal é o fator determinante do sucesso
  2. Não há lesão periapical sem infecção no sistema de canais
  3. Só a tomografia de feixe único pode dizer se há ou não lesão periapical

Eu apostaria as minhas fichas no número 2.

Existiriam outras verdades?

Deixemos essa “busca” para outro momento.

Tendo em vista que a infecção é a causa da lesão periapical, reconhece-se ser a instrumentação do canal e o consequente desgaste das paredes dentinárias a melhor maneira de se atingir aquilo que deve ser o objetivo maior do tratamento endodôntico: remover a causa.

A recomendação clássica determina que alguns instrumentos devem ser utilizados em sequência de ampliação dos seus calibres para que se consiga atingir o melhor resultado em termos de remoção do conteúdo do canal e da contaminação impregnada em suas paredes.

Por sua vez, em termos de quantidade de instrumentos a ser utilizada para esse objetivo a orientação mais conhecida parece ser a que diz que os canais devem ser preparados com 4 instrumentos (1+3) nos casos de polpa viva e 5 instrumentos (1+4) nos casos de polpa necrosada.

Apesar de estimulado por protocolos, é equívoco elementar tentar pré-estabelecer números em Endodontia. Não pode ser consensual, por exemplo, a quantidade de instrumentos que deve ser utilizada.

Ao mesmo tempo, se não há, e não pode haver, consenso na quantidade de instrumentos a ser utilizada, a literatura aponta para a imprescindibilidade da instrumentação.

Mesmo “copiando” os canais, é de conhecimento geral que os instrumentos não têm demonstrado a efetividade que se imaginava quanto a tocar nas suas paredes.

As limitações são claras.

Segundo a literatura, cerca de 35 a 40% das paredes dos canais não são tocadas pelos instrumentos endodônticos.

Mesmo com o uso de alguns em sequência de ampliação, quase metade das paredes dos canais não seria instrumentada.

Formas de canais e limas 2'

O que você vê na figura 2 são exatamente os mesmos canais da figura 1 e estão dispostos na mesma ordem. Lá, observados no plano mesio-distal, os canais assumem forma cônica. Aqui, observados pelo plano proximal, algo que não temos condições de fazer nos pacientes, de cônico eles nada têm, muito pelo contrário.

De modo geral, os instrumentos endodônticos existentes hoje são de grande qualidade.

A indústria merece todos os parabéns e ainda bem que a temos ao nosso lado.

Há detalhes de requinte na sua fabricação que os tornam muito importantes para a maior qualidade do tratamento endodôntico e podem torna-los “diferentes” uns dos outros.

Não caberia aqui, entretanto, entrar nesses detalhes. Em nome da compreensão do que de fato significa o tratamento endodôntico, eles não serão comentados aqui.

Se a relação entre instrumento e canal desempenha papel importante no preparo do canal e essa importância se manifesta fundamentalmente na capacidade de um tocar nas paredes do outro, ainda que as outras não percam a sua importância deve ser esta a questão mais relevante.

Assim, reforço que apesar da inegável qualidade dos instrumentos, mais do que eventuais detalhes de como ele foi fabricado, é bem provável que, para efeito de limpeza e modelagem (se quiserem, cleaning and shaping), a forma que o instrumento apresenta ou adquire dentro do canal seja primordial.

Diante dessa perspectiva, não parece difícil perceber que não há absolutamente nenhuma relação de proximidade entre a forma dos instrumentos e a anatomia dos canais na figura 2.

Não é só por esta razão, mas por esta imagem fica mais fácil entender porque a literatura diz que cerca de 35 a 40% das paredes dos canais não são tocadas pelos instrumentos endodônticos.

Você concordaria comigo se eu dissesse que onde não tocamos não limpamos?

Seria assim ou você prefere que eu diga que onde não tocamos fica, no mínimo, bastante prejudicada a nossa capacidade de limpeza?

Deixemos bem claro então.

Mesmo com a instrumentação proposta e executada há anos de que são necessários alguns instrumentos em sequência de ampliação de calibres, cerca de 35 a 40% das paredes dos canais não são tocadas pelos instrumentos.

Posso lhe fazer algumas perguntas?

Nas imagens acima, tendo o mesmo formato, cônico, você consegue ver algum instrumento com desenho diferente ao ponto de imagina-lo tocando mais nas paredes do canal do que os outros?

Você consegue imaginar qualquer um deles tocando em todas as paredes dos canais observados na figura 2 que, repito, são exatamente os mesmos da figura 1?

É difícil imaginar que sob essa ótica, a possibilidade de que os instrumentos toquem em todas as paredes dos canais é praticamente inexistente, ou, pelo menos, muito pequena?

De forma resumida, sob a perspectiva de que os instrumentos “precisam” tocar nas paredes dos canais para desempenhar as suas funções, você consegue ver diferenças significantes entre eles?

Diante do que acabamos de conversar, diante do seu conhecimento de anatomia dos canais radiculares, diante de tudo que você já sabe, quais são as reais chances de que só com um único instrumento você consiga fazer isso?

Se trabalhando dessa maneira há uma probabilidade de que você toque em menor quantidade de paredes do canal, portanto, menor capacidade de remoção do seu conteúdo, quais são as reais chances de controlar a infecção que fez surgir a lesão periapical?

Você está fazendo dessa maneira, tudo com rapidez, com um instrumento só, seja ele qual for, porque já tem a comprovação de que obteve sucesso a longo prazo ou porque professores “consagrados” estão dizendo a você para fazer assim?

Já lhe mostraram e/ou você já tem muitos casos de lesões periapicais reparadas com acompanhamento de alguns anos trabalhando dessa maneira?

Ainda que a pressão seja tão forte nesse momento, até porque está sendo empurrada goela abaixo pelos professores “consagrados” pelos holofotes dos palcos brasileiros, nos seus momentos de reflexão, quando surge a incerteza que só a reflexão traz, você acha que essa proposta responde às questões da Endodontia?

Você a vê como algo sensato?

Você faria assim nos seus pais?

Como um oncologista pediátrico que prescreve medicação anticancerígena a crianças, mas não a usaria caso fossem os filhos dele, você usaria essa “técnica endodôntica” nos seus filhos?

Se alguém está usando o argumento da simplificação do tratamento endodôntico, por favor, pare. Ele não pode ser utilizado aqui.

Os formadores de opinião precisam entender que existem diferenças entre as coisas.

Ainda que algumas palavras aparentem ser iguais, não são.

Ser simples é uma coisa, ser simplista é outra completamente diferente.

Simplicidade é tornar as coisas acessíveis e descomplicadas sem perder o significado, os detalhes ou a profundidade. É algo bem-vindo.

Simplismo é a falta de cuidado e seriedade ao tratar das coisas.

A Endodontia não está errada

E se me fizessem uma pergunta parecida com a que fizeram a Olga Soffer?

– E o que está errado?

– Não é a Endodontia. Alguns professores é que são arrogantes e se esquecem da mera condição de ser humano.

Arrogância é válvula de escape da estupidez e muitas vezes escudo para a insegurança dos fracos sem argumentos.

E, ao contrário do que se pode imaginar, se há algo difícil de controlar é a arrogância.

Por uma razão bem simples; a vaidade que a alimenta é incontrolável.

Ah, a boa e velha conselheira humildade.

É ela que nos leva à constante reflexão.

Mas reflexão tem um grave defeito.

Não vende.

Os limites na Endodontia

Limite apical

Por Ronaldo Souza

Observe na tabela acima as medidas determinadas aquém do ápice radicular como comprimento de trabalho.

Não poderia colocar nela todos os autores que desempenharam papel relevante no desenvolvimento da Endodontia brasileira. Estão autores nacionais que também desempenharam esse papel e, como foram pioneiros no lançamento de livros importantes para a nossa Endodontia, tiveram mais condições de disseminar as suas concepções.

Além deles, um estrangeiro que se tornou referência para o mundo todo.

Todos sabemos o quanto esse tema é complexo e polêmico. Olhando para a tabela podemos ver que há uma considerável diversidade de comprimentos sugeridos e que eles variam a depender do autor e da condição tecidual.

Daí podemos “tirar” muitos pontos para discutir, mas, antes de qualquer coisa, a tabela deixa uma coisa bem clara.

Ninguém sabe onde é!

Se soubéssemos não haveria tanta diversidade de CTs.

É claro que toda discussão científica é bem-vinda, mas a tabela também mostra que de uma certa forma tornam-se quase que inconcebíveis as discussões, muitas vezes verdadeiras brigas, que já foram travadas ao longo dos anos em nome da precisão absoluta que sempre se exigiu e se exige do aluno e do endodontista na determinação do comprimento de trabalho.

O dogmatismo sempre ocupou lugar de destaque na Endodontia e não foram tão poucas as vezes em que o maniqueísmo também teve espaço; ou é assim ou está errado.

De acordo com a literatura, o limite CDC, local onde se encontram a dentina e o cemento, representaria o ponto de maior constrição do canal e ali deveria ser determinado o comprimento de trabalho.

Em outras palavras, limite CDC e constrição apical seriam a mesma coisa.

Veja o que dizem alguns autores.

  1. Wu e colaboradores O Sugery, O Medicine, O Pathology

“Na polpa viva, o limite ideal para instrumentação e confecção da matriz apical parece ser de 2 a 3 mm aquém do ápice e não de 0 a 2 mm.

Quando os procedimentos endodônticos são feitos mais do que 2 mm aquém do ápice há uma redução de cerca de 20% do padrão de sucesso.

A instrumentação deve ser feita em um nível suficientemente profundo para remover ou pelo menos reduzir significantemente os microrganismos”.

  1. Spironelli, CA e Bramante, CM. Odontometria-Fundamentos e Técnicas, 2005

“O comprimento de trabalho ideal, acordado entre a unanimidade dos autores desde os estudos de Grove, situa-se no limite CDC. Aparelhos eletrônicos promovem a detecção exata da constrição apical”.

  1. Hassanien e colaboradores Journal of Endodontics

Os nossos resultados indicam que o limite CDC e a constrição apical são dois pontos distintos e que o diâmetro do canal no CDC é sempre maior do que o da constrição apical”.

Façamos uma análise crítica das colocações acima.

Na primeira delas, Wu e colaboradores dizem que o limite ideal… parece ser de 2 a 3 mm aquém do ápice”. Depois dizem quequando os procedimentos endodônticos são feitos mais do que 2 mm aquém do ápicee finalmente quea instrumentação deve ser feita em um nível suficientemente profundo.

O que foi definido?

Absolutamente nada.

O que significa um nível suficientemente profundo?

Qual é esse nível?

Se os autores falam de até 3 mm aquém, seria esse um nível suficientemente profundo?

Na segunda, os autores dizem; o comprimento de trabalho ideal… situa-se no limite CDC. Aparelhos eletrônicos promovem a detecção exata da constrição apical”.

Depreende-se que limite CDC e constrição apical seriam a mesma coisa. Chamo a atenção também para a detecção exata da constrição apical.

E na terceira os autores dizem que o limite CDC e a constrição apical são dois pontos distintos.

Precisão dos localizadores

Ângelo CT 1

“Agora, com os localizadores eletrônicos o comprimento de trabalho é determinado com precisão!”

É o que ouço dizer e leio há alguns anos.

Canta-se em prosa e verso, cada vez mais, a precisão dos localizadores e da sua importância na determinação dos limites apicais de instrumentação e obturação.

100%.

Digamos que a absurda e descabida pretensão fosse possível.

Ótimo.

Para que?

Ângelo CT 2'''

Confesso a minha dificuldade de entender o que significa dizer que, seja no aspecto físico (?), seja no geográfico (?), “a ampliação do forame apical não interfere na fisiologia do elemento dental”.

O que posso garantir a você é que quando se faz a ampliação do forame fica absolutamente evidente que há uma interferência marcante na anatomia apical.

Como diria Nelson Rodrigues, é o óbvio ululante.

Aqui, o óbvio não só ulula como dá saltos.

Mortais.

E a primeira coisa que salta aos olhos é que, aceitando-se a existência do limite CDC/constrição apical, quando você amplia o forame apical você arrebenta o que?

Justamente o limite CDC/constrição apical.

Dá para imaginar o contrário???

Forame apical menor e maior pontilhados6

Na figura acima, o forame apical maior, ou simplesmente forame apical, é representado pelo espaço correspondente à linha preta pontilhada e o forame apical menor, onde seria o limite CDC/constrição apical, pela linha amarela.

Você concorda comigo se eu disser que um instrumento que tenha o mesmo calibre do espaço correspondente ao da linha preta não consegue passar pelo espaço correspondente ao da linha amarela?

Concorda ou não?

Ótimo.

Você concorda comigo se eu disser que para chegar lá no forame apical com um instrumento que tenha o mesmo calibre do espaço correspondente ao da linha preta, você precisa ampliar bastante o que seria o limite CDC/constrição apical, o da linha amarela?

Beleza.

Então você ampliou o limite CDC/constrição apical, de tal maneira que agora consegue chegar ao forame apical (linha preta) com uma lima de calibre correspondente ao seu espaço.

Parabéns.

Agora, claro, você vai ampliar aquele espaço.

???

Não vai fazer a ampliação do forame?

Então!

Se você faz ampliação foraminal tem que ampliar o forame, não é verdade?

E ali é o forame.

Você sabe quantos instrumentos precisaria usar para ampliar o limite CDC/constrição apical para conseguir um calibre igual ao do espaço do forame, a linha preta?

Agora que chegou lá, você sabe quantos instrumentos deve usar para ampliar o forame apical?

Você se incomoda se eu deixar aqui o link de um artigo que talvez possa ajudar a entender um pouquinho essa questão? Clique nele que vai direto para o artigo.

Relationship between Files that Bind at the Apical Foramen and Foramen Openings in Maxillary Central Incisors – A SEM Study. Braz Dent J 2011;22(6):455-459

Ampliação foraminal

Dá para imaginar quanta coisa sem pé nem cabeça tem sido dita sobre esse tema?

Olha, me perdoe se pareço sei lá o que, mas é para perder a paciência.

É um tal de ampliar forame, só se fala nisso e muitos não sabem sequer do que se trata.

 Surplus

Vamos lá.

Se entram no canal sem nenhuma preocupação, fazem ampliação foraminal e destroem a ‘constrição apical’ em qualquer situação (polpa viva, polpa necrosada sem lesão, polpa necrosada com lesão, retratamento, reabsorção apical…), obturam o canal com guta percha plastificada e cimento obturador extravasando sem restrições e desafiando qualquer limite, inclusive o do bom senso, eu pergunto.

Por que e para que ter precisão no localizador???

Percebe a contradição?

Eles não percebem o contrassenso no que dizem.

É incompreensível a promessa de precisão na determinação do CT

Façamos agora um exercício de raciocínio.

Sempre foi dito que os localizadores apicais (como foram inicialmente chamados e muitos ainda chamam assim) determinavam com precisão o limite CDC/ponto de constrição.

Ótimo!

Constrição apical

Sabendo que o limite CDC não é como se ensinava, isto é, que ele não existe, como também não existe um ponto de constrição apical, como imaginar os localizadores como aparelhos de precisão para detectar o limite CDC/constrição apical?

Limites

As setas vermelhas e verdes na figura acima apontam para os vários limites CDC que existem nesses canais.

Uma vez que não existe um limite CDC, mas sim alguns, e que também não há um ponto de constrição apical, como imaginar que o localizador eletrônico dará essas medidas com precisão?

Como ele pode nos dar “uma segurança de 100% na localização do limite CDC”?

Como detectar com essa precisão o que não existe?

Entenda-os como localizadores foraminais e não apicais.

Isso muda a compreensão de muita coisa, inclusive do que fazem os localizadores.

Não se deve usá-los para buscar o que seria o limite CDC/ponto de constrição, mas sim para buscar o forame apical, o local onde “termina” o canal. Dele, recua-se para “dentro do canal” uma medida conforme o CT que cada um costuma usar.

Para uns 0,5 mm, para outros 1,0 mm, ou 1,5, outros tantos 2,0 ou 3,0…

Se é assim, são medidas precisas ou as clássicas preestabelecidas, já bastante conhecidas e que estão na tabela lá em cima na primeira imagem deste artigo?

“A constrição do canal só pode ser observada na secção adequada de um corte histológico e este é o único método que permite a determinação do comprimento de trabalho”.
Langeland, K. 1995 – Blaskovic-Subat, V. et al. 2006 – Wrbas et al. (2007)

Esta afirmativa serviria bem às minhas ponderações, entretanto, uma visão crítica mais apurada mostra que mesmo ela pode e deve ser vista com restrições.

Trabalhos como o de Ponce e Vilar Fernández na figura acima demonstram que é justamento na peça histológica que se observa o contrário, ou seja, que não há um só limite CDC. 

Observe como muda o sentido quando as duas expressões, localizador apical e localizador foraminal, são usadas.

Patência apical é o que?

Quando você fazia ou faz recapitulação na técnica escalonada, o que é que você está fazendo?

Patência no comprimento de trabalho?

Sendo assim, a rigor patência apical pode ser patência em qualquer ponto do terço apical, é ou não é?

Localizador apical me diz o que?

Nada, ou, se você quiser que eu mude para amenizar o impacto, quase nada.

O que desejam e exigem os professores de Endodontia?

Que os alunos trabalhem no canal dentinário, “campo de ação do endodontista”, como ficou conhecido.

Ora, quem “diz” onde termina o canal dentinário?

A constrição apical.

Ela diz; aqui termina o canal dentinário e começa o canal cementário.

Você, endodontista, termina o seu trabalho aqui.

Aqui é seu “campo de ação”.

O canal cementário é intocável, é sagrado.

Não ouse ir lá.

Não ouse passar desse limite.

Resultado?

Necessidade de estabelecer um limite apical de trabalho!!!

Imaginou-se inicialmente, e muitos disseram, que o localizador apical determinava com precisão a constrição apical, portanto, o limite apical de trabalho.

Já conversamos, se não existe ponto de constrição apical, como é que nós podemos querer precisão para localizar o que não existe???

– Ah, mas eu não estou preocupado com esse negócio de limite CDC, constrição apical, coto pulpar, extravasamento de material obturador, não estou preocupado com nada disso. Eu faço endodontia moderna.

Lá vou eu de novo.

– Então me perdoe, que mal não lhe faça.

  1. O localizador é para instrumentar o canal?
    Não.
  2. O localizador é para irrigar o canal?
    Não.
  3. O localizador é para colocar medicação intracanal?
    Não.
  4. O localizador é para obturar o canal?
    Não;
  5. O localizador é para estabelecer com mais precisão o limite apical de trabalho?
    Sim.

Por favor, não se aborreça comigo porque eu vou repetir a pergunta, combinado?

Se o localizador tem a função de estabelecer com mais precisão o limite apical de trabalho e você não está preocupado com esse negócio de limite CDC, constrição apical, coto pulpar, extravasamento de material obturador, com nada disso, para que você usa?

Estou negando a importância do localizador foraminal eletrônico?

Claro que não.

Agora mesmo compramos mais três para os nossos cursos na ABO-BA.

Recomendo seu uso. É mais uma ferramenta importante para se fazer um bom tratamento endodôntico, sem dúvida.

Discordo, isso sim, da precisão absoluta atribuída a eles e chamo a atenção para a contradição que existe entre o que dizem muitos professores e o que realmente acontece.

A imaginação é mais importante do que o conhecimento

Ciência não tem limites.

Ciência não tem limites porque ciência é imaginação e esta não tem limites.

Quando posta dentro de limites, quando protocolam a ciência, não há desenvolvimento, não há crescimento real.

É lamentável ver os rumos que a Endodontia está tomando.

Como diz o Prof. Spangberg, agora tudo se limita a fazer canal.

É deplorável a atitude de alguns professores que, possuidores de um conhecimento limitado, como é todo conhecimento, entregam-se ao descompromisso.

Vejo-os cá da minha janela com enorme tristeza e, facilmente identificáveis, a todos repudio.

Tornaram-se meras peças de uma engrenagem, nada mais.

O preço a pagar por isso cai na conta dos mais jovens e inexperientes.

Observe que o título deste artigo não é “Os limites da Endodontia”.

A Endodontia não tem limites.

Como ciência, ela não se permite limites. O seu limite é a imaginação.

Quando Einstein diz que “a imaginação é mais importante do que o conhecimento” bate de frente com o mundo acadêmico que tenta engessar a ciência, como se vê nos tempos atuais na Endodontia.

Não deve ser difícil entender que em qualquer especialidade em que há ato operatório, como é o caso da Endodontia, seria tolice negar a importância da técnica operatória.

Se assim é, a habilidade manual, que se adquire e se aprimora com o tempo, assume papel fundamental.

Mas também é fundamental entender que os maiores limites na Endodontia não estão nas mãos do endodontista.

Estão na sua cabeça.

Onde ficou a Universidade como centro de excelência?

Em que momento a Universidade perdeu o seu papel de estímulo à reflexão?

É dessa universidade que estamos saindo.

Nela, os limites são bem claros.

Estão à vista.

De Guto Ferreira a Jorginho

Escudo do Bahia

Por Ronaldo Souza

Tenho ouvido com alguma frequência membros da imprensa esportiva local dizerem “eu prefiro que o time jogue mal e ganhe do que jogar bem e perder”.

Referem-se ao Bahia.

Criam assim um clima desfavorável que contamina a torcida.

Resultado. Vaias, que já ocorreram no último jogo, contra o Fluminense.

Para um time que vem jogando bem.

Se a imprensa reservasse algum espaço para o bom senso talvez pudesse entender que é no mínimo pouco provável que um time jogue sempre mal e ganhe as partidas e que outro jogue sempre bem e perca.

Em algum momento essa “matemática” não vai funcionar e as razões para isso parecem óbvias.

Faço questão de frisar mais uma vez que ao torcedor de futebol quase tudo é permitido, à imprensa não.

Esse tipo de comentário é de uma insensatez à toda prova e por trás dele podem existir algumas coisas.

Incompetência em primeiro lugar, além do desejo de fazer média e agradar à torcida ou qualquer outra razão inconfessa.

O lugar de destaque, porém, é ocupado pela incompetência mesmo.

Vamos ver Guto!

Será que já esqueceram, entre outros, do jogo ridículo que o time fez contra o CRB (série B, 2016), quando ganhava de 2X0, em 10 minutos deixou empatar e se tivesse mais tempo de jogo era bem capaz de perder?

Também já esqueceram do último jogo do campeonato, contra o Alético Goianiense, fora de casa?

O Bahia perdeu, com o time jogando covardemente mais uma vez, a despeito da importância da partida.

Subimos graças à derrota do Náutico.

O que fez essa mesma imprensa quando Guto armou dois times, um para o Campeonato Baiano e outro para a Copa do Nordeste agora em 2017?

Criticou e muito. E elogiou bastante o Vitória.

Sobre isso, o que fizeram e como chegaram os dois times nas semifinais e finais dos referidos campeonatos já conversamos no texto Jogo perigoso.

Sem querer tirar o mérito de Guto Ferreira por ter deixado um time montado, também já falei aqui e aqui que não foi ele e sim o acaso que armou o ataque do Bahia.

Independentemente de qualquer outra coisa, para conseguir isso Guto levou um ano.

E não está bem no Internacional.

Tendo-o criticado na maioria das vezes durante o ano em que esteve no Bahia, agora a imprensa incensa o time montado por Guto.

E critica quem?

Vamos ver Jorginho!

Tem 1 mês e 10 dias de Bahia.

Do quarteto que encantou a todos (Régis, Zé Rafael, Edgard Junio e Allione), Jorginho já não encontrou Régis, o jogador mais importante para o time naquele momento, à sua disposição.

Em seguida perdeu Edgard Junio.

Do meio campo titular, além de Régis, perdeu Edson.

Todos por contusão.

Justamente nesse momento em que estava sem jogadores importantes no Campeonato Brasileiro, entre jogos fora de casa e na Fonte Nova pegou a sequência com Botafogo, Cruzeiro, Grêmio, Palmeiras, Corinthians, Flamengo e Fluminense.

Considerando-se particularmente a qualidade desses times, o Bahia jogou bem (com exceção feita aos jogos com Palmeiras e Corinthians em que não esteve tão bem), foi elogiado e em alguns poderia ter ganho.

A única partida em que jogou mal foi contra o Vitória. Todos sabemos que em clássicos com essa rivalidade os times se igualam e geralmente não há favorito. O Bahia esteve naqueles dias em que nada dá certo. Acontece.

Na última partida agora, contra o Fluminense na Fonte Nova, a imprensa, inclusive a do Rio, mais uma vez reconheceu o futebol jogado (mesmo não tendo sido das melhores partidas) e disse que o Bahia foi superior “durante todo o jogo”.

No programa “Troca de Passes” (SporTV), enquanto Abel fazia considerações bobas na entrevista coletiva nos vestiários, foi possível ouvir bem baixinho ao fundo alguém no estúdio dizer; “esse negócio de Abel dizer que o time…”.

Não deu para ouvir mais do que isso e muito menos identificar de quem era a voz, pois o som desapareceu em seguida. Após terem dito que o Bahia foi superior “durante todo o jogo”, acho que podemos deduzir que alguém da bancada do programa (André Rizek, Carlos Eduardo Lino e Roger Flores) não estava concordando com as declarações do treinador do Fluminense.

Quando Vanderlei Luxemburgo assumiu o Sport só fez perder ou empatar no início. Onde está agora o Sport? Na sexta colocação.

O futebol brasileiro está virando uma loucura.

A demissão de Wagner Mancini da Chapecoense foi um absurdo e com apenas pouco mais de um mês, Eduardo Baptista já foi demitido do Atlético Paranaense, cujo time é limitado.

Espero que a diretoria do Bahia não se deixe levar somente pelos resultados e tenha um pouco mais de serenidade. O time precisa de reforços, mas não é ruim. E ainda continuo achando que deve ser o mesmo que vinha jogando, assim que todos os jogadores estiverem à disposição do treinador.

Quanto a Jorginho, é um bom técnico.

Talvez não se tenha observado um comentário feito por ele desde que chegou sobre a intensidade que o time vinha empregando no início dos jogos.

Observe que com Guto o Bahia algumas vezes começou muito intensamente, criou muitas oportunidades e o gol não saía. No segundo tempo, já mais cansado, o time diminuía a intensidade e, diante de um time um pouco mais qualificado, já corria riscos de tomar gol.

Jorginho chegou falando de equilibrar mais a intensidade nos dois tempos do jogo, mais posse de bola (tudo bem, sei que posse de bola não é tudo que andaram dizendo), coisas nesse sentido.

Ou alguém pode imaginar que Zé Rafael poderia jogar todas as partidas naquele ritmo inicial? Procure lembrar quantas vezes ele foi substituído no segundo tempo já esgotado.

Mas talvez Jorginho esteja precisando definir mais, ousar

Uma coisa acho que ele já sabe; Armero é o mais fraco dos laterais esquerdos e ele já o tinha tirado do time.

Sentiu-se pressionado pela diretoria ou pela torcida e o escalou outra vez? Não sei. Apesar de alguns acharem que Matheus Reis não se saiu tão bem, ainda acho que é melhor do que Armero. Talvez o técnico precise dar mais moral a ele e a Juninho Capixaba (lateral esquerdo da base que já está entre os profissionais).

Com Armero não dá. Mais claro do que no jogo contra o Fluminense não podia ficar. O time é capenga, só joga por um lado, o de Eduardo (lateral direito), que, mesmo precisando melhorar muito os cruzamentos (Jorginho foi lateral direito muito bom, por que não ensina a ele?), é bom lateral e titular absoluto. Reconheçamos; joga muito para o time.

Rodrigão está chegando e já apresentou maior potencial do que Gustavo. Vamos ver.

Só mais uma coisa.

Apesar da inegável qualidade do seu futebol, ainda fico “um pouco assim” com Allione. Sinto-o ausente em determinados momentos dos jogos. A impressão que tenho é a de que é um pouco instável emocionalmente.

Amanhã (12/07), contra a Ponte Preta, teremos mais um jogo muito difícil.

Torcedor tricolor, vamos ter um pouco mais de tranquilidade, seu time ainda pode surpreender.

Continue jogando com ele.

Darwin, Copérnico, Galileu, Igreja e… Endodontia

Pensar

Por Ronaldo Souza

Durante um jantar em evento de Endodontia há 12 anos, em conversa com um colega de turma a quem não via há algum tempo ele me disse:

– Fulano acabou de me dizer que não lhe leva à cidade dele porque você “derruba” tudo que ele e o grupo dele ensinam.

Já tinha percebido isso.

De fato, apesar de já ter ido inúmeras vezes ministrar cursos na cidade dele e em outras do mesmo estado, em nenhuma delas tinha sido a convite dele e do seu grupo, do qual faz parte a professora que “em algum lugar do passado“ quase me agride.

Natural? Não.

Compreensível? Sim.

Qual a razão da dificuldade do convite que jamais chegaria?

A minha abordagem sobre particularmente dois temas sobre os quais falo há muitos anos; instrumentação do canal cementário (favor não confundir com ampliação foraminal) e o real papel da obturação.

Vivesse eu à busca de convites para dar cursos em “todas” as cidades, teria que ser mais esperto.

Bastaria entender a conveniência de alguns professores.

E aí, falando o que querem ouvir, agradaria e seria convidado.

Dizer o que querem ouvir é dizer o que todos dizem.

Dizer o que dizem nos torna iguais.

Entramos na corrente.

Entramos na igreja.

Por não concordar com o Criacionismo, teoria adotada pela Igreja que diz que Deus criou o homem e o universo, (Charles) Darwin criou o Evolucionismo, através do seu livro “A Origem das Espécies” (1859).

“Toda a vida teve origem espontânea e a evolução é a chave para a existência e a variedade entre as espécies”.
Evolucionismo x Criacionismo

Copérnico inicialmente e Galileu em seguida se opuseram à teoria também oficializada pela Igreja de que era a Terra e não o Sol o centro do Sistema Solar.

Apesar de todas as resistências e de “não serem convidados para palestras”, a Teoria Evolucionista de Darwin é hoje a mais aceita. Também não parece haver mais nenhuma dúvida sobre o que defenderam Copérnico e Galileu.

Mas ninguém é inocente a ponto de desconhecer a força da Igreja.

Ir no sentido oposto ao que ela diz faz tudo ser mais difícil.

E o universo se torna menor.

As igrejas, e aí já estou no universo da Endodontia, exercem muita influência no que deve ou não ser divulgado.

A igreja tem os seus compromissos. Ela diz o que lhe dizem pra dizer.

A igreja bola o que rola.

O céu não é azul

“Continuamos a acreditar que, apesar de haver fortes indícios de que o condicionamento ácido da polpa é uma alternativa viável e, algumas vezes, vantajoso em casos bem selecionados, ainda é cedo para abandonar totalmente o uso do hidróxido de cálcio nestas situações e recomendar a técnica como procedimento de rotina. Pelo contrário, acreditamos que para a maioria dos clínicos é prudente utilizar o hidróxido de cálcio”.
Baratieri, LN. Odontologia Restauradora – Fundamentos e Possibilidades 2001

O condicionamento ácido da polpa, algo que não tinha sido devidamente investigado, foi amplamente divulgado e colocado como verdade clínica. E foi adotado por muitos professores de Dentística, quem sabe a maioria.

Ao perceber que aquilo que vinha preconizando já há algum tempo não tinha apresentado os resultados esperados por ele e seu grupo, Baratieri fez esse “pedido de desculpas” no seu livro.

Dá para imaginar quantas polpas devem ter sido sacrificadas pela divulgação dessa concepção?

Dá para imaginar quantos pacientes foram tratados de forma indevida?

Dá para imaginar quantas pessoas foram prejudicadas?

Considero esse “depoimento” do professor Baratieri uma das iniciativas mais interessantes, provavelmente única nesse sentido, que vi nos últimos tempos.

Não terá sido um ato de grandeza?

O que acontece no momento atual da Endodontia não faz ninguém pensar além do jardim?

Acostumei-me a ver o céu azul.

Para quem mora no Nordeste, como eu, o céu é azul.

No Farol da Barra, em Salvador, ele é mais azul.

E mais bonito.

Foto 2

Mas o céu não é azul.

No mesmo Farol da Barra me acostumei a vê-lo assumir outras cores, no mais belo pôr do Sol do mundo.

Por do Sol no Farol da Barra

É o olho que faz o horizonte

Já tinha escrito outras vezes sobre o Prof. Larz Spangberg, como em abril de 2012, e voltei a fazê-lo em fevereiro deste ano.

Faço um convite a você. Não deixe de ler o texto no qual traduzi e incorporei o editorial escrito por ele em julho de 2011, portanto, há 6 anos. Clique aqui Prof Larz Spangberg (e uma endodontia que não existe).

Trago alguns trechos daquele texto.

Ronaldo
As novas técnicas serão sempre bem-vindas em Endodontia, pelo que de bom podem trazer, mas, sem nenhum receio de como posso ser interpretado, arrisco-me a dizer que, neste momento, do que menos precisamos é de técnicas novas. Precisamos, isso sim, consolidar os princípios estabelecidos e consagrados que deveriam reger a Endodontia. Assim, saberemos ver o real valor do que já existe e do que ainda virá. Caso contrário, veremos cada vez mais profissionais serem induzidos por caminhos no mínimo duvidosos.

É cada vez mais comum jovens profissionais “escolherem” esses caminhos, devidamente auxiliados pelos novos donos da verdade que, mesmo sob o manto da humildade e de um altruísmo tão sólido quanto uma geleia, frequentemente deixam vir à tona a sua arrogância e prepotência cada vez que se sentem contrariados nas suas sábias e doutas opiniões.

Prof. Spangberg
Na maioria das vezes, os avanços em anos recentes têm sido associados ao desenho dos instrumentos e materiais
, o que tem resultado em melhora onde o tratamento pode ser feito com o menor sofrimento para o paciente em menor tempo. Entretanto, há pouca evidência de que o resultado do tratamento seja melhorado de forma significante.

todas essas informações se perdem nos consultórios, onde o conhecimento tem sido brutalmente ignorado num processo chamado de “fazer um canal”

A despeito desse conhecimento, a maioria dos dentistas usa somente uma forma de tratar o canal, superficialmente conhecida como “fazer um canal”.

Por essa razão, as associações de especialistas, como a Associação Americana de Endodontia, devem olhar além do seu interesse paroquial e político.

Haverá sempre alguém resistindo a esses movimentos de mercantilização do ensino.

Spangberg sempre foi um desses.

“Essa teoria é ensinada até hoje em muitas escolas nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil”.

Do que falo quando reproduzo a frase acima?

Ela foi retirada do mesmo texto que referenciei lá em cima quando falo de Evolucionismo e Criacionismo, mas pode ser usada exatamente da mesma maneira no momento atual da Endodontia.

Poucas vezes se viu tão forte quanto agora a influência de autores estrangeiros entre nós. Eles deixaram de ser somente referenciados. Agora são reverenciados.

Quem você pensa que está dizendo a você quais e quantos instrumentos usar?

São eles.

Quem você pensou que era?

A endodontia brasileira perdeu o filtro que somente os verdadeiros mestres possuem.

Como Darwin, Copérnico e Galileu, a geração de ouro ousou pensar e construir a Endodontia Brasileira.

Alguém pode traze-los de volta?

“Sempre acreditei na Justiça do meu país”

Aécio e a justiça

Por Ronaldo Souza

A frase que dá título a este texto foi dita por Aécio Neves após reassumir o mandato no Senado.

Aécio sempre teve razões de sobra para acreditar na justiça do seu país.

Há como negar a sua íntima relação com a justiça brasileira?

Será que ainda há alguém que possa negar a blindagem que a mídia brasileira desde sempre reserva a Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e de resto todo o PSDB?

Se existe esse alguém, certamente não cabe coloca-lo na categoria dos inocentes.

Ele pertence a outras, em nada nobres.

Existe uma expressão consagrada no Latim e usada em todo o mundo:

In dubio pro reo“.

Significa literalmente “na dúvida, a favor do réu”.

Ela expressa o princípio jurídico da presunção da inocência, universalmente utilizado. Em outras palavras, diz que em casos de dúvidas (por exemplo, insuficiência de provas) se favorecerá o réu.

Todos são inocentes até que se prove o contrário.

Veja o que diz o jurista Luiz Flávio Gomes sobre o Principio do “in dubio pro reo.

Também conhecido como princípio do favor rei, o princípio do “in dubio pro reo” implica em que na dúvida interpreta-se em favor do acusado. Isso porque a garantia da liberdade deve prevalecer sobre a pretensão punitiva do Estado.

É perceptível a adoção implícita deste princípio no Código de Processo Penal, na regra prescrita no artigo 386II, ex vi:

Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça:

(…)

VII – não existir prova suficiente para a condenação.

Não conseguindo o Estado angariar provas suficientes da materialidade e autoria do crime, o juiz deverá absolver o acusado. Ou seja, in dubio pro reo.

Em tempos de cólera, como nos dias atuais, quando nada importa a não ser fazer arder na fogueira do assassinato de reputação quem quer que seja que não se ponha ao lado das forças ocultas (sem nenhuma associação com Jânio Quadros, por favor), este tem sido um tema negado a qualquer possibilidade de discussão.

As razões para isso passam ao largo por diferentes razões, uma delas a alienação de setores significativos da sociedade.

“Carreira política elogiável”

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, devolveu o mandato de senador a Aécio Neves.

Há aí pelo menos duas perspectivas.

Tido como um juiz garantista, que trabalha à luz das leis e que, portanto, garante a sua utilização mesmo contra, por exemplo, o clamor popular, seria um juiz cujos processos são examinadas sob as normas jurídicas.

Falar dos julgamentos atuais só tem validade quando se diz o que se quer ouvir.

Pela absurda pobreza que se observa reinando nos últimos anos, particularmente nas redes sociais, não vale a pena.

Particularizo as redes sociais porque são reconhecidas as limitações das “ponderações” que ali são feitas, mesmo sabendo que elas são apenas um mero reflexo da mídia brasileira, alienante como nenhuma outra.

Isso, porém, não tira a culpa dos alienados, até pelo pretenso nível intelectual que cantam aos quatro ventos.

Se são o que imaginam ser, por que se permitem ser o que são?

A outra perspectiva sob a qual teria sido tomada a decisão do ministro Marco Aurélio Mello é a do seu alinhamento ao que se tornou público e notório; a inimputabilidade (expressão de uso comum mais recentemente) atribuída a FHC, Aécio e ao PSDB como um todo.

E é essa perspectiva que pode explicar as mais recentes decisões do STF.

No despacho que devolve o mandato de Aécio Neves, Marco Aurélio afirmou que não cabe ao STF decidir pelo afastamento do senador, por “inexistência de flagrante…, muito menos, por ordem monocrática, afastar um parlamentar do exercício do mandato“, afetando assim o equilíbrio e a independência dos Três Poderes.

Essas preocupações não existiram nas recentes prisão e cassação de outro parlamentar.

A prisão de Delcídio do Amaral, senador pelo PT,  foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal sob a acusação de tentar atrapalhar as investigações da Lava Jato. Bastou isso para que fosse preso.

Foi o primeiro senador preso no exercício do cargo, desde a redemocratização do País.

Preso, ficou incomunicável, “numa cela da Polícia Federal, em situação que contrariava o artigo 53 da Constituição Federal que define regras precisas e excludentes para a prisão de parlamentares no exercício do mandato”.

Na sequência, teve o mandato cassado.

Assim:

  1. Aécio foi flagrado em conversa telefônica orientando um ministro do STF, Gilmar Mendes, a como agir em seu benefício.
  2. Deixando de lado acusações anteriores de corrupção, Aécio foi flagrado com pedido de propina.
  3. Teve o mandato suspenso pelo STF, com pedido de cassação e prisão por parte do Ministério Público Federal.
  4. O pedido de cassação foi arquivado no Conselho de Ética do Senado.
  5. Foi também arquivado no STF.
  6. Recuperou o mandato por decisão monocrática de ministro do STF, o próprio Marco Aurélio Mello.
  7. Sua irmã e seu primo foram soltos.

Por outro lado:

  1. Delcídio foi preso porque no telefonema grampeado citou nomes de ministros do STF que poderiam ajudar a alguns réus.
  2. Foi preso e ficou incomunicável.
  3. Foi cassado por unanimidade, sem nenhuma chance de defesa.

Devo esclarecer que nunca gostei da postura do senador Delcídio do Amaral, conhecido como “o mais tucano dos petistas”. Aqui estão sendo abordadas questões que analisam o comportamento do STF diante de dois senadores; um do PT e outro do PSDB.

Não se sabe ainda o que quis o ministro do STF ao exaltar Aécio enaltecendo os seus “fortes elos com o Brasil. É brasileiro nato, chefe de família, com carreira política elogiável…”.

Pelo sarcasmo com que algumas vezes se dirige aos seus pares (como eles gostam de dizer), será que o ministro não percebeu que estava diante de mais um escárnio do STF à nação brasileira e desejou tão somente ser engraçado?

Não deve ter sido.

A essa altura, falar dos “fortes elos com o Brasil” e da “carreira política elogiável” de Aécio é, na verdade, uma bofetada no povo brasileiro.

Agora voltemos a um passado nem tão distante.

Considerando-se que o julgamento do Mensalão do PSDB nunca será feito e que a cada dia surgem novas notícias de mais uma prescrição do que está engavetado, falemos do PT.

Veja a matéria de Mônica Bergamo, de 22 de setembro de 2013, na Folha.

Lava Jato, Aécio e Dirceu'

Se você quiser ler a matéria de Mônica Bergamo na íntegra, clique aqui Dirceu foi condenado sem provas.

É bem possível que você não saiba do que fala Ives Gandra, como também que sequer saiba de quem se trata. Por isso trago abaixo uma imagem dele.

Ives Gandra

Todos sabem que Ives Gandra é um homem de direita e declaradamente contra o PT. É um homem da Opus Dei. Mas também é reconhecido como um jurista que procura se apoiar em fatos jurídicos. Certamente, não se trata de uma Janaína Paschoal.

Vamos relembrar o célebre voto da ministra Rosa Weber para condenar José Dirceu?

Não tenho prova cabal contra Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”.

Você sabe quem redigiu esse voto da ministra do STF? O que se diz é que teria sido o próprio juiz Sérgio Moro, que era assessor dela à época.

Dispensar provas para condenar alguém parece fazer parte da vida de Sérgio Moro.

O que fizeram com José Genoíno?

Sem uma única prova, Genoíno teve a sua vida e a da sua família destruídas.

O que o juiz Moro fez com Vaccari?

Manteve-o preso “preventivamente” por mais de dois anos, na esperança de que ele fizesse delação de Lula e depois o condenou por 15 anos e 4 meses.

O que ocorreu?

Vaccari

O que o juiz Moro faz hoje com Vaccari?

Mesmo tendo o TRF4 enviado um alvará de soltura, Moro o manteve preso.

Que espécie de juiz é esse?

O Supremo Tribunal Federal é tradicionalmente conservador, entretanto, o seu comportamento nos últimos tempos tem sido muito estranho.

O que fazem todo o tempo o judiciário brasileiro, o MPF, o juiz Moro e seus procuradores da Lava Jato?

Bob Fernandes tem a resposta.

Como diz Luis Nassif, “há algo de podre no ar, mas ainda não há clareza sobre tamanho e consistência”.

Uma coisa é certa.

Quando diz “sempre acreditei na Justiça do meu país”, Aécio sabe do que está falando.

Sabe que a justiça (com letra minúscula mesmo) no Brasil tem lado.

E ele sabe qual é.

Os novos gurus da alienação

Dória e a seca para turistas

Por Ronaldo Souza

O Fernando Henrique Cardoso de antigamente, aquele que Fernando Henrique Cardoso mandou esquecer, foi uma doce ilusão.

Não tardou a se revelar.

Há muitos anos de costas para o país e seu povo e blindado pela imprensa comprometida por interesses que atentam contra o Brasil, FHC se fez um velho decrépito, sem nenhum respeito por si mesmo.

Há algo pior que perder o amor próprio?

Hoje representa o que há de pior entre os políticos de sua geração.

Um elo perdido entre um passado recente, onde existiam em maior quantidade homens e políticos de expressividade, e o presente, onde reina o que há de pior na classe política.

Permita-me cair no lugar comum para repetir uma frase muito dita nos últimos tempos:

“Não existe almoço grátis”.

Há sempre um preço a pagar.

Um deles, e muito alto, é ver idolatrados homens que jamais teriam qualquer chance de escapar da mais simples análise crítica sobre questões como dignidade (falta dela), desde quando feita essa análise por qualquer ser que disponha de dois neurônios que o permitam transitar em dois sentidos; ir e voltar.

Devo esclarecer que aqui ir e voltar ganha uma complexidade bem maior do que aquela que no primeiro momento pode vir à nossa mente.

Ir pode significar, por exemplo, assumir determinada postura e diante da percepção do equívoco que se cometeu, permitir-se voltar.

Simples, não é?

Não, não é.

Em determinadas situações, o ir pode ser simples, mas o voltar exige um grande esforço.

Esclareço de imediato que não falo do esforço físico da volta. Este não seria um grande problema.

Falo do intelectual.

Não tenho nenhuma dúvida de que adotar o preconceito, a intolerância e o ódio não representou nenhuma dificuldade para muitas pessoas que assim se manifestaram no circo dos horrores em que se transformaram as manifestações que todos nós vimos ocorrerem nas avenidas desse país.

Da mesma forma, nunca tive e não tenho nenhuma esperança quanto a qualquer possibilidade de que eles possam voltar.

É possível que em alguns o preconceito, a intolerância e o ódio tenham sido implantados no coração e na alma por uma lavagem cerebral muito bem conduzida.

Assim, para esses talvez ainda seja possível a volta.

Entretanto, para uma quantidade considerável de pessoas (maioria?) a volta das trevas não acontecerá.

O caminho escolhido não o foi por acaso.

Essas pessoas estão onde querem estar.

O preço a pagar

Aécio e Veja

Aécio Neves representa, sem possibilidade de erro, a maior demonstração de analfabetismo político dos últimos tempos.

Mesmo diante de tantos sinais, alertas, evidências e até documentos postados em todos os ambientes, inclusive nas redes sociais, demonstrando quem era de fato Aécio, os seus eleitores esbravejavam das mais variadas maneiras em sua defesa.

Quantos vomitaram sua ignorância em defesa de Aécio e do PSDB?

Quantos expuseram as vísceras da mais absoluta ignorância nessa defesa?

Quantos expuseram a sua violência com toda a volúpia dos sentimentos mais primitivos da raça humana, agredindo gratuita e estupidamente a todos que ousassem pensar diferente?

Quantos, sem perceber, envoltos pelo manto do preconceito e do ódio expuseram a sua consciência corrupta apontando o dedo para a corrupção dos outros?

Nem Fernando Collor de Melo se iguala a Aécio.

Apesar do seu evidente vazio, por não ter história política foi mais fácil montar a farsa do Caçador de Marajás.

Caçador de Marajás'

Quem sempre esteve por trás conduzindo a manada dos seres pensantes, predestinados pelos deuses da inteligência e do conhecimento?

Os mesmos que conduziram a manada nos tempos de Collor o fizeram com Aécio.

Os de sempre. Globo, Veja, Estadão, Folha…

Os mesmos que conduziram a manada nos tempos de Collor e fizeram com Aécio, agora farão com outros.

Outros que terão que criar.

E já estão criando.

João Dória Jr. é a mais nova alternativa do PSDB para as próximas eleições presidenciais.

Um exímio praticante do alpinismo social que por anos tem exibido a sua vida vazia e oportunista nos ambientes que frequenta foi capaz de se eleger prefeito da maior cidade do Brasil.

Dória trabalhador

Esse garoto de 59 anos aparece na imagem acima acompanhado por Narcisa Tamborindeguy, socialite carioca, que em mais uma das suas façanhas, chegando aos 50 anos foi vista há pouco tempo em um vídeo no apartamento de um ex-vice-presidente da TV Globo atirando ovos de galinha pela janela nas pessoas que passavam, juntamente com os demais convidados, um dos quais fez o vídeo.

Um homem que pensa na seca, que durante anos aniquilou a vida de milhares de brasileiros, como fonte de turismo deveria dispensar qualquer comentário sobre o que ele representa.

Dória e a seca para turistas'

Mas não dispensa, pois foi transformado, como sempre de forma irresponsável, em alternativa para as próximas eleições para Presidente da República do Brasil.

Isso, claro, imaginando que existirão eleições, pois já se fala em descarta-las.

Havendo, fala-se que não deverá ser em 2018.

Como se vê, uma maravilha.

Tudo como foi planejado pelos mesmos grupos que tentaram nos impor Aécio Neves e que estão à frente de todo esse processo.

Aí sim, caso não consigam cumprir o golpe como foi planejado, Dória passa a ser a grande alternativa da Globo e do PSDB.

A outra alternativa é Luciano Huck, apresentador de programa de televisão na Globo.

Por favor, não pense que estou brincando. É verdade.

Minha especialidade é matar

E finalmente, Bolsonaro, a estupidez personificada.

Também criado pela mídia brasileira para uma eventual necessidade.

Bolsonaro sabe matar

Essas pérolas foram ditas por Jair Bolsonaro quando foi perguntado por um repórter sobre o fato de não ter aprovado nenhum projeto na Câmara dos Deputados.

Mais tarde, perguntado sobre essa fala em específico, tentou consertar, mas acabou só enfatizando mais a ideia de que matar seja a solução para alguns problemas do país.

Bolsonaro, o exterminador do futuro

Os seguidores se perdem entre orgasmos e fogos quando veem o “mito mitando”.

Convenhamos, é a total consagração da alienação, sob todos os seus ângulos, que hoje reina no país.

Algum dia conseguiremos ver o óbvio que salta à nossa frente e brinca com o fogo?

Algum dia perceberemos o perigo que ronda os nossos filhos?

Bolsonaro e Estadão

Como diz o general Eduardo Villas Bôas, “tresloucados podem gerar reação em cadeia”.

E tudo acontece com o respaldo do judiciário que aí está, com ministros que se escondem nas togas, procuradores que só acham o que querem e juízes que não julgam, condenam apoiados em convicções pessoais e ideologias partidárias da sua preferência.

Basta a Globo marcar dia, hora e local para novo estouro da boiada que as consciências corruptas farão tudo de novo.

Ela, a Globo, está vendo a bola quicando na sua frente.

E aí teremos a repetição das manifestações da edificante luta contra a corrupção da admirável classe média brasileira, tão bem definida por Marilena Chaui.

Dessa vez provavelmente com conotações bem diferentes e, quem sabe, não muito fáceis de se controlar.

Ou alguém tem dúvida de que eles, os amarelinhos, seres que se retroalimentam do preconceito e do ódio que preenchem o vazio de suas vidas, estarão lá?

Em que níveis estará a violência que está tomando conta do país?

Esse passa a ser um grande problema.