As incongruências na Endodontia

Incongruência

Por Ronaldo Souza

Falei bonito, não falei?

Incongruências.

Fui longe.

Agora chegue mais pra perto para conversarmos.

Em primeiro lugar, observe que não falei “As incongruências da Endodontia” e sim “As incongruências na Endodontia”.

Há diferença?

Muita.

Sempre digo aos meus alunos que a Endodontia não comete erros.

Quem comete erros, às vezes grosseiros, são alguns endodontistas ao interpretarem a Endodontia.

Recorro a Nietzsche:

“Não há verdades definitivas. Apenas interpretações sobre a realidade, condicionadas pelo ponto de vista de quem as propõe”.

Pequenos e grandes equívocos foram e têm sido cometidos em várias interpretações dadas às etapas da Endodontia.

Ao aponta-las, é claro que você não só poderá me achar pretensioso como também dizer a mesma coisa; que a minha interpretação é que está equivocada.

Então vamos juntos.

Já vi professores que acreditam e defendem a ideia de travamento perfeito do cone principal de guta percha e vedamento hermético da obturação preconizarem a técnica do cone único.

Não dá.

Ou uma coisa ou outra.

Desde já, vou deixar bem claro que, apesar da insistência com essa concepção, vedamento hermético da obturação de canal não existe.

Este é um equívoco inaceitável nos dias de hoje.

Insistir nessa concepção deixa de ser equívoco e passa a ser outra coisa.

Ponto.

A “certeza” do travamento do cone é dada pela percepção tátil.

Devo lembrar que percepção está intimamente ligada à sensibilidade, inclusive tátil, algo bastante variável entre os indivíduos.

Dizem que aluno tem pacto com o Diabo.

Vejamos.

Ao chamar o professor para ver se está bom o travamento, o aluno ouve:

– Não, não está bom. Trave melhor.

O professor dá as costas, o aluno chama outro professor. Este confere e diz:

– Tá bom.

Meu Deus!!!

É sensibilidade tátil e ela não é a mesma nas pessoas.

Sendo assim, varia de professor para professor!

Quer ver uma situação em que o aluno se torna sócio do Diabo?

– Professor, veja aqui se o travamento tá bom.

– Não, não tá não. Melhore.

O professor se afasta.

O aluno faz isso, faz aquilo, faz tudo, menos mexer no cone de guta percha. Espera alguns poucos minutos e chama o mesmo professor.

– Professor, agora tá bom?

– Agora sim, Agora tá bom!

O aluno acabou de matar o professor sem ele sequer desconfiar.

Já falei sobre essas duas situações em alguns lugares. É comum ver nas salas cabecinhas balançando e aqueles sorrisinhos sarcásticos, como que dizendo; já fiz isso.

Vamos um pouco mais longe?

A sua própria sensibilidade é altamente dependente do seu “estado d’alma”.

Você tomou um bom vinho na noite anterior, namorou, dormiu o sono da felicidade.

Acorda num dia bonito, céu azul, sol, daqueles que entram em você e fazem festa.

Como é que você acha que está o seu humor? E a sua inspiração e sensibilidade?

Lá em cima.

Imagine agora alguém cuja mulher, filho, pais, um ente querido, está com uma doença grave.

Será que podemos crer que essa pessoa está de alto astral e apresenta o mesmo comportamento?

É bem possível que o endodontista também seja um ser normal e, portanto, suscetível a situações que interferem na plenitude da sua capacidade.

Assim, a percepção tátil muito pouco provavelmente será a mesma.

Que me perdoem os ditos pragmáticos, mas ignorar isso é outro grande equívoco.

O homem não é alheio ao que está à sua volta.

O “travamento perfeito” do cone de guta percha e o consequente vedamento hermético, desejo de todos, representam algo que o bom senso condena.

Ao fazer a prova do cone de guta percha em um canal reto e observarmos a sensação tátil de travamento, tínhamos a “certeza” de que ele travara na porção mais apical do canal; no comprimento de trabalho.

Mesmo sonhando o sonho impossível, o do “travamento perfeito” e vedamento hermético, sabíamos que não costumava ser assim no canal curvo.

Observe no desenho da figura abaixo que a seta preta aponta para a porção mais estreita da obturação (em verde) e a seta branca para a porção mais larga dela (Fig. A). Era comum acontecer isso nos canais curvos, isto é, um discreto desvio do canal na sua porção final, graças à pouca flexibilidade dos instrumentos mais calibrosos.

Travamento do cone

Se o cone tivesse a largura que a seta branca aponta ele não passaria pelo canal no local para onde aponta a seta preta, porque este é mais constrito, mais estreito.

Assim, ele não travou ali no local que aponta a seta branca.

Mas não é ali onde ele deve travar?

Observe, agora na radiografia, que as setas apontam para os mesmos aspectos, só que mais dificilmente percebidos (Fig. B). Isso acontece mais vezes do que imaginamos, ainda que com menor frequência na era dos instrumentos rotatórios.

Quem complementa essas eventuais falhas na obturação?

Os cimentos obturadores (observe como inclusive ele extravasou para os tecidos periapicais).

Os cimentos são solúveis?

Sim.

Como confiar no vedamento hermético se ele em parte é constituído por um material solúvel?

Continuemos juntos e voltemos para o cone único.

Observe a figura abaixo em que vemos a fotografia de um cone de guta percha em um canal de molar inferior. Esse cone está bem travado (Fig. A).

Cone único'

Acompanhe, agora na radiografia, a linha radiolúcida que “corre” ao lado do cone em toda a extensão da parede do canal contrária à furca. Isso significa que entre o cone e a parede do canal existe espaço desde o terço cervical até o comprimento de trabalho que não foi preenchido pelo cone (setas brancas).

Veja agora na parede próxima à furca como o cone está “colado” a ela nos terços cervical e médio (setas pretas). Ali, radiograficamente falando, o cone de guta percha está aderido à parede dentinária.

Logo em seguida, quando ele chega ao terço apical surge a imagem de espaço vazio entre o cone e a parede do canal, que persiste até o CT (setas vermelhas).

Perceba assim que em boa parte, particularmente no terço apical, o cone de guta percha não faz um bom contato com as paredes do canal. Nem poderia.

O cone usado nas imagens é um cone convencional, ou seja, conicidade .02, mas, repito, está bem travado.

O cone indicado para a técnica do cone único deve possuir maior conicidade, geralmente algo como .04, .06, nessa faixa.

Assim, atribui-se a eles a capacidade de, pela maior conicidade (taper), preencher bem os terços cervical e médio, o que eliminaria os espaços vazios observados na figura acima.

Inegável a possibilidade de esses cones se adaptarem melhor nos referidos segmentos do canal, mas claro que seria inconcebível imaginar que por isso haveria o perfeito selamento do canal em toda sua extensão (será que tem alguém que pensa que é isso que acontece?).

Tudo vai girar em torno da conicidade dada ao canal e do cone escolhido para a obturação.

O que ocorre é que, uma técnica extremamente simples, a do cone único, tem seu grande momento, o seu momento mais delicado, justamente na escolha do cone.

A maior conicidade pode favorecer bastante a adaptação do cone nos terços cervical e médio, mas pode prejudica-la no apical e isso pode acontecer mesmo nos canais retos (voltaremos a falar sobre isso).

Em outras palavras, o cone pode ficar bem adaptado nos dois primeiros terços e mal adaptado no terço apical, particularmente no comprimento de trabalho.

Mas como isso é possível se o cone está bem travado?

Se na figura acima, mesmo usando um cone .02 o travamento não se deu no comprimento de trabalho (setas vermelhas e brancas), o que pode acontecer com a conicidade maior?

Gosto muito de uma expressão e aqui me permito usa-la.

O que pode ocorrer é que mais facilmente a maior conicidade pode fazer com que o cone fique “entalado” em qualquer parte do canal, até mesmo na sua entrada. Assim, a sensação de travamento é confirmada, porém não necessariamente no CT, mas onde o cone estaria “entalado”.

Volte à figura acima e perceba que o cone está mais bem aderido aos terços cervical e médio (setas pretas) do que no apical (setas vermelhas e brancas).

A sensação do travamento do cone pode ter sido dada por qualquer ponto entre os terços cervical e médio ou até mesmo na entrada do canal.

Qual é a grande razão do travamento perfeito do cone da forma como tem sido ensinado e preconizado?

Vedar hermeticamente o canal no terço apical, para evitar que por ali penetrem os fluidos teciduais dos tecidos periapicais e assim passem a servir de nutrientes para bactérias residuais pós-preparo.

Abro um parêntese para dizer que não cabe aqui aprofundar e discutir esse ponto de vista.

Sendo assim, sob essa perspectiva do travamento do cone no CT, o que é melhor, a técnica da condensação lateral ou a do cone único nas condições descritas?

Conto rapidamente uma história.

Há alguns poucos anos, tomando uma cerveja com o professor Hênio Horta e seu grupo em Belo Horizonte, ele me disse que eles tinham feito uma pesquisa comparando a capacidade de selamento da técnica da condensação lateral com a do cone único e os resultados mostraram que a condensação lateral selava melhor.

Perguntei porque não publicava.

Falou que tinha que ter “alguns cuidados” por causa de (Quintiliano Diniz) De Deus, um dos grandes professores de Endodontia do Brasil e entusiasta do cone único. Eram muito amigos.

Infelizmente, ambos, Hênio e De Deus, já não estão mais entre nós.

Para que não fique nenhuma dúvida, sou adepto da técnica do cone único. Nos nossos cursos ela é ensinada.

No entanto, diante do que vimos, acho que para quem acredita no travamento do cone de guta percha como garantia de vedamento hermético, talvez não seja a técnica mais recomendável.

Aliás, nenhuma seria, pela simples razão de que vedamento hermético não existe.

E aí, o que fazem os nossos eventos?

Tornam-se frustrantes porque praticamente só falam de aparelhos, sistemas, motores, cimentos obturadores (normalmente apresentados como solução dos problemas) , limas de última geração…

Por que o establishment da Endodontia não estimula discussões que discutam de fato Endodontia (a redundância é intencional) nos eventos?

Não quero e não posso crer que não há outro interesse que não seja subliminarmente estimular as plateias a comprar.

E aí, vai um reciprocante ou um rotacional?

Danadinhos, não são?

A geração que encontrou o sucesso no pedido de demissão

Emprego

O Prof. Rielson Cardoso me mandou este texto no final de semana. Achei muito interessante e estou reproduzindo.

Só fiz alguns poucos arranjos para adapta-lo ao estilo do site.

Vale a pena ler.

E refletir.

Por Ruth Manus, no Estadão

“O cenário é mais ou menos esse: amigo formado em comércio exterior que resolveu largar tudo para trabalhar num hostel em Morro de São Paulo, amigo com cargo fantástico em empresa multinacional que resolveu pedir as contas porque descobriu que só quer fazer hamburger, amiga advogada que jogou escritório, carrão e namoro longo pro alto para voltar a ser estudante, solteira e andar de metrô fora do Brasil, amiga executiva de um grande grupo de empresas que ficou radiante por ser mandada embora dizendo “finalmente vou aprender a surfar”.

Você pode me dizer “ah, mas quero ver quanto tempo eles vão aguentar sem ganhar bem, sem pedir dinheiro para os pais.”. Nada disso. A onda é outra. Venderam o carro, dividem apartamento com mais 3 amigos, abriram mão dos luxos, não ligam de viver com dinheiro contadinho. O que eles não podiam mais aguentar era a infelicidade.

Engraçado pensar que o modelo de sucesso da geração dos nossos avós era uma família bem estruturada. Um bom casamento, filhos bem criados, comida na mesa, lençóis limpinhos. Ainda não havia tanta guerra de ego no trabalho, tantas metas inatingíveis de dinheiro. Pessoa bem sucedida era aquela que tinha uma família que deu certo.

E assim nossos avós criaram os nossos pais: esperando que eles cumprissem essa grande meta de sucesso, que era formar uma família sólida. E claro, deu tudo errado. Nossos pais são a geração do divórcio, das famílias reconstruídas (que são lindas, como a minha, mas que não são nada do que nossos avós esperavam). O modelo de sucesso dos nossos avós não coube na vida dos nossos pais. E todo mundo ficou frustrado.

Então nossos pais encontraram outro modelo de sucesso: a carreira. Trabalharam duro, estudaram, abriram negócios, prestaram concurso, suaram a camisa. Nos deram o melhor que puderam. Consideram-se mais ou menos bem sucedidos por isso: há uma carreira sólida? Há imóveis quitados? Há aplicações no banco? Há reconhecimento no meio de trabalho? Pessoa bem sucedida é aquela que deu certo na carreira.

E assim nossos pais nos criaram: nos dando todos os instrumentos para a nossa formação, para garantir que alcancemos o sucesso profissional. Nos ensinaram a estudar, investir, planejar. Deram todas as ferramentas de estudo e nós obedecemos. Estudamos, passamos nos processos seletivos, ocupamos cargos. E agora? O que está acontecendo?

Uma crise nervosa. Executivos que acham que seriam mais felizes se fossem tenistas. Tenistas que acham que seriam mais felizes se fossem bartenders. Bartenders que acham que seriam mais felizes se fossem professores de futevolei.

Percebemos que o sucesso profissional não nos garante a sensação de missão cumprida. Nem sabemos se queremos sentir que a missão está cumprida. Nem sabemos qual é a missão. Nem sabemos se temos uma missão. Quem somos nós?

Nós valorizamos o amor e a família. Mas já estamos tranquilos quanto a isso. Se casar tudo bem, se separar tudo bem, se decidir não ter filhos tudo bem. O que importa é ser feliz. Nossos pais já quebraram essa para a gente, já romperam com essa imposição. Será que agora nós temos que romper com a imposição da carreira?

Não está na hora de aceitarmos que, se alguém quiser ser CEO de multinacional tudo bem, se quiser trabalhar num café tudo bem, se quiser ser professor de matemática tudo bem, se quiser ser um eterno estudante tudo bem, se quiser fazer brigadeiro para festas tudo bem!

Afinal, qual o modelo de sucesso da nossa geração?

Será que vamos continuar nos iludindo achando que nossa geração também consegue medir sucesso por conta bancária? Ou o sucesso, para nós, está naquela pessoa de rosto corado e de escolhas felizes? Será que sucesso é ter dinheiro sobrando e tempo faltando ou dinheiro curto e cerveja gelada? Apartamento fantástico e colesterol alto ou casinha alugada e horta na janela? Sucesso é filho voltando de transporte escolar da melhor escola da cidade ou é filho que você busca na escolinha do bairro e pára para tomar picolé de uva com ele na padaria?

Parece-me que precisamos aceitar que nosso modelo de sucesso é outro. Talvez uma geração carpe diem. Uma geração de hippies urbanos. Caso contrário não teríamos tanta inveja oculta dos amigos loucos que “jogaram diploma e carreira no lixo”. Talvez- mera hipótese- os loucos sejamos nós, que jogamos tanto tempo, tanta saúde e tanta vida, todo santo dia, na lata de lixo”.

Um professor “vanguardista”

Ética

Por Ronaldo Souza

Uma vez estava conversando com alguém da cúpula da Odontologia baiana e dando uma rápida passada de olho em um pequeno jornal que estava sobre sua mesa, uma coisa chamou a minha atenção.

Era um desses jornais que alguém faz para divulgar as suas próprias virtudes, méritos e competência.

Figura conhecida por essas praias, não posso e não devo chama-lo de professor (ainda insisto em dar a essa expressão o respeito que ela merece e já teve).

Ele, o dono do jornal, é um dador de curso.

Lá estava uma foto de “primeira página”, tomando quase todo o jornal.

Ele, de short, à beira da piscina, com alunos e alunas de short e biquíni (turma pequena cuja maioria era de mulheres), tendo às mãos dentes extraídos e limas endodônticas.

Sim, isso mesmo.

Era uma aula prática (laboratório) de seu curso de Endodontia.

Uma aula piquenique. Certamente, bastante agradável.

A cena, pelo menos para mim, dispensava palavras para defini-la, mas, como se tratava de conversa informal, mostrando o jornal comentei:

– Já viu isso?

Na verdade, como bom baiano, eu devia ter dito:

Ó paí, ó (se não viu o filme, veja).

– O que é que tem?

Mesmo sabendo que era amigo dele, não contava com essa indagação, típica de quem não só já tinha visto como aprovado o teatro e mais uma performance do artista. Do alto da minha indignação, soltei o verbo.

– Você não acha isso um absurdo?

Pra que perguntei?

– Não acho nada demais, acho que você é que precisa evoluir. Tem que mudar a forma, buscar métodos novos… Ele é quem está certo…

Sabe aqueles rápidos segundos em que você “vê” uma cena? Transformei-a em palavras e disse.

– Confesso a minha dificuldade em ver um professor de cirurgia cardíaca em situação semelhante.

A conversa continuou um pouco mais e pronto.

Estava encerrada uma discussão sobre as “modernagens” que alguns iluminados impõem ao mundo.

Isso foi há cerca de 15 anos.

O profissional que gerou a polêmica não goza, digamos, de boa reputação. Na verdade, exige um certo esforço defini-lo desta forma. O comportamento dele permite o uso de palavras muito mais duras para isso.

Mas, a rigor, a não ser pelo grotesco e ridículo da cena, naquele episódio ele não estava infringindo nenhuma norma do código de ética. Era uma jogada de marketing e que o seu jornal tratou de divulgar.

Primeira página.

Nada que violentasse o código de ética, sem dúvida, no entanto, uma vez que determinados limites são ultrapassados, torna-se muito mais difícil o controle.

Como disse na oportunidade, não me parecia fácil imaginar um professor de cirurgia cardíaca dando aula na beira da piscina com alunos e alunas de short e biquíni.

Não por eventuais dificuldades técnicas, mas por ter consciência de que não se deve apequenar de forma tão grosseira os procedimentos da sua profissão.

Entretanto, muita coisa vem mudando e parece que, pela repetição, tudo tende a ser considerado normal.

O vídeo abaixo mostra com clareza a que nível chegou a autopromoção.

O vídeo choca porque nos faz imaginar como é possível um profissional da Medicina se tornar isso que ele mostra ser.

Detalhe, com milhões de seguidores.

Pode-se deduzir que entre esses milhões devem estar milhares de jovens médicos na busca desesperada por espaço. Fórmulas que lhes dizem que até 2018, portanto, nos próximos 3 anos (o vídeo é de 2015) a agenda daquele profissional está cheia representam “certamente” um profissional bem sucedido.

E rico.

Quer poder de sedução maior?

Mas isso não se manifesta somente dessa maneira tão grotesca. Ocorre também de outras formas, tão diversas quanto sutis.

Da mesma maneira que o MEC liberou geral e permitiu a atual proliferação de cursos de especialização (em cada esquina tem um), é inquestionável que sob a proteção do “o objetivo é ensinar” (!!!) a autopromoção vem ganhando novas formas.

O marketing pessoal através da enorme quantidade de vídeos na internet e as ligações de professores com empresas já atingiram níveis preocupantes.

Os jovens profissionais veem isso como parâmetro.

E os órgãos reguladores do exercício da profissão nada podem fazer, ou simplesmente se fecham os olhos?

A favor desses órgãos talvez se possa argumentar com a delicadeza do tema, aliás, manto sob o qual se escondem esses profissionais.

Nada a fazer então?

Ou, o que fazer?

É a Vida

Site 600.000'

Por Ronaldo Souza

Numa mudança de host feita há poucos anos, perdemos o registro de muitas visitas (muitas realmente) feitas ao site endodontiaclinica.odo.br.

Até então acompanhava mais de perto essa questão. Depois, não. Não fiquei tão ligado nisso.

Entretanto, casualmente, na hora em que o acessei para postar mais um texto, vi o marcador de visitas com o número “fechado”; 600.000 visitas.

Número redondo, ocorreu-me registra-lo.

É o que você vê na imagem acima, do dia 06/01/2017.

Ontem, 11/01, portanto cinco dias depois, observei os novos números; 606.064.

Aí estão as duas imagens juntas.

Site 6064'

Não sei o quanto isso de fato representa em termos de números para um site com proposta tão simples e direta, como é o caso do endodontiaclinica.odo.br.

No entanto, 6.064 visitas em cinco dias não me parecem algo desprezível (na hora em que postei este texto, já estava em 606.568).

Há 2 anos e 2 meses, ouvi de um professor de Endodontia de São Paulo durante um congresso:

“Gosto muito dos seus textos. Leio todos eles”.

Os textos de Endodontia, tudo bem. Devemos ter pontos de vista divergentes e próximos.

Mas, o que me chamou a atenção não foi essa questão.

Sei que a frase dele tinha outro endereço.

O fato é que, mesmo pensando politicamente bem diferente de mim, ele falou aquilo.

Entendendo a mensagem dele, sendo direto e também mandando uma de volta com a mesma objetividade, só me restou dizer; muito obrigado.

E continuamos a conversa sobre… Endodontia e o evento.

Ele captou bem.

Às vezes mais enfático, às vezes menos, o que escrevo não tem nenhuma intenção de agradar ou ferir alguém. É simplesmente como vejo o que está à minha volta.

E o que está à minha volta não é a Endodontia.

É a Vida.

Nela, a Endodontia.

E tudo mais.

Aos que me leem, o que posso dizer é que vou continuar tratando dos temas com a mesma seriedade de sempre.

É a melhor maneira que tenho de agradecer a todos.

https://www.youtube.com/watch?v=ykv9mqOC8pE

Artistas e artistas

doria-e-regina

Por Ronaldo Souza

É muito comum as pessoas pensarem que os artistas são seres predestinados e têm grande conhecimento.

Acredita-se que eles podem ajudar a eleger determinados políticos. Não é à toa que muitos são convidados a emitirem opinião a favor deles.

Quanto a ajuda nesse sentido, parece ser verdade.

No entanto, numa considerável quantidade de vezes, imagina-los com grande conhecimento constitui um belo equívoco.

Há que se considerar que há jogadores de futebol e jogadores de futebol, escritores e escritores, jornalistas e jornalistas.

Da mesma forma, há artistas e artistas.

Projete para a sua categoria profissional que você verá que também há e há.

Um episódio um pouco cruel pode servir de exemplo.

Uma das maiores cantoras do Brasil, e aí pode-se dizer uma artista de grande talento, Gal Costa, não costuma emitir opinião política. No entanto, não se sabe porque, sentiu-se impelida a elogiar José Serra em sua campanha para presidente do Brasil.

Foi um desastre.

Jards Macalé, também reconhecido pelo seu talento, não se conteve e em um momento de pouca inspiração, ao responder a questionamentos sobre a infeliz opinião de Gal, saiu-se com essa:

“Ela é uma cantora legal, mas é burrinha”.

Pediu desculpas depois.

Regina Duarte, artista da Globo e ex-namoradinha do Brasil, é criadora de gado, vai regulamente a encontros de pecuaristas e participou de comícios contra as demarcações de terras e os povos indígenas.

Virou garota propaganda da causa contra os índios. Claro, também participou de protestos na Av. Paulista.

Como “artista”, conseguiu ser a favor da extinção do Ministério da Cultura. Nada mais coerente!

Sensacional.

Nessa brilhante trajetória, houve um momento em que protagonizou um “tenho medo de Lula”, o que a fez ingressar no anedotário político brasileiro como autora de um dos seus momentos mais hilários.

Como se nada disso bastasse, está de volta, mais uma vez, em grande estilo.

Ao lado de João Ralph Lauren Dória, recém-eleito prefeito de São Paulo, apareceu varrendo a Av. Paulista, onde se manifestam os “barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar”, como canta Chico Buarque.

Assim são os “artistas”… da Globo.

Perceba, da Globo.

Pertencem à Globo.

E por isso estão sempre de plantão.

Ponto.

Mas há artistas.

O artista não tem necessariamente que ter engajamento político. Muitos não o têm e nem por isso deixam de ser grandes artistas.

Mas, os que têm, não há como negar, muitas vezes quando se manifestam só fazem aumentar o fosso entre artistas e artistas.

No recente Globo de Ouro, Meryl Streep recebeu um prêmio especial pelo conjunto da obra.

Ela podia aproveitar aqueles poucos minutos para falar de qualquer coisa, ou até mesmo somente agradecer pelo prêmio.

Mas não.

O que vimos foi o surgimento não da grande atriz, mas da grande artista.

Surgiu com o brilho das grandes estrelas.

Surgiu como mulher.

E como mulher se revestiu de grande coragem.

Elegante.

Por que Regina Duarte me veio à mente?

Porque, podemos até não perceber, a absurda diferença que existe entre elas, Meryl Streep e Regina Duarte, nos mostra que nos palcos da vida os atores não são iguais.

Assista ao vídeo e perceba que não se trata de uma “simples” atriz falando, mas de uma verdadeira mulher convicta do seu papel.

Permito-me antes, porém, fazer uma pequena correção na tradução da fala de Meryl Streep feita abaixo por Kiko Nogueira. Digo pequena, mas ela altera de forma significativa o entendimento do contexto.

No penúltimo parágrafo, terceira linha, está escrito; ‘não é um privilégio, Meryl, ser apenas um ator’.

Perceba aos 4’56 do vídeo que, na verdade, pela entonação de voz de Meryl Streep e construção da frase não é uma afirmação e sim uma pergunta.

“Isn’t such a privilege, Meryl, just to be an actor?”

O certo então seria; ‘não é um privilégio, Meryl, ser um ator’?

E aqui também me permito mostrar como o contexto toma outro rumo:

‘Não é um privilégio, Meryl, ser um ator’? Sim, é. E nós temos que nos lembrar todos os dias do nosso privilégio e da responsabilidade de agirmos com empatia. Nós todos deveríamos ter muito orgulho do trabalho que Hollywood honra aqui essa noite”.

Responsabilidade.

Esta não é simplesmente uma palavra, mas o compromisso que todos temos diante do país e que, lamentavelmente, tem faltado nos últimos tempos.

Inclusive a alguns artistas, entre os quais atores e atrizes.

Precisamos de artistas de verdade, aqueles que sabem que o papel deles vai além de fazer novelas e serem convidados com seus rostinhos bonitinhos para apresentar bailes de debutantes e desfilar em trios elétricos e camarotes de carnaval.

Curta o vídeo com o depoimento dessa verdadeira grande artista.

VÍDEO: o discurso de Meryl Streep detonando Trump no Globo de Ouro

Por Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

O ponto alto da cerimônia do Globo de Ouro foi o discurso de Meryl Streep ao receber o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto de sua obra.

Ela foi anunciada pela colega Viola Davis, que levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante por seu papel em “Cercas”.

Em pouco mais de cinco minutos, Meryl falou sobre a diversidade em seu meio, enfatizando como é isso que dá essência à indústria, e criticou fortemente Trump e suas políticas — sem citar seu nome.

“Desrespeito convida ao desrespeito, violência convida à violência”, disse.

Eis os highlights de sua fala:

“Obrigada, Hollywood Foreign Press [Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood]. Só lembrando o que o Hugh Laurie já disse. Vocês e todos nós nessa sala, realmente, pertencemos ao segmento mais difamado da sociedade americana agora. Pensem. Hollywood, estrangeiros, e a imprensa. Mas quem somos nós? E o que é Hollywood mesmo? É só um monte de gente de outros lugares.

Eu nasci e fui criada nas escolas públicas de Nova Jersey. Viola [Davis] nasceu em uma cabana de agricultores na Carolina do Sul, e cresceu em Central Falls, Long Island. Sarah Paulson foi criada na Flórida por uma mãe solteira no Brooklyn. Sarah Jessica Parker era uma de sete ou oito crianças de Ohio. Amy Adams nasceu na Itália. Natalie Portman nasceu em Jerusalém. Cadê o certificado de nascimento delas? E a maravilhosa Ruth Negga nasceu na Etiópia, foi criada em — não, na Irlanda, acredito eu. E ela está aqui sendo indicada por interpretar uma garota de uma cidade pequena da Virginia. Ryan Gosling, como todas as pessoas mais bacanas, é canadense. E Dev Patel nasceu no Quênia, foi criado em Londres e está aqui por interpretar um indiano criado na Tasmânia.

Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros. Se você expulsá-los, não sobrará nada para assistir a não ser futebol americano e diversas artes marciais, que não são as Artes. Eles me deram três segundos para falar isso. O único trabalho de um ator é entrar nas vidas das pessoas que são diferentes de nós e deixá-las sentir como isso parece. E houve tantas tantas tantas performances poderosas no último ano que fizeram exatamente esse trabalho tão passional e de tirar o fôlego.

Houve uma performance esse ano que me deixou atordoada. Não porque era boa. Não teve nada de bom nela. Mas porque foi efetiva e cumpriu com seu papel. Fez a sua audiência rir e mostrar os dentes. Foi o momento no qual uma pessoa que pedia para sentar na cadeira mais respeitada de nosso país imitou um repórter deficiente, alguém que era menos privilegiado com menos poder e com menos capacidade de responder à altura. E meio que quebrou meu coração quando eu a vi. Eu ainda não consigo tirá-la da minha cabeça porque não estava em um filme. Foi a vida real.

E esse instinto de humilhar, quando é feito por alguém em uma plataforma pública, por alguém poderoso, impacta negativamente na vida de todo mundo, porque ele dá permissão para que outras pessoas ajam igual. Desrespeito convida desrespeito. Violência incita violência. Quando as pessoas poderosas usam sua posição para intimidar alguém, todos nós perdemos.

E isso me traz à imprensa. Nós precisamos que a imprensa com princípios mantenha esse poder em conta, que ela denuncie os poderosos por cada um desses ultrajes. É por isso que nossos fundadores consagraram a imprensa e suas liberdades em nossa Constituição. Então eu apenas peço aos famosamente bem endinheirados da Hollywood Foreign Press e a todos de nossa comunidade a se juntarem a mim em apoio ao comitê de proteção aos jornalistas. Porque nós precisaremos deles para progredirmos. E eles precisarão de nós para falarem a verdade.

Só mais uma coisa. Uma vez, quando eu estava em um set um dia, reclamando de algo, que nós teríamos que trabalhar na hora de jantar, ou por causa das longas horas de trabalho, não me lembro, Tommy Lee Jones me disse: ‘não é um privilégio, Meryl, ser apenas um ator’. E sim, é. E nós temos que nos lembrar todos os dias do nosso privilégio e da responsabilidade de agirmos com empatia. Nós todos deveríamos ter muito orgulho do trabalho que a Hollywood honra aqui essa noite.

Como a minha amiga, a querida falecida Princesa Leia, me disse uma vez, ‘pegue o seu coração partido e o transforme em arte’. Obrigada”.

Amigo

amigo

Por Ronaldo Souza

“E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”

Esse é um trecho do poema “Amigos”, de Vinícius de Morais.

Do verso anterior a esse, esta é a primeira frase:

“A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor…”

Confesso a dificuldade em acreditar quando alguém diz que tem muitos amigos.

Não o amigo comum, o de convivência mais próxima, diária, o da festa, redes sociais nem pensar.

Amigo.

Acredito que é desse que Vinícius fala.

Aí sim.

De alguém que tenha, de fato, muitos amigos desse tipo, tenho inveja.

Mas, perdoe-me a franqueza, se existirem, não são muitos esses privilegiados.

Somente quando um amigo lhe nega é que você percebe, quase que enlouquecendo, como diz Vinícius, como dói.

E na dor vem a revelação; ele não era seu amigo.

Qual será a dor maior, a da negação ou a da percepção de que ele não era seu amigo?

O amigo que lhe nega jamais saberá a dor que causou.

Quem sabe até fique se perguntando, ou a outros:

Por que ele se afastou?

E você, que sente e chora a dor, não vai desabafar falando de sentimentos profundos com quem não é mais… amigo.

Nem aos amigos em comum você diz “o que aconteceu”, porque mesmo eles talvez não entendam a real dimensão, o quanto doeu.

Somente o cristal sente o quanto lhe é profunda a rachadura.

A dor nem sempre é proporcional ao tamanho que parece ter o gesto que a provocou.

Dor é individual.

É limiar.

É percepção.

É sua.

A chaga que se abre na seção “amigos”, a maior do seu coração, jamais se fechará.

Mas ele, o seu coração, sempre abrirá a porta para uma nova amizade.

Independente da dor.

O coração não tem jeito, ele é assim.

Apanhando, mas sempre abrindo as portas e janelas da casa.

Essa é a beleza da vida.

Por isso dizem que vale a pena ser vivida.

Pelos que ficam.

Lavoisier e a Endodontia

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Por Ronaldo Souza

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Esta é uma máxima de Lavoisier, francês considerado pai da química moderna que, além de grande químico, ficou conhecido por derrubar teorias científicas.

Acho que podemos dizer que derrubar teorias científicas será sempre uma atitude bem-vinda.

Afinal, a derrubada de uma teoria científica quase que implica no surgimento de uma nova, o que, em tese, deve significar que houve avanço naquele campo.

Em muitas situações, porém, mais vezes do que podemos imaginar derrubar teorias científicas envolve situações muito delicadas e por isso exige muita cautela.

A construção de uma linha de raciocínio que venha a sugerir uma nova forma de pensar e ver determinada questão gera desconforto.

Toda mudança gera desconforto.

Em 2009, presenciei uma discussão muito interessante em um simpósio.

Em determinado momento, graças a questionamentos feitos pela plateia, discutiam-se dois temas; os limites apicais de instrumentação e obturação.

Por trás daquela discussão, estava na verdade não a simples discussão dos referidos limites em si, mas de uma nova concepção, que fazia uma abordagem diferente sobre aqueles temas.

Ah, como desejei estar participando daquela discussão.

Apesar de não ser o único, chamou a atenção a opinião de um professor que refutou a concepção argumentando com a falta de evidências que a suportassem.

Em 2011, somente dois anos depois, durante um jantar ouvi de um professor:

“O nosso grupo está começando a repensar o papel da obturação”.

Detalhe.

Ele faz parte do mesmo grupo daquele professor que em 2009 argumentara com a falta de evidências para negar a linha de raciocínio que propunha, como propõe, mudar a concepção na qual a obturação está apoiada há mais de 60 anos.

Em outros tempos sim, mas naquela hora, naquela noite, naquele jantar, nada falei sobre o que acabara de ouvir.

Fiquei absolutamente calado. Nenhum comentário.

Na manhã seguinte íamos participar de um debate. Eu, ele e um terceiro professor, em que aquele tema ia ser abordado.

Por mim.

Durante a minha aula, não sei se ele percebeu e entendeu a maneira como me expressei no exato momento em que me reportei a aquele ponto específico.

O jantar tinha acabado de ser trazido para o debate.

Uma pessoa ligada a mim disse que eu tinha sido agressivo.

Não, não fui. Fui enfático.

No final daquele ano, 2011, em um fórum de Endodontia na internet, outro membro do grupo atacou violentamente um artigo publicado no Triple Oral.

O artigo era meu.

Sobre aquela concepção da obturação.

Não há como negar; fiquei muito chateado e desejei um dia cruzar com ele em um debate.

Provavelmente aí eu não seria mais somente enfático.

Aquela pancada no artigo ficou na minha cabeça e um dia resolvi escrever algo sobre aquele episódio no meu site.

Em 2016, tive a oportunidade que tanto tinha desejado; participar de um simpósio com o expert destruidor de artigos.

Mas a vida não é linear e eu já estava em outro momento, bem diferente.

E como se fosse um cuidado a mais dos deuses da paz na Endodontia, fui para o evento com outras preocupações, pois tinha saído 10 dias antes de uma internação hospitalar motivada por um grande susto que, felizmente, não passou disso, um susto.

Fui em missão de paz.

Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, não obstante, exatamente 1 mês e 13 dias depois, em outro evento assisti a uma aula daquele professor do jantar de 2011.

Lá estava o “repensar o papel da obturação”.

Exatamente o que tinha sido condenado em 2009, só que apresentado de uma maneira muito pobre.

Talento e a força do original, que só um original pode ter, claro, estavam ausentes.

Ao final da aula, o arremate, repleto de saber e dignidade:

“Garanto que provoquei uma reviravolta na cabecinha de vocês (era uma plateia onde cerca de 90% eram alunos de graduação). Pensavam que eu ia dizer que a obturação é o fator determinante do sucesso e estou dizendo que não é”.

Se estivéssemos numa passagem bíblica e Lucas estivesse ali talvez tivéssemos ouvido:

– Pai, não lhes perdoa, eles sabem o que fazem.

Parece que há professores que gostam de negar novas teorias.

Que bom, não é mesmo?

Se Lavoisier está certo em dizer que “… nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, estamos diante de uma transformação na autoria da concepção.

E esse é um problema sério; a tentativa de assumir a paternidade de uma concepção proposta por outro.

E, pior ainda, quando o pretendente a padrasto já a tinha negado.

Que horror!

Todos gostaríamos de atrelar os nossos nomes a projetos bem-sucedidos. A diferença está no que somos capazes de fazer para conseguir isso.

Para a Ciência pouco importa quem idealizou, quem criou, quem fez.

Importa que foi idealizado, criado e realizado.

Mas os homens…

Ah, os homens!

Como são tolos.

Pela falta de evidências, como se esta fosse a razão, desqualifica-se a ideia, não se dá importância a ela, projetando a sua caída na vala do esquecimento.

Ora, ora, ora.

Que tolice, não é mesmo?

Uma pergunta simples ajudaria a esclarecer isso.

Como podem existir evidências sobre algo em que não se tinha pensado antes?

Mas, do alto do pedestal autoconstruído, o professor trabalha para desconstruir a teoria.

Reduzem-se os espaços, fecham-se as fronteiras.

Em outras palavras, esconde-se o autor.

O sistema faz isso.

E bem.

Aí, porém, existe um problema, diria um grande risco.

– Professor, em tal ano, em tal evento, o senhor discordou frontalmente dessa concepção e disse que ela não podia ser levada a sério porque não havia evidências. Agora o senhor e seu grupo dizem que há algum tempo já vêm repensando o verdadeiro papel da obturação!!! Baseado em que evidências?

Esse é o risco.

Alguém na plateia levantar a mão e fazer essas considerações.

Não vai ser legal.

Um encontro entre Brasil e Portugal

Two butterflies with flags on wings as symbol of relations Brazil and Portugal

Por Ronaldo Souza

Encontrei no CIOBA (Congresso Internacional de Odontologia da Bahia), novembro de 2016, um colega e amigo que há mais de 20 anos mora em Portugal; o baiano Antônio Carlos Bonfim.

Talvez por ser possuidor de inteligência e sensibilidade não muito comuns em determinados segmentos, é um “cara” politizado.

Ele me honra com algumas opiniões no meu “feicibuqui”.

Não conversávamos pessoalmente há alguns anos, mas acho que tiramos o atrasado, ou pelo menos parte dele.

Acredito que conversamos durante cerca de 3 horas ou pouco mais, em pé, diga-se de passagem, e ele me prometeu enviar o texto abaixo.

Postou na minha linha do tempo.

É a resposta de um jornalista português à entrevista de um juiz num jornal diário antes de concluir o processo do ex-primeiro ministro, o socialista José Sócrates (2009-2011).

Como ele chamou a atenção, observe que temos também um Moro em Portugal que, por causa de uma entrevista, foi bastante criticado pela imprensa portuguesa.

Se o Moro de lá é criticado, o de cá…

Não vem ao caso.

Só espero que o de lá não tenha a mesma estranha atração pelos Estados Unidos que tem o de cá.

Bonfim, como já em parte um pouco português por adotar o país deles, por favor, diga aos portugueses que, apesar da ignorância e estupidez de alguns dos nossos promotores, à frente Deltan Dallagnol, o povo brasileiro não vê no português a razão dos nossos descaminhos.

Somos o que somos.

Um país cujas fronteiras sempre estiveram e estarão abertas a todos os povos, como os Dallagnol, oriundos da Itália.

Todos eles ajudaram a fazer deste um país único, com a sua enorme diversidade de raças, religiões e cores.

É possível que o sangue índio-português-africano que corre nas nossas veias e faz bater com força os nossos corações não pulse com a mesma intensidade naqueles que vieram depois.

Mesmo assim, eles também são brasileiros.

Se para alguns a nossa descendência é humilhante e justificadora das nossas mazelas, dela nos orgulhamos.

Portugal e Brasil, Brasil e Portugal.

Por razões que parecem óbvias, as nossas ligações são eternas, com todas as virtudes e pecados que daí podem advir, ainda que mentes débeis estejam sempre envoltas pelo véu da pureza da raça, cuja história traz registros de grande tristeza para a humanidade.

Por isso, homenageio Portugal e sua História, tão ligada à nossa, através desse vídeo com as duas versões de Tanto Mar, música de Chico Buarque que fala da Revolução dos Cravos.

https://www.youtube.com/watch?v=9RLScWescyU

Reproduzo abaixo o texto que Bonfim enviou.

12 de Setembro de 2016, 08:22

Por Francisco Louçã

Um juiz não deve dar entrevistas. Sobretudo sendo uma figura em evidência pública, não deve dar entrevistas, porque o que é relevante para o país é a sua sentença nos processos e nada mais. A sua vida privada ou as suas considerações sobre o mundo não importam para a nossa apreciação da sua conclusão. É na sua justiça e não na sua vida ou opiniões que devemos poder confiar. Por isso, não deve dar entrevistas, pois não pode tratar dos processos nem explicar sentenças e o resto é irrelevante. O silêncio da justiça sobre si própria é a melhor forma de criar confiança na justiça, pois os actos é que devem falar.

Se um juiz dá entrevistas para falar de si, temos que nos perguntar porque é que quer falar de si. Pode considerar-se um herói e aspirar a que o povo lhe erga um pedestal. Pode querer dar algum recado. Pode querer reinterpretar a sua própria função. Todas essas razões para dar uma entrevista são razões que aconselhariam o contrário, que o juiz evitasse disputar o espaço mediático, porque no caso esse é simplesmente o espaço da política. O juiz que dá uma entrevista está a intervir politicamente e sabe que está a fazer precisamente essa escolha.

Ao contrário do juiz, outras figuras públicas devem dar entrevistas, se o seu espaço natural é o da política. O público quer saber o que pensa o candidato a Presidente, o que disse, o que escreveu, o que discutiu, e até se é divorciado ou casado ou solteiro ou o que for, que casas e carro é que tem, o seu percurso profissional. Até é obrigado a fazer declaração de bens no Tribunal Constitucional, que pode ser consultada pelo público (o juiz não é obrigado a fazê-lo). Esses dados podem importar para a formação de uma opinião sobre a sua capacidade de exercício de cargo público. E, porque será escolhido pelo voto, a sua imagem e história são relevantes, bem como os actos. É por isso que se nos apresenta em entrevistas.

Ao contrário, o juiz não é escolhido pelo voto e, onde o político tem que ser visível, o juiz tem que ser invisível. Não me interessa em quem vota, não me interessa quem são os seus colegas de bilhar, não cuido de com quem janta, nem do seu clube de futebol, nem da sua leitura acerca do último discurso de António Costa ou de Marcelo Rebelo de Sousa. Só por essa razão, falar e falar é demais a entrevista do juiz Carlos Alexandre é estranha.

Também estranha é a data: uma semana antes de se concluir (mais um) prazo para a eternamente adiada acusação do Processo Marquês.

Mas mais estranho ainda é o que diz o juiz. Primeiro, pela mesquinhez da piscadela de olho: “sou o saloio de Mação que não tem dinheiro em nome de amigos”, porque meia palavra basta. Para quem não ouviu à primeira, repete que não tem “dinheiro” nem “contas bancárias em nome de amigos”. Percebeu?

A conversa sobre os dinheiros é perturbante. O juiz vive uma vida espartana, não vai a restaurantes e não tem “amigos pródigos”. Aliás, para descansar as nossas almas, nem tem amigos, de todo (se o leitor ou a leitora consegue confiar numa pessoa que não tem amigos dou-lhe um prémio). Queixa-se do governo do “senhor engenheiro José Sócrates” que lhe cortou o salário mas, que engraçado, não se lembra do governo seguinte que também lhe cortou e bastante mais no salário – ele ainda hoje desconta uma sobretaxa do IRS, mas não deve ter dado por isso, tão cuidadoso com as contas apertadas que é. Mas, espartano, e com um ordenado que, já agora, é maior do que um deputado, o juiz tem que trabalhar 48 sábados por ano para compor o fim do mês. Percebeu? Eu não.

E, se a conversa sobre dinheiros é perturbante, há outra que vai ainda mais longe. É que o juiz sabe muito, vangloria-se ele. Ouve muitas escutas. Tinha todos os processos. Está em todas as buscas. Manda tudo. Se isto for tudo verdade, e se este for o homem que sabe mais sobre a vida dos outros na nossa República, está mesmo certo de que pode confiar na justiça? Até porque o juiz sabe tudo, ouve muitas escutas, e muitas delas vão aparecendo escarrapachadas na capa do Correio da Manhã ou na Sábado.

Não sei portanto se a entrevista é vantajosa ou não para a transparência. É transparente ficarmos a saber que hão há transparência alguma. Que há uma só pessoa que tem tudo na mão. Que pode decidir a detenção e libertação de suspeitos ou arguidos que podem ficar meses ou anos na prisão, mesmo que não tenham sido acusados e não se sabe quando o venham a ser. Que é possível adiar a apresentação da acusação, porque, de facto, não obedece a prazos nem responde a ninguém. Que o segredo de justiça é segredo para todos menos para certos jornalistas. Que o juiz tem grandes aflições de dinheiro e uma vida rigorosa, penalizada pelas horas extraordinárias, ganhando o que ganha. Que diz de si próprio ser “o saloio de Mação que não dinheiro em nome de amigos” e que aliás não corre o risco porque nem tem amigos.

Assim sendo, ainda bem que o juiz Carlos Alexandre deu a entrevista que não devia ter dado.