Protocolos, mal necessário?

Protocolos'

Por Ronaldo Souza

Quando falava de instrumentação do canal cementário durante um curso em um evento de Endodontia há oito anos, um bom professor, inteligente e competente (eu já o conhecia), que estava na plateia levantou a mão e perguntou:

– Você tem um protocolo de como isso deve ser feito?

Era a primeira vez que alguém me fazia aquela pergunta em um evento e não lembro se foi feita em algum outro momento.

Por segundos fiquei calado pensando o que dizer.

Explico o porquê do “por segundos fiquei calado”.

Todo ato se explica e muitas vezes se justifica no pensamento.

É pensar sobre algo que nos faz agir.

Freud diz que “o pensamento é o ensaio da ação”.

Até mesmo o não agir, o não fazer nada, é resultado do pensamento. Ao refletir, pode-se chegar à conclusão de que nada deve ser feito.

Cada vez mais, porém, somos levados a não pensar.

E não há nada pior.

Quantas queixas existem de que os alunos não querem nada, não estudam, não fazem perguntas interessantes… Só querem saber dos passos de como fazer.

Todo mundo só quer receita de bolo.

É o que se costuma dizer.

O que é um protocolo?

Receita de bolo.

Ali estão determinados o que e como fazer.

O por que fazer saiu de moda.

Um dos grandes problemas atuais parece ser a pouca disposição para se dedicar um tempo à reflexão.

Ao estabelecer os passos de como fazer o professor tira do aluno, de graduação ou pós-graduação, a chance de pensar.

O ensino da Endodontia contribui muito para isso.

Instrumentos de grande qualidade, técnicas de instrumentação muito interessantes e de mais fácil execução e as atuais técnicas de obturação mais facilmente permitem o preenchimento do canal.

Ao final teremos obturações que promovem grande prazer visual e fazem com que o tratamento endodôntico seja visto como alargamento e vedamento hermético dos canais.

Resultado, é cada vez mais difícil encontrar ministradores cujas palestras não estão de alguma forma atreladas a instrumentos, sistemas de instrumentação, rotação contínua ou reciprocante, sistemas de obturação, materiais de obturação e coisas desse tipo.

O que nos dirão nos próximos eventos de Endodontia?

O que nos ensinarão os cursos de especialização?

Somente a fazer?

Como pretender que os endodontistas pensem e possam ir um pouco mais além?

Se você perguntar a alguns “professores”, não serão poucas as vezes em que eles próprios pouco terão a dizer da patologia que está sendo tratada e, portanto, não saberão explicar as dificuldades que podem surgir em cada tratamento.

Por acaso ninguém viu ou ouviu falar de “professores” que adoram dizer que fazem o tratamento endodôntico em tantos minutos?

É um ato mecânico.

A retórica, bem ensaiadinha e sutil e intencionalmente utilizada, ganha força e expressões como “previsibilidade” se tornam um chavão e funcionam como argumento aparentemente imbatível.

Pura bobagem.

A previsibilidade é e será sempre bem-vinda em qualquer ato cirúrgico, mas não tenho conhecimento de que bons cirurgiões cardíacos, por exemplo, fiquem sem saber o que fazer quando o imprevisto toma conta da cena cirúrgica.

Por outro lado, lamento dizer, tenho visto muitos endodontistas sofrerem com essa ocorrência porque os passos do protocolo que lhes foi ensinado foram vencidos pelas nuances que a patologia apresentou.

Protocolos são muito bons, mas basicamente propostos para os casos comuns e eventualmente precisam ser deixados de lado.

E quando a eventualidade, que parece disposta a se apresentar mais vezes do que se imagina, surge durante o tratamento endodôntico, o especialista não se comporta como especialista.

Faltam-lhe o conhecimento e a imaginação. Estes não constam em bulas.

Aquele antibiótico, com aquela dosagem, usada naquele caso do paciente X terá a mesma efetividade nesse caso do paciente Y?

Em área de saúde não é assim. Em quantas situações os procedimentos não funcionam da mesma maneira, com a mesma eficácia?

Porque os pacientes não são os mesmos, os sistemas imunes idem e as patologias são diferentes.

Mas em Endodontia é tudo igual.

Basta que você use tal instrumento, essa técnica de instrumentação, aquela de obturação…

E com o ego inflado, ao “demonstrar” que domina o ato e consegue ser “tão rápido no tratamento de um molar”, aos olhos do outro o professor se mostra o eleito dos deuses e se põe no pedestal.

E se blinda.

Para o show ser completo necessita-se da colaboração da plateia. Se a plateia não é exigente, bate palmas e pede bis, fecha-se o circuito do não pensar.

É claro que os passos de cada etapa do tratamento precisam ser estabelecidos para os alunos.

Mas isso não é um protocolo?

Antes que alguém diga isso, vamos lá.

Quanto instrumentar o canal?

Na polpa viva com 1 + 3 (um instrumento inicial e mais três na sequência de ampliação) e na necrosada com 1 + 4.

Esta deve ser a regra mais antiga e conhecida.

E se dissermos vamos usar uns 4 ou 5 instrumentos, é a mesma coisa?

Afinal, 1 + 3 = 4 e 1 + 4 = 5.

Não, não é.

Se os “4 ou 5 instrumentos” vierem acompanhados de “sempre que possível vamos usar 4 instrumentos, porque às vezes tem uma curvatura que impede uma ampliação maior…”, “vamos usar pelo menos uns 5 instrumentos, pois é uma necrose pulpar com lesão periapical e isso deve promover melhor controle de infecção e assim favorecer o processo de reparo…”

Ou seja, se ao invés de pré-estabelecer para o aluno o quanto tem que instrumentar, mostrarmos o quanto deve instrumentar e o porque de fazê-lo, não o estaremos estimulando a pensar e aprender a diferença entre o que tem, pode e deve fazer?

Deixemos bem claro que o ato mecânico desempenha papel fundamental no tratamento endodôntico, como em qualquer outro ato operatório. Ele é o ato cirúrgico.

Dificilmente se conseguirá o efeito biológico do reparo sem a conjunção das ações mecânica, física e química de um bom preparo do canal.

Mas, também como em qualquer outro ato operatório, o tratamento endodôntico requer o conhecimento que o respalde.

Não me parece que protocolos “ensinam” isso.

Talvez deva me render à importância e até à necessidade de usa-los, mas, não nego, não gosto de protocolos.

Eles nos negam o direito ao pensamento e não gosto daquilo que simplesmente pré-estabelece o que devo fazer.

Se ainda tenho dúvidas sobre a utilização ou não de protocolos, da forma como têm sido propostos, de uma coisa talvez possa ter certeza.

Não é a melhor maneira de formar alunos que pensem.

E professores também.

Bahia, terra da magia e da felicidade. A alegria mora aqui

Salvador

Por Ronaldo Souza

Bahia de Todos os Santos.

De todos os homens.

De todas as mulheres.

De todas as crianças.

De todos os brasileiros.

De todos os gringos.

Bahia de todas as ladeiras, de todas as igrejas, de todas as religiões, de todos os pecados.

Sagrada, profana, como nenhuma outra terra sabe ser.

Bahia, onde tudo começou.

Bahia filha de Portugal, irmã da África.

Mãe de todos os brasileiros.

Bahia, onde tudo se explica.

Bahia da música, do folclore, da culinária única.

De um povo único.

Que outra terra é tão tudo?

Venha.

Como sempre a Bahia lhe recebe de braços abertos.

Não me levem a mal, mas não resisto.

Todo o amor à Bahia.

Quando as evidências não estão evidentes 4

Lima no forame

Por Ronaldo Souza

A Endodontia parecia ter perdido um atributo fundamental a qualquer ciência; a capacidade de questionar, de fugir do senso comum, de romper com o estabelecido.

Ninguém ousava.

Instrumentava-se o canal de 0,5 a 2 mm aquém do ápice, irrigava-se com tais soluções irrigadoras, obturava-se nos padrões clássicos, tudo seguia igual.

Para onde estavam voltadas as atenções?

Para novos instrumentos, novas propostas de instrumentação, novos sistemas de instrumentação, novas técnicas e materiais de obturação, novos cimentos obturadores…

Graças a tudo isso, foi fantástico e inquestionável o avanço da Endodontia.

Chegaram os novos instrumentos, novas propostas de instrumentação, novos sistemas de instrumentação, novas técnicas, sistemas e materiais de obturação, novos cimentos obturadores…

No entanto, chamava a atenção o fato de que, mesmo com todos os avanços conquistados, os percentuais de sucesso no tratamento endodôntico não foram alterados.

Tudo novo, apoiado em concepções antigas.

Era incrível como algumas coisas saltavam aos olhos, mas não eram consideradas. Não “entravam” nas discussões.

Quanta coisa por descobrir!

Como gosta de dizer o Prof. Pécora; “há uma Endodontia por ser feita”.

Alguns momentos foram fundamentais nesse processo.

Ao estabelecer o conceito de Zona Crítica Apical, por exemplo, o Prof. Quintiliano Diniz de Deus rompia com alguns paradigmas, como o do coto pulpar.

Era de fato uma abordagem muito interessante e diferente do que até então reinara no Brasil, particularmente através do seu livro, edição 1992, de fato um belo livro. Ali ele introduzia o conceito de limpeza do forame na endodontia brasileira (leia aqui Pondo os pingos nos is).

Ocorre que nem todas as portas se abrem diante da chegada de uma nova linha de raciocínio.

Novos caminhos nem sempre significam portas abertas.

E quando isso implica na possibilidade de queda de conceitos estabelecidos, as dificuldades se tornam maiores ainda.

Nada mais natural. O novo sempre trará algum desconforto.

Além disso, já não bastam as dificuldades que têm origem nas discussões pertinentes, nas diferenças de pontos de vista, na interpretação que cada um dá aos diversos temas, existem as situações em que a geografia condena.

Contudo, ainda que numericamente represente pouco, as portas abertas para o Prof. De Deus foram importantes:

Ribeirão Preto, pelas mãos do Prof. Jesus Djalma Pécora, e Campinas, pelas mãos do Prof. Luiz Valdrighi.

Entre outras iniciativas, no site da FORP-USP estava a discussão sobre limite apical em Temas de Endodontia, com espaço generoso dedicado ao trabalho do Prof. De Deus.

Com o Prof. Pécora, com quem só tive a alegria e honra de conviver muitos anos depois de formado (para ser preciso, somente em 2003 o conheci pessoalmente), tive muitas oportunidades de conversar sobre os diversos temas da Endodontia.

Foi quando também tive a honra de ser incorporado à discussão sobre o tema, já ali buscando apresentar novas interpretações e sugerindo a expressão limpeza do canal cementário (veja aqui Limite apical do preparo endodôntico).

Há pessoas especialistas em abrir portas.

Há pessoas que conseguem ver a Endodontia como algo maior, não restrita a grupos, sejam eles quais forem.

Por isso não me canso de fazer reverência ao Prof. Pécora.

Este texto continua.

Quem pode, pode; quem não pode fica na mira da Lava Jato

“Se, supostamente, FHC tem um imóvel num condomínio de luxo podemos concluir que ele se apropriou de bens públicos”?

Trancoso Terravista Golf 10

Por Yuri Carajelescov, no Jornal GGN

O rapaz que nos leva de Trancoso ao aeroporto de Porto Seguro nasceu no interior de São Paulo e morou por vinte anos em Curitiba, onde se formou em turismo.

Há pouco mais de dez anos mudou-se com a família para o sul da Bahia e arrendou uma pousada. Depois montou com a irmã uma empresa de turismo.

Pergunto dos negócios. “Vão bem, obrigado”, diz ele. Não se arrepende de ter fugido do frio da capital do Paraná para o calor intermitente da Bahia.  Ao longo da estrada de terra Trancoso – Arraial que percorremos com certa dificuldade, vamos conversando sobre diversos assuntos.

Questiono por que ainda não asfaltaram aquele trecho. Ele me diz que o pessoal do condomínio “Terravista Golf” se opõe. “Vai juntar muita gente por aqui e esse pessoal gosta de exclusividade”.

O condomínio de mansões é o mais luxuoso e exclusivo desse badalado litoral. A localização – sobre uma falésia com vista para o mar – é mesmo privilegiada. Passamos por ele à beira da estrada. O empreendimento, segundo o nosso guia, foi construído por um alemão de nome Michael, dono de uma das maiores empresas de cerâmicas de São Paulo, e conta com Campo de golfe de 18 buracos, além de um aeroporto privativo.

No mesmo espaço estão as instalações do Club Med/Trancoso e do resort Txai em fase de acabamento.  “Fernando Henrique e seus familiares têm uma casa nesse condomínio e vivem por aqui no verão”, me informa o guia sem ser perguntado.

“Eles vêm de jato privativo e não pegam essa estrada de terra” e sem complementar a frase afirma em um tom entre jocoso e conformado: “quem pode, pode…”

Também o Constantino, não o blogueiro mas o dono da Gol, costuma frequentar uma casa no local.

Claro que não saí confirmando os fatos; não fui à imobiliária local para saber qual o preço do metro quadrado construído no condomínio “Terravista Golf”; não conversei com porteiros ou camareiras para saber se, de fato, FHC é habitué; não andei nas lojas de materiais de construção próximas pesquisando se casas foram reformadas e quem e como pagou cada reforma. Nem me cabia…

Supondo verdadeira a história que o guia me relatou, a pergunta que se faz é: “e daí?”.

Do fato –  suposto – de FHC frequentar ou ter um imóvel em um condomínio de luxo na Bahia e ser vizinho de Constantino, o dono da Gol não o blogueiro, podemos concluir que o ex-presidente se locupletou ou se apropriou de bens públicos? Que assaltou o erário? Que obteve favores indevidos em troca de medidas que tomou dentro de sua margem de discricionariedade administrativa de um presidente da República? Que se corrompeu? Que prevaricou?

Qualquer pessoa de bom senso, que preze o Estado de Direito, a democracia, o princípio da presunção de inocência, o princípio da dignidade humana etc. diria que não.

Substitua agora FHC por Lula e esse relato banal, corriqueiro, história frívola de fim de viagem, certamente ganharia as manchetes dos principais diários e revistas do País.  Se uma canoa de 4 mil reais, cotas de um apartamento no decadente Guarujá ou a reforma de um sítio “usado” por Lula e familiares em Atibaia geram esse estardalhaço, fácil imaginar o que ocorreria se Lula frequentasse o exclusivo “Terravista Golf” de Trancoso, pois não? Pior do que isso.

Não apenas a imprensa se ocuparia do tema de manhã, de tarde e de noite, em seguidas e seriadas matérias, mas seriam mobilizados os órgãos de repressão do Estado.

Provavelmente o caso se desdobrasse em mais uma fase da Lava Jato e ganhasse até um nome para ser marchetado no inconsciente coletivo: “operação 18 buracos”, em alusão ao campo de golfe; “operação capeta ou xiboquinha”, em referência aos drinques da região, quiçá do agrado de Lula?

É que no Brasil de hoje, a investigação parte da pessoa para o fato.  Alguém deve ser criminalizado, então os agentes da repressão, como bons perdigueiros, saem a caça do crime.  Trata-se de uma inversão da ordem racional das coisas, que não chega a ser uma invenção genuinamente nossa.

Outros regimes (e nós mesmos em outros contextos históricos) já adotaram esse ‘modus operandi’ para perseguir seus “desviantes”. Todos eles nada tinham de republicanos.  A novidade aqui é a criação de ilhas de exceção dentro do Estado de Direito, o que parece mais sutil, ainda que igualmente deletério.

Ao decolar de Porto Seguro, o avião da Gol faz uma curva à direita e sobrevoa o litoral de Trancoso rumo ao sul.  Sentado na poltrona próximo à janela da aeronave, reconheço o condomínio “Terravista Golf”. Avisto o campo de golfe, a pista do aeroporto privado, as piscinas recortadas nos jardins das mansões. Penso comigo: “quem pode, pode…”

* Yuri Carajelescov possui graduação em direito pela USP (Universidade de São Paulo – 1994) e mestrado em ciências jurídico-políticas pela Universidade de Coimbra (2006).

Miolo

Deus e cérebro

Por Ronaldo Souza

Em uma aula de anatomia, com um cérebro nas mãos o professor pergunta:

– O que é isso?

– Miolo.

Antecipando-se aos colegas, foi a resposta de um dos alunos.

Não precisa dizer que a partir daí ficou conhecido como “miolo”.

A vida não é um mar de rosas.

Bela, belíssima.

Mas não um mar de rosas.

Mesmo diante dos mistérios que rondam a criação e existência do homem, acredito que na sua essência o ser humano é dotado de muitas virtudes.

O ser social não.

Não o vejo da mesma forma.

Para começar, poucas vezes consegue ser autêntico. As normas da sociedade não permitem.

Há certos hábitos que não são permitidos em público, diante de pessoas iguais.

Pessoas iguais. Você conhece algo mais sangue azul?

Pertencer ao time das “pessoas iguais” é objeto de desejo que entre tapas e beijos se busca alcançar.

Fã de pão francês e sem me permitir renunciar ao prazer, muitas vezes tiro o seu miolo antes de comer. Reduzindo as calorias, ajudaria a “não engordar”.

Há exatamente 15 anos (para ser mais preciso completa agora em agosto) fui “flagrado” por um colega fazendo isso, o que motivou um comentário dele. É claro que não tenho como saber o que estaria por trás do comentário.

Foi em um lanche informal entre colegas durante um evento numa cidade do interior da Bahia. Enquanto conversávamos e tomávamos café, cometi esse pecado social, para alguns imperdoável.

Viver em sociedade é a melhor e mais fácil maneira de se violentar. Os reféns dos bons modos costumam sofrer muito.

Em casa feijão com macarrão, no restaurante jamais. A imprensa tá de olho.

Por falar nisso, se nunca comeu, experimente.

Às vezes a vida se torna hilária.

Existe sopa de feijão com macarrão, que é uma delícia e todos adoram.

Mas feijão com macarrão é pecado.

A sociedade é simplesmente cruel com essas pessoas, frequentemente tirando delas o que há de mais sagrado; a sua individualidade.

Como órgão atrofiado por desuso que vai perdendo as funções e “desaparece” com o tempo, na verdade a perda da individualidade já não é mais tão facilmente observável porque as novas gerações já crescem sem ela.

Os tempos atuais já não comportam mais o indivíduo.

“Vocês que fazem parte dessa massa

Que passa nos projetos do futuro

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber”, diz Zé Ramalho.

E dar muito mais do que receber sem perceber.

É isso que caracteriza mais fielmente o homem gado do “Admirável Gado Novo” de que fala Zé Ramalho em sua música.

Não deve ser difícil imaginar que a perda da individualidade gera essa massa “que passa nos projetos do futuro”.

Futuro sobre o qual ela não terá nem influência nem importância.

Uma massa que jamais saberá o que é fazer a hora.

Marcada pelo ferro da alienação e embevecida com o que lhe dizem ser, seu destino é ser conduzida.

É assustador observar uma realidade tão chocante, saber que ainda tende a se acentuar por algum tempo e nada poder fazer.

A convicção de que você não sofrerá nenhuma sanção ou de que não se autopunirá porque terá tentado fazer alguma coisa talvez conforte, mas não elimina a desconfortável sensação de impotência.

Mas Deus, não.

Ele não terá perdão.

Tendo em vista que a Ele é atribuída a criação do homem, certamente não faltará quem O culpe pela criação de muitos homens sem miolo.

Perdão.

Sem cérebro.

Sentidos opostos

Moro, MP, PF e escárnio

Por Ronaldo Souza

Ao juiz Sergio Moro, Ministério Público, Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal.

Deixemos de lado todos os acontecimentos anteriores; vazamentos extremamente seletivos, prisões irregulares, coerção, torturas psicológicas e mesmo físicas pelas condições impostas.

Vamos somente aos fatos mais recentes.

Vindo à tona, o vídeo do depoimento do Sr. Paulo Roberto Costa o mostra dizendo o seguinte:

“Então, assim, eu conheço ele, mas nunca tratei de nenhum assunto desses com ele, nem põe o nome dele aí porque ele, não, ele não participava disso”.

É verdade que Vossa Excelência e a operação sob o seu comando, conhecida como Lava Jato, não incorporaram as declarações do Sr. Costa ao processo, mas aos autos foi incorporada a “sua” interpretação, oficialmente chamada de “transcrição”?

Se isso é verdade, permita-me convida-lo para uma interpretação conjunta.

Por favor, não interprete como insolência da minha parte. É que também tenho o hábito de querer interpretar as coisas.

Depoimento do Sr. Paulo Roberto Costa:

“…eu conheço ele (Marcelo Odebrecht), mas nunca tratei de nenhum assunto desses com ele, nem põe o nome dele aí porque ele, não, ele não participava disso.

Ao dizer que ”… nunca tratei de nenhum assunto desses com ele, nem põe o nome dele aí porque ele, não, ele não participava disso, a impressão que tive foi a de que Paulo Roberto Costa disse que ele, o Sr. Marcelo Odebrecht, “não participava disso, ou seja, das falcatruas a ele atribuídas.

Com a supressão do vídeo e a incorporação da transcrição aos autos da afirmativa “a despeito de não ter tratado diretamente o pagamento de vantagens indevidas com Marcelo Odebrecht”, a interpretação que foi dada pelo senhor e a sua laboriosa equipe não estaria equivocada?

Peço desculpas por ser, digamos, repetitivo, e tomar o seu precioso tempo, mas mesmo temendo ter como resposta um “não vem ao caso”, peço-lhe que me corrija se eu estiver errado.

Quando o senhor desconsidera “nem põe o nome dele aí porque ele, não, ele não participava disso e diz que “a despeito de não ter tratado diretamente o pagamento de vantagens indevidas com Marcelo Odebrecht” o senhor quis dizer pode pôr o nome dele aí porque ele participava disso?

Se assim for meritíssimo com todos os méritos, ao contrário do que disse o delator bastante premiado, Vossa Excelência afirma, nos autos sem o vídeo, que o Sr. Marcelo Odebrecht fez “o pagamento de vantagens indevidas”.

Estaria correta a minha interpretação?

Mesmo após tentativas diversas de conte-la, aproximando-me do impossível, um esforço hercúleo, não alcancei o meu intento (peço que entenda e aceite o meu modo de falar, é uma tentativa desesperada, provavelmente vã, de me aproximar daquele linguajar que nos deixa encantados nos tribunais), ela veio.

A dúvida atroz e avassaladora se transformou em palavras (por aí, meritíssimo, no meio desse povo inculto, vulgarizam chamando esse momento de profunda introspecção de “a pergunta que não quer calar”. Veja [opa] que absurdo).

Para que delatores bastante premiados?

Para que delações bastante premiadas?

Não seriam melhores, mais rápidas, mais práticas e cômodas somente as transcrições?

Excelência, só mais dois minutinhos.

Diante da perplexidade que se apossou do meu ser (permita-me continuar sonhando o sonho impossível, já exposto aí em cima), ia fazer também algumas considerações sobre a não gravação da delação contra o Sr. José Dirceu.

No entanto, o tempo (in)disponível e a leitura do texto de Renato Rovai me fizeram ver que dificilmente seria tão feliz no texto como foi o jornalista.

Por isso faço a transcrição, literal, sem interpretações, do depoimento dele.

Os negritos são meus.

“É inexplicável a ausência de gravação em delação contra Zé Dirceu

Por Renato Rovai

Fernando Moura fez um acordo de delação premiada e deixou a prisão. O que se sabia até ele ser ouvido pelo juiz Sérgio Moro, no dia 22, última sexta-feira, era que ele revelara como o ex-ministro José Dirceu organizou, a partir da diretoria de Serviços da Petrobras, controlada por Renato Duque, uma parte do que seria um caixa dois do PT.

Acontece que Fernando Moura, confrontado por Moro com as suas supostas declarações, não as confirmou. E como José Dirceu é citado na delação que agora Moura nega, Roberto Podval, advogado do ex-ministro, fez o óbvio e solicitou as gravações do que estava transcrito. Áudio, vídeo, sinal de fumaça, qualquer coisa.

E a resposta do Ministério Público foi a de que elas não existem.

Não faz o menor sentido não gravar uma delação tão explosiva quanto essa numa investigação do porte e do risco da Lava Jato.

Qualquer estagiário de jornalismo sabe que se chegar na redação com uma história dessas sem qualquer prova e tiver um editor responsável, ela não é publicada.

Ou seja, a ausência de gravação não cola.

Nelson Rodrigues poderia atribuir isso ao Sobrenatural de Almeida ou poderíamos dizer que se trata do inexplicável futebol clube. Mas em casos de investigação criminal o inexplicável não condena ninguém. Absolve. Se não tiver como explicar e provar, não vale.

O MP e a PF parecem ter aberto a temporada de brincar com fogo. O nome da Operação de hoje, Triple X, também é mais político do que qualquer outra coisa. Há uma sanha persecutória em alguns ambientes que hoje atinge uns, mas que amanhã pode atingir outros.

Nunca é tarde demais para lembrar que o Estado de Direito deve ser sempre o limite da democracia. E brincar com ele é brincar com ela”.

“Processo marcha para a frente”

Essas foram as palavras do juiz Moro ao justificar a negativa de acesso aos vídeos aos advogados.

Excelência, se eu disser que negar aos advogados acesso ao depoimento dos seus clientes soa absolutamente incompreensível e injustificável em qualquer julgamento estarei errado?

E agora, com a delação de Fernando Moura favorável a José Dirceu, à qual os advogados também quiseram ter acesso, os órgãos à frente da Lava Jato dizem ao país que a delação contra José Dirceu não foi gravada e por isso José Dirceu será prejudicado.

E o que disse Fernando Moura?

Simplesmente disse ao Dr. Moro que se ele observar bem o vídeo com seu depoimento inicial vai perceber que ele nunca falou o que está na transcrição.

Em outras palavras, nunca acusou José Dirceu.

Será que estamos novamente diante de transcrições do que não foi dito?

Fala-se uma coisa e os procuradores escrevem outra? O que vaza para a imprensa, o que os delatores dizem ou o que os procuradores transcrevem?

O juiz Moro foi “convidado” a ver o erro no vídeo e aí, acuado e temendo o que surgiria, disse que o vídeo não existia porque não foi feita a gravação?

Sabe como fica a situação, Excelência?

Como disse Fernando Brito do Tijolaço, “o delator Fernando Moura, como se sabe, disse que não disse o que o Ministério Público disse que ele disse sobre o ex-ministro José Dirceu”.

Qual será a transcrição que irá para os autos?

Alguém faz alguma ideia?

Dr. Moro, a delação contra José Dirceu não foi gravada???!!!

Sabe aquilo que falei “mesmo após tentativas diversas de conte-la, aproximando-me do impossível, um esforço hercúleo, não alcancei o meu intento”? Aconteceu outra vez.

Diante do estarrecimento de todos frente a comportamento tão estranho e incomum à própria Lava Jato ou qualquer outra operação, a não gravação das delações, torna-se inevitável o questionamento.

Vossas Excelências se acham realmente sérias e dignas?

Se o “processo marcha para a frente”, como disse o juiz, o povo brasileiro começa a ter a clara percepção de que o Poder Judiciário não vai no mesmo sentido.

E faz o Brasil também marchar para trás.

Dr. Moro, o que mais a sociedade brasileira pode esperar de Vossa Excelência e dos senhores membros do Ministério Público, Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal…?

Obs. Quando já tinha fechado esse artigo li a notícia de que Fernando Moura voltou atrás e resolveu culpar José Dirceu. Depois de convidar o juiz Moro a ver que na gravação ele nunca culpou Dirceu, não saberemos como se deu essa reviravolta na delação.

Obs 2. Os advogados do delator consideraram estranha essa nova postura de Fernando Moura. Resultado; todos deixaram o caso.

Obs 3. Pelo visto o processo nem sempre marcha para a frente. Quando necessário, ele recua, dá alguns passos para trás, para então tomar um novo rumo. A vida é assim. Sempre cheia de mistérios insondáveis.

O empresário e o juiz

Por Ronaldo Souza

“Se sujar minha toalha de linho ou pedir Marmitex… vou pirar. Saudações Sindicais? Não mereço”.

Este teria sido o comentário de Isabela Odebrecht, esposa de Marcelo Odebrecht, ironizando o convite feito à sindicalista Juvandia Moreira, líder dos bancários em SP, para que ela participasse de um jantar em sua casa em torno do ex-presidente Lula.

Desse mesmo jantar participaram vários empresários, entre os quais Jorge Gerdau e João Roberto Marinho, dono da Rede Globo.

Poderia tranquilamente dizer que é lamentável esse tipo de comentário e que na verdade refletiria a pobreza de espírito da senhora Odebrecht e que é típico dos membros que constituem a comunidade dos talheres de prata.

Tenho pontos de vista bem definidos sobre determinados segmentos da sociedade, mas não pretendo cair no que pode ser uma armadilha da hipocrisia ao analisar a frase sem inseri-la no devido contexto.

Fugindo dessa armadilha, ocorre-me a sensação de que me dirijo sem freios para outra.

O que você imagina ser o mundo empresarial?

Como imagina que funciona o universo das grandes empresas do mundo?

Como imagina ser um conglomerado que fatura cerca de R$ 100 bilhões por ano, atua em 23 países, inclusive Estados Unidos e países da Europa, e emprega 200 mil pessoas, segundo o Estadão de 20 de julho de 2014?

Só mesmo a ignorância ou razões escusas ou até mesmo ambas poderiam permitir uma visão simplista, boba e romântica sobre essa realidade. Ignorar as particularidades, magnitude e complexidade desse universo beira o retardo mental.

A essa altura da vida não posso me permitir observa-lo com o moralismo que reina no país nesse momento.

Quem somos nós de fato?

Como é a vida real?

O que é corrupção?

Rejeito a visão maniqueísta e tola do bem e do mal.

Imaginar Marcelo Odebrecht simplesmente como um corrupto ou corruptor abre um leque inimaginável de possibilidades.

Qualquer tentativa de se julgar alguém envolvido na Lava Jato exigiria que se deixasse de lado justamente o que mais se vê nos dias atuais:

A hipocrisia.

Uma vez que o empresário atua num universo de enormes possibilidades, como se dão verdadeiramente essas relações?

Quem, das relações do Sr. Odebrecht, estaria livre das mesmas acusações que lhe são feitas?

Marcelo Odebrecht e Moro 1'

Estariam alguns livres e outros não?

Se assim é, por que?

Marcelo Odebrecht é um puro sangue da elite brasileira.

As relações da sua empresa, como todos sabemos, se deram com todos os governos brasileiros.

Por que em algumas ele foi pecador e em outras santo?

Além disso, quem goza da sua relação pessoal?

Certamente não são pessoas que oferecem o risco de “sujar a toalha de linho ou pedir Marmitex…”

Em quem vota o eleitor Marcelo Odebrecht?

Em quem votou para presidente da república em 2014?

Alguém ainda tem dúvidas mesmo ele já tendo declarado o seu voto?

Você já ouviu falar em hipocrisia? Tem certeza de que sabe o que significa?

Por outro lado e sob perspectiva bem diferente, se alguém se dispuser a analisar a conduta do Juiz Sérgio Moro à frente da Lava Jato, terá que fazê-lo no mínimo com o mesmo rigor com que se tem julgado o senhor Odebrecht. Afinal, o mundo jurídico não permite, ou não deveria, a flexibilização de certos padrões que apontam para limites mais bem definidos, deixando claro que os homens da lei não deveriam ir além do que lhes permitem os rigores das normas jurídicas.

Vou me reportar somente ao juiz Moro por razões que me parecem óbvias, além do fato de considerar inexpressivos os seus pares, meras peças para a composição de um jogo.

Há quem diga que aos homens da lei cabe atuar estritamente dentro dela, com toda discrição, sobriedade, serenidade e certa reclusão em determinados momentos.

Diz-se também que alguma distância dos senhores da lei com determinados setores da sociedade deveria ser mantida e que ela deveria dar o tom nessas relações.

Não foi, entretanto, que assim se comportou o ex-ministro Joaquim Barbosa, que não mostrou nenhum constrangimento, muito pelo contrário, quando permitiu evidenciarem-se muito fortemente as características mais marcantes da sua personalidade e que dariam o tom da sua passagem pelo Supremo, particularmente quando esteve à frente da presidência; vaidade fora de controle, destempero emocional e belicosidade.

Barbosa e Gilmar 10

A ponto de ser considerado um dos ministros mais despreparados para o cargo.

Por sua vez, como justificar o ministro Ayres Britto ser autor do prefácio do livro de Merval Pereira, cujo título é “Mensalão”, quando o episódio em questão estava sob julgamento e ele era o presidente do STF? Um verdadeiro escândalo que certamente não permite colocar Ayres Britto como exemplo de nada que exija o mínimo de dignidade e bom senso.

Barbosa e Gilmar 4'

Ao mesmo tempo, ter Gilmar Mendes como uma das estrelas do lançamento do referido livro é também algo que agride frontalmente a dignidade e o bom senso, para dizer o mínimo, de qualquer cidadão que disponha de neurônios em atividade.

E, finalmente, por ser o protagonista dos episódios mais recentes nessa triste caminhada do poder judiciário brasileiro, o Juiz Moro dispensa esforço maior da memória para relembrar os feitos que o põem muito longe de ser modelo de qualquer coisa. Ainda que parcela significante da sociedade não consiga ver as evidências que apontam para um juiz que se perdeu naquilo que representa os mais elementares deveres de um guardião da Constituição.

Aceitar prêmios e homenagens de órgãos de imprensa que claramente assumiram papel de oposição partidária ao governo federal não deveria recomendar nenhum juiz numa Democracia séria e consolidada.

Diante de eventual dificuldade de compreensão do que digo acima, relembro a famosa frase dita em 2010 pela Sra. Maria Judith Brito, então presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ):

“Obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”.

Um juiz que faz palestras em eventos patrocinados por revistas que francamente assumiram papel de oposição ao governo, como recentemente em evento da ANER (Associação Nacional de Editores de Revista), controlada pela Editora Abril, cuja campanha sistemática contra o governo é por demais conhecida, também não deve constituir um modelo a seguir.

Moro, Dória e ANER

Da mesma forma que o faz em eventos patrocinados por empresas de políticos em campanha eleitoral, como foi o caso do almoço-debate no Lide, de João Dória Jr., pré-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB de São Paulo.

Moro e holofotes

Certamente o recato deixou de ser uma característica do judiciário brasileiro.

Moro e Globo faz diferença

Diante disso, uma pergunta se faz inevitável.

Será que ainda corremos o risco de ver mais algum membro do poder judiciário brasileiro ser “homenageado” pela Globo em 2016?

Se isso acontecer novamente, não será acintoso demais?

Como ficarão essas instituições e como exercerão o seu poder na sociedade?

Como ficará a sociedade diante desses poderes?

Qual é o alcance do conceito de corrupção?

Só existe corrupção quando estão envolvidos valores financeiros ou também se corrompem sentimentos e valores e princípios da dignidade?

Quando a sociedade perceberá que a disfuncionalidade das instituições pode ter a sua origem num ato de corrupção que não necessariamente envolve valores financeiros?

Ao mesmo tempo, reza a Constituição Brasileira que o salário dos servidores públicos, onde se incluem juízes e desembargadores, obedece aos limites impostos como teto aos ministros do Supremo tribunal Federal, R$ 33,763,00.

No entanto, já foi amplamente divulgado que o juiz Moro recebe bem acima desse teto, numa média de R$ 77.423,66, como se pode ver no site jurídico do Conjur e também em depoimento do deputado Wadih Damous, ex-presidente da OAB Rio de Janeiro, no vídeo abaixo.

Não parece razoável que um guardião da Constituição seja um infrator dessa mesma Constituição. Se os órgãos de comunicação, ávidos por bem informar ao povo brasileiro, vazassem essa informação para a sociedade, como seria visto o juiz?

Se os valores relativos aos honorários do Dr. Moro tivessem a dimensão dos valores tratados em grandes obras entre empreiteiras e governos e essas informações vazassem para órgãos de comunicação e estes abrissem manchetes escandalosas sobre o fato de que um juiz estaria recebendo o dobro do que deveria receber, que tipo de impacto causaria na sociedade?

Que tratamento seria dispensado a um empresário que em negociações com o governo recebe deste o dobro do que deveria ser legalmente pago?

Como o juiz Sérgio Moro da Lava Jato julgaria o juiz Sérgio Moro que percebe um salário mais que o dobro acima do que determina a Constituição?

Por fim, o que dizer quando vem à tona que o delator Paulo Roberto Costa afirma que Marcelo Odebrecht não está envolvido nos episódios sob investigação da Lava Jato e esta parte do seu depoimento gravado foi retirada e alterada na transcrição para os autos, como denuncia Janio de Freitas, um dos jornalistas mais respeitados do Brasil? (veja o vídeo no final do texto).

Trago esses 3 parágrafos:

“Já como transcrição na Lava Jato do que disse e gravou o delator muito premiado, consta o seguinte: “Paulo Roberto Costa, quando de seu depoimento perante as autoridades policiais em 14.7.15, consignou que, a despeito de não ter tratado diretamente o pagamento de vantagens indevidas com Marcelo Odebrecht” –e segue no que respeitaria a outros.

As palavras de Paulo Roberto que os procuradores assim transcreveram foram, na verdade, as seguintes: “Então, assim, eu conheço ele, mas nunca tratei de nenhum assunto desses com ele, nem põe o nome dele aí porque ele, não, ele não participava disso”.

É chocante a diferença entre a transcrição e o original, entre “não ter tratado diretamente com Marcelo Odebrecht” e “nem põe o nome dele aí por que ele, não, ele não participava disso”. A reformulação da frase e do seu vigor afirmativo só pode ter sido deliberada. E é muito difícil imaginar que não o fosse com dose forte de má-fé. Do contrário, por que alterá-la?”

Leia aqui o texto de Janio

Para não nos alongarmos em demasia com detalhes que, mesmo interessantes, talvez se tornassem cansativos, o recente manifesto de 103 advogados, juristas e professores de Direito chama a atenção para as arbitrariedades do juiz Moro, na condução da operação Lava Jato, algo que, segundo eles, não foi visto nem no período da ditadura.

A imprensa, mais uma vez, tentou blindar o juiz e dar ao seu público a interpretação de que o manifesto não tinha validade porque expressava tão somente as queixas de advogados que, por serem defensores dos réus da Lava Jato, teriam os seus interesses contrariados pelo juiz.

A imprensa só não diz que dos 103 signatários, apenas 39 representam os réus da Lava Jato.

No momento em que Marcelo Odebrecht está sendo visto como um homem que cometeu todos os pecados do mundo, aguça-me a curiosidade de saber se, livre estivesse, teria amigos à sua volta num jantar a céu aberto na sua terra, a Bahia, onde certamente deve ter muitos amigos de infância e adolescência.

Digo a céu aberto (restaurante), porque fora do conforto e segurança do que imagino ser a casa de Marcelo Odebrecht e estando ao alcance da vista da sociedade, estariam os amigos dispostos e à vontade para encarar esse jantar com o pecador dos pecadores?

Pecador esse que os amigos, possivelmente inebriados com o fato de serem amigos do comandante da Odebrecht, não podiam imaginar que ele fosse. Afinal, gravitar em torno do poder sempre exigiu inocência e pureza.

Assim caminha a humanidade.

Insisto, não pretendo colocar Marcelo Odebrecht ou a sua empresa entre os mais inocentes e puros. Essa discussão é muito mais complexa do que querem fazer crer, mas a hipocrisia é inegável.

Não é preciso ser advogado, jurista ou professor de Direito para saber que direitos constitucionais elementares foram e estão sendo negados, o que talvez represente grande risco para a operação.

É possível que o juiz Moro esteja correndo um risco que não foi devidamente calculado.

É possível que todo esse imbróglio, cujos fatos e transparência têm sido insistentemente negados ao povo brasileiro, venha a ter um desfecho que não entrou nas previsões do juiz.

Ainda existe dignidade nessa história?

Se existe, de que lado estaria ela?

Não sei.

Mas não consigo vê-la do lado do juiz.

Desmoralização total do juiz Moro e da Lava Jato

Desmoralização total do juiz Moro e da Lava Jato.

Se você ainda tinha dúvida, leia esse artigo de Janio de Freitas.

Umas palavras (e outras)

Por Janio de Freitas, na Folha

Ainda com a carta pública dos 104 advogados fervilhando entre apoiadores e discordantes, a também discutida retenção de Marcelo Odebrecht na prisão dá margem a mais um incidente processual do gênero criticado na Lava Jato. Em princípio, trata-se de estranha omissão ao ser transcrita, da gravação para o processo, da parte da delação premiada de Paulo Roberto Costa que inocenta Marcelo de participação nos subornos ali delatados. Mas o problema extrapolou a omissão.

Já como transcrição na Lava Jato do que disse e gravou o delator muito premiado, consta o seguinte: “Paulo Roberto Costa, quando de seu depoimento perante as autoridades policiais em 14.7.15, consignou que, a despeito de não ter tratado diretamente o pagamento de vantagens indevidas com Marcelo Odebrecht” –e segue no que respeitaria a outros.

As palavras de Paulo Roberto que os procuradores assim transcreveram foram, na verdade, as seguintes: “Então, assim, eu conheço ele, mas nunca tratei de nenhum assunto desses com ele, nem põe o nome dele aí porque ele, não, ele não participava disso”.

É chocante a diferença entre a transcrição e o original, entre “não ter tratado diretamente com Marcelo Odebrecht” e “nem põe o nome dele aí por que ele, não, ele não participava disso”. A reformulação da frase e do seu vigor afirmativo só pode ter sido deliberada. E é muito difícil imaginar que não o fosse com dose forte de má-fé. Do contrário, por que alterá-la?

Não é o caso de esperar por esclarecimento da adulteração, seu autor e seu propósito. Seria muita concessão aos direitos dos cidadãos de serem informados pelos que falam em transparência. No plano do possível, a defesa de Marcelo Odebrecht, constatada a adulteração, requereu a volta à instrução processual, do seu início e com a inclusão de todos os vídeos da delação, na íntegra e não só em alegadas transcrições.

O juiz Sergio Moro decidiu contra o requerido. Considerou os pedidos “intempestivos, já que a instrução há muito se encerrou, além das provas pretendidas serem manifestamente desnecessárias ou irrelevantes, tendo caráter meramente protelatório”. E, definitivo: “O processo é uma marcha para frente. Não se retornam às fases já superadas”.

Não é a resposta própria de um magistrado com as qualificações do juiz Sergio Moro. É só uma decisão. Baseada em vontade. Resposta, mesmo reconhecendo-se a situação delicada do juiz Sergio Moro, seriam as razões propriamente jurídicas (se existem) para negar o pedido.

“Intempestivos” os pedidos não são. Se apenas agora foi constatada a transcrição inverdadeira, não havia como pedir antes qualquer medida a partir dela. Logo, tempestivo este pedido é. Uma instrução está “encerrada” quando não há mais o que precise ou possa ser apurado, como complemento ou aperfeiçoamento. Se há uma transcrição infiel, ou qualquer outro elemento incorreto, as provas que o corrijam são “necessárias e relevantes” porque o erro prejudica a acusação ou a defesa, ou seja, compromete o próprio julgamento de valor entre culpa e inocência. Se está demonstrada a necessidade objetiva de correção, não há “caráter protelatório”, há o indispensável caráter corretivo.

“Processo” é, por definição, um movimento que implica todas as variações, de ritmo, de sentido, de direção, de avanço ou recuo, e mesmo de intervalos de paralisação. Processo não é só “marcha para a frente”. E, no caso dos processos judiciais, se o fossem, não haveria –talvez para alegria da Lava Jato– segunda e terceira instâncias de julgamento, que são diferentes retornos às entranhas dos processos.

Como se tem visto, o decidido, decidido está. Mas o provável é que não sobreviva à instância superior, se lá chegar e seja qual for a posição de Marcelo Odebrecht entre a inocência e a culpa.

Falando da Vida: Editei este vídeo para um texto meu que já está quase pronto e será postado aqui, mas antecipo e o trago para o texto de Janio de Freitas.

Opinião publicada

Por Ronaldo Souza

Você sabe o que é opinião pública e opinião publicada?

Sabe como é que se forma a opinião publicada?

Vejamos.

Como aconteceu com as notícias anteriores, se o processo continuasse na Vara do juiz Moro não saberíamos dessa notícia. Ela não ia acontecer.

Teve que sair de lá e cair em outra Vara para existir.

Mesmo assim, a imprensa faz malabarismo, contorcionismo, ocultismo, Fernandismo, para esconder.

Observe a “manchete” da Folha na imagem 1. Esta é a original.

FHC e corrupção na Petrobras 1

Perceba que ela diz que a “Justiça aceita denúncia sobre corrupção na Petrobras desde 1999”.

“… desde 1999” é um período muito abrangente e não dá nenhum detalhe. E mais, a “Justiça aceita denúncia”.

Percebe?

Na imagem 2 chamo a atenção para o que foi manipulado. Escondeu-se que o governo era o de FHC.

FHC e corrupção na Petrobras 2

Começou no governo dele, mas não foi só em 1999. Foi antes.

Mas, relevemos.

Agora veja na imagem 3 como seria a manchete se fosse só no governo daquele, aquele outro.

FHC e corrupção na Petrobras 3

Não seria “Justiça aceita denúncia”. E ainda teria foto e tudo mais que pudesse.

Aí os segmentos privilegiados da sociedade, leia-se classe média, aquela que vive ensaiando passos para alcançar o altar das elites, na sua convicção da boa informação se torna membro efetivo, com todos os méritos, da opinião publicada.

Ah se não fosse a Internet!