“More is less”

Estados Unidos do Brasil

Por Ronaldo Souza

Há alguns anos, em uma das idas ao Rio de Janeiro, meu cunhado me pegou no aeroporto e fomos pela Barra da Tijuca.

Fiquei chocado.

Tudo era em inglês.

Off, rent a car… e por aí vai.

Dali a dois ou três dias o que me chocou estava retratado em uma das crônicas de João Ubaldo. Ele começava dizendo:

“Essa crônica devia ser escrita em inglês. Pelo menos na Barra eu seria mais lido”.

Como sempre, João Ubaldo usava todo seu talento para trazer luz ao dia-a-dia.

E dessa luz Ariano Suassuna também sabia que muitos precisavam.

Também há alguns anos em um encontro de intelectuais, por coincidência no Rio, Suassuna mais uma vez se posicionou.

Na sua palestra fez algumas considerações e disse:

“Oh, por exemplo, depois da minha conversa com vocês vai ter um cofffféééééé breaki”, puxando pelo sotaque nordestino bem arrastado, ele que já tinha um sotaque forte.

Claro, o auditório foi às gargalhadas.

Suassuna conseguira seu objetivo; trouxe a plateia para ele.

Infância e adolescência vividas sob grande influência dos Estados Unidos, tinha naquele país, no seu cinema, na sua música, as minhas referências.

Desde cedo, Gary Cooper, John Wayne, Rock Hudson, Elizabeth Taylor, Elvis Presley (graças a ele, para mim o Havaí era o paraíso na terra), Frank Sinatra, Jonnhy Mathis… eram os meus artistas preferidos.

Nenhum brasileiro.

Mas já na adolescência, Elis Regina e Jair Rodrigues (o inesquecível “Dois na Bossa”), Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano, Gil, Gal, Bethania, Tom, Vinicius, Gonzaguinha… começavam a aparecer na minha vida.

O cinema brasileiro só tempos depois, quando já entrara na vida adulta.

Eu começava a nascer para mim mesmo.

E quando se nasce para si mesmo, o mundo já não é o mesmo.

Entretanto, mesmo quando ainda era forte aquele traço cultural de idolatria aos Estados Unidos, ao “american way of life”, que só anos depois perceberia com clareza o que de fato significava, começava a se manifestar em mim o encantamento pela língua portuguesa.

Mesmo até hoje sendo alguém em eterno débito com ela, tenho esse sentimento.

Muitos relatam que os franceses se aborrecem quando estrangeiros procuram se comunicar em inglês na França.

Eventuais exageros dos franceses à parte, nós, que costumamos exaltar as qualidades dos outros, temos realmente muito a aprender com eles

Enquanto na França se protege o francês, aqui é grande o desrespeito à nossa língua.

Less is more.

Não, less não é more.

More is less.

More is less porque tudo que torna menor é menos.

“Minha Pátria é minha língua”, já dizia Fernando Pessoa e que Caetano pôs numa de suas belas músicas.

As agressões à língua portuguesa, nossa língua, nossa Pátria, tornam-na menos importante, menor.

Aqui menos é mais e mais é menos.

Simples assim.

Aqui, tudo será menos sempre que afrontar o país, o seu povo, a sua língua, os seus costumes, os seus hábitos, a sua soberania.

Aqui tudo será mais sempre que enaltecer o nosso povo, a nossa cultura, o nosso modo de ser, de falar, de escrever.

Aqui tudo será mais sempre que elevar a nossa autoestima.

Aqui tudo será mais sempre que ratificar a nossa soberania.

Eu não pediria a Nelson Rodrigues, pernambucano que se tornou carioca e torcedor do Fluminense, para emitir uma opinião sobre essa questão.

Apaixonado pelo futebol e conhecedor do seu povo, ele era chegado a opiniões muito fortes.

Foi ele quem disse que o brasileiro tinha “complexo de vira-lata”.

Mas, apesar de brilhante, certamente Nelson Rodrigues não era um Fernando Pessoa.

Nem tinha a leveza de Ariano Suassuna.

Suassuna perguntaria; meu filho, por que você não usa a beleza e a riqueza da sua língua. Você sabia que ela é tida como uma das mais ricas e belas?

Suassuna diria:

“Oh, depois da minha conversa com vocês vai ter uma palestra danada de boa. Vejam só o título; ‘Menos é mais’. Enigmático, não é? Não parece interessante? Até eu vou ficar para assistir”.

Não sei quantos sabem que ele era um ferrenho defensor da língua portuguesa e fazia disso uma luta diária.

Talvez por pensar como Fernando Pessoa e achar que sua língua era sua Pátria.

Bobagem.

Just my two cents.

Deuses importunados

Chico Buarque 2

Por Ronaldo Souza

Chegara a minha vez.

Distraído, sem levantar a cabeça ponho os 2 produtos para que a moça do caixa registre o valor e eu possa pagar.

Cartão já para inserir na “maquininha”, só aí me dei conta de que não tinha dado boa tarde a ela.

Cumprimentei-a então e pedi desculpas tentando me justificar.

– Estava tão distraído que não falei com você. É que estava lendo aqui (no celular) que mais um imbecil agrediu Chico Buarque (acho que precisei desabafar).

– Ah, o poeta, ela respondeu.

– Não, ele é cantor.

Tinha entrado na conversa uma jovem de cerca de 30 anos, bonita, bem vestida, a próxima da fila a chegar ao caixa.

– Eu sei, falei poeta porque ele tem coisas bonitas. É um poeta!

Respondeu a caixa.

A nossa mania de pré-julgar.

Espantei-me que uma caixa de supermercado sabia quem era Chico e a mocinha bonitinha e bem vestida não sabia.

“Cantor”.

Sei que ele é também cantor.

Mas na cabeça dela, da mocinha bonitinha, Chico era um “cantor”.

Percebe?

Pablo é cantor, Fábio Júnior é cantor, Michel Teló é cantor, Wesley Safadão é cantor, Durval Lelis é cantor…

Fico com a caixa.

Poeta.

O novo imbecil que agredira a família Buarque é um colunista.

Tinha entrado no Instagram da filha de Chico, Silvia Buarque, que postou uma foto dela com a irmã e o pai, o “cantor”, e agredira a família.

“Família de ladrões” e mais um monte de asneiras.

Entram no Instagram ou no face book de alguém e, gratuitamente, agridem.

Geralmente carregadas de grande teor de inteligência, sensibilidade e profundo conhecimento sócio-político, as ofensas obedecem a um padrão:

“Você é um idiota”.

Esses microcéfalos se reproduzem disseminando um Zika vírus específico que ataca o cérebro de jovens e adultos.

Saíram dos teclados e foram para as ruas, avenidas, restaurantes, hospitais, velórios, maternidades para agredir os que pensam, os “idiotas”.

Parece haver um comando de caça aos “idiotas”.

Nem o “cantor” escapou.

Com derivações que vão pelo mesmo caminho e com a mesma profundidade:

“Você é petista e petista é merda”.

E todos eles estavam ali, naquele momento, agredindo Chico.

Todos se viram representados naquele momento de glória em que, ao interpelar Chico, viram-se no mesmo andar dele.

Sem fazer a menor ideia de quem é aquele “cantor”.

Diz a Bíblia que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.

Adão teria sido então o primeiro homem a mostrar o fracasso da tentativa de Deus.

Lembro de uma das respostas de Miguel Nicolelis, cientista brasileiro, um dos maiores do mundo na área de Neurologia, quando lhe perguntaram se Deus existe.

– Não, para a Ciência não existe Deus. Para a Ciência existe Ciência.

Será sempre difícil falar de Deus

Mas talvez não dos Deuses.

Da mitologia grega, por exemplo.

Existem muitos deuses, inclusive os falsos.

Os deuses de barro.

Aproxime-se um pouco mais deles e os identificará com relativa facilidade.

O desencontro que parece haver entre a aceitação da existência de Deus e a Ciência não deve ser maior que o existente entre Deus e o homem, Criador e criatura.

O homem perdeu a dimensão do que é ser grande e claro isso o tornou muito pequeno.

A noção da grandeza de espírito se perdeu na imensidão da pequenez do homem.

E como se tornou imensa a imensidão da pequenez do homem!

Mas há homens que se transformam em deuses.

Irradiam luz por onde passam, quando falam, quando calam, no gesto, na palavra simples, na atitude.

Em determinados momentos, os deuses podem, mesmo que não seja essa a intenção, num gesto simples nos mostrar toda a sua grandeza e assim nos fazer ver mais facilmente ainda a distância que existe entre eles e os mortais.

Principalmente mortais que sequer se sabem diante deles.

Mas, estando, desaparecem, sem nunca terem realmente aparecido.

Esses deuses crescem e se iluminam na discussão que não houve.

Que não deixaram acontecer.

Um “expert” perdido entre a má fé e a obtusidade – final

Por Ronaldo Souza

Estamos chegando ao final desse tema.

Como é objetivo do site desde o início, a ideia é conversarmos de maneira informal, com linguagem leve (será que light ficaria melhor?), “fugindo” daquela que se usa em textos formais, para publicação.

Apesar de ser um tema forte (o título já mostra isso), acho que conseguimos essa linguagem, mas é possível que alguém tenha tido a impressão de que eventualmente houve algum momento um pouco mais duro. Não foi essa a intenção.

Acredito, porém, que o mais importante é que tivemos oportunidade de conversar sobre alguns pontos interessantes da Endodontia e que precisam ser bem esclarecidos.

Essa parte final que você vai ler agora me deu espaço para ficar mais leve ainda.

Vamos ao último questionamento do mestre.

  1. M – Para finalizar, nao vejo relacao entre o titulo do trabalho e a conclusao do artigo. Perceba que se chama atencao para o limite apical de instrumentacao e obturacao. Contudo, nao houve diferenca entre os limites utilizados durante o tratamento inicial e o retratamento. Entao, nao ha sentido em se tentar correlacionar o sucesso do tratamento com o limite apical utilizado.

R – Amado mestre, aí é inevitável que eu peça venia para recorrer a Rolando Lero, grande personagem de Rogério Cardoso na Escolinha do Professor Raimundo.

Para beber na fonte da sapiência e sorver conhecimentos é necessário libertar-se dos grilhões da má fé e da obtusidade. Para isso amado e idolatrado guru, convido-o a vir comigo na caminhada rumo ao altar dos Deuses da Endodontia para que, em chegando lá, possamos nos inebriar com o doce vinho da inteligência.

A proposta do trabalho é ver se o limite apical da obturação tem relação com o sucesso no tratamento endodôntico.

Se eu tivesse feito um CT no tratamento e outro diferente no retratamento, um homem inteligente como o senhor, luz nas trevas endodônticas, poderia dizer; ele corrigiu o CT no retratamento e por isso deu certo.

Imagem1

Diga-me príncipe do saber!

Estaria eu errado?

Agora me acompanhe amado mestre e veja se concorda comigo. Quando os canais foram tratados estavam com polpa viva e deu “errado”; apareceram as lesões periapicais. Quando foram retratados com os mesmos limites apicais da obturação deu certo; desapareceram as lesões periapicais.

Será que eu posso dizer algo como:

Olha pessoal, parece que o limite apical da obturação não tem muito a ver com o sucesso do tratamento endodôntico.

Qual é a linha de raciocínio?

Ora, se eu usei determinado limite e deu errado no tratamento e depois usei o mesmo limite e deu certo, será que posso imaginar que o sucesso do tratamento endodôntico não tem relação com o limite apical da obturação?

O senhor não acha que somente assim, ou seja, fazendo os dois tratamentos com o mesmo CT eu poderia chegar a essa dedução?

Se disseres que sim, oh predestinado guru, serei o mais feliz dos endodontistas.

Agora veja a conclusão do trabalho:

“Results suggest that the apical limit of obturation seem to have no influence in the repair of periapical tissues in mandibular molars. Clinical studies focusing this question should be done on molars and other groups of teeth.”

Tradução ao pé da letra (literal ficaria melhor, não é?):

“Os resultados sugerem que o limite apical da obturação parece não ter influência no reparo dos tecidos periapicais em molares inferiores. Estudos clínicos com foco nessa questão devem ser realizados em molares e outros grupos de dentes”.

O trabalho não conclui, apenas sugere que parece

Amado mestre, qual seria a melhor alternativa para o senhor? Não conseguir ver o óbvio porque a visão é curta ou não ver porque não quer ver?

A primeira seria a menos ruim, afinal a ignorância costuma ser perdoada. A ausência de dignidade não.

Peço perdão pela franqueza, mas acho que o senhor não se perdeu entre uma e outra.

O senhor se abraçou com as duas.

Não sei quem observou no canto inferior esquerdo da primeira página do artigo o seguinte:

Received for publication Dec 21, 2010; accepted for publication Jan 6, 2011.

Isso significa que ele foi recebido e aceito para publicação em exatamente 16 dias (entre o Natal e o Reveillon, período em que acho que até os americanos devem pelo menos diminuir o ritmo de trabalho). Assim, é possível até que nem tenha ido para um revisor. O próprio editor, Larz Spangberg, teria então aprovado o artigo.

Já pensou se ele manda para um revisor como o mestre que fez esses questionamentos?

O artigo não teria nenhuma chance.

Em julho a publicação desse artigo completa 5 anos.

Confesso que durante algum tempo alimentei o desejo de encontrar o expert (ou devo dizer encontra-los?) em um debate, simpósio ou até mesmo que estivesse(m) na plateia de uma aula minha, para puxar essa discussão, pois acho que seria bem interessante.

Mas existe uma coisa chamada tempo, o “compositor de destinos”, como diz Caetano na sua bela música.

Ele ensina a se colocar acima de determinados acontecimentos.

E ainda que o ambiente da Endodontia não seja tão nobre quanto poderia ser, aprendi que ela está acima dos meus anseios pessoais.

Em 2014 pude mostrar isso a mim mesmo.

Mas essa… é outra história.

Quem sabe algum dia…

Contudo, começando a fechar a nossa conversa, se fui “prudente” ao dizer que o artigo “não conclui, apenas sugere que parece…, o que é recomendável em textos formais, ainda mais tratando-se de um caso clínico, posso lhe assegurar que o limite apical da obturação não é fator determinante para o sucesso.

O tratamento postado aqui (ver imagem abaixo) não foi casual. Mais uma vez, observe os diferentes níveis apicais da obturação com os mesmos resultados, isto é, cura das lesões periapicais.

Imagem 2'

Ele faz parte de outro projeto, sobre o qual me permito não fazer maiores comentários por enquanto.

A literatura esteve equivocada sim durante pelo menos 60 anos ao ensinar a obturação como fator determinante do sucesso em Endodontia.

Quantos trabalhos de conclusão de curso, monografias, dissertações, teses… já foram realizados, por exemplo, sobre cimentos obturadores?

Onde estão as evidências da imprescindibilidade do vedamento hermético?

Onde estão as evidências que comprovam a existência de vedamento hermético?

Se não há, por que insistiram em afirmar a necessidade de?

Quem e quantos investiram boa parte da sua vida como pesquisador em cima dessa concepção?

Esses trabalhos não têm valor?

Claro que tem, mas essa história precisa ser recontada.

A obturação precisa ser repensada.

E pode apostar que não demora muito e temas como “repensando a obturação” farão parte dos congressos, jornadas, encontros… pelo Brasil afora e na sequência virá o “repensando o papel da obturação”.

Mas essa também é conversa para outro momento.

Em uma entrevista à revista IstoÉ, em setembro de 2009, perguntaram a Olga Soffer, antropóloga e arqueóloga da Universidade de Illinois, co-autora do livro “Sexo Invisível”:

 – E o que está errado?

 – Não é a Ciência. Alguns acadêmicos é que são arrogantes e se esquecem da mera condição de ser humano.

É natural que todos queiramos ter o nome atrelado a um projeto de sucesso. Não há nenhum pecado nisso.

Mas há maneiras e maneiras de se alcançar um objetivo. Tentar atropelar e passar por cima de quem quer que seja só revela a dimensão de cada um. E sempre terá um preço.

Precisamos entender que o reconhecimento do sucesso de algo que idealizamos-criamos-desenvolvemos é ótimo para o nosso ego, não para a Ciência.

Para a Ciência, aquela com C maiúsculo e praticada por investigadores que possuem honestidade intelectual, não importa quem descobriu e sim que foi descoberto.

No dia que entendermos assim, deixarão de existir, ou pelo menos existirão numa intensidade menor, esses comportamentos tolos de tentar esconder uma ideia que surge, a construção de uma nova linha de raciocínio, a proposta de mudança de concepção.

Até porque não é tão simples conseguir.

Não se investe numa linha de pesquisa por anos a fio e um belo dia a pessoa acorda sugerindo um repensar, sem que aparentemente nada de novo tenha acontecido.

É possível que poucos percebam, mas percebem.

E aí nos tornamos vulneráveis.

Lixo

Por Ronaldo Souza

Ninguém que tenha o mínimo de responsabilidade faz acusações desse tipo, citando nominalmente as pessoas, inclusive poderosos como Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas e José Serra, gratuitamente, sem provas.

Por que diante de acusações tão graves contra ele e a filha, Serra só se limita a dizer é lixo, lixo, lixo???

Você sabia que Amaury Ribeiro Jr, autor do livro “A Privataria Tucana”, já ganhou os mais importantes prêmios do Brasil como repórter investigativo?

Por que eles todos e o PSDB não processam Amaury Ribeiro Jr?

Será que é porque ao processar se expõem mais ainda e tudo, provado, terá que vir a público pela imprensa?

Você sabia que diante de um processo desse tipo, o autor do livro adquire o direito de ter acesso a mais documentos?

Você sabia que foi assim que Amaury Ribeiro Jr conseguiu toda a documentação que comprova a corrupção do governo FHC (interessante, esses são sigilosos, não vazam)?

Foi processado há anos atrás por eles e graças a isso teve direito ao instrumento judicial conhecido como “exceção da verdade” e conseguiu mais documentos.

Você já ouviu falar da Ilha dos Urubus, uma ilha paradisíaca aqui na Bahia?

Sabia que várias reportagens mostraram que nos estertores (como diriam os cronistas mais antigos) do governo Paulo Souto ela foi doada a Gregorio Marin Preciado (leia uma delas aqui http://www.cartacapital.com.br/politica/ilha-do-urubu-o-paraiso-traido).

Sabia que o Tribunal de Justiça da Bahia estava tentando reverter essa doação?

Você sabe quem é Gregorio Marin Preciado?

É casado com uma prima de José Serra (é chamado de “primo” de Serra).

Sabia que Alexandre Bourgeois (genro de José Serra), Verônica Serra (filha de Serra) Verônica Dantas (irmã de Daniel Dantas e sócia da filha de Serra) estão nesse processo todo (leia aqui http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/privataria-tucana).

Sabia que nas privatizações de FHC, Gregório Marin Preciado, com uma grande dívida no Banco do Brasil, foi beneficiário de três concessionárias de energia, a Coelba (isso mesmo, a daqui da Bahia), Cosern (do Rio Grande do Norte), e Celpe (de Pernambuco)?

E está tudo documentado lá, no livro “A Privataria Tucana”.

Amaury já desafiou várias vezes, inclusive pela televisão:

“Por que vocês não me processam”?

E quando um repórter, perdido na multidão, respira fundo e consegue perguntar a FHC sobre essas coisas, o que diz o príncipe dos sociólogos?

“São questões vagas, estão querendo misturar o PSDB com o PT”…

Entende porque ficam só falando lixo, lixo, lixo…?

É mais seguro.

Adoxografia

Elogio da Loucura

Por Ronaldo Souza

Há poucos dias me flagrei pensando em medalhas, comendas e certas homenagens que vejo serem prestadas.

Nunca escondi as minhas dificuldades com coisas desse tipo. Há sete anos cheguei a escrever um pequeno texto sobre esse tema.

Com pequenas modificações, eu o reescrevi e você pode ler aqui http://localhost/wp/endo2/o-homenageado/.

Acho pouco provável que alguém pudesse ser mais feliz do que Aristóteles quando diz que “a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las”.

Uma vez ouvi o Prof. Humberto Castro Lima, fundador da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e homem de grande inteligência e cultura, dizer que já lhe era possível falar certas coisas porque a idade o colocara num patamar em que tudo, ou quase tudo, era permitido.

Ainda que não seja uma regra para todos, há sim um respeito que se adquire com a chegada da neve que tinge os nossos cabelos.

Entretanto, mesmo considerando-se a nenhuma convivência e as poucas vezes em que o vi falar, além dos cabelos brancos certamente o Prof. Castro Lima conquistou o direito de dizer quase tudo que lhe viesse à mente por outras razões e a sua trajetória está aí para confirmar.

Nos seus brilhantes discursos gostava de citar o “Elogio da Loucura”, livro de Erasmo de Rotterdam.

Enaltecendo o poder da retórica, a obra de Rotterdam se tornou um clássico da literatura universal e como tal exerceu grande influência, como por exemplo na arte da adoxografia.

Fernando Henrique Cardoso é a prova viva de que os cabelos brancos não permitem tudo.

Diria mais.

FHC em vários momentos

Fernando Henrique Cardoso é a negação da respeitabilidade que os cabelos brancos costumam trazer.

Há cerca de 10 dias, o jornalista e escritor Laurez Cerqueira escreveu um artigo cujo título era “Fernando Henrique carrega um general golpista dentro dele” (http://laurezcerqueira.com.br/488/florestan-fernandes-entrou-para-a-historia-pela-porta-da-frente-fernando-henrique-pela-porta-dos-fundos.html).

Transcrevo um trecho:

“No discurso de despedida de Fernando Henrique Cardoso, do Congresso Nacional, antes da posse para o exercício do seu primeiro mandato, estava no meio dos parlamentares, elegantemente vestido, sentado na cadeira de sempre, como um aluno disciplinado, já bastante debilitado pela doença hepática, segurando uma bengalinha, o Professor Florestan Fernandes, reeleito por São Paulo.

Fernando Henrique o viu no plenário. Pediu licença ao senador Humberto Lucena, que presidia a sessão, disse que quebraria o protocolo para cumprimentar uma pessoa.

Desceu os degraus do alto da Mesa, embrenhou-se entre os parlamentares que o assediavam calorosamente, postou-se frente ao mestre e o abraçou. Florestan desejou-lhe boa sorte e êxito no governo.

No final daquele momento, como que movido por um lampejo de confiança no ex-aluno, Florestan disse a Fernando Henrique: “Veja bem, Fernando: não crio gatos. Crio tigres”.

Disse isso sob forte emoção, certamente lembrando-se de que ele teria sido um dos professores mais influentes na formação acadêmica dele…

… Florestan teve uma conversa impactante com ele, falou sobre a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, sobre o curso de sociologia, e da importância de se formar sociólogos nas nossas universidades para ajudar nos estudos, nas pesquisas, sobretudo no desenvolvimento do pensamento e na interpretação do Brasil pelos próprios brasileiros.

Foi com base nessa conversa que Fernando Henrique decidiu fazer o exame para cursar sociologia na USP. Florestan foi professor dele, orientador no mestrado e no doutorado.

Ficaram tão amigos que Fernando Henrique mudou-se para a mesma rua que morava o mestre para conviver, frequentar a biblioteca e ouvi-lo mais. Florestan o tinha em alta consideração fraterna e intelectual.

Aquele momento de despedida de Fernando Henrique  foi marcante para Florestan, mais marcante ainda a decepção com o rumo dado por ele ao governo, que apenas se somou a outras decepções políticas acumuladas ao longo da carreira do ex-aluno presidente. Mas nada disso abalou a relação pessoal e o respeito que tinham um pelo outro.

Em 1996, Fernando Henrique havia dado um golpe na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que estava sendo debatida na Câmara, sob a coordenação do então deputado Florestan Fernandes, com apoio do Fórum Nacional de Educação.

Numa articulação comandada pelo seu vice-presidente Marco Maciel, ele aprovou no Senado o projeto de lei do governo tornando regimentalmente prejudicado o projeto de LDB da Câmara, que acabou sendo arquivado.

Esse fato deixou Florestan indignado e decepcionado, por ter sido colocado por terra anos de debate e de construção democrática, com a participação da sociedade, de uma proposta de educação que provocaria uma transformação profunda no país.

Dias depois, numa conversa sobre o golpe da LDB, ele sentado, tirou os óculos de hastes e lentes grossas, colocou-os sobre a mesa, passou os dedos nas sobrancelhas de fios compridos, e disse, referindo-se a Fernando Henrique, com todo o cuidado que tinha no trato com as pessoas: “É… Fernando está ficando politicamente irreconhecível”.

Não sei quantos sabem que FHC é filho de general, o que não quer dizer nada e que também nada tem a ver com o título do artigo de Cerqueira.

O título se reporta a outra coisa.

Trata de um homem que já algum tempo eliminou qualquer possibilidade de dúvida que ainda existisse sobre o que significa de fato o “esqueçam tudo que eu escrevi”.

Não há mais limites.

As histórias de traição de FHC às coisas e pessoas sérias que conviveram com ele são conhecidas.

Um dos seus ministros mais respeitáveis, o professor Adib Jatene, já disse mais de uma vez para quem quis ouvir que ele não cumpriu a palavra com ele. Uma das vezes em que isso ocorreu foi no programa Canal Livre, da Band.

FHC é hoje um dos poucos homens que conseguem falar de democracia e golpe na mesma frase com tamanho despudor que os fazem parecer sinônimos.

Ah, quase esquecia.

Adoxografia – Enaltecimento desmerecido sobre algo ou alguém; elogio imerecido.

É a “arte” de se fazer o elogio imerecido de pessoas ou coisas sem valor, pessoas vulgares.

A mídia brasileira se tornou um ícone na arte da adoxografia.

Indiferença cínica

Por Ronaldo Souza

Essa história é conhecida.

Joel Rennó era presidente da Petrobras no governo de FHC e usou, como pessoa física, todo o poder da empresa para sufocar Paulo Francis.

A omissão de FHC foi enorme e comentada à época.

“Ele retirou a ação?”

A essa altura da vida, o ex-presidente da república não saber se uma ação movida nos mais altos escalões do seu governo, do presidente da maior empresa do país (que ele tentou privatizar) contra um dos mais renomados jornalistas do país é covardia ou cinismo? Ou os dois juntos?

Essa “indiferença” de FHC é uma ofensa ao Brasil.

Os depoimentos no vídeo confirmam o que sempre se comentou. Foi um verdadeiro assassinato.

O que restou da época é que Paulo Francis estaria certo, só errou na forma como abordou a questão.

E a FHC restou a reconhecida falta de comando.

E dizem que é um estadista.

– Ele retirou a ação???

O homenageado

Aristóteles

Por Ronaldo Souza

Não me lembro de tê-lo visto de perto. Conhecia-o muito de nome e tinha natural curiosidade pelas suas coisas porque era padrinho de um amigo da adolescência.

Era um político local com alguma influência (todos eles têm “alguma” influência).

Homem violento, tinha um “anjo da guarda”, que alguns chamavam de capanga (pura inveja, maldade do povo) e resolvia muitas das suas pendências à bala ou na porrada (através do “anjo da guarda”).

Um dia, vejo-o na televisão recebendo uma dessas medalhas que se distribuem pela vida.

Aquela me chamou a atenção. Não lembro exatamente o nome, mas era algo como “Mérito ao Pacificador”.

Não tive um infarto porque, saindo da adolescência para a fase adulta, as coronárias ainda não apresentavam nenhuma possibilidade de aterosclerose e suportavam qualquer tranco.

A partir daquele dia, boa parte da minha inocência de menino do interior (a minha querida e sofrida Juazeiro, da Bahia) foi-se embora e perdi quase que por inteiro o respeito por medalhas, comendas, etc.

Por isso já recusei. Houve quem não gostasse.

Medalhas, comendas, títulos de imortalidade, são dados graciosamente. Hoje fazem parte de qualquer solenidade que se pretende um pouco mais pomposa.

Valor?

Deixo a seu critério.

Segundo Aristóteles, “a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las”.

Espantosamente medíocre ou Juiz Moro e Lava Jato e a desmoralização definitiva

Gatos que investigam2

Por Ronaldo Souza

Mesmo nos seis dias que passei fora de Salvador com a minha família no período da virada do ano, li e escrevi. Na verdade, em todo esse período de férias da faculdade praticamente não fiz outra coisa além de ler e escrever.

Todos os dias, invariavelmente, só parando para fazer a caminhada no começo da noite.

Ocorre que foi basicamente sobre a minha área profissional.

Estava buscando tempo e condições para escrever algo sobre os últimos dias de 2015 e os primeiros de 2016. O tempo se tornou realmente escasso e as condições não eram exatamente as mais estimulantes.

Mesmo escasso, tempo sempre se arranja, ainda que não seja como você gostaria.

Condições que estimulem, nem sempre.

Tudo se tornou espantosamente medíocre.

De repente, como que da noite para o dia, a mediocridade se instalara em tudo que lia e via.

Foram chocantes e de profunda mediocridade as movimentações dos homens nos seus diversos segmentos da sociedade nesses últimos tempos.

Reproduzo aqui um texto sobre um artigo de Rui Daher no Jornal GGN.

Abre aspas

Sem tesão não há solução

Por Ronaldo Souza

Rui, “Sem tesão não há solução”, como dizia e escreveu Roberto Freire, o outro, o somaterapeuta, não o traste que atende pelo mesmo nome e que anda por aí, trôpego pelos becos escuros da vida com uma garrafa de whisky debaixo do braço.

Seu texto é brochante e tudo que é brochante é antitesão, permita-me e me perdoe pela redundância.

Já dei essa brochada muitas vezes, mas sempre buscava de novo o tesão.

Ultimamente, porém, tem ficado cada vez mais difícil recupera-lo, pelas mesmas razões que você expôs no seu texto.

De fato, nunca houve, não há e jamais haverá vácuo de poder.

O poder tem dono e foi ele que o ocupou em todos os momentos nesses últimos 515 anos que você fala.

Quando parecia que se ensaiava algo diferente, tudo ficou, para usar as suas palavras, espantosamente medíocre.

E é essa mediocridade espantosa que torna cada vez mais difícil recuperar o tesão.

Entretanto, por vezes tenho a sensação de que essa mediocridade espantosamente brochante traz serenidade e até um pouco de sabedoria.

Nas horas em que se vai o tesão e assume o abatimento, você se pergunta; como encarar isso?

Textos como o seu têm esse papel. Trazer junto com a pancada a percepção de que sem inteligência e sensibilidade não há solução.

Inteligência e sensibilidade serão cada vez mais importantes nessa luta.

Não foi só a Lava Jato e o seu anão (com seus anõezinhos menores ainda), todo o Brasil se transformou num circo.

Mas os anões, os que pediram para esquecer o que escreveram e os que nem isso podem pedir por razões óbvias, não cresceram, só incharam e por isso ocupam mais espaço. Mas esse circo privado é ainda mais espantosamente medíocre e a sua lona pobre e podre. Quando cair, envolverá a todos.

Essa será a luta.

A nossa luta.

Desarmar esse circo.

E homens como você são imprescindíveis nessa luta.

Fecha aspas

Escrevi esse texto há cinco dias e Rui Daher me respondeu citando o livro “Cleo e Daniel”, também de Roberto Freire (li todos dele na mesma época da minha vida).

“Não foi só a Lava Jato e o seu anão (com seus anõezinhos menores ainda), todo o Brasil se transformou num circo.

Mas os anões, os que pediram para esquecer o que escreveram e os que nem isso podem pedir por razões óbvias, não cresceram, só incharam e por isso ocupam mais espaço. Mas esse circo privado é ainda mais espantosamente medíocre e a sua lona pobre e podre. Quando cair, envolverá a todos”.

Quando disse isso no texto e falei que “a nossa luta era desarmar o circo”, havia dentro de mim uma convicção muito grande.

E, de fato, o circo está desarmando.

Veja a carta aberta de juristas brasileiros que cansaram da ilegalidade das ações do juiz Moro e sua Lava Jato.

A Lava Jato é uma Justiça à parte!

Jamais na História do Brasil advogados dessa envergadura foram obrigados a isso!

Conversa Afiada reproduz carta aberta de advogados e juristas em repúdio ao regime de supressão episódica de Direitos e garantias verificado na Operação Lava Jato:

No plano do desrespeito a direitos e garantias fundamentais dos acusados, a Lava Jato já ocupa um lugar de destaque na história do país. Nunca houve um caso penal em que as violações às regras mínimas para um justo processo estejam ocorrendo em relação a um número tão grande de réus e de forma tão sistemática. O desrespeito à presunção de inocência, ao direito de defesa, à garantia da imparcialidade da jurisdição e ao princípio do juiz natural, o desvirtuamento do uso da prisão provisória, o vazamento seletivo de documentos e informações sigilosas, a sonegação de documentos às defesas dos acusados, a execração pública dos réus e o desrespeito às prerrogativas da advocacia, dentre outros graves vícios, estão se consolidando como marca da Lava Jato, com consequências nefastas para o presente e o futuro da justiça criminal brasileira. O que se tem visto nos últimos tempos é uma espécie de inquisição (ou neoinquisição), em que já se sabe, antes mesmo de começarem os processos, qual será o seu resultado, servindo as etapas processuais que se seguem entre a denúncia e a sentença apenas para cumprir ‘indesejáveis’ formalidades.

Nesta última semana, a reportagem de capa de uma das revistas semanais brasileiras não deixa dúvida quanto à gravidade do que aqui se passa. Numa atitude inconstitucional, ignominiosa e tipicamente sensacionalista, fotografias de alguns dos réus (extraídas indevidamente de seus prontuários na Unidade Prisional em que aguardam julgamento) foram estampadas de forma vil e espetaculosa, com o claro intento de promover-lhes o enxovalhamento e instigar a execração pública. Trata-se, sem dúvida, de mais uma manifestação da estratégia de uso irresponsável e inconsequente da mídia, não para informar, como deveria ser, mas para prejudicar o direito de defesa, criando uma imagem desfavorável dos acusados em prejuízo da presunção da inocência e da imparcialidade que haveria de imperar em seus julgamentos – o que tem marcado, desde o começo das investigações, o comportamento perverso e desvirtuado estabelecido entre os órgãos de persecução e alguns setores da imprensa.

Ainda que parcela significativa da população não se dê conta disso, esta estratégia de massacre midiático passou a fazer parte de um verdadeiro plano de comunicação, desenvolvido em conjunto e em paralelo às acusações formais, e que tem por espúrios objetivos incutir na coletividade a crença de que os acusados são culpados (mesmo antes deles serem julgados) e pressionar instâncias do Poder Judiciário a manter injustas e desnecessárias medidas restritivas de direitos e prisões provisórias, engrenagem fundamental do programa de coerção estatal à celebração de acordos de delação premiada.

Está é uma prática absurda e que não pode ser tolerada numa sociedade que se pretenda democrática, sendo preciso reagir e denunciar tudo isso, dando vazão ao sentimento de indignação que toma conta de quem tem testemunhado esse conjunto de acontecimentos. A operação Lava Jato se transformou numa Justiça à parte. Uma especiosa Justiça que se orienta pela tônica de que os fins justificam os meios, o que representa um retrocesso histórico de vários séculos, com a supressão de garantias e direitos duramente conquistados, sem os quais o que sobra é um simulacro de processo; enfim, uma tentativa de justiçamento, como não se via nem mesmo na época da ditadura.

Magistrados das altas Cortes do país estão sendo atacados ou colocados sob suspeita para não decidirem favoravelmente aos acusados em recursos e habeas corpus ou porque decidiram ou votaram (de acordo com seus convencimentos e consciências) pelo restabelecimento da liberdade de acusados no âmbito da Operação Lava Jato, a ponto de se ter suscitado, em desagravo, a manifestação de apoio e solidariedade de entidades associativas de juízes contra esses abusos, preocupadas em garantir a higidez da jurisdição. Isto é gravíssimo e, além de representar uma tentativa de supressão da independência judicial, revela que aos acusados não está sendo assegurado o direito a um justo processo.

É de todo inaceitável, numa Justiça que se pretenda democrática, que a prisão provisória seja indisfarçavelmente utilizada para forçar a celebração de acordos de delação premiada, como, aliás, já defenderam publicamente alguns Procuradores que atuam no caso. Num dia os réus estão encarcerados por força de decisões que afirmam a imprescindibilidade de suas prisões, dado que suas liberdades representariam gravíssimo risco à ordem pública; no dia seguinte, fazem acordo de delação premiada e são postos em liberdade, como se num passe de mágica toda essa imprescindibilidade da prisão desaparecesse. No mínimo, a prática evidencia o quão artificiais e puramente retóricos são os fundamentos utilizados nos decretos de prisão. É grave o atentado à Constituição e ao Estado de Direito e é inadmissível que Poder Judiciário não se oponha a esse artifício.

É inconcebível que os processos sejam conduzidos por magistrado que atua com parcialidade, comportando-se de maneira mais acusadora do que a própria acusação. Não há processo justo quando o juiz da causa já externa seu convencimento acerca da culpabilidade dos réus em decretos de prisão expedidos antes ainda do início das ações penais. Ademais, a sobreposição de decretos de prisão (para embaraçar o exame de legalidade pelas Cortes Superiores e, consequentemente, para dificultar a soltura dos réus) e mesmo a resistência ou insurgência de um magistrado quanto ao cumprimento de decisões de outras instâncias, igualmente revelam uma atuação judicial arbitrária e absolutista, de todo incompatível com o papel que se espera ver desempenhado por um juiz, na vigência de um Estado de Direito.

Por tudo isso, os advogados, professores, juristas e integrantes da comunidade jurídica que subscrevem esta carta vêm manifestar publicamente indignação e repúdio ao regime de supressão episódica de direitos e garantias que está contaminando o sistema de justiça do país. Não podemos nos calar diante do que vem acontecendo neste caso. É fundamental que nos insurjamos contra estes abusos. O Estado de Direito está sob ameaça e a atuação do Poder Judiciário não pode ser influenciada pela publicidade opressiva que tem sido lançada em desfavor dos acusados e que lhes retira, como consequência, o direito a um julgamento justo e imparcial – direito inalienável de todo e qualquer cidadão e base fundamental da democracia. Urge uma postura rigorosa de respeito e observância às leis e à Constituição brasileira.

Advogados, juristas e Lava Jato

Na imagem, os advogados que assinam o manifesto

Um “expert” perdido entre a má fé e a obtusidade 3

Imagem 2

Deixei para trazer as imagens desse caso neste momento (não fazem parte do artigo que está sendo discutido) porque vamos usa-la para este texto e o próximo, que deverá encerrar essa série.

Veja inicialmente a imagem acima do incisivo lateral superior direito e perceba a lesão periapical e a reabsorção apical na figura A e o canal tratado na figura B, onde a reabsorção apical pode ser vista com maior clareza.

Não tenho nenhuma dúvida de que o nível dessa obturação seria condenado pela grande maioria dos endodontistas.

Acompanhe agora na imagem abaixo a sequência do tratamento do referido dente e também do retratamento do incisivo central superior direito. Observe o nível da obturação do incisivo lateral (Fig. C), compare com a do incisivo central (Fig. E) e veja as duas juntas em radiografia de acompanhamento, já sem as lesões periapicais (Fig. F).

Imagem 2'

Os dois dentes apresentavam lesão periapical e os limites das obturações são diferentes.

E a lesão desapareceu nas duas situações.

Tem a ver com limite da obturação?

Qual é o detalhe?

Nos dois casos foi feita a instrumentação do canal cementário (Figs. B e D). Em outras palavras, o controle de infecção foi realizado em toda a extensão do canal.

Você concorda se eu disser que se a obturação do incisivo lateral fosse feita no mesmo nível em que foi feita a do incisivo central poderia haver grande extravasamento de material obturador para os tecidos periapicais?

Serah que curou mesmo? Soh a CBCT para dizer….

Curou sim.

Pode ser que o expert precise da CBCT e de um imaginologista para dizer a ele que curou.

Só tenho a lamentar por essa postura.

Além disso, a cura não envolve apenas imagem.

Envolve também conhecimentos de fisiopatologia. Fica aqui a sugestão.

Não serão raras as vezes em que os endodontistas irão precisar da tomografia para se orientarem melhor em determinadas situações, mas, do jeito que as coisas andam muitos vão terminar acreditando nesse tipo de orientação de que “soh a CBCT para dizer….

Por saber que essa cobrança absurda existe, consultei a tomografia (Figs. G e H).

O que ela me disse?

A mesma coisa que a radiografia tinha dito.

Não tem mais lesão.

Compare agora as duas imagens abaixo (Figs. A e B).

Imagem 2''

Vendo a reabsorção apical em A e depois a imagem do mesmo segmento do canal em B, será que eu preciso de uma tomografia e de um radiologista para me dizer que a imagem sugere que está havendo mineralização onde havia reabsorção apical, ou seja, formação de selamento biológico?

O que pode ocorrer se fizermos uma tomografia naquele mesmo momento? Ela pode até mostrar que o selamento biológico ainda não está completo, mas negar a informação radiográfica é diferente, não é?

Seria algo como observar esse acontecimento sob a luz do microscópio. A depender de quando se olha, a mineralização tecidual pode estar em estágio menos ou mais avançado.

Só para ilustrar, no momento em que foi feita a radiografia em B a paciente tinha acabado de concluir a sua correção ortodôntica.

Encerremos por enquanto esse caso (até porque ele está sendo preparado para outro momento) e voltemos à discussão anterior.

  1. In the present case, the root canals were probably contaminated at some point during the first endodontic treatment, resulting in development of periapical lesions.

M – Concordo com esta suposicao, mas um outro fator deve ser levado em consideracao. Pode ser que o primeiro tratamento nao tenha de fato promovido a limpeza adequada. Isto eh facilmente percebido pela qualidade da obturacao do tratamento inicial (ruim) e do final (dentro de um padrao de especialista). Em outras palavras: uma obturacao de qualidade eh reflexo de uma adequada instrumentacao.

R –  “A imaginação é mais importante do que o conhecimento”.

Essa frase é de Einstein e de grande sutileza e inteligência, o que vindo de Einstein não constitui, claro, nenhuma surpresa.

No texto anterior deixei uma pergunta no ar.

“Em ciência, quem elucida os mistérios?”

Mas antes de entrar na questão, vou pedir permissão a você que me lê para inserir um breve texto de Rubem Alves:

“Urubus e sabiás

Por Rubem Alves

Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam… Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranquilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás… Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente…

— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás…

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.”

Deixei aquela pergunta no ar porque vivemos em um meio muitas vezes pobre de imaginação e o grande problema é que somente a imaginação pode elucidar algumas coisas.

Ao contrário do que muitos pensam, não são as técnicas que elucidam os acontecimentos incomuns.

Lamentavelmente, porém, não é muito comum dar-se espaço à imaginação na Endodontia.

Às vezes estamos tão ligados nos resultados, números, estatísticas, que enquanto os vemos não vemos.

Talvez alguns não percebam como é comum publicar evidências evidentes.

Quando a Endodontia é ensinada como muitas vezes tem sido, ela fica pobre e jamais a pobreza mental/intelectual permitiu elucidar acontecimentos que fogem do padrão.

Mas voltemos ao mundo real. Sejamos pragmáticos e sigamos os protocolos.

Em primeiro lugar a “limpeza adequada” na polpa viva é pura e simplesmente a remoção da polpa. Não há necrose pulpar, não há infecção e por isso o sentido que se dá à limpeza em Endodontia tem uma conotação bem diferente em tratamento de canais com polpa viva e com polpa necrosada, particularmente os casos que apresentam lesão periapical.

E aí, na sequência, o expert se perde completamente quando diz:

“Pode ser que o primeiro tratamento nao tenha de fato promovido a limpeza adequada. Isto eh facilmente percebido pela qualidade da obturacao do tratamento inicial (ruim) e do final (dentro de um padrao de especialista)”.

Nada disso.

Nem o inicial está “ruim” nem o final “dentro de um padrão de especialista”.

Qual é o papel da obturação?

Selar o espaço anteriormente ocupado pela polpa e agora vazio.

Mas vou ficar devendo essa e colocar aqui o número 1. Além disso, vou puxar a sua frase “uma obturacao de qualidade eh reflexo de uma adequada instrumentaçãopara lhe dizer que não necessariamente é assim.

É outro erro que se comete por não usar a imaginação e sim o que parece óbvio.

Mas prefiro tratar desse assunto em outro texto e vou colocar aqui o número 2.

O que chamei de número 1 e 2 vai merecer um texto à parte, que irei escrever e também postar aqui no site.

Sendo assim, vamos adiante e tocar, por enquanto, somente em outros pontos.

Observe melhor e veja se o limite apical da obturação do canal distal no retratamento (Fig. F) não está mais aquém do que quando foi tratado inicialmente (Fig. C)?

Imagem1

Ou seja, quando eu tratei a polpa viva com o limite da obturação um pouco melhor deu errado e quando o limite do retratamento com lesão periapical foi um pouco pior (mais aquém) deu certo.

Percebeu? Tratando de uma polpa viva (sem infecção), o limite mais adequado da obturação não deu certo. Quando retratei com lesão periapical (portanto, com infecção), o limite inadequado da obturação deu certo.

Mas, além disso, o expert também não percebeu que há um desvio na porção final da obturação mesial e no tratamento inicial (ruim) não há.

Ainda que o expert não tenha percebido, tanto que classifica o retratamento como dentro de um padrão de especialista, observe que o desvio é flagrante.

Mas esse equívoco também é compreensível.

Ele se deixou levar por algo muito comum entre os endodontistas; a associação de alargamento à qualidade do preparo do canal, coisas bem diferentes.

Sabe aquela história do “ah, foi bem alargado, veja como ficou bonito”? Foi isso.

Ele não percebeu um desvio flagrante, passou batido.

Talvez isso mostre que o estudo da anatomia dental sem a devida percepção configura uma grande lacuna. E a percepção é reflexo da imaginação.

Lembram que falei lá atrás do Prof. Pécora?

Como sabemos, ele também estudou muito anatomia.

Mesmo sem os recursos atuais (estudo em Micro-CT, 3D, esses avanços fantásticos), o trabalho dele até hoje está por aí.

O “problema” dele era a percepção! Poucas vezes vi igual.

Mas nem sempre é assim.

Obs. Este texto terá continuação.

Libertação do futebol brasileiro

Libertação do futebol brasileiro

Por Ronaldo Souza

Já conversamos aqui sobre a renovação do acordo feito pela Globo e os clubes brasileiros para transmissão exclusiva dos Campeonatos Brasileiros de 2016 a 2018.

O prejuízo para os clubes foi demonstrado à época.

Já se sabia com antecedência que a Record estava com uma proposta financeira muito melhor do que a da Globo.

A Vênus Platinada então saiu da disputa oficial e durante as noites escuras do futebol brasileiro arquitetou o plano para ter os clubes ao seu lado, tarefa, aliás, muito fácil.

O único time que tentou resistir até o final foi o Atlético Mineiro, cujo presidente era Alexandre Kalil, mas, sozinho, não conseguiu. Ao contrário, o seu rival Cruzeiro foi um dos primeiros a aderir. O presidente era Zezé Perrela, muito ligado à Rede Globo.

Sim, aquele mesmo do helicóptero com meia tonelada de pasta base de cocaína.

O trenzinho da alegria também passou pela Bahia. O Bahia (o presidente era Marcelo Guimarães Filho, o destituído) e o Vitória (o presidente era Alex Portela) também aderiram de imediato.

A Globo ganhou mais força ainda e os times perderam. O dinheiro que os clubes receberam foi bem menor do que receberiam pela proposta da Record.

Era o caso de as torcidas perguntarem:

Presidente, por que o senhor preferiu um contrato em que meu time ganha menos?

Mas elas, as torcidas, não ficaram sabendo.

Por que?

Porque a mídia não pensa no futebol brasileiro e sim nos seus interesses.

E a notícia, claro, foi abafada.

Corinthians e Flamengo foram os beneficiados.

Todos sabem, e isso já foi denunciado várias vezes, que um diretor da Globo participa das reuniões da CBF e é ele quem determina como e quando serão os jogos (numa tentativa de ficar de fora da descoberta dos recentes escândalos de corrupção da FIFA e CBF – pausa para rir – a Globo o afastou recentemente).

Todos sabem também que no acordo há flagrantes prejuízos ao futebol brasileiro e aos torcedores, como os horários dos jogos, que são empurrados goela abaixo principalmente por causa das novelas da Globo.

Todas as torcidas deveriam se engajar nesse movimento, porque os seus times terão mais dinheiro e verão uma distribuição mais justa.

O próprio Flamengo sabe que na alternativa que está surgindo ganhará ainda mais do que ganha com a Globo e por isso já faz parte dela.

Volto à Bahia.

Talvez fosse interessante a torcida do Vitória também se engajar nessa luta. O Vitória não faz e é possível que não venha a fazer parte do grupo que pretende tirar o futebol brasileiro dessa situação em que se encontra. Se isso realmente acontecer corre o risco de ver o bonde passar. Ela deveria procurar saber, por exemplo, porque o seu time está fora disso. Acredito que encontrará a resposta com relativa facilidade.

Os times que já fazem parte do movimento estão na imagem. Coloquei-os em ordem alfabética.

Com o seu poder e com os dirigentes de clube e políticos que temos (vai ser um jogo pesado e sujo que vocês já imaginam qual será), a Globo mais uma vez vai fazer o impossível para derrubar o que já está em andamento.

Veja na matéria abaixo como estamos diante de uma nova chance de corrigir tudo isso.

Modesto peita Globo e faz campanha para fechar com Esporte Interativo

FootStats

A relação entre Santos e a Globo nunca foi das melhores. O clube e seus torcedores se sentem boicotados há anos pela detentora dos direitos de transmissão do futebol no Brasil. Ano passado, quando o canal preferiu passar um filme a mostrar a única partida do dia, uma decisão entre Santos e XV de Piracicaba, pelas quartas de final do Campeonato Paulista, a paciência se esgotou para muitos. Por essas e outras, os torcedores alvinegros costumam atacar a empresa com cânticos ofensivos nas arquibancadas. Agora, Modesto Roma Júnior quer quebrar essa parceria de vez e se juntar ao grupo de clubes que pretende assinar um novo acordo com o canal Esporte Interativo.

“Estamos negociando o direito de TV. Se a Globo para R$ 60 milhões e eu tenho uma proposta de R$ 450 milhões, tenho de estudar. Vou sofrer pressão, sim. Mas eu posso fazer negócio. Tanto posso que estou acertando. Estamos falando da Esporte Interativo, que é ligada á Turner, que é da Time Warner. Vamos em frente”, explicou o presidente santista à Rádio Jovem Pan.

O Esporte Interativo, canal de TV fechada, só pode assinar acordos com validade de 2019 em diante, já que antes disso todos têm contratos com a Globo. Mas, as negociações já começaram e Modesto revelou a preocupação da atual dona dos direitos de transmissão.

“É lógico que eu já fui chamado para um jantar. E é lógico que outros clubes já foram chamados também. ‘Veja bem. Veja o que vocês vão fazer. Nós somos parceiros há muito tempo’. É um momento, realmente, que a gente tem de enfrentar. Vai ser fácil? Não, não vai ser fácil. Nós vamos ser criticados, crucificados. Vão ser anos de chumbo para nós. Veja, eu tenho mais dois anos e, se quiserem xingar, xinguem, se quiserem denegrir, denigram. Eu vou à luta. Eu tenho um clube para dar satisfações. Não tenho de agradar a mais ninguém”, avisou Modesto.

“A questão básica é que precisamos ter neste grupo oito clubes. Temos nove. Internacional, Grêmio, Coritiba, Atlético-PR, Santos, Fluminense, Bahia. E está entrando São Paulo e Flamengo”, contou o mandatário. “Acertando os direitos de TV, teremos bônus. Temos um prazo até 31 de janeiro para definir. Estamos criando a associação dos clubes e há uma reunião na semana que vem para isso. E agora, nesta quarta-feira (hoje) teremos reunião com o jurídico, no Rio de Janeiro”, revelou.

Modesto Roma Júnior entende que a oportunidade pode ser única e faria com que a Globo apresentasse novas formas de concorrer com o mercado. O presidente do Peixe é um fervoroso crítico de como a empresa divide as cotas, com ampla discrepância de Corinthianse Flamengo para os demais.

“O ideal é que se mude uma coisa: que o direito do jogo passe a ser do mandante. Seria muito melhor. Imagine o dia que um time pequeno negociar seus jogos contra Santos,Corinthians, Flamengo. Terá muito mais poder e dinheiro para sair do aperto. Não é preciso negociar com as duas pontas. Eu negocio a minha, o clube B negocia a sua. Um baita avanço. Mas manter tudo nas trevas parece ser uma coisa bem mais tranquila”, concluiu Modesto Roma Júnior.