FHC, mídia e elite: incompetência no mais alto nível

FHC: A impotência da mídia para impor um “legado”

Por Luiz Carlos Azenha, no VIOMUNDO

O grau de cumplicidade ideológica entre Fernando Henrique Cardoso e os barões da mídia brasileira é enternecedor. O sociólogo tem passe livre: espaço assegurado para apresentar suas ideias em colunas, entrevistas, artigos de opinião.

Esta identidade foi forjada numa suposta necessidade de “modernizar” o Brasil, “arejar suas ideias”, desfazer-se do legado estatista e atrasado do trabalhismo getulista.

O que os militares pós-golpe de 64 fizeram pela força ao combater a “república sindicalista” FHC faria através do consenso midiático, para livrar das amarras o espírito animal do capitalista brasileiro.

Conversa para boi dormir: foi o dinheiro público injetado nas privatizações que permitiu a sobrevivência daquele “espírito animal”, às custas do patrimônio de todos. Ganhou o capital internacional, o capital nacional associado a ele e, obviamente, a mídia, seja por benefícios econômicos diretos ou indiretos.

Esta cumplicidade entre FHC e os barões da mídia só fez crescer depois do início da era Lula. O sociólogo passou a ser, a partir de 2002, um instrumento ao qual se recorreu com frequência com o objetivo de desconhecer os avanços sociais obtidos pelo Brasil sob o lulismo.

O PT teria apenas colhido os frutos de políticas adotadas anteriormente, sua grande virtude teria sido administrar o legado de FHC — é o que ouvimos no passado e continuamos ouvindo no presente, obedecendo a padrões mais ou menos sutis de distorção das estatísticas.

O cômico da situação acima narrada é que o “povo”, supostamente beneficiado pelo legado de FHC, se nega terminantemente a reconhecer o sociólogo — num fracasso que deixa óbvia, também, a incapacidade da própria mídia de falar para fora dos “seus”.

É como se os estratos excludentes da sociedade brasileira vivessem num universo paralelo, como o cachorro que morde o próprio rabo.

Um glorioso abraço de afogados.

Obs do Falando da Vida. Veja no gráfico abaixo (retirado da pesquisa do DataFolha) como 58% da população não votariam em candidato indicado por Fernando Henrique Cardoso.

A mídia até hoje quer convencer a população que ele é o máximo e a população até hoje continua achando que ele é um embuste. 

 

Malandro demais vira bicho

Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho

Há dias que um samba do Bezerra da Silva toca na minha vitrola interior. “Eu já disse a você que malandro demais/ vira bicho”, cantava o inesquecível filósofo das favelas. A letra é uma advertência àqueles que falam demais, contam vantagem e se acham o centro do mundo. E conclui que o sujeito, na verdade, é um “tremendo fim de festa, um pisa na bola, um zé mané”.

Não tem como deixar de pensar na nova dupla dinâmica da política nacional: Marina Silva e Eduardo Campos.

De início, achávamos que Eduardo havia dado uma tacada brilhante, mas que Marina seria apagada e oprimida pela contradição de se mostrar tão ávida pelo poder a ponto de entrar num partido como PSB, legenda que jamais teve qualquer protagonismo no debate ambiental e se notabilizou, nos últimos anos, pelo mais escancarado pragmatismo político de que se tem notícia.

O PSB cresceu, aliás, na esteira desse pragmatismo. Aliando-se ao PT aqui, ao PSDB acolá. Eduardo Campos, quando iniciou suas articulações, também se notabilizou pela incrível desenvoltura com que se aliou aos nomes mais tradicionais do antipetismo – e isto ainda participando do governo petista e aliado aos petistas em seu estado.

Pouco antes de Marina se juntar a Campos, o pragmatismo socialista atingira seu apogeu, com a filiação de Heráclito Fortes e Paulo Bornhausen, e a adesão entusiástica de Ronaldo Caiado a seu projeto.

É justamente neste momento que chega Marina, unindo-se ao PSB numa pirueta absolutamente… pragmática. Mais que isso, numa pirueta inacreditavelmente antidemocrática e voluntarista, visto que ela decide sozinha atrelar a Rede ao PSB. Toda aquela historinha de um novo fazer político, de ativismo autoral, horizontalidade, política em rede, se esvai na primeira dificuldade. Mais importante que os princípios é a perspectiva de poder. O poder pelo poder.

E ai de quem criticar! Na contramão do seu falso discurso paz e amor, acima das polaridades, Marina não hesitou em lançar calúnias contra quem não partilha de suas ideias, ao sugerir que todos que a criticam recebem “verba pública”. Ela criou uma nova polaridade: marineiros do bem X militantes do mal.

A coisa, no entanto, é muito pior. Ao perder a votação no TSE, Marina Silva envereda por um caminho sinistro. Ao invés de, humildemente, admitir que falhou, ao deixar para recolher assinaturas em cima da hora, a ex-ministra opta por desqualificar a justiça eleitoral, uma das raras instituições públicas que os vira-latas, até então, jamais ousaram criticar.

Marina se acha tão boa, tão importante, tão perfeita, que se considera acima da justiça eleitoral, a qual deveria se curvar à sua magia. Malandro demais, dizia Bezerra, vira bicho…

Ela está acima dos partidos, da política e da lei. Paira num olimpo ético tão imaculado, tão higiênico, que pode se dar ao luxo de aderir, oportunisticamente, a uma legenda tão suja, pragmática e contraditória como qualquer outra do sistema partidário brasileiro e se manter pura como um suíno fantasmagórico a vagar incólume por um chiqueiro enlameado.

Como íamos dizendo, a impressão inicial, de que a novidade era uma cartada genial de Campos se desfez, dando lugar a uma outra, bem menos positiva ao pernambucano. Quem parece ter sido esperta mesmo foi Marina. Em questão de dias, ela engoliu Eduardo Campos, inclusive traindo sua promessa de apoiar a candidatura “já posta” do socialista. Ela conseguiu dar outra pirueta e agora é ela, não Campos, a candidata do PSB.

Pior, Marina passou subitamente a dar as cartas na legenda, transformada do dia para noite numa agremiação “marineira”. Seu ataque à Ronaldo Caiado gerou um prejuízo enorme a Campos, porque colou nele a imagem de um político volúvel e desleal. Seria natural que houvesse mudanças nos arranjos após a entrada de Marina. Mas esse tipo de coisa se faz com cuidado, após debates internos, alguns privados, outros públicos. Marina chegou dando ordens ao PSB, pelos jornais!

O dano foi grande porque o PSB não perdeu apenas Caiado, que aqui entre nós não vale nada mesmo. Ele perdeu o agronegócio inteiro, ou seja, o setor econômico mais importante e mais dinâmico do país. Todas as lideranças rurais assistiram, estupefatas, a grosseria de Marina contra Caiado. Grosseria sim, porque foi Campos quem procurou Caiado. Foi Campos quem prometeu o Ministério da Agricultura a Caiado. E daí, de um segundo para outro, ele rifa o seu principal aliado no Centro-Oeste? O que ele fez com Caiado, à direita, pode ser feito a qualquer aliado à esquerda. Basta Marina dar uma entrevista aos jornais.

Marina já está usando sua vantagem nas pesquisas de intenção de voto para se impor monocraticamente ao partido, sem necessidade de negociar politicamente. E isso tende a piorar.

No mesmo dia em que Campos perde o apoio do agronegócio, que apesar de ser ideologicamente conservador, é ao menos um setor ligado à produção, à segurança alimentar, ao comércio exterior, no mesmo dia a imprensa nos informa que Marina irá apresentar Campos a executivos do banco Itaú, seu principal patrocinador.

Ora, quer dizer que os “sonháticos” rejeitam os fazendeiros, mas caem de amores pelos banqueiros? Elas por elas, os bancos são infinitamente piores que os produtores rurais. Estes são conservadores, mas plantam a soja e o milho que alimentam vacas e frangos que suprem necessidades protéicas do Brasil e do mundo. Os fazendeiros são contra os juros altos, porque dependem de financiamentos bancários. Os banqueiros são A FAVOR dos juros altos, porque vivem de rendas. Os fazendeiros, mal ou bem, são nacionalistas, ligados à terra, e querem obras de infra-estrutura, para escoarem suas safras. Os banqueiros são ligados apenas ao capital, independente de sua nacionalidade, e não se importam com obras, porque o dinheiro não precisa de estradas, ferrovias ou portos.

Ao rifar o agronegócio para se aliar ao Itaú, Campos dá um passo decisivo na direção do rentismo, que é, seguramente, o pior tipo de parasita da nossa economia.

Datafolha: Dilma cresce e venceria no 1º turno

Por Miguel do Rosário, no blog Tijolaço

primeira pesquisa eleitoral realizada após a “fusão” entre Campos e Marina é uma ducha de água fria nas pretensões da oposição.

Realizada na sexta-feira, uma semana após Marina Silva se filiar ao PSB com objetivo, segundo palavras dela própria, derrotar o “chavismo do PT”, a sondagem do Datafolha mostra quase uma reviravolta no quadro eleitoral.

Em favor de Dilma.

Surpreendendo as análises mais otimistas, a presidente ampliou sua vantagem sobre os adversários. Ao final de agosto, a melhor performance de Dilma no Datafolha era de 35%. Agora tem 42%, o que corresponde a uma vitória tranquila no primeiro turno. Aécio e Campos somados tem 36%.

Comentários de Fernando Brito, no blog Tijolaço:

… diz o próprio jornal “os números de ontem sugerem que o espólio eleitoral de Marina foi dividido de forma quase idêntica entre Dilma, Aécio e Campos. A petista teria herdado 7 pontos; o tucano, 8; o socialista agora apoiado por Marina, 7″.

Portanto, ainda assim, com rede de TV, e “overmídia”, menos de um terço dos possíveis eleitores de Marina vão para Campos, apesar de, em tese, não faltar informação sobre o (será mesmo?) apoio da ex-senadora ao pernambucano.

(Eduardo) Campos registra uma rejeição desproporcional a seu grau de conhecimento. 25% dos entrevistados o rejeitaram, o que talvez reflita o sentimento crescente de que Campos tenha “traído” seu maior padrinho eleitoral, o ex-presidente Lula.

Portanto, uma leitura atenta destes dados, filtrada pelo “ainda assim” que fica evidente, mostra que Aécio e Campos saíram como os derrotados desta rodada. E Serra e Marina prontos para continuar a exercer as pressões sobre seus “candidatos postos” pelos métodos que sabemos.

E Dilma, ainda sem Lula ter acendido o farol de seu prestígio para guiar o eleitor, segue tranquila, com lastro para enfrentar a tempestade de mídia que vem pela frente.

O Datafolha? O Datafolha, perdoem-me o chulo do ditado, só comprova o jocoso chiste sobre a estatística ser como a minissaia: mostra tudo, mas encobre o essencial. 

Vox Populi: Eduardo Campos não existe para o Nordeste

É do conhecimento de todos que o atual governador de Pernambuco, Eduardo Campos, teve em Lula e Dilma dois presidentes que lhe deram total apoio para que fizesse um bom governo. O que se diz é que Eduardo Campos foi feito por Lula.

Segundo o site Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, a foto acima é de quando Lula e Dilma faziam campanha para Campos lá em Pernambuco.

O que muitos consideram como traição, motivada pela vaidade e ambição desmesuradas, Campos é candidato a presidente da república pelo PSB, tendo Marina como vice (veja aqui, aqui e aqui).

Mesmo juntando-se a Marina, que possui percentuais quatro vezes maiores do que ele nas pesquisas, não parece ter sido uma iniciativa feliz de Eduardo Campos. Há quem afirme que, na verdade, por só agora se conhecer melhor o perfil de Marina através das suas recentes declarações e dos próprios parceiros dela no projeto da Rede Sustentabilidade (arrogante e fundamentalista, entre outras coisas) ele só está trazendo problemas para ele.

A imprensa já chegou a coloca-lo como forte no Nordeste.

Já escrevi aqui no site que quem pensa que Eduardo Campos terá grande votação no Nordeste, não conhece bem esta região do país.

Recentes pesquisas feitas pelo Instituto Vox Populi, às quais o blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, teve acesso confirmam: ele não existe para o Nordeste. Veja.

CEARÁ
Dilma Rousseff (PT) 64%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 13%
Aécio Neves (PSDB) 6%
Eduardo Campos (PSB) 2%
Ninguém/Branco/Nulo 10%
NS/NR 5%

PARAÍBA
Dilma Rousseff (PT) 51%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 17%
Aécio Neves (PSDB) 9%
Eduardo Campos (PSB) 6%
Ninguém/Branco/Nulo 12%
NS/NR 5%

ALAGOAS
Dilma Rousseff (PT) 77%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 8%
Aécio Neves (PSDB) 3%
Eduardo Campos (PSB) 1%
Ninguém/Branco/Nulo 7%
NS/NR 4%

SERGIPE
Dilma Rousseff (PT) 50%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 15%
Aécio Neves (PSDB) 7%
Eduardo Campos (PSB) 4%
Ninguém/Branco/Nulo 14%
NS/NR 11% 

Surge a nova Rede: RVPT

No restabelecimento da democracia, após a longa noite de trevas da ditadura militar, lá estavam o MDB e a Arena, este com origem na própria ditadura. Com o tempo o MDB se transformou em PMDB, a Arena em PFL, depois em DEM (em processo de extinção) e foram surgindo PT, PTB, PDT, PSDB (respira por aparelhos) e tantos outros.

O Brasil se notabilizou então pelo surgimento de diversos partidos políticos, na maioria das vezes com objetivos bem claros e escusos. Hoje, são 32 partidos.

Apesar de discordar completamente de Juracy Magalhães (político cearense que fez carreira na Bahia), quando disse que “tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, cabe uma comparação, só para nos situarmos; nos Estados Unidos existem dois partidos; Democratas e Republicanos.

Aproveito e abro um parêntese. Juracy Magalhães, avô de Jutahy Magalhães Jr. (mais um neto na política, PSDB-BA), com aquele pensamento “progressista” de colonizado, hoje seria tranquilamente avô político de muitos desses netos que andam por aí na cena política brasileira.

Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, um dos grandes políticos brasileiros, foi Ministro de Ciência e Tecnologia de Lula e de lá saiu para ser governador de Pernambuco.

É difícil encontrar outro governo estadual que tenha tido apoio tão forte do governo federal (Lula e Dilma) quanto teve Eduardo Campos. O Brasil todo sabe, Pernambuco em particular, que Lula fez Eduardo Campos.

No entanto, quem leu o Balaio do Kotscho, blog de Ricardo Kotscho, viu que, apesar de ser cria de Lula, Eduardo Campos guarda ressentimentos de Lula e do PT.

Reproduzo um parágrafo do texto de Ricardo Kotscho:

“Assim como Eduardo Campos ficou magoado com a postura de Lula durante a campanha municipal de 2010, Marina saiu do PT ressentida por não ter conseguido espaço para seus sonhos presidenciais, uma vez que Lula já tinha se definido pela candidatura de Dilma Rousseff para a sua sucessão ainda em 2006. Mágoa e ressentimento estão na gênese da ‘Coligação Democrática’ anunciada em Brasília, como se pode constatar nos discursos”.

Em seu discurso de filiação ao PSB, Marina declarou em alto e bom som: “A minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República, é contra o PT…”

Surge assim a Rede da Vingança do Partido dos Trabalhadores, RVPT.

Jorge Bornhausen, ex-presidente do DEM, reconhecido como homem de direita, é hoje um dos importantes recém filiados do Partido Socialista Brasileiro (PSB), partido que faz parte da Rede. É dele a famosa frase; “Vamos acabar com essa raça”. Claro, referindo-se ao PT.

Bornhausen começou a sua carreira política na ditadura, com grande apoio dos militares. Continuou depois no PFL (agora DEM) e esteve todos esses anos sempre ao lado de Antônio Carlos Magalhães, José Agripino Maia, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, José Roberto Arruda, Ronaldo Caiado e muitos outros, todos com profundas ligações com o povo. Neles, um traço em comum; sempre estiveram contra projetos que foram lançados para beneficiar as camadas mais pobres da sociedade, como Bolsa Família (bolsa esmola, como chamaram), Minha Casa, Minha Vida e tantos mais.

É com ele e outros, como Heráclito Fortes (ex-DEM e agora PSB-PI), que Eduardo Campos vai “fazer mais” pelo povo. É com eles que Marina vai mudar a forma de fazer política no Brasil. É com eles que ela vai fazer a “nova” política brasileira. Claro, em breve, assim que as coisas se definirem, também com apoio da mídia brasileira, com a sua visão progressista do Brasil.

Luiza Erundina, que não deixa dúvidas quanto ao ódio pelo PT, já está lá. Quem sabe nomes como Heloisa Helena, Roberto Freire e tantos outros venham a se filiar em breve à nova rede. Motivo todos têm. E é o mesmo; ódio ao PT.

A sustentabilidade da rede está garantida, pois, diferentemente de outras que possam vir a existir, a RVPT não faz restrições ideológicas. No seu pragmático projeto, contempla todo e qualquer político, todo e qualquer partido e todo e qualquer intelectual ou artista que tenham no ódio ao PT a sua razão de existir.

Dizem que há um limite para tudo. É o que se percebe nas vozes que começam a se manifestar nas redes sociais e mesmo em conversas informais, expressando um misto de surpresa e decepção, afinal, quem poderia imaginar a atitude de Marina.

Pior ainda é saber
que ela não tomou a decisão de se candidatar pelo sonho de mudar o Brasil.
Além da pressão dos seus bilionários patrocinadores, de cuja existência somente agora alguns tomam conhecimento, é uma pena que justamente a evangélica e pura Marina tenha guardado nesses anos todos no seu coração tanto ressentimento e ódio pelo PT, ao ponto de dizer, sem nenhum pudor, que “a minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República, é contra o PT…”

De Eduardo Campos já se esperava algo desse tipo, afinal já vinha dando sinais nessa direção há algum tempo. Perdeu-se na vaidade e ambição. Marina Silva se perde num enorme sentimento de vingança por um homem, Lula, e um partido, PT, seus criadores.

É muito ódio e desejo de vingança para quem quer ser Presidente do Brasil. 

Marina trai os marineiros

Marina, você se pintou

Por Wanderley Guilherme dos Santos*, no blog O Cafezinho

Em 48 horas de fulminante trajetória a ex-senadora Marina Silva provocou inesperados solavancos no panorama das eleições em 2014. Renegando o que há meses dizia professar aderiu ao sistema partidário que está aí, mencionou haver abrigado o PSB como Plano C, sem mencioná-lo a desapontados seguidores, e declarou guerra a um suposto chavismo petista. De quebra, prometeu enterrar a aniversariante república criada pela Constituição de 88, desprezando-a por ser “velha”. Haja água benta para tanta presunção.

Marina e seguidores não consideravam incoerente denunciar o excessivo número de legendas partidárias e ao mesmo tempo propor a criação de mais uma. Ademais, personalizada. O “Rede” sempre foi, e é, uma espécie de grife monopolizada pela ex-senadora. Faltando o registro legal, cada um tratou de si, segundo o depoimento de Alfredo Sirkis. Inclusive a própria Marina. Disse que informou por telefone ao governador Eduardo Campos que ingressaria no Partido Socialista Brasileiro para ser sua candidata a vice- presidente. Ainda segundo declaração de Marina, o governador ficou, inicialmente, mudo. Não era para menos. Em sua estratégia pública, Eduardo Campos nunca admitiu ser um potencial candidato à Presidência, deixando caminhos abertos a composições. Eis que, não mais que de repente, o governador é declarado candidato por sua auto-indicada companheira de chapa. Sorrindo embora, custa acreditar que Eduardo Campos esteja feliz com o papel subordinado que lhe coube no espetáculo precipitado pela ex-senadora.

Há mais. Não obstante a crítica às infidelidades de que padecem os partidos que aí estão, Marina confessou sem meias palavras que ingressava no PSB, mas não era PSB, era “Rede”, e seria “Rede” dentro do PSB. Plagiando o estranho humor da ex-senadora, o “Rede” passava a ser, dali em diante, não o primeira partido clandestino da democracia, mas o primeiro clandestino confesso do Partido Socialista Brasileiro. Não deixa de ser compatível com a sutil ordem de preferência de Marina Silva. Em primeiro lugar vinha a criação da Rede, depois a pressão para que a legenda fosse isenta de exigências fundamentais para a constituição de um partido conforme manda a lei e, por fim, aceitar uma das legendas declaradamente à disposição.

Decidiu-se por uma quarta opção e impor-se a uma legenda que não é de conhecimento público lhe tenha sido oferecida. Enquanto políticos trocam de legenda para não se comprometerem com facções, a ex-senadora fez aberta propaganda de como se desmoraliza um partido: ingressar nele para criar uma facção. Deslealdade com companheiros de percurso, ultimatos e sabotagem de instituições estabelecidas (no caso, o PSB), não parecem comportamentos recomendáveis a quem se apresenta como regeneradora dos hábitos políticos.

O campo das oposições vai enfrentar momentosas batalhas. Adotando o reconhecido mote da direita de que o Partido dos Trabalhadores constitui uma ameaça “chavista”, Marina pintou-se com as cores da reação, as mesmas que usa em suas preferências sociais: contra o aborto legal, contra o reconhecimento das relações homoafetivas, contra as pesquisas com células tronco, enfim, contra todos os movimentos de progresso ou de remoção de preconceitos. Abandonando a retórica melíflua a ex-senadora revela afinal a coerência entre suas posições políticas e as sociais. Empurrou o PSB para a direita de Aécio Neves, a um passo de José Serra. É onde Eduardo Campos vai estar, queira ou não, liderado por Marina Silva. As oposições marcham para explosivo confronto interno pelo privilégio de representar o conservadorismo obscurantista. 

* Wanderley Guilherme dos Santos – filósofo e cientista político brasileiro, autor de vários livros e artigos na área de Ciências Sociais. Notabilizou-se a partir do texto "Quem Vai Dar o Golpe no Brasil" – que prenunciou o golpe de Estado e a possível derrubada do presidente Goulart em 1964 e se tornou referência bibliográfica nos meios acadêmicos

Aécio fala mal do Brasil em NY; como FHC fazia

E acena com privatização do Banco do Brasil e da Caixa

Por Helena Sthephanowitz, no Rede Brasil Atual

O banqueiro dono do BTG Pactual, André Esteves, não esconde de interlocutores próximos o sonho de arrematar o controle acionário de algum dos grande bancos estatais brasileiros – Caixa Econômica Federal ou Banco do Brasil – caso um governo privatista resolva vendê-los. Não por acaso, junto com seu sócio tucano Pérsio Arida, um dos ícones das polêmicas privatizações no governo FHC, promoveu uma conferência em Nova York sobre investimentos cujo palestrante principal foi Aécio Neves, o pré-candidato tucano que tem defendido toda e qualquer privatização realizada de 1995 a 2002, mesmo a polêmica venda da Vale a preço pífio, subavaliada, e o sistema Telebrás, arrecadando menos do que o valor investido nas teles ainda estatais, para saneá-las.

Aécio, em sua palestra, não chegou a prometer diretamente privatizar a Caixa e o Banco do Brasil, mas não faltaram indiretas quando criticou os governos Lula e Dilma por terem descontinuado pilares da política econômica de FHC e por fazerem o que ele chamou de "intervenção estatal". Para bom entendedor, meia palavra basta. Afinal, como os dois governos petistas preservaram a estabilidade da moeda no controle da inflação, sobra a interrupção da privatização do controle acionário de empresas estatais estratégicas. 

No setor financeiro, os bancos estatais voltaram a crescer e ganhar fatias de mercado nos governos do PT. Aliás, durante o governo FHC, o "Memorando de Política Econômica", de 08/03/1999, do Ministério da Fazenda ao Fundo Monetário Internacional (FMI), dizia explicitamente que o plano era deixar o mercado bancário nas mãos dos bancos privados, seja privatizando parcialmente os bancos públicos, seja tornando-os bancos de segunda linha. Felizmente o governo tucano não conseguiu concluir seu plano, pois os bancos públicos foram fundamentais para salvar o Brasil dos efeitos da crise internacional, quando sumiram as linhas de créditos nos bancos privados em 2008. Além disso, sem bancos públicos disputando o mercado também não seria possível baixar significativamente os juros ao consumidor e às empresas, como ocorreu em 2012.

O presidenciável tucano repetiu também um velho costume tucano: falar mal do Brasil no exterior. FHC era useiro e vezeiro nisso. Parece que achava chique.

Aécio, no linguajar tucanês que muitas vezes não tem compromisso com a realidade, disse que "o Brasil se tornou pouco confiável". Ora, basta olhar o risco-Brasil na era tucana e agora para confirmar que uma declaração destas seria adequada apenas como piada.

O tucano criticou um dos maiores sucessos brasileiros na última década: o crescimento do consumo pela inserção de milhões de brasileiros que saíram da pobreza para ingressar na nova classe média. Criticou também a expansão do crédito, com mais gente tendo acesso a financiamentos, como pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Criticou o que ele chama de "intervencionismo" no setor energético, a renovação negociada da concessão de hidrelétricas tendo como contrapartida a redução na conta de luz, que beneficia não apenas o cidadão em sua residência, mas também a indústria que tem a eletricidade como insumo nos custos de produção.

O discurso soou como música para especuladores que gostam de ver aquilo que desejam comprar depreciado, para comprar barato. O preocupante é quando trata-se do patrimônio do povo brasileiro e esse discurso vem de um candidato a presidente da República. Certamente capta investidores interessados em financiar candidatos para depois recuperar o investimento feito na campanha eleitoral através de negócios privilegiados com o Estado. Os antecedentes dos cartéis que pagavam propinas a autoridades dos governos tucanos paulistas por contratos no Metrô, inclusive para financiar campanhas do PSDB, delatados pela multinacional Siemens, recomendam cuidado redobrado com esse discurso de Aécio Neves. 

Como fatos são maiores que desejos, Marina devastou a oposição

Por Fernando Brito, no Tijolaço

A ex-senadora Marina Silva diz hoje em O Globo que não quer “urubuzar” a candidartura de Eduardo Campos a Presidência.

Pode até não querer – duvido eu, cá com meus botões e lembranças de 40 anos de vida política, quase – mas já o fez.

Fez, e faz, como se pode ler na entrevista que dá à Folha, onde afirma que ela e o Governador de Pernambuco “são possibilidades” e que “se a aliança prospera com ele, e a candidatura dele posta, a Rede terá ali o caminho da sua viabilização”.

Marina, que aparente e provavelmente não é candidata – a máquina partidária é de Eduardo Campos e sem ela não há candidato – faz um jogo dúbio, com declarações pernósticas, mas tomou, objetivamente, toda a “personalidade” – se é que havia alguma – da candidatura Campos.

O governador de Pernambuco, candidato a lìder nacional, parece ter se tornado um coadjuvante dos planos de Marina Silva, que coerente com seu projeto personalista e egocêntrico, passou a ser “a dona do pedaço” na mídia e o “coronel” político da candidatura, embora seja uma “sem-terra” no partido.

A humildade arrogante – sim, isso é possível – com que se apresenta transpira falsidade e é difícil que hoje, isso não seja visto até por quem acreditou nela.

A “campeã” da transparência e da sinceridade faz um jogo de dubiedades e deixa aberta a possibilidade de substituir Campos, em lugar de afirmar a liderança que ele, como candidato, precisa construir. Nem sequer elenca os pontos – vai sair depois uma listinha, creia – que os une, senão em manifestações que parecem sólidas e substanciosas como algodão doce:

Não há aqui (no embrulho com o PSB) uma incoerência com um partido de direita que não tenha nenhuma realidade fática para esse encontro. Obviamente que a Rede é uma atualização da política. Uma atualização que está acontecendo no mundo inteiro e que ninguém ainda sabe quais serão as novas estruturas e os novos processos para esse novo sujeito político que está surgindo.

Cinco dias depois de ter aparecido como “um gênio da polìtica” Eduardo Campos murchou como uma mosca sugada por uma aranha.

O outro neto, que fugiu da teia viajando para os Estados Unidos, envia de lá sinais desesperados de que não aceita o “esqueceram de mim” que a mídia lhe dá, agora.

 

Lá, apresenta-se como o ”líder da oposição no Brasil” numa reunião com investidores, onde diz tudo o que estes gostariam de ouvir e, por isso, o classificam como “mais amigável ao ambiente de negócios”.

Mas o fato é que, como ironicamente ilustra a foto da matéria da Folha, ninguém parece estar prestando muita atenção nele.

Não é a toa que Aécio envia estes sinais. Ele, talvez mais do que Eduardo Campos, também sabe que o predador está no seu ninho.

Serra, tal como Marina, também não assume uma postura de apoio inequívoco a “seu candidato”. Seus métodos são, porém, silenciosos, embora tão egocêntricos quanto os de Marina.

O processo político é impiedoso.

Os dois “líderes” da oposição, embora formalmente seguros em suas posições de candidatos, vivem ameaçados.

Pior, perderam o brilho.

Um, ofuscado por Marina.

Outro, sob a sombra de José Serra.

O quadro sucessório ainda não está fechado.

A realidade tem o péssimo hábito de prevalecer.

Marina como ela é

Já se conhece a forma como José Serra faz política. Tornou-se um homem ressentido, frustrado, vingativo, que recorre a qualquer expediente para alcançar os seus objetivos. A sua alardeada competência administrativa não se confirmou em nenhum momento e a campanha para presidente da república em 2010 foi um marco de como fazer política da forma mais baixa possível.

Aécio Neves dói. O seu vazio é tão grande que dá pena. A sua capacidade de dizer coisas absolutamente irrelevantes surpreende a cada instante. O PSDB, a mídia, o empresariado, todos sabem que Aécio Neves não tem a menor chance de ser eleito presidente. Mas, digamos que fosse. Por saberem que ele não tem nenhuma condição de exercer a presidência, seria ótimo para eles. Não será surpresa, entretanto, se o candidato do PSDB for Serra.

O mais bem avaliado governador do país nas últimas pesquisas, Eduardo Campos se imaginou com amplas possibilidades de sair como forte concorrente ao Palácio do Planalto. Sem chance. Nenhum pernambucano tem dúvida de que ele é o que é graças a Lula e num segundo plano a Dilma. Lula, literalmente, fez Eduardo Campos. Na hora da campanha talvez não seja muito difícil mostrar que as obras do Governo Eduardo Campos não têm o dedo de Lula e Dilma, têm Lula e Dilma por inteiro. Ver Eduardo Campos “brigando” com os dois talvez seja um momento de difícil compreensão para muitos pernambucanos.

Fora das fronteiras do seu estado é desconhecido e talvez aí haja outro detalhe que tem passado despercebido. O Nordeste tem as suas peculiaridades, assim como as tem o Sudeste. Ou alguém desconhece as dificuldades quase que incontornáveis existentes nas relações políticas entre São Paulo e Minas Gerais?

É possível que muitos, eu me arriscaria a dizer a maioria, não conheçam as dificuldades também quase que incontornáveis existentes no Nordeste. Ou alguém imagina que, por ser nordestino, Eduardo Campos terá grande votação no Nordeste? Quem pensa assim não conhece bem esta região do país.

Aliado a isso, se a condição de nordestino, neste caso específico, não é favorável no próprio nordeste, seria mais complicada ainda no Sul/Sudeste. Ou alguém acredita realmente que seria estendido um tapete vermelho a um eventual Presidente da República do Brasil com “aquele” sotaque? Não vamos dar um tapa na realidade.

Agora, porém, tendo como sua vice Marina Silva, as chances de Eduardo Campos aumentam? É possível. Cabe, porém, uma ressalva.

Inicialmente saudada como uma jogada de mestre de Eduardo Campos, não foi. A partir do momento em que se soube que foi Marina quem fez o contato e se ofereceu para se filiar ao PSB e ser vice dele, fica absolutamente claro que não foi iniciativa dele. A sua própria perplexidade e consequente mudez ao receber a notícia, como foi divulgado por toda a imprensa, deixam mais claro ainda que não foi dele a ideia. Confesso a minha enorme dificuldade em entender como jogada de mestre de alguém quando esse alguém só foi comunicado do que já estava decidido.

Portanto, se, pelas razões expostas, dificuldades podem existir na manutenção da imagem de grande gestor, maiores ainda parecem existir, pelo menos por conta desse episódio, para a criação da imagem de um exímio jogador de xadrez.

Lembremos que já era quase consensual a percepção de Eduardo Campos como alguém que se perdeu na vaidade e ambição ao sair candidato para 2014. Pelas razões conhecidas, vários colunistas, entre os quais nomes como Jânio de Freitas, o chamaram de embusteiro, quando, dando nova interpretação ao “ser ou não ser”, de Hamlet, de Shakespeare, criou o “ser e não ser” candidato em 2014. Uma postura condenável, mesmo se tratando do jogo político.

Ainda que fossem seus os méritos, terá sido, de fato, uma bela jogada de xadrez?

Teria sido então jogada de mestre de Marina? Também não. Foram outros os motivos.

Apesar da inocência dos seus seguidores em imagina-la diferente dos políticos, Marina tem poderosíssimos grupos financeiros por trás, que fizeram enorme pressão nos últimos dias. O Estadão não teve nenhum pudor em dar nome aos bois: Natura e Itaú (ambos autuados pela Receita Federal por sonegação de R$ 628 milhões e R$ 18,7 bilhões, respectivamente). Sem falar da articulação do próprio Roberto Irineu Marinho, presidente das Organizações Globo (segundo a imprensa, também devendo a essa altura mais de R$ 2 bilhões, entre Receita Federal e ECAD), com confesso interesse em formar uma dobradinha Aécio-Marina.

A imprensa divulgou que “a turma do dinheiro estava decidida a manter Marina no páreo de qualquer jeito, e não aceitavam a derrota. A sua presença é fundamental para levar a eleição para o segundo turno”. Ressalve-se que à Globo particularmente interessava desde quando fosse com Aécio, porque não querem o PSDB fora de um eventual segundo turno, que muitos já afirmam que não deverá acontecer.

É difícil acreditar que alguém com o nome e a representatividade política de Marina Silva, com algo em torno de 20% nas pesquisas, vai aceitar ser vice de Eduardo Campos, que o Brasil não conhece, com 4% nas pesquisas.

Ao se filiar e se candidatar à presidência da república pelo PSB, ainda que seja, por enquanto, como vice, Marina viu abrir-se a janela da oportunidade e por ela jogou o sonho de milhões de brasileiros que acreditaram na Rede Sustentabilidade.

Milhões de brasileiros que acreditaram na sua promessa de eliminar a forma de fazer política no Brasil. Milhões de brasileiros que, do alto da sua inocência, acreditaram ser possível fazer política sem ser político. Milhões de brasileiros que acreditaram que a Rede Sustentabilidade não seria um partido político, apesar de lá existirem vereadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais…, como em qualquer outro.

E agora, como fazer crer a esses milhões de brasileiros que a Rede Sustentabilidade é um projeto sustentável? Filiada e concorrendo à presidência pelo PSB, que tempo dedicará à Rede?

E tendo negado a política e os políticos nesses últimos anos, como Marina vai explicar que agora caminha de braços dados com os Bornhausen, Heráclito Fortes, Ronaldo Caiado e outros tantos?

Ela tomou a decisão de se candidatar não pelo sonho de mudar o Brasil, mas pela pressão dos seus bilionários patrocinadores. E, agora se sabe, também por outra razão: ela afirmou que seu projeto é acabar com a "hegemonia" do PT.

A evangélica e pura Marina, que tudo entrega a Deus, carregou consigo nesses anos todos um projeto pessoal de vingança: acabar com o PT, o partido onde ela foi criada.

Marina se mostrou. 

Que renovação é essa?

Marina e Eduardo Campos formaram um condomínio político que constitui um enigma da campanha de 2014

Por Paulo Moreira Leite, na IstoÉ

No mesmo dia em que a VEJA dava uma contribuição específica ao culto à personalidade de  Marina Silva, dizendo que na véspera ela fora dormir com a esperança de “ter um sonho” que pudesse ajudar a decidir o rumo na campanha presidencial, a líder da Rede  deu provas de que passou os últimos dias acordadíssima.

Numa união destinada a garantir a Marina um espaço na campanha que a Rede não foi capaz de obter, e a Eduardo Campos, uma projeção que ele dificilmente teria como 4º colocado nas pesquisas de intenção de voto, os dois formaram um condomínio político que constitui um enigma da campanha de 2014.

Filiando-se ao PSB, Marina assegurou um palanque para seguir em sua verdadeira prioridade,  cada vez mais semelhante a plataforma básica dos vencidos por Lula e Dilma em 2002, 2006 e 2010: impedir de qualquer maneira e por todos os meios uma quarta  vitória do PT e seus aliados em 2014.

Dramatizando a própria situação, ela chegou a dizer que o Rede era primeiro partido “clandestino” da democratização – afirmação de caráter retórico, que não faz sentido para quem levou a sério a luta clandestina contra o regime militar de 64 e reconhece o valor da democracia conquistada depois.

Vamos combinar: se acredita, de fato, que o Rede foi perseguido por adversários políticos, que teriam boicotado o apoio dos 50 000 eleitores que poderiam ter legalizado seu partido, Marina faria um favor ao país se divulgasse indícios e provas para sustentar o que diz. Sabemos que a Justiça eleitoral abriga cidadãos indicados pelos principais partidos políticos, que devem ser substituídos de 5 em 5 anos. É razoável até imaginar uma imensa  má vontade aqui, outra mais adiante. É assim, no Brasil e em outros países.

Mas é um universo com tantas surpresas e imprevistos que ninguém consegue adivinhar o que acontece sem uma apuração real. No caso mais avançado que conheço até aqui, um advogado do Rede chegou a dizer de forma vaga, para uma repórter, que “certamente” ocorreram boicotes em algumas prefeituras. Onde? Em  Minas Gerais. E agora?

Ironicamente, Marina e Eduardo Campos se comprometeram ontem, justamente, a  enterrar a República Velha e  a renovar os métodos tradicionais da política. Também falaram do esgotamento do nosso sistema como seu maior compromisso político. Mas não disseram com clareza o que pretendem fazer nem como. Até porque estas são verdades tão fáceis de anunciar mas difíceis de explicar.

Quem tem o direito de dizer que o sistema político está esgotado é o eleitor. Ele fez isso em 1984, quando foi as ruas para pedir eleições diretas em pleno regime militar. Como o Congresso rejeitou as diretas naquele ano, o eleitor repetiu a dose cinco anos depois, em 1989, no primeiro pleito em urna após ao regime militar. Destruídos pelos fracassos de sucessivos planos econômicos, os dois herdeiros do governo Sarney não conseguiram somar 6% dos votos. E foi neste cemitério que nasceu Fernando Collor: sem partido, com ideário confuso, vagas promessas moralizantes e absoluto suporte dos meios de comunicação, tornou-se presidente da República. Seu programa era eliminar privilégios e favores do Estado, sintetizados na palavra marajá, usada para definir altos burocratas do serviço público. Parecia uma causa nacional, capaz de unir ricos e pobres, irmanados pelo infortúnio de sustentar privilegiados com dinheiro do cont

ribuinte.

Falar que o sistema político está esgotado, hoje, é enxergar o mundo pelo olhar dos desejos, de quem não aprova determinado governo mas é duvidoso que seja expressão do pensamento do  conjunto da população. É um diagnóstico exagerado, no mínimo,  quando o governo federal tem aprovação superior a 50% e a presidente lidera as pesquisas de opinião com 38% das intenções de voto. Quando seu padrinho, Lula, é o mais popular político brasileiro da história. Quando o PT, alvo indiscutível da “publicidade opressiva” praticada pela maioria dos meios de comunicação na ação penal 470, segue o mais popular partido político do país, com  25 ou mesmo 30% da simpatia dos eleitores.

Quem está esgotada, até agora, é a oposição. Se é possível falar em algo perto de esgotamento, fim de linha, o problema encontra-se aí e é mais localizado. E é tão grave que ela procura alimentar-se, na verdade, de músculos e cérebros extraviados do governo, como Marina e Eduardo Campos.

As ruas de junho deixaram claro que nem  todo mundo pensa a mesma coisa dos nossos políticos. Os milhões de brasileiros que não querem Dilma também recusam personalidades, nomes e ideias que lhes são oferecidas como alternativa. Esses cidadãos Dizem que querem livrar-se de políticos tradicionais quando, na verdade, querem outros políticos – sejam direitistas, revolucionários, reacionários ou simples camelôs ideológicos. Aqueles manifestantes que tinham pontos específicos a reivindicar – como transportes – voltaram para casa depois que a reivindicação foi atendida. Os outros,  permaneceram. Tinham mais a cobrar. Alguns mais quebraram vidros, fizeram provocações. Denunciam o sistema político em nome do fascismo, do anarquismo ou lá o que for.

Em qualquer caso, e é constrangedor lembrar, Dilma ficou sem aliados em seu empenho para aprovar uma reforma política que, bem ou mal, poderia dar uma resposta à nova situação. Não inventou nada. Apoiou um projeto que reúne o apoio de entidades representativas. Não lembro de qualquer manifestação de apoio dos aliados de Marina Silva. O PSB foi explícito. Divulgou nota a favor das reformas – desde que elas não valessem para 2014.

O empenho de Marina para falar do “novo” ajuda a encobrir que, entre seus assessores econômicos, encontra-se André Lara Rezende, banqueiro  e profeta do decrescimento econômico, advogado da  teoria primeiro-mundista de que os recursos da Terra se esgotaram e que quem não ficou rico até agora deve desistir até de chegar a classe média baixa. Foi padrinho do Plano Cruzado – que ajudou Sarney a tornar-se imperador do país por um semestre, em 1986  – e do Plano Real, berço de tantas heranças, inclusive da privatização das teles, joia da coroa do governo FHC. Seu homem na Justiça é Gilmar Mendes, capaz de dar dois habeas corpus, em apenas 48 horas, a um dos banqueiros aliados de FHC. Seu maior patrocinador financeiro é a herdeira de um banco  que esteve ao lado de todos, absolutamente todos os governos brasileiros nas ultimas décadas, sem distinção de cor, credo, religião ou traje  – podia ser fardado ou à paisana.

“Novo”?  

Falar da velhice alheia é um dos atalhos mais conhecidos para uma pessoa fingir-se de jovem e seduzir os
menos atentos naquela hora da festa em que a maioria dos seres vivos parece parda.
Não vamos falar do PSB de Eduardo Campos. O governador  admite que nem estava pensando em termos politicamente geriátricos até a noite de sexta-feira, dedicando-se  a recolher, no laço, quem pudesse reforçar suas fileiras de qualquer maneira. Chegou a trazer para sua casa conservadores notórios, inclusive com ligações diretas com o regime militar. Estranho? Nem um pouco. A política brasileira é feita assim.

O errado é querer tingir o cabelo, fazer uma lipo, tomar um banho de butique e  pensar que ninguém enxerga os sinais da plástica.  Para quem é adversaria assumida das usinas hidroelétricas, é que Marina Silva tenha ingressado no mesmo partido do ex-ministro Roberto Amaral, um dos poucos políticos brasileiros que é partidário declarado de pesquisas nucleares, seja para fins pacíficos, e mesmo para conhecimento da fissão atômica, necessário para a produção de artefatos militares. (Estou 100% de acordo com o ministro nesse ponto).

Que renovação é essa, meus amigos?

Simples. É a renovação de quem procura um palanque, confunde a  memória e quer nos fazer acreditar que não houve história. Eduardo Campos é um dos melhores políticos de sua geração. Tem luz própria, formação e  capacidade de articulação real.

Mas não vamos esquecer que é produto direto do Brasil envelhecido de repente que agora  denuncia. Talvez seja o grande filhote daquilo que a oposição chama de lulismo. Alimento maior de sua popularidade, o crescimento econômico de Pernambuco,  muito superior a média brasileira, foi irrigado por verbas preferenciais de Brasília, com tanto empenho que levou os conservadores preconceituosos do Sul-Sudeste a denunciar em 2010 o favorecimento “aos nordestinos” por parte de Lula.

A herança política  de Marina é familiar, também. Segundo o Ibope, a segunda opção de 50% de seus eleitores é Dilma.  Em função do receio de explicitar a estes cidadãos  o enorme grau de sua ruptura do Lula, Dilma e o PT, referencias que fazem parte de sua identidade política essencial, na visão de  tantos brasileiros, Marina Silva tem sido  bastante cuidadosa em suas declarações. Evita afirmar, em público, os chavões reacionários, inspirados no golpismo venezuelano, que o conservadorismo nativo utiliza para comparar o Brasil de Lula-Dilma com o país de Chávez-Maduro.

Cada eleitor tem o direito de imaginar que tipo de renovação é essa.