As incongruências na Endodontia

Incongruência

Por Ronaldo Souza

Falei bonito, não falei?

Incongruências.

Fui longe.

Agora chegue mais pra perto para conversarmos.

Em primeiro lugar, observe que não falei “As incongruências da Endodontia” e sim “As incongruências na Endodontia”.

Há diferença?

Muita.

Sempre digo aos meus alunos que a Endodontia não comete erros.

Quem comete erros, às vezes grosseiros, são alguns endodontistas ao interpretarem a Endodontia.

Recorro a Nietzsche:

“Não há verdades definitivas. Apenas interpretações sobre a realidade, condicionadas pelo ponto de vista de quem as propõe”.

Pequenos e grandes equívocos foram e têm sido cometidos em várias interpretações dadas às etapas da Endodontia.

Ao aponta-las, é claro que você não só poderá me achar pretensioso como também dizer a mesma coisa; que a minha interpretação é que está equivocada.

Então vamos juntos.

Já vi professores que acreditam e defendem a ideia de travamento perfeito do cone principal de guta percha e vedamento hermético da obturação preconizarem a técnica do cone único.

Não dá.

Ou uma coisa ou outra.

Desde já, vou deixar bem claro que, apesar da insistência com essa concepção, vedamento hermético da obturação de canal não existe.

Este é um equívoco inaceitável nos dias de hoje.

Insistir nessa concepção deixa de ser equívoco e passa a ser outra coisa.

Ponto.

A “certeza” do travamento do cone é dada pela percepção tátil.

Devo lembrar que percepção está intimamente ligada à sensibilidade, inclusive tátil, algo bastante variável entre os indivíduos.

Dizem que aluno tem pacto com o Diabo.

Vejamos.

Ao chamar o professor para ver se está bom o travamento, o aluno ouve:

– Não, não está bom. Trave melhor.

O professor dá as costas, o aluno chama outro professor. Este confere e diz:

– Tá bom.

Meu Deus!!!

É sensibilidade tátil e ela não é a mesma nas pessoas.

Sendo assim, varia de professor para professor!

Quer ver uma situação em que o aluno se torna sócio do Diabo?

– Professor, veja aqui se o travamento tá bom.

– Não, não tá não. Melhore.

O professor se afasta.

O aluno faz isso, faz aquilo, faz tudo, menos mexer no cone de guta percha. Espera alguns poucos minutos e chama o mesmo professor.

– Professor, agora tá bom?

– Agora sim, Agora tá bom!

O aluno acabou de matar o professor sem ele sequer desconfiar.

Já falei sobre essas duas situações em alguns lugares. É comum ver nas salas cabecinhas balançando e aqueles sorrisinhos sarcásticos, como que dizendo; já fiz isso.

Vamos um pouco mais longe?

A sua própria sensibilidade é altamente dependente do seu “estado d’alma”.

Você tomou um bom vinho na noite anterior, namorou, dormiu o sono da felicidade.

Acorda num dia bonito, céu azul, sol, daqueles que entram em você e fazem festa.

Como é que você acha que está o seu humor? E a sua inspiração e sensibilidade?

Lá em cima.

Imagine agora alguém cuja mulher, filho, pais, um ente querido, está com uma doença grave.

Será que podemos crer que essa pessoa está de alto astral e apresenta o mesmo comportamento?

É bem possível que o endodontista também seja um ser normal e, portanto, suscetível a situações que interferem na plenitude da sua capacidade.

Assim, a percepção tátil muito pouco provavelmente será a mesma.

Que me perdoem os ditos pragmáticos, mas ignorar isso é outro grande equívoco.

O homem não é alheio ao que está à sua volta.

O “travamento perfeito” do cone de guta percha e o consequente vedamento hermético, desejo de todos, representam algo que o bom senso condena.

Ao fazer a prova do cone de guta percha em um canal reto e observarmos a sensação tátil de travamento, tínhamos a “certeza” de que ele travara na porção mais apical do canal; no comprimento de trabalho.

Mesmo sonhando o sonho impossível, o do “travamento perfeito” e vedamento hermético, sabíamos que não costumava ser assim no canal curvo.

Observe no desenho da figura abaixo que a seta preta aponta para a porção mais estreita da obturação (em verde) e a seta branca para a porção mais larga dela (Fig. A). Era comum acontecer isso nos canais curvos, isto é, um discreto desvio do canal na sua porção final, graças à pouca flexibilidade dos instrumentos mais calibrosos.

Travamento do cone

Se o cone tivesse a largura que a seta branca aponta ele não passaria pelo canal no local para onde aponta a seta preta, porque este é mais constrito, mais estreito.

Assim, ele não travou ali no local que aponta a seta branca.

Mas não é ali onde ele deve travar?

Observe, agora na radiografia, que as setas apontam para os mesmos aspectos, só que mais dificilmente percebidos (Fig. B). Isso acontece mais vezes do que imaginamos, ainda que com menor frequência na era dos instrumentos rotatórios.

Quem complementa essas eventuais falhas na obturação?

Os cimentos obturadores (observe como inclusive ele extravasou para os tecidos periapicais).

Os cimentos são solúveis?

Sim.

Como confiar no vedamento hermético se ele em parte é constituído por um material solúvel?

Continuemos juntos e voltemos para o cone único.

Observe a figura abaixo em que vemos a fotografia de um cone de guta percha em um canal de molar inferior. Esse cone está bem travado (Fig. A).

Cone único'

Acompanhe, agora na radiografia, a linha radiolúcida que “corre” ao lado do cone em toda a extensão da parede do canal contrária à furca. Isso significa que entre o cone e a parede do canal existe espaço desde o terço cervical até o comprimento de trabalho que não foi preenchido pelo cone (setas brancas).

Veja agora na parede próxima à furca como o cone está “colado” a ela nos terços cervical e médio (setas pretas). Ali, radiograficamente falando, o cone de guta percha está aderido à parede dentinária.

Logo em seguida, quando ele chega ao terço apical surge a imagem de espaço vazio entre o cone e a parede do canal, que persiste até o CT (setas vermelhas).

Perceba assim que em boa parte, particularmente no terço apical, o cone de guta percha não faz um bom contato com as paredes do canal. Nem poderia.

O cone usado nas imagens é um cone convencional, ou seja, conicidade .02, mas, repito, está bem travado.

O cone indicado para a técnica do cone único deve possuir maior conicidade, geralmente algo como .04, .06, nessa faixa.

Assim, atribui-se a eles a capacidade de, pela maior conicidade (taper), preencher bem os terços cervical e médio, o que eliminaria os espaços vazios observados na figura acima.

Inegável a possibilidade de esses cones se adaptarem melhor nos referidos segmentos do canal, mas claro que seria inconcebível imaginar que por isso haveria o perfeito selamento do canal em toda sua extensão (será que tem alguém que pensa que é isso que acontece?).

Tudo vai girar em torno da conicidade dada ao canal e do cone escolhido para a obturação.

O que ocorre é que, uma técnica extremamente simples, a do cone único, tem seu grande momento, o seu momento mais delicado, justamente na escolha do cone.

A maior conicidade pode favorecer bastante a adaptação do cone nos terços cervical e médio, mas pode prejudica-la no apical e isso pode acontecer mesmo nos canais retos (voltaremos a falar sobre isso).

Em outras palavras, o cone pode ficar bem adaptado nos dois primeiros terços e mal adaptado no terço apical, particularmente no comprimento de trabalho.

Mas como isso é possível se o cone está bem travado?

Se na figura acima, mesmo usando um cone .02 o travamento não se deu no comprimento de trabalho (setas vermelhas e brancas), o que pode acontecer com a conicidade maior?

Gosto muito de uma expressão e aqui me permito usa-la.

O que pode ocorrer é que mais facilmente a maior conicidade pode fazer com que o cone fique “entalado” em qualquer parte do canal, até mesmo na sua entrada. Assim, a sensação de travamento é confirmada, porém não necessariamente no CT, mas onde o cone estaria “entalado”.

Volte à figura acima e perceba que o cone está mais bem aderido aos terços cervical e médio (setas pretas) do que no apical (setas vermelhas e brancas).

A sensação do travamento do cone pode ter sido dada por qualquer ponto entre os terços cervical e médio ou até mesmo na entrada do canal.

Qual é a grande razão do travamento perfeito do cone da forma como tem sido ensinado e preconizado?

Vedar hermeticamente o canal no terço apical, para evitar que por ali penetrem os fluidos teciduais dos tecidos periapicais e assim passem a servir de nutrientes para bactérias residuais pós-preparo.

Abro um parêntese para dizer que não cabe aqui aprofundar e discutir esse ponto de vista.

Sendo assim, sob essa perspectiva do travamento do cone no CT, o que é melhor, a técnica da condensação lateral ou a do cone único nas condições descritas?

Conto rapidamente uma história.

Há alguns poucos anos, tomando uma cerveja com o professor Hênio Horta e seu grupo em Belo Horizonte, ele me disse que eles tinham feito uma pesquisa comparando a capacidade de selamento da técnica da condensação lateral com a do cone único e os resultados mostraram que a condensação lateral selava melhor.

Perguntei porque não publicava.

Falou que tinha que ter “alguns cuidados” por causa de (Quintiliano Diniz) De Deus, um dos grandes professores de Endodontia do Brasil e entusiasta do cone único. Eram muito amigos.

Infelizmente, ambos, Hênio e De Deus, já não estão mais entre nós.

Para que não fique nenhuma dúvida, sou adepto da técnica do cone único. Nos nossos cursos ela é ensinada.

No entanto, diante do que vimos, acho que para quem acredita no travamento do cone de guta percha como garantia de vedamento hermético, talvez não seja a técnica mais recomendável.

Aliás, nenhuma seria, pela simples razão de que vedamento hermético não existe.

E aí, o que fazem os nossos eventos?

Tornam-se frustrantes porque praticamente só falam de aparelhos, sistemas, motores, cimentos obturadores (normalmente apresentados como solução dos problemas) , limas de última geração…

Por que o establishment da Endodontia não estimula discussões que discutam de fato Endodontia (a redundância é intencional) nos eventos?

Não quero e não posso crer que não há outro interesse que não seja subliminarmente estimular as plateias a comprar.

E aí, vai um reciprocante ou um rotacional?

Danadinhos, não são?

Um professor “vanguardista”

Ética

Por Ronaldo Souza

Uma vez estava conversando com alguém da cúpula da Odontologia baiana e dando uma rápida passada de olho em um pequeno jornal que estava sobre sua mesa, uma coisa chamou a minha atenção.

Era um desses jornais que alguém faz para divulgar as suas próprias virtudes, méritos e competência.

Figura conhecida por essas praias, não posso e não devo chama-lo de professor (ainda insisto em dar a essa expressão o respeito que ela merece e já teve).

Ele, o dono do jornal, é um dador de curso.

Lá estava uma foto de “primeira página”, tomando quase todo o jornal.

Ele, de short, à beira da piscina, com alunos e alunas de short e biquíni (turma pequena cuja maioria era de mulheres), tendo às mãos dentes extraídos e limas endodônticas.

Sim, isso mesmo.

Era uma aula prática (laboratório) de seu curso de Endodontia.

Uma aula piquenique. Certamente, bastante agradável.

A cena, pelo menos para mim, dispensava palavras para defini-la, mas, como se tratava de conversa informal, mostrando o jornal comentei:

– Já viu isso?

Na verdade, como bom baiano, eu devia ter dito:

Ó paí, ó (se não viu o filme, veja).

– O que é que tem?

Mesmo sabendo que era amigo dele, não contava com essa indagação, típica de quem não só já tinha visto como aprovado o teatro e mais uma performance do artista. Do alto da minha indignação, soltei o verbo.

– Você não acha isso um absurdo?

Pra que perguntei?

– Não acho nada demais, acho que você é que precisa evoluir. Tem que mudar a forma, buscar métodos novos… Ele é quem está certo…

Sabe aqueles rápidos segundos em que você “vê” uma cena? Transformei-a em palavras e disse.

– Confesso a minha dificuldade em ver um professor de cirurgia cardíaca em situação semelhante.

A conversa continuou um pouco mais e pronto.

Estava encerrada uma discussão sobre as “modernagens” que alguns iluminados impõem ao mundo.

Isso foi há cerca de 15 anos.

O profissional que gerou a polêmica não goza, digamos, de boa reputação. Na verdade, exige um certo esforço defini-lo desta forma. O comportamento dele permite o uso de palavras muito mais duras para isso.

Mas, a rigor, a não ser pelo grotesco e ridículo da cena, naquele episódio ele não estava infringindo nenhuma norma do código de ética. Era uma jogada de marketing e que o seu jornal tratou de divulgar.

Primeira página.

Nada que violentasse o código de ética, sem dúvida, no entanto, uma vez que determinados limites são ultrapassados, torna-se muito mais difícil o controle.

Como disse na oportunidade, não me parecia fácil imaginar um professor de cirurgia cardíaca dando aula na beira da piscina com alunos e alunas de short e biquíni.

Não por eventuais dificuldades técnicas, mas por ter consciência de que não se deve apequenar de forma tão grosseira os procedimentos da sua profissão.

Entretanto, muita coisa vem mudando e parece que, pela repetição, tudo tende a ser considerado normal.

O vídeo abaixo mostra com clareza a que nível chegou a autopromoção.

O vídeo choca porque nos faz imaginar como é possível um profissional da Medicina se tornar isso que ele mostra ser.

Detalhe, com milhões de seguidores.

Pode-se deduzir que entre esses milhões devem estar milhares de jovens médicos na busca desesperada por espaço. Fórmulas que lhes dizem que até 2018, portanto, nos próximos 3 anos (o vídeo é de 2015) a agenda daquele profissional está cheia representam “certamente” um profissional bem sucedido.

E rico.

Quer poder de sedução maior?

Mas isso não se manifesta somente dessa maneira tão grotesca. Ocorre também de outras formas, tão diversas quanto sutis.

Da mesma maneira que o MEC liberou geral e permitiu a atual proliferação de cursos de especialização (em cada esquina tem um), é inquestionável que sob a proteção do “o objetivo é ensinar” (!!!) a autopromoção vem ganhando novas formas.

O marketing pessoal através da enorme quantidade de vídeos na internet e as ligações de professores com empresas já atingiram níveis preocupantes.

Os jovens profissionais veem isso como parâmetro.

E os órgãos reguladores do exercício da profissão nada podem fazer, ou simplesmente se fecham os olhos?

A favor desses órgãos talvez se possa argumentar com a delicadeza do tema, aliás, manto sob o qual se escondem esses profissionais.

Nada a fazer então?

Ou, o que fazer?

Lavoisier e a Endodontia

lavoisier-e-a-endodontia

Por Ronaldo Souza

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Esta é uma máxima de Lavoisier, francês considerado pai da química moderna que, além de grande químico, ficou conhecido por derrubar teorias científicas.

Acho que podemos dizer que derrubar teorias científicas será sempre uma atitude bem-vinda.

Afinal, a derrubada de uma teoria científica quase que implica no surgimento de uma nova, o que, em tese, deve significar que houve avanço naquele campo.

Em muitas situações, porém, mais vezes do que podemos imaginar derrubar teorias científicas envolve situações muito delicadas e por isso exige muita cautela.

A construção de uma linha de raciocínio que venha a sugerir uma nova forma de pensar e ver determinada questão gera desconforto.

Toda mudança gera desconforto.

Em 2009, presenciei uma discussão muito interessante em um simpósio.

Em determinado momento, graças a questionamentos feitos pela plateia, discutiam-se dois temas; os limites apicais de instrumentação e obturação.

Por trás daquela discussão, estava na verdade não a simples discussão dos referidos limites em si, mas de uma nova concepção, que fazia uma abordagem diferente sobre aqueles temas.

Ah, como desejei estar participando daquela discussão.

Apesar de não ser o único, chamou a atenção a opinião de um professor que refutou a concepção argumentando com a falta de evidências que a suportassem.

Em 2011, somente dois anos depois, durante um jantar ouvi de um professor:

“O nosso grupo está começando a repensar o papel da obturação”.

Detalhe.

Ele faz parte do mesmo grupo daquele professor que em 2009 argumentara com a falta de evidências para negar a linha de raciocínio que propunha, como propõe, mudar a concepção na qual a obturação está apoiada há mais de 60 anos.

Em outros tempos sim, mas naquela hora, naquela noite, naquele jantar, nada falei sobre o que acabara de ouvir.

Fiquei absolutamente calado. Nenhum comentário.

Na manhã seguinte íamos participar de um debate. Eu, ele e um terceiro professor, em que aquele tema ia ser abordado.

Por mim.

Durante a minha aula, não sei se ele percebeu e entendeu a maneira como me expressei no exato momento em que me reportei a aquele ponto específico.

O jantar tinha acabado de ser trazido para o debate.

Uma pessoa ligada a mim disse que eu tinha sido agressivo.

Não, não fui. Fui enfático.

No final daquele ano, 2011, em um fórum de Endodontia na internet, outro membro do grupo atacou violentamente um artigo publicado no Triple Oral.

O artigo era meu.

Sobre aquela concepção da obturação.

Não há como negar; fiquei muito chateado e desejei um dia cruzar com ele em um debate.

Provavelmente aí eu não seria mais somente enfático.

Aquela pancada no artigo ficou na minha cabeça e um dia resolvi escrever algo sobre aquele episódio no meu site.

Em 2016, tive a oportunidade que tanto tinha desejado; participar de um simpósio com o expert destruidor de artigos.

Mas a vida não é linear e eu já estava em outro momento, bem diferente.

E como se fosse um cuidado a mais dos deuses da paz na Endodontia, fui para o evento com outras preocupações, pois tinha saído 10 dias antes de uma internação hospitalar motivada por um grande susto que, felizmente, não passou disso, um susto.

Fui em missão de paz.

Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, não obstante, exatamente 1 mês e 13 dias depois, em outro evento assisti a uma aula daquele professor do jantar de 2011.

Lá estava o “repensar o papel da obturação”.

Exatamente o que tinha sido condenado em 2009, só que apresentado de uma maneira muito pobre.

Talento e a força do original, que só um original pode ter, claro, estavam ausentes.

Ao final da aula, o arremate, repleto de saber e dignidade:

“Garanto que provoquei uma reviravolta na cabecinha de vocês (era uma plateia onde cerca de 90% eram alunos de graduação). Pensavam que eu ia dizer que a obturação é o fator determinante do sucesso e estou dizendo que não é”.

Se estivéssemos numa passagem bíblica e Lucas estivesse ali talvez tivéssemos ouvido:

– Pai, não lhes perdoa, eles sabem o que fazem.

Parece que há professores que gostam de negar novas teorias.

Que bom, não é mesmo?

Se Lavoisier está certo em dizer que “… nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, estamos diante de uma transformação na autoria da concepção.

E esse é um problema sério; a tentativa de assumir a paternidade de uma concepção proposta por outro.

E, pior ainda, quando o pretendente a padrasto já a tinha negado.

Que horror!

Todos gostaríamos de atrelar os nossos nomes a projetos bem-sucedidos. A diferença está no que somos capazes de fazer para conseguir isso.

Para a Ciência pouco importa quem idealizou, quem criou, quem fez.

Importa que foi idealizado, criado e realizado.

Mas os homens…

Ah, os homens!

Como são tolos.

Pela falta de evidências, como se esta fosse a razão, desqualifica-se a ideia, não se dá importância a ela, projetando a sua caída na vala do esquecimento.

Ora, ora, ora.

Que tolice, não é mesmo?

Uma pergunta simples ajudaria a esclarecer isso.

Como podem existir evidências sobre algo em que não se tinha pensado antes?

Mas, do alto do pedestal autoconstruído, o professor trabalha para desconstruir a teoria.

Reduzem-se os espaços, fecham-se as fronteiras.

Em outras palavras, esconde-se o autor.

O sistema faz isso.

E bem.

Aí, porém, existe um problema, diria um grande risco.

– Professor, em tal ano, em tal evento, o senhor discordou frontalmente dessa concepção e disse que ela não podia ser levada a sério porque não havia evidências. Agora o senhor e seu grupo dizem que há algum tempo já vêm repensando o verdadeiro papel da obturação!!! Baseado em que evidências?

Esse é o risco.

Alguém na plateia levantar a mão e fazer essas considerações.

Não vai ser legal.

“Endodontic World”

disney-world

Por Ronaldo Souza

O jogador de futebol que surge e se destaca no eixo Rio-São Paulo tem um pé na Seleção Brasileira.

Ele não teria, como não tem, as mesmas chances se estivesse ou estiver jogando em outras regiões do país, ainda que dessas tenha mais chances caso esteja em Minas Gerais ou Rio Grande do Sul.

Este é um fenômeno recorrente em muitas áreas no Brasil.

Alceu Valença, pernambucano e um dos nossos grandes compositores, foi muito feliz quando há anos disse que o artista brasileiro tem que fazer o vestibular do Sul para ser aprovado no resto do país, inclusive na sua própria terra.

Na mosca.

Talvez seja interessante esclarecer que no Nordeste é comum dizer-se Sul numa referência ao Sudeste (costume que vem dos mais velhos). Tanto que por aqui existe uma expressão muito conhecida, “sul maravilha”, quando, na verdade, seria sudeste maravilha.

Há quase 14 anos ouvi que o fluxo normal do conhecimento é do Sudeste, fundamentalmente do eixo São Paulo-Rio, para as outras regiões do país, não ao contrário.

Segundo essa pessoa, que demonstrou conhecer muito bem como isso funciona ao me contar em detalhes alguns aspectos que vi se confirmarem com o tempo, esse é o sentido; de mão única.

Tentar transforma-lo em mão dupla mexe com muita coisa.

A geografia condena.

Tradicionalmente, ainda que muitas vezes de forma sutil, outras nem tanto, o mundo acadêmico não parece deixar dúvidas quanto a isso.

Espaços se fecham diante da possibilidade de surgimento de alguém de “fora”. Muitas vezes, por movimentos quase que imperceptíveis de tão bem concatenados, bloqueiam-se as fronteiras.

Pergunte ao neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, nascido paulista, radicado durante muito tempo nos Estados Unidos e hoje vivendo lá e cá, considerado um dos vinte maiores cientistas do mundo no começo da década passada pela revista “Scientific American”, o que ele pensa e sabe sobre isso.

Fora do circuito da “imprensa endodôntica” e isolado do resto do Brasil pelas montanhas de Minas Gerais, sua terra, o professor Quintiliano Diniz De Deus viu barreiras serem colocadas nas suas fronteiras com o mundo endodôntico brasileiro.

Original, o Prof. De Deus chegou falando de uma forma diferente de ver a Endodontia e enfrentou dificuldades. Representa hoje uma página importante da vida endodôntica no Brasil e constitui leitura obrigatória para quem deseja conhecer melhor os caminhos da Endodontia.

Como seria nos tempos atuais em que a “imprensa endodôntica” se profissionalizou e se tornou ainda mais poderosa?

Não parece ser de difícil percepção os grupos que se tornaram influentes, com grande acesso e força junto a essa “imprensa”.

Conheço de perto a história de um professor de um país hermano vizinho que por duas vezes em momentos diferentes tentou levar um professor do Nordeste do Brasil para falar de Endodontia no seu país.

Não conseguiu.

Ele deixou transparecer que foram daqui as vozes que sugeriram o veto.

Eles são invisíveis?

Não.

Muito pelo contrário.

O tempo e o vento. E os Mestres

clock hands being pushed back by a business man

Por Ronaldo Souza

Há uma Geração de Ouro na endodontia brasileira.

Como escrevi à época, independente de eventuais divergências não há como deixar de reconhecer neles os méritos no surgimento e consolidação da qualidade da nossa endodontia.

Só os tolos esquecem os seus mestres.

Só aqueles com péssimo caráter vão além e falam mal dos seus professores.

Verdadeiros mestres não surgem como num passe de mágica, da noite para o dia. A despeito da importância dos seus títulos acadêmicos, não se tornam mestres de verdade graças a eles.

Vão se formando ao longo dos anos.

E terminam eleitos pelos deuses para uma missão nobre, da qual alguns talvez nem tenham noção da real dimensão.

Foi nesse processo que os mestres, a alguns dos quais me reporto em Geração de Ouro, chamaram para si a responsabilidade da construção da endodontia brasileira como hoje ela é.

Não se fizeram deuses, foram consagrados por eles.

Acho que nunca vou esquecer uma conversa com (Roberto) Holland, quando há alguns anos, reportando-se a determinado assunto, ele terminou uma frase assim; “… tenho visto na imprensa”.

Achei muito interessante aquela palavra, imprensa, sendo utilizada daquela maneira.

Claro que não era a imprensa como a conhecemos (jornal, televisão…), mas o que corre como “notícia” pelo mundo da Odontologia e no caso em particular da Endodontia.

Aqueles grandes mestres citados no artigo foram naturalmente surgindo e quando menos se esperava, estavam lá. Prontos, para ocupar o lugar que era deles.

Cada um a seu jeito, mas todos com características bem definidas:

Seriedade, competência e compromisso com o ensino da Endodontia.

Por razões diversas, alguns já não mais estão na ativa, outros em breve seguirão esse caminho e outros não estão mais entre nós.

Acredita-se que rei morto, rei posto.

Alguns até estimulam a difusão desse conceito. Por razões que só eles sabem.

Há, porém, um problema com as gerações de ouro.

Elas costumam deixar um vácuo que exige tempo para ser preenchido.

E os deuses recém surgidos (não mais mestres), não por consagração, mas por auto aclamação, têm pressa.

A pressa possui algumas características que interferem naquilo que poderia terminar num bom protótipo e daí, como deve ser, na bem-acabada forma final.

E os protótipos, mal acabados, ficam no meio do caminho.

A pressa é inimiga da perfeição.

Os grandes mestres não surgem, constroem-se com o tempo.

Os deuses auto aclamados têm pressa. O amanhã deles precisa ser hoje.

Paga-se um preço por isso; a inconsistência.

A construção de algo sólido impõe princípios porque só com eles se alcança o futuro.

A auto aclamação atropela.

Inclusive os princípios da dignidade.

Não terá vida longa.

Vai-se com o vento um pouco mais forte.

Mas os auto aclamados nada sabem além do ser agora.

A “imprensa endodôntica” se profissionalizou e se tornou mais poderosa.

E fez surgirem deuses.

Com a profundidade de uma piscina para crianças.

A ABO Bahia está de parabéns

cioba

Por Ronaldo Souza

No sábado (24/09) em que eu voltava de Campinas, onde participara do Circuito Nacional de Endodontia, passando pelo Centro de Convenções da Bahia a minha mulher me falou sobre o desabamento de parte do 1º andar na noite anterior.

Entre as preocupações, como ocorrência de mortes, que não houve, uma também importante para nós; a realização do Congresso Internacional de Odontologia da Bahia (CIOBA), dali a pouco mais de 1 mês.

O CIOBA seria o primeiro evento a ser realizado após a conclusão da reforma que vinha sendo feita no CCB.

Não deve ser difícil imaginar as dificuldades que surgiriam para sua realização em qualquer outro local no espaço de 1 mês.

A Arena Fonte Nova foi o local escolhido.

As arenas, como ficaram conhecidas, foram idealizadas para o futebol, mas também como alternativas para outros eventos, como shows.

Uma coisa é a realização de shows de cantores, como vários já foram realizados. Monta-se um palco e tudo mais não apresenta maiores dificuldades. Outra, completamente diferente, é a realização de um congresso.

O CIOBA seria, como foi, o primeiro, em qualquer canto do Brasil.

E com um agravante. O curto espaço de tempo para que tudo pudesse ser detalhado e executado.

E de repente, onde existiam estacionamentos, rampas de acesso às arquibancadas, lounge e camarotes tínhamos salas de aula e corredores atapetados e com refrigeração.

Perfeito?

Claro que não.

Dificuldades e transtornos existiram, mas seria impossível que não fosse assim. Como a falta de luz em salas de aula em alguns breves momentos no primeiro dia.

Todos contornados ali mesmo, na hora em que aconteciam.

Mas, já no segundo dia tudo parece ter entrado nos eixos.

Podemos dizer organização quase que impecável?

Podemos sim.

A Dra. Maria Angélica Behrens, presidente recentemente eleita da ABO-BA, e sua diretoria estão de parabéns. A realização do CIOBA nas condições resumidamente descritas foi sim um grande feito.

Não surpreende, porém, a aqueles que a conhecem um pouco melhor, entre os quais quase que já posso me incluir.

Mesmo ainda tendo pouco contato com ela, como coordenador do Departamento de Endodontia da ABO-BA vejo com muita clareza a sua disposição e boa vontade de resolver problemas importantes que persistem já há algum tempo na ABO-BA.

É nítido que a ABO-BA respira novos ares e dá sinais de viver um novo momento.

Mesmo desvinculado por razões pessoais de participação no CIOBA desde a sua última versão em 2014, por estar no dia-a-dia da ABO através dos nossos cursos de Especialização e Atualização pude ver o “sufoco” que foi a vida de Dra. Angélica e de alguns membros de sua equipe durante o mês que antecedeu o Congresso.

Posso dizer, portanto, que qualquer crítica nesse sentido não tem pertinência.

A ABO Bahia está de parabéns.

Entretanto, se, diante do que foi exposto, essas eventuais críticas devem ser desconsideradas, outras talvez não.

Durante os encontros pelas “ruas” do Congresso alguns colegas (posso assegurar que não foram poucos) conversaram comigo e houve uma crítica de todos eles, alguns de forma tímida outros mais veementes, sobre o apelo comercial em algumas palestras.

Disseram que o nome do instrumento, do sistema, do material, o que fosse, aparecia com frequência inaceitável.

Alguns comentaram que já tinham percebido isso antes, mas a surpresa é que mais recentemente tem sido exagerado e que o envolvimento de alguns ministradores estaria ficando muito evidente.

Se pudesse fazer uma síntese do que ouvi, seria esta: não se falou ou pouco se falou do tratamento em si, mas sim do instrumento para fazê-lo.

Parece que as plateias estão percebendo algo estranho, algo que não seria de agora e muito menos estaria acontecendo somente no CIOBA.

E no estranhamento desses colegas parecia haver um pedido implícito.

Não deixem que isso aconteça também com o CIOBA.