Quando as evidências não estão evidentes

Por Ronaldo Souza

Tudo que é ensinado no mundo acadêmico, seja em que nível for, deve estar respaldado por informações que encontrem na ciência a sua comprovação.

Este é um princípio elementar do processo ensino-aprendizagem.

Assim, não deveriam existir professores que não tenham essa percepção e que por isso desmereçam a importância, validade e necessidade das evidências científicas na sua relação com a sociedade, particularmente com seus alunos.

Para ficar somente no Brasil, quantos trabalhos de pesquisa foram feitos pelo professor Holland e sua equipe para que o hidróxido de cálcio fosse aprovado e adotado pela comunidade endodôntica?

Inúmeros.

Na mesma linha de raciocínio, alguns trabalhos de pesquisa sobre o Endo PTC foram realizados pelos professores Paiva e Antoniazzi antes de o preconizarem.

Não se trata de concordar ou discordar do uso dessas substâncias. Não é isso que interessa discutir agora e sim o cumprimento de algumas exigências para que instrumentos, técnicas, substâncias e materiais sejam preconizados e lançados no mundo acadêmico e no mercado odontológico.

Esse era o procedimento mais comum.

Talvez por reconhecer a importância dessa regra fundamental, até porque não poderia ser de outra maneira, chego a me surpreender com o uso que fazem dela atualmente.

Característica do ser humano, não é incomum que em determinados momentos literalmente seguimos as normas e em outras oportunidades tendemos a não ser tão exigentes.

Estamos sujeitos a ver de maneiras diferentes coisas iguais.

Depende de onde estamos olhando e, por incrível que possa parecer, para quem estamos olhando.

Assim, o viés humano deve ser considerado.

A necessidade de evidências científicas em Endodontia é cada vez mais forte, tem sido bastante enfatizada e, repito, não deveriam existir discordâncias nesse sentido.

Entretanto, talvez algumas considerações devam ser feitas.

No começo de 2009, mais especificamente em janeiro e fevereiro, foram publicados dois artigos no Journal of Endodontics sobre um novo instrumento, Apexum, cuja proposta era basicamente “instrumentar” a lesão periapical (veja os artigos aqui e aqui).

Apexum

Foi grande o encantamento e rápida a sua aceitação por alguns professores. Veja o comentário de um deles que li à época:

“Deve-se notar que o procedimento com o Apexum é substancialmente diferente da sobreinstrumentação durante o tratamento endodôntico. Este traumatiza o tecido e pode também introduzir antígenos bacterianos no tecido cuja função primordial é combate-los. Quando isso acontece, é provável que ocorra uma reação inflamatória aguda nos tecidos periapicais com o consequente edema. Assim, sintomas de agudização devem ser esperados. Com o Apexum esses eventos não acontecem. Ao contrário, ele deve ter removido o tecido no qual tal resposta poderia ocorrer e permitir o preenchimento do local com um coágulo de sangue fresco, no qual os mecanismos acima não estão presentes. Isso deve explicar o resultado confortável e sem efeito adverso no pós-operatório observado nesse estudo”.

Mesmo enxergando pequenos equívocos na proposta e grandes equívocos no texto acima, recebi a ideia com entusiasmo. Achei que, apesar do pouquíssimo tempo destinado à observação dos resultados (3 e 6 meses), a tentativa de mudança de concepção e sua divulgação através das 2 publicações já mereciam atenção.

Mas chamou a minha atenção a rápida aceitação do procedimento no Brasil, sem contestações e também sem que existissem as evidências necessárias que suportassem a sua indicação, ainda mais diante dos rigores que já se dava a essa exigência.

É natural que algumas reações sejam atribuídas à confiabilidade do grupo que publica o trabalho, seja este em questão ou outro qualquer.

Nesse sentido, porém, não vejo como negar que entre nós os grupos internacionais gozam de muito prestígio.

Quem há de negar o mérito e a seriedade de alguns deles? Ao mesmo tempo, quem duvida de que isso também se deve a fatores culturais que, claro, não cabe discutir aqui?

Mas, insisto, não há como negar que isso tem um peso enorme no Brasil.

Independente desse aspecto, mesmo a minha simpatia pela ideia não me tira a capacidade de observa-la sob a ótica da isenção.

Nessas condições, uma análise mais isenta, talvez determinadas propostas não fossem tão rapidamente aceitas.

Por outro lado, talvez outras não fossem tão rapidamente negadas para mais tarde, com novo endereço da sua origem, serem aceitas.

O mundo acadêmico sempre estabeleceu virtudes e méritos maiores a determinados tipos de trabalho em detrimento de outros.

Assim é que, sem qualquer juízo de valor, na escala de poder das evidências científicas, os estudos experimentais em animais sempre foram uma exigência “incontornável” para que novas concepções fossem aceitas.

Como nesse segmento, o das pesquisas em laboratório, já existiam protocolos mais consistentes, de fato os trabalhos possuíam mais rigor e solidez científica do que qualquer outro.

Ainda que em Odontologia engatinhássemos nessa direção e tivéssemos muito a aprender, era flagrante a sua robustez diante, por exemplo, do que se concebia da pesquisa clínica, praticamente inexistente e pouco considerada.

Atualmente os estudos em animais não mais ocupam os primeiros lugares em termos de validade de resultados.

Apesar de não ser exatamente essa a minha visão, a deduzir pela sua força atual na escala de poder das evidências científicas os resultados do trabalho em questão teriam pouco valor, considerando-se que o estudo em cães foi o utilizado.

Veja o que dizem os autores:

Nenhum evento clínico adverso ocorreu no grupo convencional ou no Apexum. Nenhum dos cães apresentou edema ou indicações de sofrimento por dor. Pode-se concluir que o protocolo do Apexum parece ser seguro mecânica e clinicamente”.

Perceba que diante daqueles primeiros resultados no estudo em cães, os autores já faziam esta afirmativa:

“Pode-se concluir que o protocolo do Apexum parece ser seguro…”

Também deve ser registrado que o acompanhamento não foi histopatológico e sim radiográfico, por 3 e 6 meses.

Ressalve-se, entretanto, que foi feita também a avaliação em humanos, um estudo clínico, publicado no segundo artigo. Este, na escala referida acima, ocupa posições mais elevadas.

Entretanto, há um detalhe. Veja parte do resumo:

“Aos 3 e 6 meses, 87% e 95% das lesões no grupo tratado com o Apexum, respectivamente, apresentaram cura avançada ou completa, enquanto que somente 22% e 39% das lesões no grupo do tratamento convencional apresentaram esse grau de reparo aos 3 e 6 meses, respectivamente.

É possível que um estudo clínico com acompanhamento radiográfico de 3 e 6 meses não forneça a base sólida suficiente que se pretende ter para a recomendação de um procedimento clínico como rotina.

Ainda que venha de um grupo internacional.

Mas assim foi feito.

E aceito.

Obs. Este artigo não se encerra aqui. Ele terá continuidade.

Quantos instrumentos você usa para preparar o canal?

Do tema “Tudo que você sempre quis saber sobre Endodontia mas tinha vergonha de perguntar”

Por Ronaldo Souza

Uma das questões mais recorrentes em Endodontia é a preocupação com o alargamento do canal.

Quanto alargar sempre foi e é um dos temas mais importantes e mais debatidos em Endodontia.

Antes, porém, de entrarmos nesse tema, faço algumas considerações.

Não gosto da expressão “alargamento do canal” e não a uso.

Mesmo que não se tenha percebido, há diferença entre alargamento e preparo do canal.

Ainda que para ambos usemos os mesmos instrumentos e o canal seja ampliado nas duas situações, é preciso entender melhor essa questão.

Tendo como objetivo o alargamento, muitas vezes surge um compromisso “obrigatório” com ele.

Desde tempos mais remotos sempre existiram dois aspectos que, se não impediam, dificultavam bastante o cumprimento desse objetivo; a pouca qualidade dos instrumentos, principalmente no que dizia respeito à sua flexibilidade, e a anatomia dos canais, particularmente com relação à presença de curvaturas.

Pelo menos por enquanto, deixemos de lado os recentes avanços na qualidade dos instrumentos. Em outro momento serão considerados.

A instrumentação que “exigia” o alargamento se deparava então com os frequentes desvios do canal promovidos por instrumentos de pouca flexibilidade trabalhando em canais curvos.

Inteligência e sensibilidade são duas armas poderosíssimas diante de dificuldades operatórias.

Alguns profissionais possuidores dessas características foram percebendo que o canal bem alargado podia até produzir belas imagens radiográficas após a conclusão da obturação, mas os resultados a médio e longo prazo eram muitas vezes frustrantes.

Desviar significa sair do caminho.

Desviar um canal significa abandonar o canal original, sair dele.

Se nele não estou como imaginar que o estou limpando?

A necessidade de compreender isso contribuiu de forma decisiva para o surgimento há anos atrás de técnicas como a escalonada, fosse ela programada ou anatômica.

Ali estava o desejo alcançado; alargar, com riscos menores de desvio.

Mas ali também estava “escondida” a solução, que poucos perceberam.

Se a anatomia do canal (sua curvatura) não me permite o alargamento desejado, eu o farei nas porções mais retas e amplas (escalonando proporcionalmente de acordo com cada segmento do canal, terços cervical e médio) e respeitarei as suas porções mais curvas e delicadas (terço apical).

Muitos não perceberam, mas já não vigorava mais o alargamento.

Com a preocupação agora voltada para a possibilidade e não para o desejo, instrumentava-se o quanto era possível e de acordo com cada segmento do canal.

Era o preparo que agora dava as cartas, não mais o simples alargamento.

Aliando-se isso à necessária habilidade manual de cada operador, estaria ali um profissional com grande potencial.

Para tornar mais fácil a compreensão, vamos usar a regra mais famosa que orientava o quanto instrumentar.

O tratamento de canal com 1 + 3 (polpa viva) e 1 + 4 (polpa necrosada).

Um mais três e 1 + 4 significam o uso de um instrumento inicial e mais três ou quatro em aumento sequencial de calibre, conforme seja polpa viva ou necrosada.

Quem determinou e por que seriam 4 instrumentos na polpa viva?

Não seriam 5, 6, quem sabe 7, ou somente 3 ou 2?

Poderia ser somente um?

Não são consideráveis as diferenças entre tratar um canal com polpa viva e um com polpa necrosada?

Não são diferentes os percentuais de sucesso do tratamento quando realizado em uma ou outra situação?

Qual a razão maior para essa diferença?

O fato de tratar um canal livre de microrganismos e outro povoado por eles.

Se, segundo a regra, seriam necessários 4 instrumentos (1+3) para instrumentar o canal com polpa viva, por que devo acreditar que somente mais um instrumento (1+4) é suficiente para exercer um efetivo controle de infecção em um canal que, diferentemente daquele com polpa viva, agora está infectado?

Quantos professores ensinaram assim?

Quantos ainda ensinam?

Continuemos juntos a nossa viagem.

Que antibiótico você usa?

Usa sempre o mesmo em todos os casos, com a mesma dosagem, tempo de uso…?

Por que o mesmo tratamento deu certo em um paciente e falhou em outro?

Estenda essas questões para as diferentes patologias em Medicina e veja as possibilidades e alternativas que se abrem.

Quem tem o domínio sobre isso?

A literatura endodôntica é unânime em dizer que quem dita o quanto se deve alargar são as condições anatomopatológicas.

Se você encontrar um livro ou artigo que diga o contrário, por favor me mostre.

Imaginemos uma situação.

Você vai fazer um tratamento endodôntico no incisivo central superior com polpa viva de paciente adulto jovem.

Pelo seu volume, esse canal permite que normalmente você inicie com instrumentos de calibre na faixa entre limas 35 e 45 e que sem maiores dificuldades use mais três na sequência de instrumentação.

Um exemplo então seria começar com a lima 40 e terminar com a 55.

O canal foi obturado e o paciente liberado para restaurar o dente.

Digamos que por qualquer razão que seja, o tratamento falhou, surgiu uma lesão periapical e esse paciente volta ao seu consultório.

Ninguém retrata removendo a obturação e simplesmente pondo outra (se bem que alguns estão praticamente fazendo isso – deixa pra lá, quem sabe seja tema para outra conversa). Um novo tratamento deverá ser feito, pelo menos é isso que se imagina.

Você vai desobturar, fazer nova instrumentação e depois nova obturação.

Na ficha clínica do paciente consta que no tratamento você instrumentou até a lima 55.

Sabendo que agora você está diante de uma lesão periapical, o que todos recomendam e fazem?

Alargam mais o canal. E aí dá tranquilamente para ampliar mais com a 60, 70, 80 e até mais, não é mesmo?

Ótimo.

Agora chega ao seu consultório um paciente para fazer o tratamento endodôntico do primeiro molar superior com polpa viva.

Você preparou os canais e percebeu que o mésio-vestibular deu um pouco mais de trabalho, mas você conseguiu instrumentar até a lima 35.

Obturou os canais e o paciente está liberado.

Tal qual o outro, também por qualquer razão que seja, o tratamento falhou e o paciente volta ao seu consultório, agora trazendo uma lesão periapical na raiz mésio-vestibular.

Você não esquenta a cabeça.

– Ah, que nada. Já fiz isso naquele paciente do incisivo central superior. Vou desobstruir, alargar mais, afinal estou diante de uma lesão periapical, e vou obturar.

Vamos nos ater somente ao canal mésio-vestibular, que é onde existe a lesão.

Você desobstruiu e agora, como fez no central, vai alargar mais, neste caso com as limas 40, 45, 50…

No mésio-vestibular do molar superior!

Aí você se lembra que teve uma “dificuldadezinha” para instrumentar até a # 35 daquela vez e agora “terá” que preparar até a lima 50.

Conseguiu?

Mas vai ter que conseguir.

Você nunca ouviu essa frase do seu professor?

– Vai ter que alargar mais, vai ter que levar até a lima…

No retratamento do incisivo central superior, você estava diante de uma lesão periapical, desobstruiu o canal, alargou até a lima 80 ou mais e obturou outra vez.

Agora você está diante da mesma patologia, portanto precisa fazer a mesma coisa, isto é, alargar mais, no exemplo dado pelo menos até a lima 50.

Diante da mesma patologia, lesão periapical (quer a expressão mais correta? Periodontite apical crônica; tudo bem agora?), o compromisso, desejo e recomendação é alargar mais.

Por que em um canal você conseguiu e no outro não consegue?

Por causa da curvatura?

Perfeito.

O que diz a literatura?

“Os níveis de ampliação do canal são determinados pelas condições anatomopatológicas”.

Ainda que ela oriente assim e seja esse o seu desejo, quem foi que não permitiu que você fizesse isso no mésio-vestibular?

A curvatura.

Percebeu então que quando a literatura diz que “os níveis de ampliação do canal são determinados pelas condições anatomopatológicas” ela comete um equívoco?

Quem determina os níveis de ampliação é a anatomia.

E você já observou isso.

Só ficou com receio (a palavra medo é muito forte, não é?) de dizer.

Ou você alarga o canal reto e curvo do mesmo jeito, com a mesma facilidade?

Finalmente, quantos instrumentos então devem ser usados para preparar o canal?

Não sei.

Quem sabe?

Quem souber, por favor se apresente.

Então façamos o seguinte.

Se a anatomia do canal permitir, use em torno de 4 a 6 instrumentos.

Quando possível e necessário, quem sabe um pouco mais.

Quando não, um pouco menos.

Não é quase que o mesmo que usar a regra do 1+3 e 1+4?

Sim.

Entretanto, dito de outra forma.

Que pretende ser uma maneira de fugir das regras previamente estabelecidas.

Usa-las como orientação, jamais como compromisso obrigatório.

Ninguém tem que instrumentar até a lima…

Ninguém tem que usar tal instrumento.

Ninguém tem que usar tal material.

Ninguém tem que fazer isso, fazer aquilo.

Pensar e fazer assim torna a Endodontia pobre.

Muito pobre.

Tudo que você sempre quis saber sobre Endodontia mas tinha vergonha de perguntar

Por Ronaldo Souza

Ocorreu-me há algum tempo escrever alguns textos sobre determinados tópicos de Endodontia.

Aquelas questões sobre as quais muitas vezes temos dúvidas e ou não temos oportunidade ou temos vergonha de perguntar.

O desejo de escrever os textos existia, o tempo não permitia.

Fazendo a barba, veio-me à mente um antigo filme de Woody Allen, cujo título é “Tudo que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar”.

Fica claro, portanto, que roubei o título do filme e o adaptei para a Endodontia.

Serão textos simples, diretos e bem informais.

As postagens serão feitas aqui no site https://www.endodontiaclinica.odo.br, na seção Conversando com o Clinico, mas farei farei um link no facebook para trazer o leitor ao site.

Então, mãos à obra.

X + Y é igual a que?

Apical limit of root canal filling

Por Ronaldo Souza

Há alguns poucos anos recebi um convite de dois colegas para participar de um grupo de conversas, trocas de ideias, debates, pela Internet.

Não pretendia aceitar e sem querer ser indelicado por recusar, imaginei que “deixariam pra lá” se eu não respondesse. Que esqueceriam.

Não esqueceram.

Diante de mais dois ou três convites, aí sim não responder seria uma indelicadeza.

Bastava autorizar a incorporação do meu nome e e-mail ao grupo já existente para que fosse considerado como inscrito.

Fiz isso, mas, nada específico contra, por e-mail expliquei que por falta de tempo dificilmente participaria de forma ativa.

Na verdade, já sabia que não participaria e tinha algumas razões para isso.

De uma certa forma já antecipava como seria e até temia o que poderia acontecer, o que foi se confirmando com as postagens que fui vendo serem feitas.

Podia ser diferente, mas não era.

De um modo geral, era meio que uma mal disfarçada exibição de casos clínicos, revestidos de humildade e simplicidade poucas vezes vistas.

Muitas vezes narrados sob o som do cansaço de final de expediente, aquele caso que “mesmo assim acho que não ficou ruim”.

E ali estavam tratamentos endodônticos radiograficamente bonitos, alguns dignos do cinema americano.

À espera do elogio.

Sedas e mais sedas eram rasgadas.

A vaidade jogava solta.

Explicava-se na carência e na necessidade da conquista de espaço.

Nas discussões alguns batiam, alguns apanhavam.

Temo até que alguns que apanhavam, e não era pouco, não percebiam que apanhavam.

Um ou outro que de fato se destacava um pouco mais, batia com vontade e o fazia com conhecimento, mas mal conseguia disfarçar a falta de humildade.

Saltava aos olhos.

Por mais que tentasse se mostrar com humildade, era grande a dificuldade em controlar o inimigo mortal dela; a arrogância.

Qualquer possibilidade de contestação e lá vinha a dificuldade se mostrando na resposta já em tom desafiador e agressivo.

Um dia estou lendo as postagens e percebo que o professor X pede ao professor Y para fazer uma análise de um artigo recém-publicado.

Comecei a ler.

Mal comecei, opa, esse artigo é meu.

Corri para o site da revista e estava lá, como publicado.

E eu acabara de saber naquele momento.

O expert bateu com vontade.

Não sobrou nada do artigo.

Pela análise que acabara de ler, tive a certeza de que aquele era o pior artigo de Endodontia que já tinha sido publicado.

Arrasado.

Ponha arrasado nisso.

O suicídio se apresentou a mim como alternativa de vida.

Aliás, de morte.

Vamos aos “finalmentes”?

O artigo é esse cujo título está postado aqui e que você pode ler na íntegra clicando aqui.

Agora sou eu que vou fazer o convite.

Claro que se você visse as considerações do expert não seria bobo de querer ler um artigo desse.

Mas leia. Acho que você vai gostar.

Leia que na próxima semana iremos conversar um pouco sobre ele.

Curta seu Natal.

Só para fechar, a Química mostra que quando duas substâncias são incorporadas uma à outra, nem sempre as suas qualidades se somam.

Às vezes uma anula a outra ou até mesmo se anulam mutuamente.

Também assim são as pessoas.

Quando duas se juntam, nem sempre são as virtudes que prevalecem.

A Sessão Clínica está de volta

Olá pessoal,

Em novembro de 2012 fizemos este convite a vocês.

A ideia era a de que a partir daquele momento teríamos um encontro periódico, inicialmente estipulado para acontecer de 4 em 4 meses.

Ocorre que, apesar do grande sucesso já no primeiro encontro, entre compromissos, imprevistos e coincidências com as datas da vinda de professores de outros estados que dão aulas no nosso curso de especialização, ficamos impossibilitados de manter a programação da forma como foi prevista inicialmente.

Estamos de volta.

A ideia é a mesma. Promover um encontro às sextas-feiras à tarde, das 14:00 às 18:00, para conversarmos sobre as coisas da Endodontia e particularmente discutirmos casos clínicos que serão projetados, de maneira simples, direta e objetiva.

O convite, da mesma maneira que antes, é feito a todos os ex-alunos do Curso de Especialização em Endodontia da ABO-BA, extensivo aos alunos que estiverem cursando o Curso de Aperfeiçoamento, além dos monitores de Endodontia da Escola Bahiana de Odontologia e Saúde Pública.

Como também estava previsto, vamos complementar a atividade com um happy hour no Caminho de Casa (pela praticidade por ser perto da ABO), mas estamos abertos a sugestões quanto ao local!

Esse nosso próximo encontro será no dia 25/10/2013. Vamos aprender juntos.

Uma reflexão perdida nas entrelinhas

Quer melhorar os resultados dos seus procedimentos cirúrgicos? Conheça um protocolo preciso, seguro e completo para cirurgia parendodôntica. Não se esqueça que um dos objetivos é a desinfecção radicular; estamos conseguindo com os tratamentos convencionais?”
 
Há pouco tempo recebi um e-mail em que um colega fazia essa colocação/pergunta. Um questionamento pobre na sua proposição e que me deixou um pouco desapontado com ele. Jovem, ainda iniciando a carreira e já com um pensamento totalmente equivocado. O pior de tudo é que termina com uma falsa pergunta, que, na verdade, insinua fortemente que os tratamentos convencionais não estão conseguindo alcançar o objetivo de promover a desinfecção radicular. 
 
Como o conhecia, resolvi lhe telefonar para conversarmos sobre a sua indagação/afirmativa. Somente aí fiquei sabendo que a “frase” não era dele. Se sabia de quem era (acho que sim e por essa discrição o elogio) não disse. Só disse que tinha visto na Internet, terra de todos e de ninguém. Fiquei então mais à vontade para conversar. Após a nossa conversa, veio-me o desejo de escrever sobre o tema.
 
Muitas vezes ouvi de colegas: “hoje eu vivo praticamente de retratamento”. Uma alusão clara ao fato de que o que mais vinham fazendo nos consultórios era retratamento. Como sempre faço, procurei entender o que poderia realmente significar aquela frase. 
 
Devido às elevadas taxas de insucesso, o futuro da Endodontia está no retratamento”. Essa frase é de ninguém menos que Schilder, Herbert Schilder, um dos monstros sagrados da Endodontia, em editorial escrito por ele no Journal of Endodontics, em 1986.
 
Vamos ver um pouco mais de perto tanto o dizer dos colegas de que o que mais fazem é retratar canais como a frase de Schilder.
 
Muitos sabem das minhas dificuldades em conviver com ideias e tendências elitistas/separatistas, mas nesse momento preciso recorrer a elas. 
 
Imaginemos uma cidade qualquer e digamos que nela existem 10 endodontistas de primeira, elite da endodontia. Normalmente, as pessoas de maior poder aquisitivo são tratadas por esses profissionais; Arnaldo, Eduardo, Paulo, José…
 
Se Arnaldo, um profissional de elite, que atende pacientes de maior poder aquisitivo, diz que está praticamente vivendo de retratamento, é possível que muitos desses pacientes tenham sido tratados pelos colegas que, como ele, fazem parte desse grupo especial de profissionais. Por razões diversas, o paciente pode não querer voltar a aquele profissional que o tratou inicialmente.
 
Se Eduardo, um profissional de elite, que atende pacientes de maior poder aquisitivo, diz que está praticamente vivendo de retratamento, é possível que muitos desses pacientes tenham sido tratados pelos colegas que, como ele, fazem parte desse grupo especial de profissionais. Por razões diversas, o paciente pode não querer voltar a aquele profissional que o tratou inicialmente.
 
Se…
 
Assim, os pacientes de maior poder aquisitivo, que podem frequentar os consultórios de profissionais diferenciados, estão tendo tratamentos e retratamentos endodônticos realizados pelos mesmos profissionais. E é aí que surge uma questão sobre a qual ninguém pensou; se há necessidade de tantos retratamentos, acredito não ser difícil concluir que não estamos sabendo tratar.
 
A questão colocada por Schilder de que devido às elevadas taxas de insucesso, o futuro da Endodontia está no retratamento diz, com palavras diferentes, praticamente a mesma coisa dita pelos colegas. Schilder acertou em cheio. Faltou, porém, nos dois momentos, a reflexão. Tratamentos bem realizados não costumam levar ao fracasso. Se são tão elevadas as taxas de insucesso, deve-se concluir que os tratamentos estão sendo mal executados. Simples.
 
Além disso, é possível que Schilder não tenha percebido a gravidade do que estava dizendo, o que torna mais triste ainda a percepção da coisa. É muito fácil, prático, cômodo, simples, até porque financeiramente rentável, perceber que estou vivendo praticamente de retratamento e nada mais ver além disso. É só isso?
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Vejamos essa questão sob outro ponto de vista. No dia em que a Medicina disser “devido às elevadas taxas de insucesso, o futuro da cirurgia cardíaca está em reoperar os pacientes”, o que deverão fazer os médicos? E o que pensaremos nós, pacientes? E você endodontista, vai achar normal? Vai achar interessante quando os médicos disserem estou vivendo praticamente de reoperar os pacientes? Quais serão as chances de que um desses pacientes seja você?
 
Ainda que tenhamos tido um grande avanço tecnológico nos recursos hoje existentes, como de fato tivemos, o tratamento endodôntico apresenta dificuldades técnicas ainda consideráveis. Ao lado disso, o desconhecimento da ciência endodôntica é chocante, como se pode ver na frase que abre esse texto. Porém, apesar disso, os percentuais de sucesso dos casos bem conduzidos são elevados.
 
Vamos buscar parte da frase lá em cima? “…Não se esqueça que um dos objetivos é a desinfecção radicular; estamos conseguindo com os tratamentos convencionais?” Estamos sim doutor.
 
E que não estivéssemos. Vou agora abandonar a expressão que o colega usou e aplicar a que gosto e uso. Imaginar que o controle de infecção do sistema de canais radiculares, eventualmente não atingido pelo tratamento aqui chamado de convencional, será atingido pela cirurgia parendodôntica reflete um grande desconhecimento da endodontia.
 
O substituto para um tratamento endodôntico mal realizado é um tratamento endodôntico bem realizado, não é a cirurgia, que sempre terá as suas indicações. Não pensar assim mostra desconhecimento da endodontia ou interesses ocultos. Como diz Eça de Queirós*, “ou é má-fé cínica, ou obtusidade córnea”.
 
Portanto, ao colega que questionou se “estamos conseguindo (promover a desinfecção radicular) com os tratamentos convencionais” eu diria que não só estamos conseguindo como essa é a única maneira de se conseguir. Nesse momento, um conselho, e para isso recorro a Rousseau**: “A arte de interrogar não é tão fácil como se pensa. É mais uma arte de mestres do que de discípulos; é preciso ter aprendido muitas coisas para saber perguntar o que não se sabe”.
 
* Eça de Queirós – um dos mais importantes escritores portugueses.

** Jean-Jacques Rousseau – importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo. 

Comigo não acontece

Decidido, positivo, muito autoconfiante, mesmo que às vezes parecesse um pouco exagerado. Sabe que houve momentos em que tive um pouco de inveja dele. Já ouviu falar ou conhece a inveja saudável? Tive. 

É a proximidade com algo ou alguém que lhe dá o conhecimento sobre esse algo ou alguém. Para se ter proximidade, por exemplo, com a ciência, é preciso estudar. É o estudar que lhe traz para próximo da ciência, portanto, do conhecimento científico.

Algo muito comum nos dias atuais, a facilidade de acesso à informação faz as pessoas se imaginarem conhecedoras de todos os assuntos. A mídia nos mostra diariamente “analistas” que entendem igualmente e com profundidade de tudo, de cinema à economia, de política à futebol… Aí, sem que percebam, expõem a sua ignorância ativa. A proximidade com pessoas assim mostra a sua fragilidade. Não é difícil identificar quem vomita um conhecimento que não tem.

Com ele foi assim. Assustaram-me as primeiras vezes em que vi se manifestar a sua ignorância ativa. Houve um momento específico, o primeiro momento, em que a vi com clareza; foi um choque.

Você sabe do que a amizade é capaz? De tudo, inclusive de quando não esconder, amenizar os defeitos dos amigos. Atribuí aquilo a um momento pelo qual, em intensidade maior ou menor, todos nós passamos; a necessidade de afirmação, ainda mais quando se busca um espaço.

As discussões, sem que ele percebesse, morriam no “comigo não acontece”. Você quer maior prova de falta de argumento? Por falta de argumentos e contra-argumentos, você foge do tema e se “diferencia”: “comigo não acontece”. Morre o assunto, morre a discussão. Como contra argumentar com comigo não acontece? É um profissional diferenciado. Foram algumas vezes.

Um conselho. Certas discussões não devem ser travadas em mesa de bar. Essa foi. Discutindo aspectos da endodontia, não tinha como faze-lo entender algumas coisas. Até que um colega não conseguiu mais se controlar: “quer um conselho? Pegue o livro de Robbins (Patologia) e vá estudar”. Mal estar geral.

Alguns poucos anos depois esse colega me disse; “se arrependimento matasse eu já estaria morto”. Arrependia-se pelo tom ríspido com que falara e pelo mal estar que provocara. Pelo menos dessa vez, achei que não havia tanto porque se arrepender. Se o necessitado de Robbins tivesse seguido o conselho que lhe foi dado, mesmo que num tom um pouco mais ríspido, não seria hoje o que é. Teria valido a pena. Não o fez. 

É possível que tenha pego o referido livro e tenha lido alguma coisa. Em outras palavras, teve acesso à informação. Mas, ler não é estudar. Seguiu-se então uma sequência de vomitar de conhecimentos com a profundidade de uma piscina para bebês. Confirmava-se ali uma característica pessoal.

Acidentes profissionais, passíveis de acontecer com qualquer um, costumam trazer muita reflexão. Quanto mais graves, mais reflexão trazem. Quase sempre na mesma proporção, com a reflexão costuma chegar a humildade, companhia indispensável aos grandes profissionais.

Nem sempre é assim. Acreditam alguns que tentar abafar o caso é suficiente. Se os outros não sabem, comigo não acontece.

Algumas fronteiras são tênues, às vezes de difícil definição. Uma delas, certamente, é a existente entre a ignorância e a excessiva autoconfiança. A arrogância costuma ser o resultado. 

Outro dia ligou uma colega. Sala de aula, ambiente de discussão, troca de ideias… Diante de mais um momento de vazio, mais uma vez ele fechou a discussão. Antes que ela dissesse como, interrompi e perguntei: ele disse “comigo não acontece”?
 

Como é que você sabe? 

Cem mil

Chegamos a 100.000 visitas no site. Na verdade, chegamos antes desse momento. É que há cerca de 3 anos, na mudança do servidor que hospeda o site, perdemos alguns poucos mil registros das visitas até então. No Blog da Endodontia, a seção mais visitada, já são mais de 210.000 visitas (também aqui perdemos registros na mudança de servidor).

Pouco, muito? Não sei. Sei que nesse tempo, aconteceram algumas coisas e talvez a mais importante foi que diminuí a frequência nas respostas às colocações/perguntas que foram e são feitas. Nesse processo, é possível que alguns colegas tenham se aborrecido.

Já tive oportunidade de me desculpar algumas vezes por isso. Os compromissos foram ficando cada vez maiores e o tempo disponível menor. Confesso que tem ficado mais difícil. Se não justifica, explica. Não é muito simples manter o site em dia com a quantidade de respostas e textos que tenho que escrever. Com os aspectos positivos e negativos que isso pode representar, é um site mantido por uma pessoa só.

Justamente por não poder responder a todas as questões colocadas, pelo que mais uma vez peço desculpas, procurei contar com alguns colegas do grupo do qual faço parte para me dar mais suporte nesse sentido, mas eles também não possuem tanto tempo disponível. É a famosa correria.

Outra mudança importante foi o ganho de um conteúdo mais político na seção Falando da Vida. Houve quem se manifestasse contra essa nova cara do site usando uma frase que utilizei desde os seus primeiros momentos: “O desejo é um só; “conversar” sobre as coisas da Odontologia, particularmente, da Endodontia”. O colega estava, pelo menos em parte, correto.

O objetivo continua sendo o de conversar sobre as coisas da Odontologia, particularmente, da Endodontia. Porém, também desde os primeiros momentos, já havia essa possibilidade, na verdade um desejo, de falar de todas as coisas, inclusive política. Por isso, desde o início existe a seção Falando da Vida, que objetiva falar, como o nome diz, da vida, na qual a política está fortemente inserida e desempenha papel inquestionável. Dela dependem as nossas vidas.

Sabia que poderia enfrentar alguma dificuldade no meu posicionamento, aliás, manifestada de maneira absolutamente clara por um colega que disse que eu era “um grande professor de Endodontia, mas lamentável nas minhas posições políticas”. Por outro lado, também já houve quem dissesse que, mesmo não tendo o mesmo ponto de vista, aprendeu mais sobre política lendo os textos do Falando da Vida.

Sabia que teria pouca companhia nas “minhas posições políticas”, mas não posso fugir delas. Aos colegas que concordam com elas, dedico os textos, aos que não concordam, se me permitirem, tenho algo a dizer.

Observem que os textos estão somente no Falando da Vida, não interferem em nada no restante do site. Certo ou errado, o pensamento está sempre voltado para o bem estar da maior parte da população brasileira, o povo, do qual faço parte, e para as minorias. Talvez não se possa imaginar o bem que faz e a paz que traz lutar ao lado dos mais fracos. Ao mesmo tempo, sempre procuro colocar links que levam às fontes/comprovações do que é dito.

Reconheço que os textos políticos terminaram ganhando grande espaço, mas posso assegurar que isso se deveu às distorções que promoveram e promovem na forma de fazer política no Brasil.

Tenho o testemunho de todos vocês de que em nenhum momento o endodontiaclinica.odo.br se rendeu a causas menos nobres. Nunca teve interesses ou vínculos que não fossem com os verdadeiros valores da Endodontia, muitas vezes com algum desgaste por bater de frente com interesses menores, infelizmente tão comuns nos tempos atuais.

Por isso, nesse momento em que ultrapassamos as 100.000 visitas no site e mais de 210.000 no blog, acho que temos o que comemorar. Ainda que com as dificuldades apontadas, espero poder continuar conversando com vocês por um bom tempo.

Que realmente 2013 seja um Ano Novo muito feliz.

Grande abraço,
Ronaldo Araújo Souza

Revistas de alto impacto publicam as piores fraudes

Do Observatório da Imprensa, Por Mauro Malin em 24/12/2012 na edição 726

Um professor veterano da Universidade do Texas, Charles “Chip” Groat, pediu demissão ao final da revisão de um estudo que conduziu sobre o processo de perfuração do solo conhecido como fracionamento hidráulico (“hydraulic fracturing”, ou “fracking”). A informação saiu em reportagem do site StateImpact Texas no dia 6 de dezembro.

O relatório original de Groat, divulgado em fevereiro de 2012, tratava de extração de gás de xisto (“Fact-Based Regulation for Environmental Protection in the Shale Gas Development”). Concluía não haver relação entre método de perfuração e contaminação da água. O que o autor não revelou é que ele integrou o conselho de uma empresa de perfuração durante todo o tempo que durou o estudo, o que lhe valeu receber US$ 1,5 milhão em cinco anos. A revisão encontrou erros de elaboração, além de outras falhas na maneira como o relatório foi divulgado.

Fórum Mundial de Ciência

Ética na ciência e na comunicação de ciência é um dos grandes temas propostos para a discussão da participação brasileira no sexto Fórum Mundial de Ciências (FMC), que se realizará no Rio de Janeiro em novembro de 2013 (veja informações sobre o evento em http://fmc.cgee.org.br/). Uma entrevista e um artigo trataram do assunto em edições recentes deste Observatório (“Comunicação científica para um público mais atento” e “Ciência em tom jornalístico”).

A preparação brasileira para o FMC incluiu até agora quatro encontros preparatórios, realizados em São Paulo, Belo Horizonte, Manaus e Salvador. Nesse último, a médica Eliane S. Azevêdo, professora emérita e ex-reitora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em palestra sobre “Desafios da Ética e Integridade Científica”, falou sobre a influência da ciência na definição de políticas públicas nas áreas da saúde pública, medicina, clima, ambiente, agricultura, energia, influência que amplia a exigência de ética na condução e na divulgação das pesquisas.

Dois fenômenos foram destacados pela professora: o crescimento do número de desvios éticos em publicações científicas e subsequente retratação pública de artigos publicados, e o custo da má prática em ciência, assunto novo, abordado com rigor e clareza pela palestrante.

A professora Eliane concordou em dar a entrevista abaixo, feita por correio eletrônico, na qual ela destaca que as fraudes mais graves são produzidas por pesquisadores de primeiro time, por isso sua detecção é mais difícil, custa mais caro e demora mais, do que resultam danos mais extensos e profundos.

Em relação aos meios de comunicação, a ex-reitora diz que “as desonestidades mais graves, isso é, fabricação e ou falsificação de dados são preferencialmente publicadas em revistas de alto impacto (Science, Nature, Cell etc.).”

Mais fraudes, vigilância intensificada

O aumento do número de retratações, observado em pesquisa que a senhora mencionou em sua apresentação, indica acréscimo da ocorrência de comportamentos fraudulentos ou intensificação da vigilância?

Eliane S. Azevêdo – Creio tratar-se de uma confluência de fatores dentre os quais intensificação da vigilância e aumento de ocorrência, conforme lembrado. Esses fatores, todavia, estão interligados a variáveis causais como pressões institucionais por publicações; obsessão em atendê-las; competição por recursos; prestígio conferido a currículos longos; crescente número de pesquisadores; ambições pessoais sem crivo moral, etc. Além disso, ações educativas para a boa prática científica ainda são incipientes e até mesmo ausentes em muitas instituições universitárias, grupos de pesquisa, cursos de pós-graduação, editores de revistas, etc.

A senhora diria que falhas de filtragem de artigos em revistas científicas tendem a ser magnificadas em jornais e revistas, cujos filtros costumam ser muito mais precários?

E.S.A. – As editoras de revistas científicas e seu corpo editorial compartilham igual responsabilidade social na divulgação de boa ciência, isso é, ciência sem fraudes, fabricação, falsificação, plágios, autoplágios, duplicações, fatiamentos, etc. A criação do COPE (Commitee on Publications Ethics) em 1997, na Inglaterra, e ampliação à Wade (World Association of Medical Editors) com objetivo central de prover editores e revisores com conhecimentos para melhor lidar com situações suspeitas de desvios éticos na pesquisa, traduz a importância do problema sob o olhar das revistas científicas. Infelizmente, não se trata de uma prática dos editores em todos os países, e suspeitamos ser praticamente inexistente em jornais e revistas de divulgação.

As revistas científicas devem funcionar como a última barreira na filtragem ética. Se falha a filtragem e a publicação é reproduzida em jornais e revistas dificilmente haverá reversão de danos com a retratação.

No Brasil, cientistas alertam imprensa

Ao que tudo indica, a grande imprensa brasileira está alheia à extensão dos prejuízos causados pelas falhas éticas em publicações científicas. A senhora concorda com essa hipótese?

E.S.A. – Ainda que esteja alheia a uma avaliação criteriosa dos prejuízos, não está alheia à existência das questões da integridade científica. Existem cientistas brasileiros alertando e até mesmo conclamando por ações educativas e ou de vigilância. Considero urgente que, no Brasil, a geração atual de pesquisadores íntegros aponte os danos intelectuais, morais e financeiros gerados pela má prática científica e agregue reflexões pertinentes aos ensinamentos que transmite aos alunos. Existe ampla literatura internacional sobre o tema, inclusive com estudos de meta-análise sobre artigos retratados e formula&cced

il;ão matemática para cálculo do custo financeiro de um artigo retratado. [Meta-análise, segundo o criador do termo, Gene Glass, é “uma análise estatística de grandes coleções de resultados de estudos individuais com o propósito de integrar os achados desses estudos”; fonte: Wikipedia.]

O perfil dos desonestos em ciência já começa a ser desenhado: não são intelectualmente medíocres; as desonestidades mais graves, isso é, fabricação e ou falsificação de dados são preferencialmente publicadas em revistas de alto impacto (Science, Nature, Cell etc.). Quando a má prática é menos grave, por plágio ou duplicação, a preferência é por revistas de médio impacto. Essas associações são relatadas com significância estatística. Assim, a ocorrência e o tipo de má prática em ciência têm certa aderência ao nível intelectual dos desonestos. O recorte moral dos cientistas atuais parece não diferir do resto da humanidade… Teríamos sido diferentes no passado? Confiamos que melhoremos no futuro…

Demora agrava prejuízos

Fale sobre as consequências negativas da demora entre a publicação de texto fraudulento e a retratação.

E.S.A. – Começamos a pensar sobre essa associação em 2009, quando lemos na newsletter do Office of Research Integrity (ORI) o relato de dezesseis artigos retratados, todos da autoria de dois pesquisadores americanos e publicados entre os anos de 1997 e 2005. Entre o início das publicações e a data das retratações passaram-se doze anos, período suficiente para que se construísse uma corrente de pensamento médico e práticas de ensino fundamentadas na consulta a artigos de revisão ou de meta-análise. Assim, resolvemos verificar através do repositório PubMed. Encontramos não apenas um longo trabalho de revisão com quatro citações dos artigos retratados, mas, também, o próprio texto da revisão tecia elogios aos trabalhos dos dois pesquisadores, agora reconhecidos como desonestos. Imaginamos que quanto maior o tempo decorrido entre a publicação fraudulenta e sua retratação mais se difundem danos irreparáveis à ciência. Com essa visão, escrevemos à direção do ORI, que publicou nossas considerações na newsletter de dezembro de 2009. Estudos recentes (Fang e col. 2012) demonstraram que o tempo entre a publicação e a retratação é em média de dois anos nos casos de plágio e de quatro anos nos casos de fraudes.

Plágio e fraude

Que mecanismo está por trás da constatação de que “quanto pior o tipo de fraude, mais tempo ela demora para ser reparada”.

E.S.A. – Os casos de plágios podem ser detectados por qualquer pessoa e comprovados mediante comparação dos dois textos: original e plagiado. Além disso, já existem no mercado aplicativos com funções específicas para detectar plágios.

Nos casos de fraudes, por outro lado, percorre-se penoso processo de investigação que nasce com a denúncia de suspeita, verificação inicial por comissão local da instituição, subsequente abertura de processo investigatório por órgão credenciado. A investigação examina as anotações originais, entrevista pessoas da equipe, além de conduzir o interrogatório aos pesquisadores suspeitos. Tudo isso requer tempo/horas de competentes pesquisadores, advogados, técnicos, burocracias, etc. e tem alto custo financeiro. É raro situações como a de certo pesquisador que impediu o andamento da investigação sob a alegação que os papéis com as anotações originais “o cupim comeu…” Por outro lado, não são raros os pesquisadores assumirem-se culpados, conforme constatamos nos relatórios públicos do ORI. Nos EUA, o ORI é órgão governamental com função específica de receber denuncia de má prática científica, conduzir o processo investigatório, divulgar as conclusões, indicar artigos para retratação e aplicar as respectivas penalidades aos pesquisadores infratores. Infere-se, assim, que quanto mais elaborada a montagem científica da fraude mais difícil vencer as dissimulações do pesquisador desonesto.

O CNPq constituiu uma comissão de ética, mas, salvo engano, ela ainda não teve oportunidade de examinar nenhum caso e de tomar alguma deliberação. Qual sua expectativa em torno do trabalho dessa comissão? Os problemas de fraude são graves no meio científico brasileiro?

E.S.A. – Temos conhecimento, sim, da criação dessa comissão. Percebemos que criar uma comissão tenha sido o passo preliminar para posterior instalação de um órgão ligado ao CNPq, mas independente, dirigido por pessoa de alta qualificação moral e científica e em dedicação exclusiva, amparada por competente equipe e infraestrutura investigatória, tudo isso bem protegido de qualquer fluxo de influência. Acreditamos não ser fácil, porém, sem ser impossível, criar-se algo semelhante ao ORI aqui no Brasil.

Desconhecemos estudos que indiquem a frequência de fraudes científicas no Brasil. Casos isolados já vieram a público. Concluímos reafirmando que ações educativas sobre integridade científica devem ser oferecidas, de imediato, na formação de jovens em iniciação científica, nos cursos de graduação e de pós-graduação, nos institutos de pesquisa, e paralelamente exigidas pelas agencias de fomento e revistas científicas.

Por que insistem?

É mais do que natural defendermos os nossos pontos de vista. Temos as nossas convicções e o direito de defende-las. Parece, no entanto, não ser recomendável que diante da ausência de evidências, ou, pior ainda, na presença de evidências contrárias insistir com eles.

Outro dia estava lendo um desses textos escritos em jornais da classe (página inteira) e me deparei com esse trecho: “a conhecida técnica de obturação de condensação lateral tem dado lugar às técnicas, como obturação com cone único, obturação por meio da termoplastificação da guta percha com a utilização de aparelhos condutores de calor… melhor preenchimento do sistema de canais radiculares com a obturação, pelo preenchimento dos canais laterais, secundários reduzindo e combatendo a infecção e aumentando o índice de sucesso do tratamento endodôntico”.

Percebe-se sem grande dificuldade que o texto descarta a técnica da condensação lateral e enaltece as vantagens das outras técnicas citadas. Não pretendo entrar no mérito da questão quanto às eventuais vantagens ou desvantagens das técnicas, até porque não é isso que me preocupa. Preocupam-me, mais uma vez, os argumentos utilizados, pela simples razão de que não encontram o devido respaldo nos tampos atuais. Quantos terão lido esse texto (lembre que foi publicado em um jornal da classe) e principalmente, quantos jovens em processo de formação o terão lido?

Vou me ater só a uma pequena parte dele.

Tendo em vista que os canais laterais e secundários (representando os canais que não sejam o principal) são citados separada e especificamente, devo deduzir que ao dizer o “preenchimento do sistema de canais radiculares com a obturação” o autor está se reportando aos túbulos dentinários, concorda comigo?

Sendo assim, algumas perguntas me vieram à mente:

1. Quais são os trabalhos que comprovam que os túbulos dentinários são de fato preenchidos?
2. Quais são os trabalhos atuais que comprovam que realmente os canais laterais, secundários, são de fato preenchidos?
3. Quais são os trabalhos atuais que comprovam que a obturação combate a infecção?
4. Quais são os trabalhos atuais que comprovam que a obturação aumenta o índice de sucesso do tratamento endodôntico?

Há muitas coisas a discutir sobre esse tema, mas é impressionante como, sem nenhum trabalho que o tenha comprovado, ainda se insiste na ideia de vedamento hermético e matar bactéria com a obturação.

Recomendo a leitura de pelo menos esses dois artigos:

Barthel CR, Zimmer S, Trope M. Relationship of Radiologic and Histologic Signs of Inflammation in Human Root-filled Teeth. J Endod 2004:30(2);75-79.
– “Não se encontrou nenhuma relação entre canais laterais ou acessórios não obturados e a presença ou ausência de lesão periapical”.

Ricucci D, Siqueira Jr, JF. Fate of the Tissue in Lateral Canals and Apical Ramifications in Response to Pathologic Conditions and Treatment Procedures. J Endod 2010:36(1);1-15.
 – “Nossas observações histopatológicas demonstraram claramente que os canais laterais nunca estavam completamente preenchidos por materiais obturadores”.