Pessoas do Bem

Por Ronaldo Souza

“Direitos humanos são para humanos direitos”

Ah, como é bom sabermos que somos pessoas do bem, não é mesmo?

É sempre bom fazer parte da categoria dos predestinados porque seremos os predestinados escolhidos por predestinados que se autopredestinaram para então poder determinar quem são os predestinados.

É muito bom, é sensacional.

Como nascem os predestinados?

Inicialmente, a predestinação é vislumbrada.

A primeira coisa que fazem é se autopredestinarem.

Eles se autodeclaram.

Os eleitos pelos deuses criam então uma categoria, a dos predestinados.

E aí criam medalhas, prêmios…

Como projeto bem sucedido e que avança, em breve será criada a Sociedade das Pessoas do Bem.

Inteligência, sensibilidade e conhecimento serão os requisitos fundamentais para fazer parte dela, mas consta que os autodeclarados, que irão fazer a seleção, já estão pensando em modificar para dificultar mais a “entrada” de membros. Estão percebendo que esse critério de seleção é pouco restritivo, pois observações feitas nas redes sociais (que serão o grande termômetro da Sociedade das Pessoas do Bem) têm demonstrado o enorme aumento da inteligência, sensibilidade e conhecimento na sociedade brasileira e assim entraria gente demais.

E toda sociedade que se pretende poderosa e distinta tem que ter mecanismos fortes de restrição.

“Bandido bom é bandido morto”

Existem inúmeros momentos que refletem claramente esse grande aumento da inteligência, sensibilidade e conhecimento na sociedade brasileira.

A frase lá em cima, “direitos humanos são para humanos direitos”, representa um deles, um momento que beira a genialidade.

Bandido bom é bandido morto” é outro desses momentos, sem dúvida, uma frase de rara sensibilidade e de demonstração do grande desenvolvimento dos futuros membros desse seleto grupo.

Não à toa, este será o lema da Sociedade das Pessoas do Bem.

Tudo ficará mais fácil e confortável.

Por exemplo.

Quando os garis, aqueles seres que recolhem o nosso lixo no dia-a-dia (infelizmente vamos continuar precisando deles), criarem essa distinção na classe saberemos quem são os garis do bem e os garis do mal.

Será muito bom porque escolheremos para recolher o nosso lixo somente os garis do bem, claro.

Exigiremos do prefeito que somente eles façam isso, os garis do mal ficarão para os bairros da periferia, onde certamente não moram pessoas do bem.

E o prefeito terá que acatar, afinal, precisa do nosso voto, o voto das pessoas do bem, que é um voto diferenciado, vale mais.

Assim será com dentistas, médicos, arquitetos, advogados, engenheiros…

Ficará mais fácil fazermos a tão sonhada separação, elemento indispensável para a criação, desenvolvimento e perpetuação de qualquer sociedade que se preze.

Teremos lojas específicas para as pessoas do bem (de griffe) e para as outras.

E os restaurantes e bares?

Serão identificados de acordo com a sua categoria.

Para não chocar muito e nos chamarem de excludentes, serão criadas decorações específicas para identificação de quem é quem.

Tudo isso por arquitetos do bem, claro.

E atenção!

Fica estabelecido que todos os membros da Sociedade das Pessoas do Bem serão obrigados (sociedade sem democracia não funciona) a postar fotos e mais fotos das viagens a Miami, inclusive da comida que comem nos restaurantes chiques (não, tire isso e ponha chic, original em francês e mais compatível com a Sociedade).

Sabe qual é a boa?

Há notícias de que restaurantes em lugares assim estão pensando em criar uma taxa que você paga só para sentar e tirar foto do prato. Será um preço acessível para um investimento que vale a pena para manter o status de pessoa do bem, sem ter que comer aquilo.

Para os restaurantes é um retorno interessante porque se livram mais rapidamente das pessoas do bem do Brasil, que costumam ser muito bem vistas por lá, pela finesse que possuem.

Depois você sai e vai comer um McDonald’s, afinal é um “prato” americano, portanto, também internacional.

Não é legal?

Os consultórios serão bastante diferentes.

Haverá consultórios dos dentistas do bem e consultório dos outros, para os outros, porque é claro que não só os pacientes do bem precisam ser atendidos, mas também os outros que não são do bem (devem ser do mal).

Haverá consultórios dos dentistas do bem e consultórios dos outros.

Haverá consultórios dos médicos do bem e consultórios dos outros.

Não poderá haver falhas nessas decorações.

Assim será com sanitários públicos, supermercados…

Não se preocupe, não haverá como dizer que é segregacionismo, por uma razão bem simples.

Ninguém tem culpa de ser uma pessoa do bem.

E ninguém tem culpa também de que eventualmente só existam brancos entre as pessoas do bem.

É seleção natural.

É evolução.

É Darwin.

Ou ……?

Bahia, um grande momento, um time especial

Por Ronaldo Souza

Olho para trás e vejo uma história gloriosa.

De forma resumida, único Bicampeão Brasileiro do Norte e Nordeste e um dos poucos do Brasil, 7 vezes campeão regional e 48 vezes campeão baiano.

Não é pouca coisa.

As nossas homenagens a todos que contribuíram para a construção dessa grandeza; jogadores, comissões técnicas, diretorias, funcionários e essa torcida única.

Permito-me citar particularmente Osório Villas Boas, presidente do Bahia, e sua diretoria, pelo título nacional de 1959 e Paulo Maracajá, também presidente do Bahia, e sua diretoria, pelo de 1988.

Momentos diferentes e especiais do clube, na sua trajetória de muitas e grandes conquistas.

Dou um salto no tempo e caio hoje, no dia 01 de janeiro de 2020, quando o Bahia faz 89 anos.

Outro momento.

O Bahia sempre foi grande dentro de campo, mas fora das quatro linhas não tinha a mesma grandeza. Ainda faltava ao clube algumas coisas, entre elas uma infraestrutura que lhe conferisse maior solidez.

Viveu dias difíceis, dias que pareciam não ter fim.

Como foi bonito e inspirador ver o que fez a sua torcida.

Como bem disse o jornalista Juca Kfouri, jamais nenhuma outra fez igual.

Mais de 50 mil pessoas foram às ruas de Salvador numa manifestação brigar pelo time com a campanha “Devolva meu Bahia”.

Num momento duro, uma intervenção judicial permitiu que Fernando Schmidt assumisse a presidência interinamente.

Era o primeiro passo.

Nova eleição, novo modelo.

Lá vai o Bahia mostrar outra vez ao Brasil como é que se faz, lá vai o Bahia mostrar outra vez o seu pioneirismo.

Pela primeira vez no país uma torcida elegia o presidente do seu time.

Democracia.

Nossa, como foi bonito e outra vez inspirador.

Marcelo Sant’Ana e sua diretoria são eleitos.

Como uma Fênix, o Bahia renascia.

Marcelo Sant’Ana e sua diretoria faziam surgir um novo horizonte.

Nunca se falou tanto em “projeto do Bahia”.

Como um mantra, cada novo jogador e cada novo técnico que chegava dizia que entre as razões pelas quais escolhera vir para o Bahia estava o seu projeto.

Os incrédulos, entre os quais eu, torciam o nariz.

Marcelo Sant’Ana e sua diretoria davam uma nova cara ao clube e foram fundamentais para aquilo que eu começava a suspeitar que de fato existia; o projeto do Bahia.

Projeto que se mostrou com uma clareza estonteante na eleição e posse da nova diretoria.

Ali percebi que de fato havia, pela primeira vez na sua história, um projeto em andamento, o projeto do Bahia.

Assumiram Guilherme Bellintani e sua diretoria.

Se já em 2017, fruto da gestão Marcelo Sant’Ana, o Bahia ocupava o cenário nacional como time que voltava a estar entre os grandes, em 2018 e 2019 isso não só se consolidou, como deu um grande salto.

Guilherme Bellintani e sua diretoria representam o novo, mas não o novo de idade e sim o novo pelo pensamento jovem, moderno, competente e digno. 

Aquele time grande dentro de campo, de tantas glórias e conquistas memoráveis e inesquecíveis, é agora grande também fora dele.

De casa nova, ainda não completamente pronta (imagem lá em cima), o novo Centro de Treinamento, que carinhosamente é chamado de Cidade Tricolor, terá o nome de Centro de Treinamento Evaristo de Macedo, numa bela homenagem ao técnico que comandou o time do título de 1988, será um dos mais completos e modernos do país.

Pela primeira vez na sua gloriosa história, o Bahia é hoje modelo de gestão.

Um Bahia que, já em outro patamar, ensaia voltar a ter os grandes times que já teve em campo, mas, sobretudo, que quando sai dele continua grande, maior até, porque extrapola os limites do gramado.

Mais uma vez mostrando ao Brasil como é que se faz, volta-se para a sua torcida, para o seu povo, e o vê como ele é, nas suas diversas formas, nas suas diversas cores, nas suas diversas raças. O seu pioneirismo agora nos enche de orgulho com suas campanhas e ações sociais num momento em que, mais do que nunca, tanto estamos precisando.

Parabéns, Bahia.

Hoje é seu aniversário, mas nós torcedores é que ganhamos presentes. Ser seu torcedor é um deles.

Hoje é seu aniversário, mas não só os seus torcedores, o povo de um estado está feliz por se ver tão bem representado por um clube de futebol.

Hoje é seu aniversário, você, um exemplo para o futebol brasileiro.

A Terra é plana

Por Ronaldo Souza

Não é a primeira vez.

Há um movimento cujo claro objetivo é a destruição do conhecimento, da inteligência e da sensibilidade na vida brasileira.

Na ditadura militar quebraram o ensino brasileiro. Entre tantas coisas que fizeram (eliminar disciplinas, por exemplo) as universidades “receberam” alunos e professores infiltrados.

Estranhava-se no passado que a primeira investida era sempre na educação, no conhecimento, na inteligência.

Eu era garoto e vi meu pai, homem de vida simples mas com uma sede de saber enorme (não teve nem curso primário, alfabetizou-se já com dois filhos e escrevia como poucos), ter que queimar livros.

É compreensível que seja assim.

Livros incomodam demais.

É pelos livros que chega o saber e o saber incomoda, machuca, dói.

Através deles você viaja por mundos inimagináveis.

Esses sim, dão asas à imaginação.

Livros subvertem.

Como alimentar com ignorância aquele que lê?

Pensar é transgredir, já diz Lya Luft em um dos seus livros.

E, como ignoram tudo, na cabeça deles transgredir não é ir além, só tem um significado; subversão da ordem e como tal tem que ser proibida e punida.

Por isso agridem.

Grosserias, xingamentos, ofensas, agressões, difamações, assassinatos, são armas da ignorância.

Esse é o mundo deles, a linguagem deles, entre eles, com a qual conseguem se expressar e se comunicar.

Ainda que fira, como odiá-los?

A ignorância deve ser compreendida, não odiada.

Compaixão, sim, este é o sentimento.

Apesar de em desuso, para os que são cristãos deve ser mais fácil.

As pessoas do bem, os humanos direitos, aqueles que têm direito aos direitos humanos (meu Deus!!!), não podem ter a sua paz perturbada.

Sem nenhum pudor ou constrangimento, assumiu-se a ignorância como um condutor de vidas, onde declarações absurdas de tão estúpidas, pipocam todos os dias nos meios de comunicação.

Criam-se seres com incapacidade de reflexão e o pragmatismo mais elementar e rude reina; nem mesmo o mundo da ciência consegue escapar; é só olhar ao lado.

“Se você oferecer algo inteligente para um público que se acostumou a consumir lixo, esse público vai procurar outra fonte para sua combustão cognitiva.”
Gustavo Conde (linguista)

Diversos exemplos, que se incorporaram ao nosso dia-a-dia, podem ser dados, de tão evidentes que são.

A incapacidade de reflexão reina, o óbvio não consegue mais ser óbvio; é algo que se perdeu.

A liberdade maior que se pode ter, ainda que muitos não alcancem essa compreensão, é a liberdade de pensamento e expressão. Mas, como concebe-las se perdemos a capacidade de pensar.

Seríamos livres para que?

A tão falada liberdade de expressão se torna assim a primeira vítima; não há o que expressar quando não há o pensamento, pois é este que constrói a expressão.

O pensamento é a mãe da expressão.

Sem ambos, forma-se uma sociedade de seguidores.

Nada mais.

Que sejam então cortados, eliminem-se os livros.

Você tem quantos seguidores?

A ausência de imaginação os torna reféns da “autoridade” que estiver ao alcance, não interessa quem seja.

Arte e artistas são perseguidos.

Gestos, palavras, ações, absurdamente primários, toscos, o messias se apossa das mentes e passa a conduzi-las.

E, pior de tudo, parece não haver limites.

A Terra é plana.

Só pode ser.

E não há nada melhor para explicar o momento atual, sem dúvida, aterrorizante.

Rompeu-se de vez com todos os parâmetros da inteligência, do conhecimento e do bom senso.

Abandonamos o tempo da delicadeza.

A ignorância assumiu muitas vidas e faz questão de se exibir violenta.

Essa ignorância em pleno século XXI é, por si só, uma violência, e representa a falência da sociedade brasileira.

feliz ano novo.

Seguidamente humilhado por Bolsonaro, Moro rasteja

Por Ronaldo Souza

É sempre louvado o homem que luta por seus objetivos e assim parece ter o espírito dos conquistadores.

Alguns deles foram consagrados pela História.

Imagens precisam ser criadas na construção de heróis.

Eu poderia dizer “o homem que luta por seus princípios…”, mas não disse, porque é completamente diferente .

É destino da cobra rastejar, do homem não.

Homens não rastejam por princípios.

Lutam por eles.

Homens rastejam por objetivos.

Por eles desconstroem, destroem, matam.

Alguns deles, diga-se de passagem, têm objetivos muito bem definidos, mas objetivos muito bem definidos nem sempre têm a ver com objetivos nobres.

Sentimentos nobres só existem em homens nobres.

“A estratégia do político Moro de dar a impressão que perdeu pouco, ou que foi vitorioso, foi desmascarada quando o próprio Presidente da República não vetou o Juiz de Garantia, cujo veto parecia questão de honra para o político Moro”.

Foi essa a avaliação do advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, Kakay, sobre a sanção do pacote anticrime de Sérgio Moro.

Há um objetivo muito bem definido por Moro, que por ele continuará rastejando.

Esse é o seu destino, isso é o que lhe resta ser.

Mas não se iluda.

O homem que rasteja é frio e calculista.

Os seguidores de Moro já começam a chamar o mico de Bolsonaro traidor.

Quando chegar o momento, serão os bolsominions que irão chamar Moro de traidor.

Moro vai saber esperar a hora da rasteira.

Entre certos “homens”, é assim que funciona.

Luzes do Natal

Por Ronaldo Souza

Não me lembro de ter feito assim anteriormente.

Como não tinha sido possível fazer a caminhada na praça no cedo da manhã, fiz ali pelas 18:30.

Um detalhe.

Era noite de Natal.

A praça é praticamente na porta do edifício onde moro.

Toda iluminada, estava bonita de se ver, mas havia alguma coisa diferente.

Só então me dei conta de que estava vazia, completamente vazia.

A proximidade das ceias tirara as pessoas da praça, mas não era desse vazio que ela estava vazia.

Era de algo bem maior.

O completo não estava completo.

O vazio, muito vazio.

Bateu tristeza.

Era mais um Natal não tão completo, como alguns já vinham sendo desde as primeiras ausências de meus pais, algo que faz parte da vida, com a qual aprendemos a ter a necessária resignação. Eles que moravam mais perto ainda da praça que eu.

Mas se essas ausências incomodam, e como incomodam, a vida nos ensina a ter um lugar especial para elas.

Ali, naquela noite, naquele momento, a tristeza tinha alguma outra razão.

Talvez por ser noite de Natal, tímida, envergonhada, a explicação foi chegando aos poucos. É que esses momentos nos levam a reflexões mais profundas.

Os rios estão bebendo sua própria água, talvez por sentirem que estão vendendo a nossa água, que poderá se tornar algo mais difícil de conseguir.

As árvores estão comendo seus próprios frutos, talvez por sentirem que pouco lhes restará, dizimadas que estão sendo por tantas queimadas.

O Sol não brilha mais, encoberto pela fumaça criminosa da destruição de nossas matas e florestas.

As flores perderam a fragrância porque, sem o Sol da vida, nada lhes resta.

Estamos sendo violentados.

As luzes iluminavam a praça da minha caminhada, mas não havia luz na minha alma.

As luzes iluminavam a praça, mas faltava vida.

Em casa, os mais doces sorrisos me aguardavam.

Nos arrumamos e fomos desejar Feliz Natal aos nossos.

Era noite de Natal.

‘Moro é a figura mais perigosa para a democracia brasileira’

Por Ronaldo Souza

A eleição de Bolsonaro, segundo o exército brasileiro um “covarde, canalha, contrabandista e um homem com graves distúrbios psicológicos“, tornou inviável qualquer discussão política.

Explico porque.

Até a campanha de Aécio ainda se tratava de política, mesmo sendo ele o que se mostrou nos últimos tempos; um ser abjeto.

Apontado por boa parte da imprensa (a de sempre) como grande político, nunca o foi, a não ser na capacidade de enganar.

Apresentado como futuro da política brasileira, poucos poderiam ser tão retrógrados.

Impune, solto e inexpressivo, representa uma página virada na política brasileira.

Mas da sua insatisfação pela derrota para Dilma Rousseff, com apoio da imprensa (Globo à frente), boa parte do judiciário e de segmentos influentes da sociedade, Aécio iniciou um movimento que impediu o governo de Dilma, que culminou com o golpe que a derrubou e na sequência levou Lula à cadeia.

Não, não vou perder tempo falando do que foram capazes homens e mulheres para que esse projeto fosse adiante e tivesse o desfecho que teve. Indecentes e imorais, todos se revelaram como são; canalhas.

Todas as vezes que demonizam políticos e política, o resultado já é conhecido; surgem os messias e os corruptos que “combatiam” a corrupção terminam dominando a cena.

Não só aumenta a corrupção como a violência, nas suas diversas formas, se instala.

Abra os olhos, olhe e é isso que você verá.

Não há, entretanto, nenhum precedente igual ao momento que vivemos.

A descoberta de que a Terra é plana, as conversas de Jesus em pés de goiaba, o fundamentalismo religioso, a tentativa de destruição da inteligência e das ciências brasileiras são provas incontestes de que a ignorância e a loucura assumiram o país.

Um homem personifica tudo isso e ninguém o faria à perfeição como ele.

O atual presidente da república.

Nunca antes na história deste país foi visto qualquer coisa semelhante a este momento.

Como então falar de política com pessoas e segmentos da sociedade que “conseguiram” por esse homem sentado no trono da  presidência.

Sim, puseram-no na cadeira da presidência para cumprir o que lhe é determinado.

Ele não governa, ele não é presidente.

É alguém que se diverte durante o dia passando twitter e dizendo m….

Ele é a prova incontestável de que a classe média brasileira é uma das coisas mais medonhas que existem.

“Uma abominação política porque fascista, uma abominação ética porque violenta, e uma abominação cognitiva porque ignorante”.
Marilena Chaui

Aberração humana e política, tudo desconhece, tudo ignora.

Manipulado e controlado, o perigo que representa como presidente é justamente o de não saber o que diz e o que faz.

Assim, sem nenhuma noção e controle, fica sujeito a pessoas que dão provas diárias do seu despreparo.

Ministros que parecem brigar para ver quem vai ficar responsável pela asneira do dia, precisando sempre se desdizer logo em seguida, com as mais esdrúxulas explicações e justificativas.

E os filhos vice-presidentes?

Dispensam comentários.

Excludente de ilicitude

Moro, não.

Moro é um caso à parte.

Mas que, finalmente, cada vez mais pessoas começam a ver quem ele realmente é.

Gente como o jornalista Kennedy Alencar.

Em primeiro lugar, o de sempre.

Um homem bastante limitado na sua cognição.

O que se costuma atenuar chamando de limitações, são características marcantes nele.

Não consegue mais, entretanto, disfarçar o seu jeito acanalhado de ser.

Mas não se engane.

Ele é estúpido, mas é esperto.

Violento, mas frio e calculista, sabe que está nas mãos do presidente desprovido de tudo, mas o trairá assim que surgir a oportunidade mais propícia.

E esta certamente não se apresentará por agora.

Mas ele saberá esperar o dia e a hora.

Tem a seu favor um auditório que, como tantos outros auditórios, não possui nenhum discernimento.

Provas disso há em abundância.

Mas, por que insistir com o óbvio, mesmo sendo ele ululante, como diria Nelson Rodrigues, se nada mais óbvio parece existir?

Quantas coisas podem ser mais óbvias, por exemplo, que a sanha que ele mostrou ter pelo Coaf?

A (verdadeira) razão pela qual desejou ardentemente ter o Coaf nas suas mãos foi tão acintosa e escancarada que até Bolsonaro percebeu e por isso tirou dele.

Os seus incultos e incautos (como também diria Nelson Rodrigues) seguidores/admiradores passaram longe, bem longe, dessa percepção.

Nenhuma surpresa, claro.

Mas talvez seja o “excludente de ilicitude” a mais assustadora e maior aberração das propostas do seu pacote anticrime, pacote por demais sedutor para mentes de pouco alcance. Mais uma vez o seu séquito sequer consegue imaginar o que isso de fato significa.

Projeto antigo, ambos, Bolsonaro e Moro, desejam a qualquer custo aprovar a licença para matar. Aqui, o óbvio não só é ululante como dá pulos e saltos ornamentais de alegria diante de qualquer possibilidade de aprovação.

https://www.youtube.com/watch?v=Y3w-zjH3CuA

Um vergonhoso garoto-propaganda pouco antes de se eleger.

Quem há muito já se excluiu da licitude não poderia ter desejo diferente.

De uma sociedade que não consegue perceber quem é Bolsonaro e o elege presidente do país, como esperar que perceba quem é Sérgio Moro?

Não é razoável esperar pelo impossível.

Medíocres

Por Luis Fernando Veríssimo

Richard Nixon certa vez defendeu a mediocridade do seu governo dizendo que os medíocres também precisavam ser representados. Certa a intenção de Nixon. 0s medíocres formam a maior parte da população de qualquer país e condená-los à irrelevância política ou a um governo de notáveis, de autocratas autoungidos ou de generais disfarçados, seria uma maldade antidemocrática. O próprio Nixon foi um exemplo de mediocridade bem-sucedida, pelo menos de acordo com o seu conceito de mediocridade e sucesso. No fim, teve que deixar o governo por excesso de mediocridade, mas durante sua carreira foi uma inspiração para a categoria. Poucos medíocres chegaram tão longe.

O Brasil talvez tenha a maior quantidade de políticos medíocres por metro quadrado do mundo. Estão concentrados nas duas casas do Congresso Nacional, mas seu poder se espalha pelos Legislativos e Executivos estaduais e pelo Judiciário e chega ao Planalto como uma espécie de apoteose da teoria do Nixon. Congressistas brasileiros cuidam das suas vidas e dos seus bolsos e têm pronta a resposta para quem os acusa de medíocres: no Brasil, quem não é? Claro que há exceções, bons políticos cuja excepcionalidade só realça a mediocridade da maioria. A escuridão em volta destaca o brilho. Mas a escuridão não para de aumentar.

No Brasil, a natureza colabora com o artista. Fornece paisagens espetaculares, poemas prontos, beleza por todos os lados. E, quando é preciso, também fornece metáforas e ironias conforme a ocasião. Ninguém descobriu até agora de onde vem o petróleo que está sujando as nossas praias. Existe representação maior e mais apropriada para a nossa situação do que uma sujeira cuja origem ninguém sabe? De onde vem esse negrume nas nossas almas, de que abismo, de que culpa nunca saldada?

Estamos pagando pela nossa mediocridade, será isso? Nos atacam no que temos de mais bonito, as praias. A escuridão já chegou a Itapuã.

Seja bem-vindo, Lula

Por Fernando Brito, no Tijolaço

Lula livre'

Estávamos mesmo precisando de você, presidente.

Enquanto você estava lá, naquela cela-sala (ou sala-cela, sei lá), a coisa aqui piorou um bocado.

Ficamos mais pobres, ficamos mais brutos, ficamos mais tristes, encolhemos nossas esperanças.

Em lugar de matar a fome, como se fez nos seus tempos, simplificaram o programa: o negócio virou só matar, mesmo.

Não era melhorar as cabecinhas, era mirar nelas. Aquelas “arminhas” com os dedos, da campanha, viraram de verdade, com o sujeito que puseram na presidência dizendo que uma Glock na cintura era o caminho da paz.

As universidades, que você abriu como nunca antes na história deste país, deixaram de ser progresso para virarem, dizem eles, balbúrdia.

Aposentadoria voltou a ser coisa de vagabundo, como aquele presidente boca-mole – até hoje recalcado de nunca ser amado como você – dizia.

Aquele petróleo, que a sua turma descobriu e que ia ser nosso bilhete de loteria, tentaram vender, mas nem assim compraram, porque nossa imagem está mais suja que praia do Nordeste.

Até este mal fizeram aos “paraíbas”, que é como eles chamam os nordestinos.

O salário não subiu, como no seu tempo, nem vai subir, já prometeram. O emprego empacou em 12,5 milhões de desempregados e a garotada pedala, de caixa térmica nas costas, para ganhar cinco reais por encomenda. É o que temos, já dizia o outro, não é.

Porque, sem isso, é a calçada, a cama de papelão, o “o senhor me dá uma ajuda para comprar um pão?”. Está cheio de gente na rua, Lula, você não faz ideia de quantos.

Dá tristeza andar na rua, presidente.

Tanta, que às vezes não o perdoo por nos ter feito acreditar que isso ia acabar, me desculpe.

E nem falei como anda a nossa cara lá fora, humilhada por toda a parte, como se aqui fosse um país de selvagens. Selvagens, não índios, porque estes estão mais ameaçados que a ararinha-azul.

É garimpo ilegal, é agrotóxico liberado, é cana na Amazônia, é tanta sandice que parece que querem nos tornar malditos no mundo.

Não convém, para quem recém se achega de volta neste Brasil da rua, dar tanta má notícia, eu sei, mas nada é pior do que a gente ter virado bruto, ao ponto de ter gente urrando por ditadura, tortura, por porrada e tiro.

Por isso, paro por aqui, porque esta é uma carta de boas-vindas, num dia de festa.

Só não posso deixar de pedir uma coisa, injusta até para quem tem 74 anos e, depois desta provação, merecia descansar.

Nos tire da prisão, Lula.

Estamos enfiados num buraco imundo e triste, onde não podemos viver, onde não podemos sonhar, de onde não podemos ver nossos filhos e netos saindo, onde não podemos querer o melhor para eles, que para nos não queremos mais nada, que muito a vida já nos deu.

Precisamos de você, Lula, porque é você quem pode catalisar a imensa força de um povo que não é mau, que não é insensível, que não é obtuso como as elites que o dirigem para o caos.

Obrigado, Lula, por voltar para nós.

Um presidente em transe

Por Ronaldo Souza

Bolsobobo da corte

Do que é capaz um homem com “graves distúrbios psicológicos” quando se sente acuado?

Um homem com “graves distúrbios psicológicos” é a definição sobre Jair Bolsonaro que consta no relatório de sua expulsão do Exército Brasileiro.

Além de “canalha, covarde e contrabandista“.

Quem pode imaginar o que um homem assim é capaz de fazer?

Saber que isso não foi dito por uma hiena e sim pelo Exército Brasileiro deve ajudar a entender a dimensão e o alcance disso.

Não deveria ser, portanto, nenhuma surpresa o comportamento do presidente da república, comportamento desde sempre evidente nos seus gestos, palavras e ações.

Diferentemente do ditado popular que diz que “o poder corrompe o homem”, digo há muito tempo que o poder mostra o homem.

Assim, em absolutamente nada pode parecer estranha a absurda insanidade do presidente da república nesses últimos tempos.

É muito comum ouvir-se dizer que “fulano de tal mudou muito, quem diria que ele mudaria tanto…, cicrano é outra pessoa, completamente diferente…”.

A não ser talvez em situações bem específicas da vida, não ocorrem grandes mudanças na essência de uma pessoa.

O ser não se modifica assim.

As mudanças que experimentamos na vida são gradativas, proporcionadas por eventos como, por exemplo, o avançar da idade.

Com o passar dos anos desfila pela nossa mente e corpo uma série de eventos, reações, comportamentos, que nos fazem, por exemplo, querer ouvir música em volumes mais baixos, não somos mais tão tolerantes com algumas coisas e pessoas como éramos antes, como, por outro lado e aparentemente paradoxal, aprendemos a tolerar muitas outras.

Aprendemos também a querer e gostar de ficar mais a sós com nós mesmos, momentos que se traduzem em muita reflexão.

Alguém se percebe “de repente” lutando mais frequentemente e de forma mais decidida por coisas e causas que não pareciam fazer parte da sua vida.

Mas, ali, não é outra pessoa.

É a mesma, que foi continuamente incorporando vida à sua vida.

São mudanças gradativas que estão há algum tempo se incorporando, que podem nos fazer parecer outra pessoa.

Vamos lá.

Desde que o Brasil foi descoberto tem sido governado pelas classes dominantes.

Durante todo esse tempo, cinco séculos, em que das camadas mais inferiores do estrato social jamais saiu alguém para ocupar os mais altos cargos do país, particularmente a presidência da república, o país viveu sem grandes conflitos internos.

Em 2003, pela primeira vez, alguém com origem no seio do povo, um torneiro mecânico, semianalfabeto, foi eleito Presidente da República do Brasil.

É possível que muitos tenham imaginado que as elites do país pareciam concordar com aquilo.

Só pareciam.

Elites também não mudam a sua essência.

As nossas elites sempre foram e continuarão sendo isto que aí está.

Como diz Fernando Pessoa, “aristocratas de tanga de ouro”.

E então, como depois se manifestaria com violência jamais imaginada, o preconceito falou mais alto.

Em 2005, dois anos depois da eleição daquele torneiro mecânico, surgia o “maior escândalo de corrupção” do Brasil.

Começava ali, na verdade, a maior farsa do Brasil.

Farsa que culminou com o golpe e derrubada de uma presidenta e a prisão de um ex-presidente.

O maior da história desse país.

O presidente em cujo governo as elites jamais foram prejudicadas, pelo contrário.

Bancos e empresas jamais ganharam tanto dinheiro, reconhecido por todos eles, banqueiros e empresários.

Mas aquele presidente cometeu um grande pecado.

Condenado pela sua origem, ousou olhar para um povo que existia nas estatísticas, mas não na vida real, aquela que dá um mínimo de oportunidades e dignidade às pessoas, sejam elas quem forem.

Homens e mulheres do bem mostravam mais uma vez o lugar de cada um.

O recado estava dado.

Não ousem.

E ali estava o ovo da serpente.

Chocado.

Chocados também ficamos todos nós com o ovo chocado pelas “zelites” brasileiras.

Na sua composição clássica, comandados pela Globo, lá estavam Veja, Estadão, Folha, judiciário, ministério público, banqueiros, empresários e periferia.

Toda a periferia, eternos aspirantes às elites, onde se encontram profissionais liberais e, pasmem, professores.

Aquele núcleo da classe média tão bem definido por Marilena Chaui:

“Uma abominação política porque fascista, uma abominação ética porque violenta, e uma abominação cognitiva porque ignorante”.

O soldadinho de chumbo

O ovo foi finalmente chocado.

Acostumado com seu pequeno mundo, do qual, paradoxalmente, foi expulso com desonra, o novo presidente nos mostrou o seu universo.

Até então contido pelas paredes  da sua inexpressiva existência como homem e político, aquele vazio enorme se abriu e se expôs aos nossos olhos.

Visão inesquecível, fez-se noite, as portas das trevas se abriram, a escuridão se embrenhou e se apossou das nossas vidas.

A serpente estava solta.

Com ela, os seus filhotes.

As evidentes carências afetivo/emocionais do presidente da república (“distúrbios psicológicos graves”) encontraram guarida nas evidentes carências afetivo/emocionais de parcela significativa da sociedade, algo tão claro quanto a luz do dia.

Quando o presidente deseja a morte de Lula e Dilma de câncer ou de qualquer outra maneira, quando ele fala em matar milhares de pessoas, como o fez em vários momentos da sua vida política, quando frequentemente elogia torturadores de forma escancarada, ele se torna espelho e reflexo desse segmento da sociedade que tem os mesmos desejos e os expressa diariamente nas redes sociais, essa imensa caixa de ressonância que se tornou válvula de escape das frustrações pessoais de todos eles, ainda que não tenham a menor noção disso.

Uma definição de transe diz “que é um estado alterado de consciência, um dos objetivos a serem atingidos pela hipnose. Trata-se de um estado de consciência onde podem ocorrer diversos eventos neuro-fisiológicos (anestesia, hipermnésia, amnésia, alucinações perceptivas, hiper sugestionabilidade etc)”.

Lembremos que transe também representa algo em transição de um estado a outro.

Distúrbios psicológicos representam um estado que nos faz ver as coisas com outra perspectiva.

Quando um homem atinge níveis assim, ele se vê sem limites.

Nada mudou no presidente do Brasil.

Distúrbios psicológicos'

A sua essência é a mesma.

O comportamento dele é o mesmo, só que agora num plano maior, proporcional ao cargo que ocupa.

Maior poder ele alcançará quando atingir níveis ainda mais elevados de insanidade, o que se costuma chamar de loucura.

Aí então, ele se verá intocável.

Deus.

Acima de tudo e de todos.