A revolução dos brancos

Bolso branco

Por Leandro Fortes, jornalista

Desde 2013, já era possível notar que essas manifestações de fascismo urbano eram, por assim dizer, piqueniques cívicos da classe média branca, racista e iletrada do Brasil.

O antipetismo alimentado pela mídia fez os pobres apoiá-las, mas não conseguiu manchá-las de pardo: durante todo o processo que resultou no impeachment de Dilma Rousseff, a histeria das ruas manteve-se branca, alva, em fantasias verdes e amarelas.

Mesmo fracassada, as manifestações de apoio a Bolsonaro mantiveram esse padrão intacto. Mais ainda, filtraram esse fenômeno até o limite de qualquer percepção.

Nas ruas, nos pequenos e grandes grupos, eram sempre brancos e brancas em máscaras de ódio, rancor e tristeza. Uma gente tão infeliz que não causa espanto nenhum as opções que faz.

Essa gente horrível, plena de desgosto, ainda vive seu momento, embora seja óbvio o seu ocaso.

Ainda assim, me embrulha o estômago ver essa turba ignorante empunhando banners de vinil expondo a própria ignorância, disseminando ódio e intolerância, erguendo bonecos infláveis para disfarçar uma vida inteira de insignificância.

Bolsonaro diz que crise “é fofoca” e suas falanges querem só “agilidade”

Bolsobrincadeirinha

Por Fernando Brito, no Tijolaço

Jair Bolsonaro não junta lé com cré.

Num dia, distribui um texto “apavorante”, onde diz que o Brasil “é ingovernável” e que está sendo manietado pelas “corporações” e pelas “oligarquias”.

Seus seguidores entram em polvorosa e convocam marchas para “invadir Brasília”, “orar para o Presidente” e defender a aprovação sem mudanças de suas propostas.

Três dias depois, Sua Excelência faz um discurso a empresários dizendo que “não existe crise entre os Poderes” e que tudo não passa de “fofoca”. E que as manifestações convocadas para o dia 26 reivindicam apenas “agilidade”, para que o Congresso aprove tudo como achar que deve.

Do que diz o presidente, só uma conclusão se pode tirar: ou ele é um mentiroso ou é um bipolar, ambas características aterrorizantes para alguem que é responsável pelo destino de 210 milhões de brasileiros.

Ao contrário do que acontece com Bolsonaro, o país, ao que parece, voltou a pensar, após a temporada de ódio insano que viveu.

E porque pensa, sua maior preocupação em relação a ele é minimizar os estragos da presença de um energúmeno irresponsável como ele à frente do Governo. Alguém que, como escrevi aqui, porta-se como um destes moleques que toca a campainha das casas e sai correndo, apenas para sobressaltar os moradores.

E para sua “turma de rua” sair, aos gritos, atemorizando políticos semm estofo nem opinião.

O país está enfiado numa crise política e econômica das mais graves e Bolsonaro finge que tudo “é brincadeirinha”.

A guerra do pai e dos filhos

Bolsonaro e os filhos

Um homem atormentado, colocou os filhos em um labirinto sem saída

Por Moisés Mendes, jornalista, do seu blog do Moisés Mendes

Bolsonaro não é um governante, mas apenas um homem atormentado que pensa gerenciar o Brasil pelo Twitter e pelo WhatsApp. Ele e os filhos foram destruídos por um erro primário da política. Atacaram sem parar, desde que a família chegou ao poder, e provocaram guerras que não irão ganhar nunca.

Algumas perguntas que, num ambiente de racionalidade, mereceriam respostas. A primeira: se estavam envolvidos com milícias e se construíram uma fortuna imobiliária suspeita, para falar apenas de dois aspectos da vida complicada que vinham mantendo, por que os Bolsonaros acharam que seriam intocáveis só por terem chegado ao poder?

Se sempre se envolveram em atividades que um dia seriam investigadas, por que os Bolsonaros compraram briga com aliados, com o Ministério Público, com adversários que não conseguirão dobrar, sempre de forma agressiva?

Por que os Bolsonaros, desde o famoso discurso da vitória na Avenida Paulista, em que Bolsonaro ameaça perseguir e eliminar os adversários, não baixaram as armas? Por que desde o início do governo atacam até os generais do primeiro escalão?

Que incapacidade é essa dos Bolsonaros de calibrar o enfrentamento com quem consideram inimigos? Que insegurança move os Bolsonaros?

E aí há outro detalhe importante. Bolsonaro jogou os filhos na guerra. Empurrou Carlucho para o confronto virtual. Transformou o filho vereador no formulador das agressões pelas redes sociais e em seu porta-voz oculto.

Atiçou Eduardo, o outro filho deputado federal, contra inimigos internos e externos e tentou transformá-lo em ajudante do golpe na Venezuela.

Eduardo preparou-se, na última tentativa de golpe, para entrar em Caracas como herói da direita latino-americana, O pai o empurrou para uma guerra de trapalhões.

Bolsonaro também desfruta da capacidade empreendedora do outro filho, o chefe de Queiroz, o filho que abastece, via laranjas, até a conta de Michelle Bolsonaro. Flávio é o filho que faz dinheiro.

O Ministério Público já tem pistas de que a quadrilha em torno de Flávio Bolsonaro era coisa de família. A família dele, a família de Queiroz, as famílias dos milicianos do entorno.

Bolsonaro puxou os filhos na política (ao contrário do que Lula sempre evitou) para tê-los como seus principais pensadores e operadores. No governo, o projeto se materializou com a distribuição de tarefas.

Mas deu tudo errado. Carlucho era competente para disseminar fakenews, mas não para ser propositivo, para vender ideias, por mais furadas que fossem. Era um blefe, ou já teria acionado um plano para salvar a imagem do pai abandonado.

O filho que se apresenta como pretendente ao posto de líder da direita (ou da extrema direita mesmo) da América Latina parece ser o mais perigoso de todos. Mas é também o mais tomado pelo autoengano, pela ilusão de que lidera alguma coisa, incluindo a ideia mais recente de que o Brasil deve ter a bomba atômica.

E o filho mais velho, o negociante, já é um zumbi no Senado. Antes mesmo das conclusões do Ministério Público, que podem levar meses, está destroçado politicamente como chefe de uma gangue que não só saqueava recursos públicos via assessores laranjas, mas lavava dinheiro com imóveis e outros rolos.

Bolsonaro meteu os filhos numa fria. Podem dizer que todos são adultos e homens públicos e sabiam o que estavam fazendo. Mas foi o pai quem puxou a família para o seu delírio extremista de que governaria com o lastro dos militares perseguindo inimigos, minorias, professores, artistas, estudantes, índios, enquanto mantinham as conexões com os milicianos.

Não há saída para Bolsonaro nem para os filhos, que poderão sobreviver como políticos (a classe média reaça e a ignorância por ela manobrada têm eleitores de sobra para eles) e ainda manter o aparelhamento de setores do governo. Mas nunca mais serão como antes.

Os Bolsonaros venceram a eleição, mas perderão todas as guerras que provocaram, as reais e também as imaginárias.

Jornalistas da mídia bolsonarista relatam cansaço, irritação e descontrole de Jair

BolsoRecord

Por Mauro Donato

Corre já há alguns dias entre jornalistas que trabalham nas emissoras de TV às quais o presidente esteve concedendo entrevistas recentemente a percepção geral de que ele não está aguentando o tranco.

Nos bastidores de programas como o de Luciana Gimenez o presidente se mostra muito mais claudicante que sua imagem de pistoleiro vendida para fora.

Sua nota enigmática de hoje, distribuída via whatsappparece confirmar que a rádio peão continua eficientíssima como termômetro.

Ao ser questionado sobre o texto – anônimo – cheio de termos como “forças ocultas”, que menciona as “pressões de corporações” e que tem a desfaçatez de afirmar que “o Brasil está disfuncional” (jura?) o porta-voz leu a seguinte resposta: 

“Venho colocando todo meu esforço para governar o Brasil. Infelizmente os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o País de volta ao trilho do futuro promissor. Que Deus nos ajude!”

Emenda pior que o soneto.

Há os que apostam que Bolsonaro não renunciará jamais. A verdade é que ele mesmo já vem dando declarações do gênero “não nasci para ser presidente” faz tempo. E olha que sua gestão está no quinto mês apenas.

Um presidente que emenda no mesmo parágrafo “infelizmente” com “desafios inúmeros” e conclui recorrendo a Deus está jogando a toalha. Ou não?

Ele previu um tsunami uma semana antes de serem quebrados o sigilo do filho zero-um e de mais de 80 assessores ligados aos Bolsonaro. Tsunamis são fenômenos arrasadores. Não costumam deixar goiabeiras em pé e varrem laranjais inteiros.

Até o antigo arauto da direita, Reinaldo Azevedo, escreveu em sua coluna desta sexta-feira que o impeachment de Bolsonaro entrou no radar de vez.

Bolsonaro não tem uma equipe melhor que ele que seja capaz de assessorá-lo. Pelo contrário. Tem ministros que jogam gasolina em fogueira e filhos que tumultuam sua cabeça com teorias de conspiração.

O triângulo que forma seu governo tem militares, olavetes neo-liberais, com cada um desses grupos em vértices opostos e em constante confronto. Tem como dar certo? Nem se Bolsonaro fosse o melhor mediador do mundo, coisa que ele não faz ideia do que significa. Jair Bolsonaro é anti político na sua essência, no seu DNA.

Os ventos estão estranhosBolsonaro é paraquedista e está na porta do avião decidindo o que fazer. O foda é que estamos a bordo né?

Somente idiotas?

Somente idiota

Por Ronaldo Souza

A estupidez se coloca na primeira fila para ser vista;
a inteligência se coloca na retaguarda para ver
Bertrand Russel

Há pouco tempo falei aqui sobre algumas pérolas que um grande pensador do “feicibuqui” escreveu, como costuma fazer, que você pode ver no texto Não votei em Flávio. Votei em Jair.

Ele atacou de novo.

Leia abaixo.

“Qualquer presidente sempre passou por isso.
Tanto que dentro do Congresso existem os líderes dos partidos e o líder do governo. Pra q?
Bolsonaro sempre foi Legislativo. 27 anos. Macaco velho. Tem muita experiência de Câmara dos deputados, de Congresso como um todo e da “articulação” sempre necessária. Sempre reeleito.
Alguém se arrisca a dizer porque ele nunca foi ventilado para cargo de Presidente da Câmara ou membro da mesa diretora?
Desde sempre foi alheio a este “esquema”.
Concordo que não tem experiência no Executivo, mas quem tinha? Lula? Dilma?
A diferença está no caráter. No discurso.
Maia sabe disso. Sabe que as coisas precisam mudar e vão mudar. O resto é esperneio.
Agora é quebra de braço.
Maia, e a sua Câmara mal acostumada na sombra do STF, ou Bolsonaro e seus milhões de seus eleitores
A briga promete.
A diferença é que Bolsonaro fala abertamente dos motivos da discórdia. Maia não se atreve.
E Maia se esquece também que Bolsonaro deve saber de muitos podres de muita gente, inclisive de Maia. E, a princípio, acredito que o rabo do presidente tá soltinho.
Além de ser bocudo, Bolsonaro adora uma briga.
APOSTO NO PRESIDENTE!!!!”

Sob todos os aspectos, é um primor este texto, legítima expressão de bom senso e profundo conhecimento político.

Li e reli para tentar entender a falta de conexão entre os “fatos” narrados; em vão.

Deixemos então de lado a “desnarração”. Fiz alguns negritos para chamar a atenção de alguma coisa que pudesse ser comentada.

O país se desmanchando, vendo serem destruídos todos os direitos dos seus cidadãos e sendo entregue a grandes grupos e algumas mentes privilegiadas ficam preocupadas em fazer apostas numa briga entre Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados) e Bolsonaro, cuja diferença está no caráter.

Não sei se Bolsonaro, por ser mais mau caráter, mais macaco velho e afeito a brigas sujas, ganharia ou se Maia ganharia pelas mesmas razões. Confesso que não alcancei quem finalmente era o mais mau caráter e por isso venceria.

Alguém se arrisca a dizer porque ele nunca foi ventilado para cargo de Presidente da Câmara ou membro da mesa diretora?

Eu me arrisco.

Um político que estava há 28 anos no Congresso e teve 2 projetos não deixa nenhuma dúvida de que é um macaco velho inoperante e inútil.

Não servia para nada, a não ser ficar nos corredores do Congresso agredindo a todas que passassem por perto dele.

Pergunte a qualquer político do Congresso qual dos dois, Maia ou o macaco velho, ganharia numa eventual briga política.

O macaco velho não tem chance de ganhar qualquer briga contra qualquer político em qualquer tempo.

Falta-lhe tudo.

E antes que o pensador pense em fazer o enorme esforço de querer pensar para argumentar com a eleição presidencial e assim caia mais ainda no ridículo, pergunto que eleição ele ganhou se não houve nenhuma “briga” porque fugiu de todas?

Ao “pensar” assim o pensador confirmaria que, de fato, não pensa.

Não vou perder tempo falando de outras coisas que ocorreram nas eleições. Deixo por conta da “imaginação” (!) do pensador.

Desde sempre foi alheio a este “esquema”.

Aqui eu me perdi.

Que esquema?

O de Furnas?

 Bolsonaro e Furnas 1

O dos laranjas do PSL, o do dinheiro dos funcionários dos gabinetes depositado nas contas da família, o dos 13 parentes (inclusive a ex-mulher, mãe do filho mais novo), milicianos e parentes empregados nos gabinetes da família do macaco velho, ou o mais recentemente descoberto da compra de 19 imóveis pelo filho Flávio sem declaração de renda?

Todos segundo a Policia Federal e o Ministério Público Federal.

O Ministério Público já fala em lavagem de dinheiro.

E o Senado em cassação.

Há uma parte que merece destaque e que, por si só, deveria fazer o pensador pensar, coisa que, infelizmente, não tem o hábito de fazer.

“Além de ser bocudo, Bolsonaro adora uma briga”.

Isso é verdade.

Bocudo ele sempre foi.

E adora uma briga com… mulheres.

Brigou e agrediu mulheres parlamentares (Maria do Rosário que o diga) e jornalistas que cobrem Brasília.

Quem poderia negar a valentia dele na “briga” dos debates?

Foi a todos e brigou com todo mundo.

Quando Haddad o chamou de covarde em todos os microfones e câmeras, a resposta veio em cima da bucha, na cara!

Você viu, não viu?

Não!!

O pensador viu.

No Twitter.

Enquanto os debates aconteciam na Band, SBT (se não me engano a Globo cancelou o dela, não foi isso?) ele, bravamente, respondia tudo diante das câmeras e microfones da TV… Record, brigando muito, sozinho, sem ninguém por perto.

À sua frente, o repórter da Record.

Foi valente.

Mostrou que adora uma briga.

Sob os aplausos e bênçãos dos seus miquinhos amestrados e do Conje, ex-juiz de direito e agora delatado por Bolsonaro como pedinte de uma vaguinha no STF.

Não, não ouse, isso não é corrupção.

Combinar com o presidente da república uma vaguinha num cargo vitalício não é nada demais para quem tanto ajudou, aliás, ajudou não, criou as condições necessárias para que o presidente, depois de tanta briga, pudesse ser eleito.

Uma vaguinha no STF é somente um meio de melhorar a vida dele, Conje, nada mais.

Vai dizer que não é justo?

Não vem ao caso.

Mas, voltando a Bolso bom de briga, veja o que disse um deputado aliado do mito, o Capitão Wagner (PROS-CE).

Por que ele falou com todo o cuidado de preservar o macaco velho?

Você acha que o deputado ia dizer que foi o presidente que não fez o que parecia estar fazendo?

Será que o bom de briga ligou mesmo para o ministro ou a ligação foi de brincadeirinha?

“Será que o presidente forjou a ligação na nossa frente?”

macaco velho sentiu o cheiro de briga e, mesmo vendo o país em manifestações contra suas medidas, como diz o baiano, Bolso bom de briga se picou pra Dallas.

Como Nova York o expulsou e ninguém o tinha convidado para ir a Dallas, ele se convidou.

O que fez o prefeito de Dallas?

Não o recebeu.

Prefeitos agora se recusam a receber o Presidente do Brasil!!!

Prefeitos!

Mas ele realmente precisava ir lá.

Afinal, lá no Texas estão alguns dos ricos homens do petróleo e ainda temos muito para oferecer a eles.

Além disso, também para aproveitar e perguntar o que fazer ao guru lá dos Estados Unidos que fica atrapalhando (como diz o deputado no vídeo aí em cima).

O guru deve ter aconselhado a permanecer nessa linha de total subserviência aos Estados Unidos.

Mas Bolso bom de briga não esqueceu de suas funções.

De lá já xingou todo mundo.

Fato inédito, o presidente da república chamou os brasileiros de idiotas e imbecis.

Cabra bom de briga, esse.

Sei que os seus seguidores são incansáveis e imbatíveis na capacidade de dizer asneiras, mas abusam há muito tempo.

Para tudo há um limite.

Aliás, há controvérsias.

A inteligência humana tem limites, a estupidez não.
Claude Chabrol

Mesmo diante da confissão involuntária de quem “desde sempre foi alheio a este esquema” de que iam enfrentar um tsunami, os fieis seguidores do macaco velho continuam achando que ele é o mais íntegro dos políticos, ou o único.

Por que Jair Bolsonaro disse há dias que iam “enfrentar um Tsunami na próxima semana” (esta agora)?

Por que Carlos Bolsonaro já temia.png

Por que Carlos Bolsonaro começou a temer quando viu que a quebra de sigilo de seu irmão Flávio tinha sido autorizada? Ao ponto de dizer que “o que está por vir pode derrubar o capitão”.

Novas informações de corrupção e ligações perigosas da família ao longo de muitos anos são divulgadas a todo instante.

Bolsolavagem

Por tudo isso, já não é pequena a onda de perplexidade que tomou conta de muita gente que já começa a achar que a “fidelidade” dos seguidores do macaco velho já passou dos limites.

Serão capazes de imaginar que ele nada sabia?

Para ficar somente em um exemplo, pessoas de destaque nacional como José Padilha (diretor de Tropa de Elite e outros filmes) já foram um pouco mais além e perceberam quem é Sérgio Moro.

Para eles, até um dia desses Padilha era uma referência inquestionável. Não é mais?

Há muito tempo a reconhecida e absurda ignorância política se transformou em hipocrisia e na sequência em cinismo.

Não é mais cinismo.

Não sei porque me lembrei da frase “os canalhas também envelhecem”.

Sabe de quem é esta frase?

Rui Barbosa.

Mas a primeira vez que a ouvi foi em 1993, da boca de um dos maiores canalhas que já conheci.

Ninguém tem dúvida de que os que elegeram o macaco velho foram, são e serão sempre úteis, muito úteis.

Mas é possível que para alguns ainda reste uma dúvida.

São somente idiotas?

Idolatria

Por Ronaldo Souza

Quem nunca teve ídolo(s)?

Acredito que o meu maior ídolo tenha sido Elvis Presley.

No começo da minha adolescência, vendo-o nos filmes eu me imaginava cercado daquelas belas e inalcançáveis mulheres.

Quanto desejo, quanta imaginação de “… um menino tão só no antigo banheiro, folheando as revistas, comendo as figuras, as cores das fotos te dando a completa emoção, como canta Gonzaguinha na sua belíssima música.

Daí para a adoração pelo Havaí (cenário de alguns dos seus filmes) e o sonho de um dia viver lá, foi um pulo, como também foi um pulo a adoração pelo cinema americano.

E, claro, a adoração pelos Estados Unidos.

Ah, os sonhos da infância e da adolescência!

Maravilhosos, inesquecíveis, experiência e prazer únicos nas nossas vidas.

Por quanto tempo nos acompanham?

Por quanto tempo devem nos acompanhar?

Hoje, vejo Elvis (permita-me a intimidade com quem já foi tão próximo de mim) não como quem embalou os meus sábados à noite, até porque não vivia as noites àquela época e sim as matinês, mas como um tempo inesquecível.

Vejo-o como grande cantor, que de fato foi, e “o único cantor branco de alma negra”, como disseram grandes nomes do Jazz.

Cantava muito e a música do vídeo acima era uma das minhas favoritas.

O Havaí ficou para trás e hoje muitas cidades ocupam o lugar que foi seu.

Não para morar, não consigo me ver fora do meu chão, mas para conhecer.

Apesar de vê-lo ainda capaz de fazer bons filmes, vejo o cinema americano com muitas restrições.

E já há muitos anos, meu olhar sobre os Estados Unidos não tem absolutamente mais nada a ver com o daquele menino.

Mas tudo isso teve papel importante na minha formação e me ajudou a crescer.

Foi aquele menino que fez o homem.

E o homem não é melhor nem pior do que a criança que viveu aqui e que por aqui ainda passeia.

Pertencem a mundos diferentes, ou talvez seja mais adequado dizer que veem o mesmo mundo de maneira diferente.

E não poderia ser de outra forma.

O homem se desenvolve a partir da criança; ele não continua criança.

A infância e a adolescência fazem o homem.

Se o homem expressa a sua infância e adolescência e delas é reflexo, não deveria haver dificuldade em identificar que alguns não devem ter conhecido a plenitude de cada momento da vida, particularmente a infância, reconhecida como fundamental para o equilíbrio emocional e afetivo do adulto.

Tendo-os vivido plenamente e de maneira saudável, os espaços para o surgimento de novos ídolos no adulto já não existem, ou no mínimo se encontram bastante reduzidos; ele já deverá estar “formado”. Até porque, não necessariamente no aspecto físico, alguns dos ídolos já se foram.

O surgimento de ídolos nesse momento tende a evidenciar espaços vazios no ser.

Em outras palavras, ele ainda não é.

A essa altura, não ser expõe vazios perigosos de homens incompletos, adolescentes que sofreram uma interrupção no seu desenvolvimento.

O meio já não faz o homem, ou, pelo menos, já perdeu em muito a capacidade de fazê-lo.

Ele já deverá estar bem menos vulnerável às influências externas.

Entretanto, não tendo uma base sólida, o adolescente resistirá ao tempo e pior ainda será se a criança o fizer.

A idade o fará adulto, a mente uma eterna criança.

Nada pior.

O ídolo ainda é necessário.

O Elvis Presley dele não morrerá e ele precisará de novos Elvis.

Nesse estágio tardio de sua formação, se boa parte da sua vida se der em ambiente que não se caracteriza por estimular o crescimento intelectual, ele, claro, não crescerá intelectualmente.

Se boa parte da sua vida se der em ambiente marcado pelo rigoroso cumprimento à ordem e absoluto respeito a comandos superiores, não serão grandes as chances de que nele se desenvolvam o apreço e o espírito pela liberdade. Ele precisará sempre de alguém a quem obedecer e por quem ser conduzido.

Assim, da mesma forma que na infância real, artistas e bandidos, bons e maus, serão o repertório do seu imaginário.

Saudável na verdadeira infância, um desastre na “infância adulta”.

Filmes de ação, particularmente os de guerra, continuarão sendo parte essencial do seu mundo.

Chuck Norris

Ele será eternamente um Chuck Norris e somente as armas lhe darão segurança e definição do que é ser homem.

A idolatria que Jair Bolsonaro faz questão de declarar ter por Olavo de Carvalho não tem origem na infância ou adolescência.

Ela surgiu na fase adulta.

Sendo um obscuro astrólogo, não deve ter sido a capacidade intelectual desse autoproclamado filósofo a razão do encantamento, até porque, reconheçamos, mesmo sendo um astrólogo sem talento e autoproclamado filósofo, ele jamais se faria entender pelo ex-capitão; a estrutura cognitiva do militar não lhe permitiria trilhar os caminhos da Filosofia.

Determinados segmentos da sociedade ainda não perceberam e, por viverem no mesmo mundo sem horizontes e medíocre, boa parte não perceberá que quando se trata de Jair Bolsonaro não é no terreno da incompetência que estamos trabalhando. Trata-se de uma questão de incapacidade.

Incapacidade de tudo.

As evidências são claras como o mais ensolarado dos dias numa cidade do Nordeste.

Se levarmos em consideração a sua agressiva aversão pelo conhecimento, recentemente assumida no tocante às questões da Filosofia e Sociologia, coisas sem nenhuma importância na sua forma de ver a vida, o abismo é intransponível.

Reflexos e consequências são enormes.

As pessoas de mal com a vida apresentam a característica de se vingar dela quando lhes surge a oportunidade.

Que o digam Joaquim Barbosa e Cármen Lúcia, ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal.

Quando parecia que a vida lhes sorria o melhor sorriso, eles não foram generosos com ela e se fizeram pequenos.

Hoje vivem a amargura da solidão do esquecimento dos que, brigados com a vida, um dia ocuparam o poder.

O que é hoje Joaquim Barbosa?

Onde está ele?

O que é hoje Cármen Lúcia?

Onde está ela?

Essas mesmas perguntas serão feitas em breve, num tempo bem mais curto do que se imaginava, a outro membro do judiciário brasileiro.

O que une o militar e o astrólogo?

Que tipo de jogo está sendo jogado?

O que está acontecendo com o Exército Brasileiro, para muitos uma instituição respeitável?

Que exército respeitável é esse que ao expulsar o então tenente (consta que a condição de capitão veio depois como compensação pela expulsão) fez constar no relatório que se tratava de um canalha, covarde e contrabandista e agora permite que, através de um astrólogo, o ex-capitão promova repetidas vezes a humilhação pública dos seus comandantes?

O que pretende o ex-capitão?

Submeter esse “respeitável” exército à sua vingança pessoal?

Ou se trata realmente somente da sua total incapacidade de perceber qualquer coisa?

“É má fé cínica ou obtusidade córnea”, diria Eça de Queiroz.

Por falar em Queiroz, por onde anda ele?

Criado para “controle” da corrupção, como ainda o veem inocentes nem sempre tão inocentes, o Coaf tem sido alvo recente de comentários carregados de idiotice.

O Coaf é na verdade, todos sabem, ao mesmo tempo um poderosíssimo instrumento de coação e proteção (a depender do alvo em questão), uma das razões pelas quais tanto se briga por ele.

Agora que saiu das mãos do Conje, será que o Coaf vai investigar o Queiroz e a família que o mantém há anos?

Voltemos.

“Seu merdinha, seu bosta” viraram linguagem diária e pública entre os homens que tomaram o poder do país e o mantêm sob rédeas curtas (segundo o Conje, seria sobre rédeas curtas).

Referindo-se ao General Villas Bôas, que até um dia desses era o Ministro do Exército, o astrólogo guru do ex-capitão disse:

“A quem me chama de desocupado não posso nem responder que desocupado é o cu dele, já q não para de cagar o dia inteiro”.

O General Villas Bôas é portador de doença degenerativa e este é o tratamento que lhe é dispensado pelo guru do ex-capitão.

E aí chega outro general, Paulo Chagas, e responde:

“O ânus é o órgão excretor, se faz sua função o dia inteiro, não é desocupado. Desocupado é o ânus do Olavo q foi substituído pela boca”.

São esses homens, absurdamente despreparados e sem nenhum equilíbrio emocional, que estão dirigindo o país.

Desequilíbrio que se transforma em palavras, gestos e ações de grande violência, como nunca antes visto na história desse país.

Um astrólogo cuja única característica marcante é o absurdo descontrole de si mesmo, num destempero agressivo e de baixíssimo nível, torna-se o conselheiro-mor do presidente da república.

Algo que, apesar de absolutamente desconectado com qualquer coisa que remeta ao bom senso e à razão, é facilmente explicável pela idolatria do presidente por ele, idolatria que não consegue disfarçar.

Pelo contrário, faz questão de reafirmar.

Por idolatra-lo e nele confiar muito, é ele que o presidente utiliza, e aos próprios filhos, como escudo protetor e porta voz do que, na sua reconhecida covardia, não tem coragem de dizer.

Seria bem mais fácil se tivesse que ser dito a uma mulher.

Aliás, o que confirma o relatório do próprio Exército quando o tratou como covarde no episódio da sua expulsão daquela Força Armada.

Covardia que se projetou e apareceu de forma clara e estarrecedora para a sociedade na campanha eleitoral, quando o ex-capitão fugiu de todos os debates.

Para um cérebro disfuncional, isso parece ser suficiente para que guru e filhos sejam condecorados pelo ex-capitão com a Ordem do Rio Branco, a medalha mais importante do país, numa exibição de profunda ignorância e desrespeito aos símbolos do país.

Incrível, mas aí está a resposta.

É justamente esta a resposta para a pergunta acima.

É o total e absurdo desequilíbrio que os une.

É esse incontornável desequilíbrio que carregam consigo que constitui o equilíbrio que existe entre eles e os torna tão afinados.

Bolsonaro em grande entrevista

Nessa corda de malabarista de circo prestes a cair a qualquer momento, equilibra-se o presidente que não governa.

E aí a imprensa descobre e anuncia que o governo paga para o presidente ser entrevistado e fazer propaganda de si e para conseguir a aprovação da reforma da Previdência, como fez com Ratinho (SBT) e Luciana Gimenez (Rede TV, a mesma que impediu a exibição da entrevista com Lula).

Ainda segundo a imprensa, ao ser procurado Milton Neves teria cobrado meio milhão de reais pelo mesmo tipo de entrevista (o que na imprensa é conhecido há muitos anos como “jabá”).

Na de Luciana Gimenez o clima foi de total alegria e descontração, bem compatível com o momento que vive o país, como na hora em que o racismo foi tratado tal qual o golpe militar de 1964; algo que não existiu, segundo o presidente.

https://www.youtube.com/watch?v=mEsl9Soq2Dw

O que pode explicar tanto cinismo desses dois monumentos à inteligência humana?

Logo ela, Luciana Gimenez, cuja mãe, Vera Gimenez, já foi condenada e multada por racismo:

Disse ela sobre o porteiro do prédio onde morava:

”Chamei mesmo de safado, vagabundo, sacana, canalha etc. Por um acaso da vida, ele é crioulo. Mas, se eu chamei ou não ele de crioulo, aí é a minha palavra contra a dele”.

O próprio presidente teve a sua condenação por racismo e homofobia confirmada agora no dia 09/05.

Bolsoracismo

Beirando a insanidade, como explicar porque o mito mitou tanto se tem sido insuperável na capacidade de protagonizar tantos episódios que o levaram a ser considerado um dos políticos mais obtusos e o mais obtuso presidente de toda a história da política brasileira?

O auditório.

O seu auditório é carente de tudo.

Bolsopistola

Além de revelar mais um momento de “grande concentração” do presidente na busca de soluções (que ele encontra no Twitter) para tirar o país do abismo em que está sendo jogado por ele próprio (o seu semblante mostra o quanto a sua reconhecida sensibilidade foi golpeada, por isso ele parece tão estressado na foto), qual teria sido o objetivo de gerar esta sutil imagem com uma pistola na cintura, mesmo estando dentro de casa e sendo um homem cercado de muitos seguranças?

Qual teria sido o objetivo de imagem tão inteligente e sutil?

O auditório ao qual se dirige.

Quantos orgasmos essa imagem deve ter provocado entre os bravos machos desse país?

Talvez experiências desagradáveis e negativas na infância e na adolescência possam explicar algumas idolatrias.

Como já vimos, a do mito pelo seu guru astrólogo não parece difícil de entender.

Já é por demais reconhecido pela Psicologia e Psicanálise que é particularmente a infância que “faz” o adulto, mas não podemos deixar de reconhecer que também a adolescência desempenha papel importante nesse processo.

E o meio no qual viveu parte da sua vida não lhe fez bem e acentuou o que a vida pessoal talvez não lhe tenha permitido conhecer; o carinho, o bem querer, o afeto.

O amor.

https://www.youtube.com/watch?v=Y3w-zjH3CuA

Homens despreparados que veem nas armas a solução para tudo.

E aí sim, ainda que possa parecer fácil de explicar por raciocínio elementar e indutivo, seria mais prudente recorrer à ajuda de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras para entender como homens tão primitivos conseguem seduzir tantas pessoas e fazer aflorar nelas instintos e sentimentos tão primitivos e bestiais com tamanha intensidade.

Freud explica?

O medo da inteligência e do saber

Por Ronaldo Souza

O presidente da república, guru do deputado federal do vídeo acima (conhecido como Hélio Bolsonaro, subtenente do exército e deputado federal mais votado do Rio de Janeiro), foi chamado de covarde por Fernando Haddad em plena campanha eleitoral por fugir dos debates e nada respondeu.

Não tinha como responder.

Ele se vê no espelho todos os dias.

Se o líder político de Hélio Bolsonaro foge do enfrentamento como o diabo foge da cruz, por que ele participaria de um debate, como insinuado pela repórter?

Quando o homem da janela fala em emprestar um livro de Karl Marx, a repórter da GloboNews só falta sair correndo.

E o que ele diz?

“Isso é Democracia…”

Não sabe o que é um (Karl Marx), muito menos o outro (Democracia).

Esse pobre coitado é a negação de tudo, inclusive dele mesmo, e não tem a menor ideia do que significa conseguir ser, como ele conseguiu, mais pobre coitado que o seu chefe.

Homens (!) assim carregam muito medo e, traídos pelo inconsciente, costumam se entregar, como ele o fez:

“… sobrinha que vota naquilo que ela acredita, fizeram Universidade…”

O medo é incontornável.

Sai lá de dentro, bem lá de dentro, sem que eles percebam.

O medo do saber e a inveja de quem o tem.

E, no caso dele, na própria família.

Como deve incomodar conviver com uma pessoa “que vota naquilo que ela acredita…”.

Por isso, os primeiro alvos a serem atacados são a inteligência e o saber.

Daqui por diante, entretanto, poderão ficar tranquilos.

Com a devida contribuição de determinado tipo de professor que anda por aí, talvez não restem no futuro muitas pessoas como a sobrinha do deputado Nelson Bolsonaro.

Com seus títulos vazios e inexpressivos, esses professores são na verdade técnicos, práticos com diploma nas mãos.

Reflexo da indigência intelectual deles, a Universidade deixará de ser o centro do saber, onde a liberdade de pensamento e expressão sempre foi o pilar maior do desenvolvimento.

Mas não passará a ser, como às vezes leio e ouço, um lugar de pensamento único.

Será um lugar onde não existirá pensamento.

Em momentos como esse, o pensamento não pode existir.

Escondam-no, matem-no.

https://www.youtube.com/watch?v=LO_xoq10gBs

Dessa vez, porém, diferentemente de um passado bem recente, não precisa mais jogar ninguém no fundo do mar.

Deixem os corpos.

Joguem as mentes.

Finalmente, encontraram a forma mais rápida de fazer isso; destruindo a Universidade.

É lá onde moram a inteligência e o saber.

O saber, poucas vezes tão bem representado como por Paulo Freire, brasileiro reverenciado em todo o mundo.

Nova York, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, aberta às diversas formas de pensamento, vai homenagear esse ilustre brasileiro. A instituição de ensino Exalt Youth, reconhecida pelo trabalho com crianças e adolescentes, vai inaugurar sede em Manhattan com sala de aula batizada com o nome desse pernambucano.

Aqui, ele é agredido e desrespeitado.

O presidente Bolsonaro quer revogar o título de patrono da Educação dado em 2012 a Paulo Freire.

Incansável na glorificação da ignorância, o mito não cansa de mitar.

Sob os aplausos de seus miquinhos amestrados.

Frase que, dita pelo Conje, ex-professor da Universidade Federal do Paraná, ex-juiz de direito e atual ministro da justiça, seria:

“SOBRE os aplausos de seus miquinhos amestrados”.

Os professores e doutorzinhos brasileiros estão de parabéns.

Universidades Federais: THE END?

UFPel

Prof. Dr. Pedro Rodrigues Curi Hallal, Reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

And in the end…
The love you take…
Is equal to the love you make…
The Beatles

Pensei muito para escrever algo hoje à noite. E pela segunda vez na vida, acabo recorrendo aos Beatles, que no final de sua brilhante trajetória, disseram que “no final, o amor que recebemos é igual ao amor que fazemos” (tradução livre). 

É preciso muita calma para compreender o que está acontecendo e planejar os necessários enfrentamentos de forma pacífica, mas efetiva. E quando digo enfrentamentos, não estou falando em guerra ou armas (reais ou fictícias) apontadas para inimigos imaginários, mas sim o enfrentamento de ideias entre pessoas que convivem em sociedade e que buscam o bem comum. 

Até por isso, é necessário deixar explícito que esse texto não abordará a polarização que divide o nosso país há vários anos. Convido a todos que acessarem a esse texto a se aventurarem a lê-lo com a devida atenção, analisando e refletindo sobre seu conteúdo, ao invés de simplesmente tentarem rotular seu autor. 

As Universidades Federais são um patrimônio da sociedade brasileira. Elas são responsáveis por 90% da produção científica do país, mesmo contando com apenas 20% dos alunos de ensino superior do Brasil. Só para citar um exemplo da UFPel, ajudamos a prevenir a morte de milhões de crianças no mundo por meio da descoberta de que a amamentação exclusiva até os seis meses de vida reduz o risco de morte infantil. Por essa descoberta científica, um professor nosso é cotado para receber o Prêmio Nobel. 

Assim, comparar o custo de um aluno numa Universidade pública com aquele de uma creche não apenas demonstra desconhecimento, como também demonstra desonestidade intelectual. Não é razoável imaginar que instituições responsáveis por 90% da produção científica do país tenham o mesmo custo que outras com enfoque exclusivo no ensino. 

As estruturas de ensino superior no mundo são bastante diversas. Entre os 20 países com os sistemas educacionais mais bem avaliados do mundo, vários possuem um sistema baseado em Universidades públicas e gratuitas, como Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega. Países como a Alemanha, a França e a Áustria possuem sistemas baseados em cobranças de taxas anuais baixas. Realmente, em outros países, como a Coréia do Sul, o Japão e os Estados Unidos, o ensino superior é predominantemente pago. 

Desta forma, é fácil concluir que um país não está fadado ao sucesso ou ao fracasso educacional apenas com base na cobrança ou não de mensalidade nas Universidades. Ao contrário, o que leva um país a ter bons indicadores educacionais é investir nas suas Universidades, caminho exatamente contrário ao adotado no Brasil atualmente. 

Por todas essas razões, é inadmissível o ataque que as Universidades Federais vêm sofrendo recentemente por parte do Governo Federal e mais especificamente do Ministério da Educação. Nessa semana, nosso já apertado orçamento foi subtraído em 30%. Pior, o próprio Ministério da Educação informa, por meio de nota à imprensa, que, caso a Reforma da Previdência seja aprovada, o corte no orçamento pode ser revisto. 

Ora, não é preciso amplo conhecimento de economia, orçamento e finanças para compreender que: (a) o orçamento de 2019 das Universidades Federais foi definido em 2018, prevendo a arrecadação do país com as regras vigentes à época; (b) qualquer eventual receita extra gerada pela Reforma da Previdência será refletida a partir do exercício posterior a sua aprovação, ou seja, 2020, caso o projeto seja aprovado em 2019.   

O Governo Federal tenta distorcer a realidade do que ocorre nas Universidades Federais, numa tentativa desesperada de jogar a população brasileira contra suas Universidades. Primeiro, o Governo Federal demonstra ignorância ao desconhecer (ou fingir desconhecer) que mais de 90% do conhecimento científico produzido no país é oriundo das Universidades Federais. Depois, o Ministério da Educação impõe uma censura orçamentária a três Universidades Federais por supostos atos de “balbúrdia” no ambiente universitário, medida que é revogada em menos de 24 horas, para evitar uma óbvia condenação por improbidade administrativa. 

Sr. Ministro, venha passar uns dias na UFPel. Venha assistir as aulas que fazem com que nossos 96 cursos de graduação venham sendo avaliados com notas 4 ou 5 em todas as avaliações do MEC. Venha conhecer as quatro unidades básicas de saúde administradas pela UFPel em Pelotas. Venha conhecer o único hospital 100% SUS da cidade. Venha visitar centenas de projetos de extensão, que aproximam a comunidade da UFPel. Venha almoçar no nosso RU, andar no nosso transporte de apoio, conhecer a nossa moradia estudantil. Certamente, o Sr. notará que o nosso cotidiano não é de balbúrdia. 

É imperativo lembrar que o Governo Federal foi eleito há quase um semestre e já está governando há mais de quatro meses. Já está mais do que na hora de encerrar de vez o processo eleitoral e iniciar a administração do país. E certamente administrar o país significa tratar com seriedade a pauta da educação. 

Por fim, peço a comunidade da UFPel que se mobilize, de forma pacífica, para dizer “não” aos cortes propostos pelo Governo Federal. Lembrem que:

And in the end…
The love you take…
Is equal to the love you make…

Engravidando pelo ouvido

BolsonaroMoro

Por Ronaldo Souza

A sociedade, aquela que Elis Regina canta como “High Society”, da qual fazem parte, ou imaginam fazer, os doutores, altera o uso das palavras conforme o seu charme e finesse.

Assim, minha mulher se transforma em minha esposa, mais fino e elegante.

Cônjuge em conje.

Opa, perdão, cometi um erro.

Conje só é utilizado por um grande orador brasileiro, um grande tribuno, um ex-juiz de direito “reconhecido” pela sua inteligência e cultura e ridicularizado na sua mediocridade ao tentar passar por grande leitor de biografias no programa de Pedro Bial.

Parir se transforma em dar à luz.

Não, não, Paris é Paris mesmo, mas se puder fazer um biquinho e dizer “Parrir”, é a glória.

Mas tem que fazer biquinho.

Treine primeiro com Côte D’Azur.

Depois ensaie bastante com Cointreau, um pouquinho mais chato de pronunciar.

Entre os animais a palavra é prenhe (a cachorra está prenhe, a gata está prenhe), mas entre aqueles tidos como racionais é grávida.

Dizer-se-ia (lá vou eu de novo com o imperador anterior ao atual), portanto, emprenhar.

“Quando a sua filha emprenhou?”

Esqueça.

Eu, que não sou bobo, no fundo, no fundo (lá deles), quis aproveitar o português dos finos e sofisticados para chamar a atenção para dois momentos de grande fineza e sofisticação de membros da nossa atual nobreza política, particularmente no que toca à inteligência e sensibilidade deles:

Onyx Lorenzoni e Flavio Bolsonaro.

Do primeiro, apesar de acreditar que sim, confesso que não posso afirmar, mas quanto ao segundo, trata-se de uma característica de família.

Sim, falo da intelectualidade.

Onyx Lorenzoni (ministro da casa civil), que já foi flagrado em momentos diferentes de… “descuidos” ao tratar com dinheiro público, disse que a roubalheira que domina o país hoje é culpa do PT.

Ponto.

Por sua vez, Flavio Bolsonaro (ministro de todas as casas), um homem admirável pela capacidade de ter muitos amigos, todos de reconhecida conduta ilibada, disse que a crise na Venezuela é culpa do PT.

Ponto.

Esclareça-se que esses “pontos” são finais.

Quem ousaria retocar algo dito por esses dois ilustres membros da mais fina flor da nossa sociedade?

Ícones da inteligência e do conhecimento do Brasil atual, os dois sabem muito bem o que estão dizendo, porque estão dizendo e para quem estão dizendo.

É invejável o fasc… opa, quase, fascínio que exercem sobre as manadas das avenidas paulistas Brasil afora.

Sabem que não podem mantê-las sem o controle de adequada ração.

Absoluto rigor no tempo e na dosagem.

Prescrição de uso diário.

Por isso, não usei como título do meu texto a expressão mais popular, a que todos conhecem; “emprenhando pelo ouvido”.

Aqui não cabe o popular.

Apesar de soar esquisito, “Engravidando pelo ouvido”, usei esse título numa tentativa, provavelmente vã, de, pelo menos por alguns minutos (o tempo que escrevi este texto), ser o mais fino e sofisticado possível e assim me imaginar entre eles.

Sonho dos sonhos.

O imperador e o professor

Professor imperador

Por Ronaldo Souza

Há algum tempo circulou nas redes sociais uma mensagem que diz que todos os japoneses têm que se curvar diante do seu imperador, menos um; o professor.

Na verdade, essa mensagem circula de vez em quando.

Muitas coisas podem ser ditas sobre isso.

A primeira é que tratar-se-ia, como diria o último imperador do Brasil, anterior ao atual, de uma tradição cultural daquele país. E todas as tradições e costumes de um povo, seja ele qual for, devem ser respeitadas.

A segunda coisa a se considerar é que a mensagem não é verdadeira.

Todos os homens e mulheres se curvam sim diante do imperador, mas nesse todos estão incluídos os professores; o Imperador do Japão não se curva diante de nenhum homem ou mulher.

Ressalve-se que o professor é, se não a mais, uma das categorias profissionais mais respeitadas em todas as sociedades civilizadas, inclusive, claro, a japonesa.

É interessante notar que, apesar de não ser verdadeira, os professores tiveram o devido cuidado de tornar maior a circulação da notícia em questão.

O professor quis chamar a atenção para a conveniência do quase fato e nada é melhor do que a conveniência.

É conveniente ser conveniente.

Nenhum homem deveria se curvar diante de outro, seja ele imperador ou não.

Nada justifica isso.

Entenda-se que, por razões diversas, homenagens e reverências devem existir. Há um simbolismo nesse processo.

Insisto, para não deixar dúvidas, respeitem-se as tradições de cada país.

Aliás, o que já é feito com deleite e admiração por determinados segmentos da nossa sociedade quando se trata de algumas culturas em particular, como por exemplo a própria japonesa e a inglesa, diante da sua Família Real.

De uma certa forma isso pode ser explicado por uma expressão criada por Nelson Rodrigues e citada por um sábio (não é professor) da política brasileira nessa semana que finda; “complexo de vira-latas”.

Nenhum homem deveria se curvar diante de outro, mas, caso existisse esse homem diante do qual todos deveriam se curvar, este seria o professor.

Talvez nenhum outro.

Enumerar as razões para isso seria um exercício de pouca imaginação, o que não farei.

Seja como for e independente de opiniões pessoais e mesmo tradições culturais, pode-se imaginar a importância do professor em uma sociedade, qualquer que seja ela.

Dia do Trabalhador

Hoje é o Dia do Trabalhador, uma data da mais alta importância, razão pela qual festejada em todo o mundo.

Um dia criado para cravar a importância daquele que é a alma de um país.

Seja com festa, para festejar as conquistas, seja com protestos, para protestar contra as injustiças, um dia especial.

Um dia que não pertence ao profissional liberal.

Ele não se vê trabalhador.

No reino da meritocracia, a sua carteira profissional, por exemplo, deixa bem clara a sua merecida distinção; ele é um doutor.

Para dar um só exemplo, ele não pode ser preso em cela comum, misturado com todos.

Que objetivo têm as distinções que criamos para nós, seres privilegiados e predestinados?

O de nos fazer seres… distintos.

O profissional liberal, o doutor, enquanto professor (eles acham o máximo falar assim), tem carteira assinada?

Tem ou não tem?

“Enquanto professor”, ele está liberado para determinar as suas ações, ou subordinado a uma hierarquia à qual deve satisfações?

Mas, como uma vez disse um juiz de direito (não há erro de digitação) na sua peculiar sensibilidade, “na sua cabecinha” o doutor continua se vendo um profissional liberal.

Vendo-se ou não trabalhador (“enquanto” professor), é a esse professor que dedico o dia de hoje.

Dedico não só o dia de hoje, mas todos os dias, semanas, meses, anos e décadas que estão por vir, aos professores que de dentro do seu mundo particular e inatingível, o do ser professor diante do qual se curvariam todos os imperadores, por deixarem como legado para os nossos filhos e netos o futuro que já se apressou em se apresentar como presente.

Parasitas de uma sociedade que, admiradora dos seres diante dos quais até o imperador do Japão se curvaria, em boa parte se deixou levar pelas orientações e ensinamentos dos donos do saber que, do alto dos altares destinados aos deuses, a todos levaram de roldão, inclusive os seus incultos e incautos alunos, numa cruel, covarde e avassaladora corrente, que desagua nesse oceano de preconceitos, ódio e estupidez em que se transformou o Brasil.

A catástrofe anunciada em plena campanha eleitoral pelos homens que tomaram de assalto o país e o fazem com volúpia incontrolável com o ensino brasileiro aumenta ainda mais a perplexidade que começa a tomar conta da sociedade, que agora sente na pele a dor e a amargura de ter feito parte desse processo.

Mesmo não sendo trabalhadores, porque nos seus pequenos orgasmos se veem somente como profissionais liberais, o dia de hoje, o Dia do Trabalhado Brasileiro, deve ser dedicado a esses professores.

Professores que no seu atual habitat, as redes sociais, tentaram chamar para si a glória da reverência do curvar-se diante deles.

Não poderia haver ambiente mais adequado para quem hoje não alcança a dimensão do que é ser professor e nada mais almeja além da notoriedade fugaz dos tolos.

Foram pequenos, muito pequenos.

Pequenos continuarão.