Foi-se o troféu. Com ele, o show

Por Ronaldo Souza

O mico foi enorme.

Foi feita uma ‘reunião de emergência’ com o presidente eleito, o general Augusto Heleno, Sérgio Moro e Ernesto Araújo para que Cesar Battisti passasse pelo Brasil rumo à prisão na Itália.

Uma prisão que nada teve a ver com a competência da polícia federal brasileira. Pelo contrário, o que saltou aos olhos foi a incompetência do órgão de inteligência do Brasil e da polícia federal de Moro pela tranquila e serena fuga de Cesare Battisti, daqui para a Bolívia.

Realizada na Bolívia, a sua prisão se tratava de acerto entre governo italiano e boliviano.

Mas, Battisti tinha que passar por aqui. Era a grande oportunidade de mais um espetáculo e o general Heleno assegurou que já estava tudo certo.

Não bastasse isso, Moro mandou um avião da polícia federal para Corumbá para trazer o tão sonhado troféu.

As autoridades citadas quiseram pegar carona no trabalho da polícia italiana e tentaram armar o circo mais uma vez.

A luz dos holofotes seduz e escraviza homens vazios com compreensível facilidade.

Moro e a corrente

O avião como foi, voltou.

Sem a taça.

O que esperar de uma reunião entre o presidente eleito, o general Augusto Heleno, Sérgio Moro e Ernesto Araújo em se tratando de assunto tão complexo e delicado envolvendo outros países?

Vamos lá.

O presidente eleito é o que é, dispensa comentários.

O general Augusto Heleno é o autor daquela analogia “jenial” sobre a liberação de armas no país.

A posse da arma, desde que seja concedida a quem está habilitado legalmente, e essa habilitação legal virá por meio de algum instrumento, decreto, alguma lei, alguma coisa que regule quem terá direito à posse da arma, ela se assemelha à posse de um automóvel. Está em torno de 50 mil (o número) de vítimas de acidente de automóvel. Se formos considerar isso, vamos proibir o pessoal de dirigir. Ninguém pode dirigir, ninguém pode sair de casa com o carro, porque alguém está correndo o risco de morrer porque o motorista é irresponsável.”

Que país do mundo tem um chefe de inteligência com tamanha inteligência e sensibilidade?

Recentemente, ele atacou Dilma Rousseff gratuitamente, aliás, algo muito fácil de fazer atualmente, ainda mais com relação à mulher.

Nesse sentido, a nossa classe média, com toda sua leveza e bagagem sociocultural, talvez seja imbatível, ou só perca para a classe média americana.

O GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República), como o nome diz, existe para se antecipar a movimentos “estranhos” à segurança institucional do país.

O general Heleno disse que o sistema de inteligência brasileiro foi “derretido” por Dilma, uma vez que a “senhora Rousseff não acreditava na inteligência”.

Como acreditar num serviço de inteligência com ele à frente?

Mas, na sua sabedoria o povo já diz há muito tempo; “quem diz o que quer, ouve o que não quer”.

A resposta de Dilma foi dura.

Declarou que ao longo de seu mandato vivenciou “várias situações de manifesta ineficácia do GSI e do sistema de inteligência a ele articulado, como os grampos ilegais feitos em seu gabinete, no avião presidencial e na Petrobrás pela agência de inteligência dos EUA, a National Security Agency (NSA); tais exemplos mostram porque a inteligência do governo ainda não é credível”.

Ninguém lembra da viagem para encontro com Obama que Dilma cancelou como protesto à espionagem da NSA no Brasil?

Segredos importantes da indústria brasileira, dos conhecimentos adquiridos pela Petrobrás em exploração de petróleo em águas profundas (Pré-Sal), know how que ninguém possui como o Brasil, indústria naval…, tudo isso faz parte desse “pacote” chamado Segurança Institucional da Presidência da República.

Identificar essa espionagem era responsabilidade do GSI, sob o comando do general Augusto Heleno.

Assim, fica mais fácil entender a facilidade da fuga de Battisti do Brasil.

Depois da resposta de Dilma, trucidado, ele se calou.

E ressurgiu agora das cinzas (por favor, não confunda com a Fênix, seria uma ofensa à mitologia grega) no episódio do automóvel-bala.

Uma “jenialidade” que merecerá página especial nos livros de Antropologia, Sociologia, Direitos Humanos, Sócio-Política…

Outro personagem da reunião, em breve Sérgio Moro, como o seu presidente, chegará ao patamar daqueles que dispensam comentário. Esforço não está lhe faltando.

Às suas reconhecidas limitações intelectuais somam-se os seus gestos e atitudes mais recentes, que não deixam mais nenhuma dúvida sobre o seu caráter e a sua ambição desmesurada. Um homem que não possui integridade no que faz, aliás, dito por ele mesmo.

Ele é merecedor de um post só para ele.

Outro dia.

Em condições normais o ministro Ernesto Araújo não é um homem normal.

A quantidade de sandices que ele consegue gerar é absurda e na hora da tal reunião de emergência devia estar com a cabeça na viagem que deverá fazer em busca da Terra Plana, a Terra prometida pelo guru do governo, Olavo de Carvalho.

Ernesto Araújo e a Terra prometida

Viagem organizada por um grupo seleto de “intelectuais”, do qual fazem parte alguns do porte de Ernesto Araújo e, claro, Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro e os três mosqueteiros.

A continuar assim, todo o Brasil torcerá para que, ao chegar na beirada da Terra, o transatlântico caia no despenhadeiro do Éter e por lá navegue por todo o sempre.

Heróis que se desmancham com as primeiras chuvas

BolsonaroMoro

Por Ronaldo Souza

O Dr. Moro sempre disse que a imprensa ajudaria muito à Lava Jato, como de fato ajudou. Na verdade, foi essencial. Se não fosse ela, Moro simplesmente não existiria.

Parabéns, portanto, à gloriosa mídia brasileira, à frente a Rede Globo.

Por questão de justiça, não podemos deixar de lembrar o importante e decisivo papel desempenhado pelos eleitores ambulantes, aqueles que vagam pelas noites perdidas da política.

A Globo mandava eles exigirem padrão FIFA pra tudo, eles exigiam (até que estavam certos, afinal a FIFA é padrão mundial de honestidade, todos sabemos), mandava eles irem para as avenidas paulistas do Brasil, eles iam, mandava eles vestirem preto, eles vestiam (ah, que orgulho tem a classe dos professores dos seus membros que, bonecos de ventríloquo sem graça, ficaram de luto naquele dia; um baita de orgulho),  mandava eles…

Uma sintonia perfeita.

O Dr. Moro, que jurou de pés juntos que seria desonra para ele tornar-se político (leia aqui A fratura exposta da estupidez), agora é político de carteirinha, carteirinha essa assinada pelo não menos brilhante presidente eleito.

Presidente que deverá tomar posse em breve. Não se sabe ainda quando, mas não deve demorar. Impacientes para ver o presidente eleito governar, a equipe do governo está só esperando a confirmação da vinda de Trump para então marcar o dia da posse tão aguardada.

Moro censura pesquisas

Pois é, o democrata Moro não está gostando nada de alguns movimentos da imprensa.

Depois de nomear a nora de Miriam Leitão no setor de comunicação do seu ministério (é bobo ele?), numa clara censura ao DataFolha disse que “pesquisas sobre o tema que indicam mais riscos com a liberação do armamento são controversas”.

“Se a política de desarmamento fosse tão exitosa, o que teria se esperado era que o Brasil não batesse ano após ano o recorde em número de homicídios”.

Agora veja essa pérola.

“Havia uma ideia inicial para os municípios, mas com o tempo pareceu melhor não haver a distinção só por municípios. Tivemos a compreensão que existe uma parcela da população que manifesta seu desejo de ter a posse de uma arma em sua residência. Com isso essas pessoas têm uma sensação de segurança maior e por outro lado essa arma pode funcionar como mecanismo de defesa”.

“O porte, por exemplo, não está sendo estudado. Não temos nenhum plano a esse respeito”.

O que ele tenta fazer é uma justificativa para o absurdo em si da posse de armas, promessa inicial à sociedade que o governo descumpriu porque já vem na sequência a do porte de arma. Na verdade, armas, porque são duas e não uma.

O presidente eleito disse que vem sim na sequência a liberação do porte.

Quer mais?

Para quem tem de 25 pra cima anos serão liberadas quatro armas.

Alguém pode dizer qual foi o estudo que demonstrou a necessidade de quatro armas para qualquer cidadão comum?

Pelo critério, acredita-se que aos 70 anos você já deverá ter umas 15 armas.

O encantador de rebanhos

Não se pode esquecer que ele, Moro, encantou os eleitores ambulantes, aqueles que, sem ideais e, portanto, sem rumo, perambulam pela vida em busca de uma sombra que os acolha e proteja.

Já foram de Aécio e depois se transformaram em fundamentalistas do mito e que na busca incessante de… de que mesmo? Ah, sim, na busca incessante da eliminação de nine, o apedeuta, votam em quem aparecer pela frente.

Dispensa-se qualquer valor.

Pode ser um tapado, um completo sem noção, um asno, corrupto como os demais, uma anomalia, que nada faz além de passar o dia no twitter dizendo que vai metralhar aquele grupo, que o “cara” vai apodrecer na cadeia, coisas que exigem grande esforço mental para serem concatenadas.

Sim, o “cara” é aquele que encantou o mundo e deixa todo o sistema em pânico a cada vez que chega perto da porta e ameaça sair.

Ao pô-lo na cadeia, Moro o tirou da campanha eleitoral em que, mesmo preso, apresentou todo o tempo o dobro das intenções de voto do segundo colocado.

Com o caminho livre e apoio total do mesmo sistema, a eleição do segundo colocado, o sem noção, foi assegurada.

Tendo cumprido a missão que lhe foi dada, Moro tratou de garantir o cargo prometido no governo eleito, jogando na lata do lixo a falsa história que se criara em torno dele.

Além do ineditismo na história do judiciário brasileiro, já, por si só, tão carente de credibilidade, o projeto pessoal de Moro o transformava na mais pura e explícita demonstração de que nunca um herói de barro foi tão de barro.

E agora, ridicularizado por gente como Onyx Lorenzoni, família Queiroz e a própria família presidencial, estrategicamente se esconde.

Bolsonaro e personal trainer

Como ele consegue adotar a passividade e a indiferença diante da descoberta de que a filha de Queiroz era secretária parlamentar do deputado federal Jair Bolsonaro em Brasília, quando, na verdade, ela residia e era personal trainer no Rio de Janeiro, inclusive de atores da Globo?

O presidente eleito disse que não sabia!!!

Sensacional!

Logo ele, que com deputados e senadores, imprensa e judiciário brasileiros, condenaram José Dirceu e José Genoino com a acusação de “como vocês podem alegar que não sabiam de nada do que ocorria na Petrobrás se eram pessoas subordinadas a vocês…?”.

Digamos que fosse assim.

Será que o presidente eleito consegue imaginar a diferença entre o tamanho do universo que envolve a Petrobrás e aquele do gabinete de um simples deputado federal?

Não, ele não consegue.

Será que os seus eleitores conseguem imaginar…, esqueça.

BolsoQueiroz''

O mais recente episódio da família presidencial com Queiroz (o bom samaritano, que além de depositar dinheiro em contas de pessoas necessitadas, agora também faz festa para “dar alegria a uma tristeza que se tomava conta dentro da enfermaria…”) foi a confissão de culpa de Flavio Bolsonaro ao pedir que o stf (supremo tribunal federal) determinasse a suspensão das investigações das maracutaias com os Queiroz.

Claro, foi atendido.

Tendo se acostumado com a presidência da república de Curitiba, será que na sua ambição de ser presidente do Brasil (ou pelo menos ser indicado para o stf, o que for possível), Moro, o paladino da justiça, vai continuar “não vendo” nada?

Certamente, a resposta será a de sempre; não vem ao caso.

Não se pode esquecer, entretanto, a grande ajuda do Dr. Dallagnol, “The Great Power Point Presenter”.

Por falar nisso, já viu o novo vídeo em que ele pede para interferir na eleição do presidente do Senado e da Câmara dos Deputados para fortalecer a luta contra a corrupção?

Veja, está ótimo.

Se o guardião da moral e dos bons costumes dos homens de bem que são descendentes dos ingleses e não dos portugueses (ufa!), o procurador-pastor que tem linha direta com Deus não tivesse sido flagrado em muitas coisas, quem sabe tivesse alguma credibilidade,

Ser, entre outras coisas, flagrado como proprietário de duas casas do Minha Casa Minha Vida, não ter como argumentar e dizer que era para… investir, é uma coisa que não lhe dá nenhuma moral para ser o guardião da moral e dos bons costumes dos homens de bem que são descendentes dos ingleses e não dos portugueses.

Mas, sinceramente, acredito que não devem ser muitas as pessoas que ainda o levam a sério. Seria abusar da inocência (veio outra palavra, mas me contive).

Confesso, porém, que ainda estou confiante e esperando pela sua super didática aula com o Power Point sobre o BolsoGate, episódio que envolve o bom samaritano brasileiro, Queiroz, o que será de nós, com a família presidencial.

Acredito firmemente que após essa aula, que deverá acontecer (tenho certeza, se não Dallagnol não se chama Dallagnol e só confirmaria o procurador medíocre e abominável que só faz iludir os tolos), tudo ficará muito bem esclarecido.

Os próximos capítulos dirão se a ambição pessoal de Moro fará com que ele continue autêntico, deixando claro que “não tá nem aí” para essas bobagens de corrupção, como faz agora, ou se voltará a ser o pequeno herói de barro que não se sustenta em pé.

A Ópera do Malandro

Ópera do Malandro

Por Ronaldo Souza

Inspirada na Ópera de três vinténs, de Bertold Brecht, e estrelada por grandes atores, como Otávio Augusto (sempre muito bom), Marieta Severo, Elba Ramalho e outros, a peça teatral A Ópera do Malandro (Chico Buarque) foi levada também ao cinema, dessa vez escrita por Chico em parceria com Ruy Guerra e Orlando Senna, tendo como intérpretes Edson Celulari (muito bem), Elba Ramalho e Cláudia Ohana.

A cena do “duelo” na dança de Marieta Severo e Elba Ramalho (peça) e Elba Ramalho e Cláudia Ohana (filme) é impagável.

Grandes sucessos, peça e filme, retratam a vida do bom malandro carioca.

A malandragem sempre foi enaltecida no Brasil e quem também fez isso com grande maestria foi Chico Anysio, o grande mestre na arte do humor; Azambuja é inesquecível.

Que me perdoe Chico Buarque por usar o nome de sua peça para falar de outro tipo de malandro, no pior sentido da palavra, um desqualificado.

O ainda por investigar, que nem precisa investigar, porque todo mundo já sabe o que ocorreu e não vai ser investigado, o episódio da família Queiroz e seus vídeos indecentes mostra o pior dos malandros, o malandro deplorável.

O malandro sem caráter.

Mas nada a ver com Macunaíma, um herói sem caráter, livro de Mário de Andrade, também levado ao cinema, com Grande Otelo no papel de Macunaíma.

Após divulgar um vídeo vergonhoso, Queiroz, o bom samaritano que deposita dinheiro mensalmente em contas bancárias de pessoas necessitadas, foi “orientado” a desfazer o deboche que ele fez com o povo brasileiro, principalmente os eleitores do presidente eleito (será que perceberam?).

E aí fez um vídeo mais vergonhoso ainda.

O primeiro vídeo seria mais aceitável porque mostraria um momento de explosão da canalhice de um farsante. E explosão de sentimento tende a ser uma coisa “autêntica”, mesmo sendo de uma canalhice.

O segundo, não.

Mostra a farsa canalha do farsante.

Nada ali é digno de qualquer coisa.

Preciso que você veja o primeiro vídeo outra vez.

https://www.youtube.com/watch?v=LOJpga62Pow

Agora veja o que foi feito para corrigir o primeiro.

Vamos lá

  1. Aquela blusa salmão (rosa?) e o shortinho são comuns em quem está internado para ser operado no dia seguinte ou o comum é aquela “roupinha bonitinha amarrada por trás” e que ninguém gosta?
  2. Em que hospital um paciente que vai remover um tumor cancerígeno no intestino estaria “trajado” daquela forma e teria permissão para fazer aquele barulho na ‘enfermaria’?

Queiroz – “… foram 5 segundos que eu quis dar de alegria a uma tristeza que se tomava conta dentro da enfermaria que eu me encontrava…”

  1. Aquilo é uma enfermaria, como diz o Sr. Queiroz? Onde estão os leitos vizinhos e as pessoas que estavam tomadas de grande tristeza a quem ele quis dar 5 segundos de alegria? Será que eles acharam que ninguém ia perceber que aquilo é um apartamento e dos bons? Tem qualquer semelhança com o ambiente do segundo vídeo, este sim armado para parecer com uma enfermaria (tem até santinha na mesinha ao lado)?

Queiroz – “… eu fui submetido a uma cirurgia no dia primeiro, graças a Deus o tumor foi eliminado…”

  1. Se a alegria incontida se devia à remoção do tumor intestinal, nada mais justo que a celebração. Ocorre que após uma cirurgia desse porte, ninguém teria condições físicas de comemorar daquela maneira, com aquela disposição e equipe médica nenhuma permitiria aquilo. Sendo assim, deve-se deduzir que se fosse assim como ele tenta mostrar, teria sido na noite anterior, o que nos leva de volta às considerações já feitas.

Toda a equipe de produção que compõe essa ópera é da pior qualidade, com atores e diretores bem canastrões.

E ela precisa de uma plateia a altura de suas encenações.

E tem.

E a plateia ainda aplaude, ainda pede bis
A plateia só deseja ser feliz.
Gonzaguinha

A fratura exposta da estupidez

“Sergio Moro é a exata régua moral da nossa classe média:
Desonesto com postura moralista, corrupto com discurso edificante”
Nelson Lagoa

Por Ronaldo Souza

Há de tudo.

Em apenas 13 dias de governo, nunca foram vistos tantos erros, desmentidos, contradições e bobagens ditas e feitas.

Até secretário desmente o presidente da república, que teve mais uma vez que voltar atrás no que disse, como foi no caso com Marcos Cintra.

Bolsonaro perdido

Quem devia conduzir é conduzido.

Sob o “comando” de quem nada se podia esperar, ministros se mostram absurdamente incapacitados.

Leonardo Boff disse que o novo governo é o triunfo da ignorância e da estupidez.

Irretocável.

Ainda que a corrupção esteja correndo solta e envolva desde ministros a assessores, ex-assessores, motoristas, ex-motoristas, dinheiro depositado em contas da família presidencial, não há como não ficar surpreso com a ignorância e a estupidez em doses cavalares.

Com trocadilhos.

Nesse universo, chama a atenção o comportamento do ministro da justiça, Sérgio Moro.

Ressalve-se, não surpreende, chama a atenção, pelo cinismo aberto e escancarado.

Dizem que somos um povo de memória fraca, mas mesmo para essa fraqueza há limites. Afinal, o passado de Moro na república de Curitiba foi ontem, ou “onti”, como diz o nosso presidente.

Uma pequena correção.

Nosso presidente, não, uma vez que, aborrecido com os governadores nordestinos, ele próprio disse que não é presidente do Nordeste.

Sem problema, afinal, em se tratando de governo, o povo nordestino sempre foi órfão de pai e mãe.

Conta-se até que há um ex-presidente preso por ter ousado tentar tirar esse povo da orfandade.

Mas não vem ao caso.

Pois não é que o Moro, mesmo sem provas, até poucos dias acusava a todos de corruptos e já autorizava de imediato a prisão preventiva (que depois se tornava temporária, depois definitiva e agora quem sabe, como ministro da justiça, se transforme em pena de morte – mas só para um homem) agora deu pra perdoar todo mundo!

Uma simples explicação e um simples pedido de desculpas são suficientes para deixar livres e soltos homens envolvidos em corrupção. Corrupção comprovada com documentos e, meu Deus!!!, até pela confissão do próprio corrupto. Sem nenhuma necessidade de se recorrer à ferramenta de trabalho mais utilizada pelo atual judiciário brasileiro; a delação!!!

Tudo bem que Moro para conseguir executar o tripé do moderno juiz brasileiro – prender – julgar – condenar – estava apoiado num fantástico Power Point do brilhante procurador que só procura e acha o que quer e palestrante evangélico que tem linha direta com Deus (ele já disse que recebeu diretamente de Deus a missão de combater a corrupção; um predestinado).

Por falar nisso, por onde anda Dallagnol?

Deve estar procurando alguma coisa ou numa conversa reservada com o Pai do Filho.

O que terá acontecido para o ex-juiz Moro mudar tão brusca e repentinamente o seu jeito de ser?

Porque vamos e venhamos, é necessária uma grande “fraquejada” para gerar uma filha… não, não, para gerar uma postura dessa na cara de todo mundo.

Será que devemos encaminhar a pergunta ao juiz Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira?

Foi esse juiz quem assim definiu Sérgio Moro, o atual ministro da justiça; “doce, manso e cínico” (clique aqui para ler Cínico demais, diz juiz sobre Moro).

Do que o ministro foi capaz de dizer sobre Bolsonaro?

“Sobre o relatório do Coaf sobre movimentação financeira atípica do sr. Queiroz, o sr. presidente eleito já esclareceu a parte que lhe cabe no episódio. O restante dos fatos deve ser esclarecido pelas demais pessoas envolvidas, especialmente o ex-assessor, ou por apuração”.

Sensacional, não é mesmo?

E aí, na sequência, Moro conseguiu ficar com o controle de que?

Do Coaf!

Veja o decreto do presidente eleito que, entre outras coisas, estabelece o seguinte:

Decreto do presidente Jair Bolsonaro confirmou a transferência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) da estrutura do agora extinto Ministério da Fazenda para o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Agora sob a responsabilidade do ministro Sérgio Moro, o órgão que, entre as atribuições, identifica operações financeiras suspeitas teve a estrutura alterada…

O que dirão os sábios eleitores do mito?

Ah, agora com Moro tomando conta da coisa, quero ver quem vai fazer mais corrupção!!! Pago pra ver!

A esses iluminados, só uma perguntinha.

Por que vocês acham que a família que jogou o ministério público brasileiro, polícia federal e os tribunais federais, incluindo o stf, mais uma vez no esgoto está tão alegre?

https://www.youtube.com/watch?v=LOJpga62Pow

Como o homem que não tinha condições de ir aos depoimentos alegando problemas de saúde, apresentando atestados médicos e até se internando (opa, já vi esse filme), de repente aparece dançando desse jeito, feliz da vida com a família?

Mesmo sabendo que o processo de estupidificação foi bem elaborado e bem executado e por isso “eles” não conseguem sequer fazer ideia do que está acontecendo no país, há sempre uma esperança de que, com o tempo, alguns percebam.

Mas, tudo bem.

Impunes, os Queiroz não deram a menor importância para os depoimentos para os quais foram convocados pelo judiciário e fizeram ridículos o judiciário brasileiro e os superiores tribunais federais.

E aí não tem como não fazer uma pergunta.

Os Queiroz estão confiando em que para humilhar, tripudiar e ridicularizar todo o judiciário do país?

De onde vem tanta força e confiança?

Ou a pergunta deve ser em quem estão confiando?

A caneta Bic, que tantos orgasmos provocou, está em mãos que lhes asseguram a tranquilidade para fazer festa.

A família Queiroz sabe que está protegida e jamais será incomodada.

Que fizessem isso, afinal o judiciário brasileiro e os superiores tribunais federais não merecem respeito há muito tempo.

Tudo bem, mas com o povo brasileiro!!!

Esse vídeo é uma afronta vergonhosa à dignidade do povo.

Advogado denuncia: Decreto de Bolsonaro suprime atribuições do Coaf, que não tem mais como prosseguir na investigação do “caso Queiroz”

Mas entenda porque tanta alegria na entrevista (aqui está só um trecho dela) com o advogado Carlos Cleto, que chamou a atenção para o decreto do presidente eleito.

Viomundo — Se o decreto de Bolsonaro já estivesse em vigor, como seriam descobertas as movimentações atípicas na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor do filho mais velho do presidente, o deputado estadual eleito senador Flávio Bolsonaro (PSL)?

Carlos Cleto — O centro dos poderes do Coaf estava no inciso III – ”receber, examinar e identificar as ocorrências suspeitas de atividades ilícitas, nos termos do art. 1º da Lei nº 9.613, de 1998”.

Perdida essa competência, o Coaf é privado de sua própria razão de existir…

ViomundoOu seja…

Carlos Cleto — Se na época da investigação sobre as movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz já tivesse ocorrido a supressão dos incisos III, VII, VIII e IX das competências do Plenário do Coaf, aquelas movimentações dele não poderiam nem ser investigadas.

ViomundoO decreto impõe a censura aos servidores do Coaf?

Carlos Cleto A proibição de “manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento”, além de já constar do decreto de FHC, é uma conduta inerente a qualquer órgão que trabalhe com apuração de questões sigilosas.

O problema do decreto não é este, mas a supressão dos poderes investigativos mais essenciais, o que as pessoas ainda não perceberam.

ViomundoOntem, 03/01, em entrevista ao SBT, Bolsonaro disse: ‘’ Falando aqui [bem] claro, quebraram o sigilo bancário dele sem autorização judicial. Cometeram um erro gravíssimo”. Foi mesmo um erro gravíssimo?

Carlos Cleto — Antes de Bolsonaro mexer no estatuto do Coaf, não havia nada de ilegal. O artigo  8º do estatuto que vigia possuía o inciso I, que autoriza o envio ao Coaf de informações de “movimento de valores considerados suspeitos”.

O inciso I do artigo 8º, vale relembrar, dizia que competia à secretaria-executiva

I – receber das instituições discriminadas no art. 9º da Lei nº 9.613, de 1998, diretamente ou por intermédio dos órgãos fiscalizadores ou reguladores, as informações cadastrais e de movimento de valores considerados suspeitos, em conformidade com os arts. 10 e 11 da referida Lei

Afinal, a lei nº 9.613/1998 criou o Coaf exatamente como instrumento de Identificação e Repressão aos Crimes de Lavagem de Dinheiro.

Portanto, ao investigar as movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, o Coaf não fez nada de ilegal.  Afinal, estava agindo dentro de suas competências legais.

ViomundoConsiderando que o Coaf foi criado como instrumento de Identificação e Repressão aos Crimes de Lavagem de Dinheiro, quais as implicações das mudanças feitas no estatuto por Bolsonaro?

Carlos Cleto –Lamentavelmente, significam enorme redução da capacidade de repressão aos crimes de lavagem de dinheiro e de ocultação de bens e valores por parte do Coaf.

Viomundo –  E o ”caso Fabrício Queiroz” como fica?

Carlos Cleto Sem as atribuições suprimidas por Bolsonaro, o Coaf não tem mais como prosseguir na investigação do “caso Fabrício Queiroz”.

Conclusão: a primeira medida de Bolsonaro, que se autointitula ‘’governo anticorrupção” foi enfraquecer o órgão anticorrupção.

O decreto acima foi assinado pelo presidente no dia 1º de janeiro, dia da posse do novo governo, e à noite já estava na edição extra do Diário Oficial.

O governo estava realmente com muita pressa.

“O empobrecimento subjetivo, que também leva à regressão do Eu, faz com que o brasileiro busque identificação com políticos, artistas, pastores, padres, comediantes e outras figuras públicas a partir daquilo que os une: a ignorância. Perdeu-se a vergonha de ser ignorante ou burro”
Magistrado Rubens Casara

“O mundo é um lugar ruim para viver…”

Rio

Por Ronaldo Souza

Nem sei se ainda se usa essa expressão e se ela pode ser usada aqui, mas não navego nas redes sociais.

Quando faço as postagens dos meus textos costumo ir na “Página inicial” do Face Book para conferir se está tudo certo, se o link para o site está funcionando e aí saio; é hábito desde quando comecei a fazer postagens.

Quando posteiMulheres da vidaontem (09.01) pela manhã, fiz isso.

Ao fazer, notei que logo abaixo da minha estava uma postagem feita pelo professor Wantuil.

Wantuil Rodrigues Araújo Filho, este é o seu nome.

Já fui inúmeras vezes ao Rio nesses últimos mais de 40 anos, pois, além de ter ido lá algumas poucas vezes antes, desde quando casei ia pelo menos a cada 2 anos, para passar Natal e Reveillon com a família da minha mulher. Era um ano aqui em Salvador, outro lá.

Digo ia porque com a morte recente dos pais dela, isso mudou um pouco.

Ela continua indo de vez em quando por causa das irmãs, eu, não.

Apesar disso, nunca tive amigos no Rio de Janeiro além dos meus concunhados.

É comum dizer-se “Freud explica”.

Mas não preciso de Freud para explicar.

Afinidades e empatias não são obrigatórias; existem ou não.

E relações profissionais não significam e não devem significar necessariamente amizades que surgem. Essas relações muitas vezes não têm a consistência que poderiam ter.

O tempo, senhor de tudo, se encarrega de nos orientar.

Ambas, amizade e relação profissional, têm razões que só a alma e o coração conhecem.

Wantuil mora no Rio.

Só estive pessoalmente com ele uma única vez (e não foi lá) e nos falamos por telefone cerca de 4 ou 5 vezes, acho que não mais do que isso.

Uma dessas vezes foi para lhe pedir um favor, que foi atendido com a maior gentileza do mundo.

A postagem dele, foi o vídeo abaixo.

Vi o vídeo.

Como me fez bem.

Poucas vezes me senti tão tocado.

A música é ali dos anos 1970, quando para mim ainda se misturavam o final da adolescência e o início da fase adulta.

The Marmalade, a música, a gravação, a minha vida, tudo se misturou naquele momento inexplicável de grande emoção em que senti a insuportável leveza da beleza da vida.

“Insuportável leveza da beleza da vida” numa música que diz “the world is a bad place, a bad place, a terrible place to live…”?

Sim.

Porque em seguida vem “oh, but I don’t wanna die”.

É a beleza da poesia e do poeta.

Não se explica.

Mas por que aquela música “solta” me tocou tanto?

Só à noite entendi.

Recebi de outro amigo, este aqui de Salvador, uma mensagem no whatsapp com o mesmo vídeo falando da morte de Dean Ford, o cantor do The Marmalade.

Mais uma vez o coração se agitou.

E só aí tive a sensação de que algo estranho tinha acontecido.

De repente, pareceu-me que a música e as reminiscências que me vieram à mente traziam alguma mensagem.

Aquela postagem logo abaixo da minha pareceu então não estar ali à toa.

“Afinidades e empatias não são obrigatórias; existem ou não”.

Lembra que falei isso aí em cima?

Uma vez um amigo psicanalista me disse:

– Ronaldo, o mundo é sujo.

Com outras palavras, Dean Ford disse a mesma coisa; “o mundo é um lugar ruim para viver”.

Sim, o mundo é sujo e um lugar mau para viver.

“Oh, mas eu não quero morrer”, como diz o mesmo Dean Ford na sequência da música.

O poeta precisa nos provocar e assim nos chamar para a vida.

“As saudações de pessoas com problemas… oh, como elas enchem meus olhos…”, diz outro trecho da música.

Da dor das suas reflexões ele tira a beleza da essência das coisas.

E como estamos precisando dessa essência.

A morte pode significar a “insuportável leveza da beleza da vida”.

The Marmalade, a música, a gravação, a minha vida e agora aquela música “solta”, tudo parecia se misturar como que numa mensagem naquele momento inexplicável.

Aquele único contato pessoal que tive com ele, os outros por telefone e algumas coisas mais já tinham me dito muito dele e aparentemente eu não soube perceber.

Durante todo esse tempo existira uma pessoa com afinidades e empatias no Rio.

Wantuil.

Assim é a vida.

A vida como ela é, como diria Nelson Rodrigues, pernambucano-carioca apaixonado pelo Fluminense do Rio, o Rio de Wantuil.

Que é um Rio diferente.

Nele há mais poesia, mais beleza, mais sentimento.

Fiz questão de trazer a música como foi gravada à época em que foi um grande sucesso com o The Marmalade e que está no mix do vídeo lá em cima.

Que maravilha.

Estamos necessitados de beleza.

De poetas.

E amigos.

Abraço, Wantuil.

https://www.youtube.com/watch?v=xTeI65yrhGw

Mulheres da vida

Por Ronaldo Souza

Ainda lembro da minha alegria.

Era criança, quando saí com meu pai para comprar o presente de Natal de minha mãe.

Eu estava radiante e me sentia importante por acompanha-lo naquela nobre missão.

Da rua Antônio Pedro, onde morávamos, para a Rua D’Apolo, o principal “centro” comercial de Juazeiro (BA), andávamos cerca de 5 minutos. “Atravessávamos” somente duas ruas transversais para chegar lá.

Na noite de Natal, a alegria de minha mãe quando recebeu o presente não cabia dentro dela.

Imagino hoje que deve ter sido uma das suas “grandes” noites.

Uma enceradeira.

Esse foi o presente de minha mãe, uma mulher incrível.

A primeira com quem aprendi a respeitar e admirar a mulher.

Talvez você não imagine o que é uma enceradeira, por isso trouxe uma para lhe ajudar.

Enceradeira Arno

Não eram muitas as mulheres em Juazeiro que podiam ter uma.

A minha mãe podia.

Maravilha, não é mesmo?

Isso foi há cerca de 58 anos.

Esse era o modelo na época dos nossos pais e avós.

Bela ou não, a mulher tinha que ser recatada e do lar.

Vivia para o marido e os filhos.

Assim fez a minha mãe.

Feliz.

Literalmente.

Ainda que possível (quem sabe para algumas mulheres ainda é normal), é no mínimo difícil imaginar hoje uma mulher irradiando alegria por ganhar um eletrodoméstico como presente de Natal, seja uma enceradeira (ainda existe?) ou qualquer outro.

Muito além do jardim

Mas a mulher já sonhava com horizontes maiores.

O seu jardim já não era suficiente.

Saiu de casa e ganhou o mundo.

Foi conhecer a vida.

Viu e gostou.

E conquistou o que era seu; o direito de vive-la.

Fico pasmo quando vejo algumas mulheres tratarem o feminismo, e consequentemente as feministas, como algo a ser repudiado.

Mulheres que para terem filhas precisam que os seus machos deem uma fraquejada.

Vamos simplificar?

Feminismo é o direito da mulher de ser mulher, na sua plenitude.

A mulher é dona do seu mundo.

E do seu corpo.

Só sendo plena ela será livre, independente, por mais que isso assuste alguns homens.

Só se é feliz sendo livre.

Parece haver um medo (mal disfarçado) da independência da mulher.

Como sentir-se ameaçado por ver a mulher lutando para ser… mulher?

Da mesma forma que negros nunca foram tratados como gente e tiveram e têm que lutar por isso, por historicamente não terem sido tratadas como mulheres, elas tiveram e têm que continuar lutando cada vez mais por esse direito.

E nessa luta terão sempre o apoio do homem.

Do homem, não do macho.

Não desses protótipos que se espalham pelo país (alguns dos quais agora em cargos de governo) e não só ignoram como estimulam o feminicídio e o fazem explodir em sucessivos casos nos dias atuais.

Protótipos cujas mulheres sofridas cultivam no íntimo da sua infelicidade o desejo de ser mulher.

Pobres homens.

Pobres mulheres.

“Ei mulher, não abaixe a cabeça pra homem nenhum.
Seja e faça o que você quiser, não se prenda aos padrões sociais impostos por nossa sociedade machista.
Seja a mulher da sua vida!!”
Fernanda Lima

https://www.youtube.com/watch?v=67DLC0j8ZWE

O passado nos espera

Passado

Por Ronaldo Souza

Durante as manifestações que culminaram com o golpe que pôs Michel Temer na presidência, os eleitores de Aécio Bolsonaro chegaram a pedir muitas vezes “intervenção militar democrática”.

???

Se alguém souber explicar o que é isso, por favor fique à vontade.

Essa e tantas outras coisas ditas por eles deixavam bem claro que estava em processo a ascensão fulminante e irresistível do idiota, como bem descreveu Paulo Nogueira Batista Jr., economista e ex-diretor do FMI, em Os falsos idiotas.

Já tive oportunidade de dizer aqui que se todos os idiotas percebessem que são idiotas, haveria um suicídio coletivo em larga escala.

Como é impossível que o idiota perceba alguma coisa, é claro que esse suicídio coletivo jamais aconteceu ou acontecerá.

Como também é claro que, por razões óbvias, nunca desejei esse suicídio.

A constatação do fenômeno não me leva necessariamente a desejar que ocorra. Até porque o mundo tem seus pesos e contrapesos e é isso que permite o seu “equilíbrio”.

Recorro novamente a Paulo Nogueira Jr.

“De repente, tudo mudou. O idiota descobriu o próprio peso e desencadeou-se por toda parte com força brutal. Passou a publicar, dar entrevistas, gerir empresas e – o que é pior – ocupar cargos públicos da maior importância. Isso foi, como dizia, no século passado.”

O mundo azul e rosa dos mentecaptos

Quem poderia acusar Hitler de idiota?

Negar-lhe inteligência?

Não, muito menos a quem estava ao seu lado; Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha nazista, um gênio da comunicação e o grande mentor do regime.

Não é muito preciso o tempo que durou o império nazista. Teria sido de 1933 a 1945, 12 anos, portanto.

Por mais tempo durou o Fascismo de Mussolini na Itália, 23 anos (1922-1945).

O primeiro existiu por um tempo bem menor que a ditadura brasileira; 21 anos (1964-1985). O segundo, um pouco mais.

O Salazarismo, regime também fascista, sem dúvida, foi o mais longo deles (1933-1974). Foi deposto pela “Revolução dos Cravos”, um momento de grande beleza e riqueza da história do povo português.

Considerando-se todas as proporções e possibilidades de cada momento na história, pode parecer que não cabem comparações com a ditadura brasileira.

Não é bem por aí.

Não se trata de comparar, por exemplo, a dramaticidade das condições e quantidade de mortes do nazismo e a ditadura brasileira.

Trata-se tão somente de traze-los para um contexto e nesse sentido existiria pelo menos uma coisa a unir esses momentos.

Parece não haver dúvidas de que em todos eles a humanidade deu passos para trás.

Da mesma maneira, é certo que haveria menor semelhança ainda com a atual situação do Brasil, a começar pelo fato de não haver como comparar os líderes dos dois momentos.

Hitler, por si só, e seu mentor intelectual, Goebbels, um homem de inteligência e intelectualidade inegáveis.

Quem teríamos em cargos equivalentes no momento que estamos vivendo para comparar?

Bolsonaro e Olavo de Carvalho (mentor do atual governo).

Sem chances.

https://www.youtube.com/watch?v=NZWKScoj3s0

Dispensam-se comentários.

“Duas coisas não têm limites: o universo e a estupidez humana”.
Einstein

Bolsonaro, armas e automóveis

O que disse recentemente um dos mais ativos ministros do novo governo e um dos seus consultores, o general Augusto Heleno?

“A posse da arma, desde que seja concedida a quem está habilitado legalmente, e essa habilitação legal virá por meio de algum instrumento, decreto, alguma lei, alguma coisa que regule quem terá direito à posse da arma, ela se assemelha à posse de um automóvel. Está em torno de 50 mil (o número) de vítimas de acidente de automóvel. Se formos considerar isso, vamos proibir o pessoal de dirigir. Ninguém pode dirigir, ninguém pode sair de casa com o carro, porque alguém está correndo o risco de morrer porque o motorista é irresponsável.”

Há como manter um diálogo minimamente inteligente diante disso?

“A nossa bandeira jamais será vermelha”

Tudo para eles é binário.

Ou é azul ou é rosa.

https://www.youtube.com/watch?v=6myjru-e81U

A incapacidade que exibem todos os dias não vai permitir que enxerguem qualquer coisa nesse panorama de tamanha complexidade que vivemos atualmente.

É difícil de acreditar que algo tão patético quanto “A nossa bandeira jamais será vermelha” teria alguma chance de se tornar o lema de qualquer coisa que fosse.

Exibem da forma mais despudorada possível o quanto são medíocres e ridículos.

Fazem-no por conhecerem muito bem a plateia para quem falam.

Um dos textos recentes do sociólogo e professor Celso Rocha Barros tem como título a expressão “Nunca fomos tão repulsivos”. Nele, Celso Barros faz uma crítica contundente às elites brasileiras.

Viver nos dias de hoje, século XXI, 2019, 30 anos depois da queda do Muro de Berlim, com coisas como “A nossa bandeira jamais será vermelha” é assumir; nunca fomos tão medíocres.

Vamos lá.

O que pode ser mais emblemático do que o “Outubro Rosa”, movimento que pretende chamar a atenção para a luta contra o câncer?

Nessa luta, os monumentos Brasil afora foram iluminados com a cor rosa, representação do “Outubro Rosa”.

Assim foi, por exemplo, com a Catedral de Brasília.

Veja o que eles conseguiram fazer.

Inoculados com o vírus da estupidez, os bolsonaristas confundiram o “Outubro Rosa” com comunismo e, na sua incapacidade de ver as coisas, destilaram todo o seu ódio.

Eles são os passos para trás que nesse momento dá o nosso país.

O atraso será gigantesco.

Recorro novamente a Paulo Nogueira:

“O que temos, hoje, não é mais a ascensão do idiota, mas o seu completo e indiscutível triunfo”.

Se alguém ainda duvida é só olhar para o primeiro dia do ano.

Quantos ouvem o canto do sabiá?

Sabiá

Por Ronaldo Souza

Adoro Rubem Alves.

Professor, escritor, psicanalista, teólogo, avô, um homem diferenciado na sua forma de pensar.

Um sábio.

O seu lado professor sempre foi muito forte, indo muitas vezes de encontro ao que o professor, numa quantidade considerável de vezes, representa:

Arrogância.

Quem assumirá que é arrogante, prepotente, preconceituoso…?

Vaidoso?

Não, não somos vaidosos.

A vaidade é algo que passa ao largo nas nossas vidas.

Somos todos humildes, simples, gente boa.

E tolos.

Não percebemos que, por mais que tentemos disfarçar, nós nos exibimos mais do que somos capazes de imaginar.

Passe um, dois, três dias em um evento da sua classe.

Meu Deus!

A vaidade desfila tranquila, leve e solta pelas salas, auditórios e corredores, como que rindo de todos.

Ah, os títulos, como somos importantes!!!

Sem eles, nada somos.

Quantas publicações, em quais periódicos, qualis, fator de impacto, evidências científicas que dançam ao sabor dos ventos (e das conveniências), revisor, editor; não, nem venha com seu canto bonito, com seu talento, procure outra floresta.

Com a visão embotada, o óbvio lhes foge.

Humildade e simplicidade são características muito difíceis de encontrar nos tempos atuais.

Entre professores mais ainda.

“Vinde a mim os humildes, pois deles será o Reino dos Céus”.

Alguém consegue imaginar a passagem bíblica no mundo acadêmico?

“Vinde a mim os humildes, pois deles será o Reino das Ciências”.

Rubem Alves sabia disso como poucos.

Mas nunca deixou de alçar seus voos.

Belos.

E perigosos.

Há sempre alguém que ousa.

Ele cantava como um sabiá.
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Urubus e sabiás

Por Rubem Alves

Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam… Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás… Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

– Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente…

– Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás…

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.

Os falsos idiotas

Escola sem partido'

Por Paulo Nogueira Batista Jr.
(Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países)

Há muito tempo, leitor, não trato de um tema que me era caro outrora: a ascensão fulminante e irresistível do idiota. E, no entanto, hoje mais do que nunca vivemos as consequências desse fenômeno arrasador – não só no Brasil, mas em grande parte do mundo.

Tudo começou no século 20. O primeiro a diagnosticar o fenômeno foi, salvo engano, o filósofo espanhol Ortega y Gasset. A sua obra “A Rebelião das Massas” marcou época. Décadas depois, Nelson Rodrigues retomou o tema com mais verve e mais graça. Os idiotas sempre existiram – e em grande número. Sempre foram a maioria –sólida e compacta maioria. Mas até o século passado, os idiotas ignoravam a sua condição de maioria e, portanto, viviam omissos e acomodados, ignorantes da força que a sua condição lhes proporcionava. A deferência era seu traço característico. Nunca lhes ocorreria incomodar os outros com opiniões, ideias, projetos.

De repente, tudo mudou. O idiota descobriu o próprio peso e desencadeou-se por toda parte com força brutal. Passou a publicar, dar entrevistas, gerir empresas e – o que é pior – ocupar cargos públicos da maior importância. Isso foi, como dizia, no século passado.

De lá para cá, o campo ocupado pelo idiota só fez se expandir. É notório, por exemplo, que as redes sociais ampliaram sobremaneira as suas possibilidades de atuação. Convenhamos, leitor: o que temos, hoje, não é mais a ascensão do idiota, mas o seu completo e indiscutível triunfo. Os não-idiotas sobrevivem assustados e acuados. Quando botam a cabeça para fora, sofrem as piores agressões.

O fenômeno se reproduz em todas as esferas. Começa no seio das famílias. Em outros tempos, os idiotas da família eram bem-comportados; não arriscavam um palpite, um parecer, sequer faziam perguntas. Hoje, não. As reuniões familiares são dominadas pelos patetas, sempre ruidosos e cheios de convicções. Nunca lhes ocorrerá, é claro, que a dúvida tem um papel salutar. Nietzsche, não por acaso, escolheu o jumento como metáfora para o portador de convicções…

Obviamente, os patetas não se contentam em tumultuar reuniões familiares ou sociais; querem “influir nos destinos da nação”. Em 2016, leitor, quem é que marchava atrás de pato na Avenida Paulista, na Avenida Atlântica e em tantas outras avenidas Brasil afora? O idiota, ora, o idiota na sua mais límpida e cristalina manifestação. E ali começou a nossa desgraça atual.

Mas o fenômeno está longe de ser apenas nacional. Basta dar uma espiada nos Estados Unidos, por exemplo. É uma grande nação. Já teve um Abraham Lincoln como Presidente da República. Lincoln, além de grande líder político, era um artista da palavra. Escrevia ele mesmo, com grande cuidado, os seus discursos e pronunciamentos. Alguns deles são verdadeiras obras de arte. 

Bem. Esse mesmo país elegeu George W. Bush para a presidência (duas vezes!) e agora Donald Trump. Bush tinha, pelo menos, certo senso de humor. Trump, nem isso. Mas, enfim, quem sou eu para menosprezar o presidente dos EUA? Trump tem, sem dúvida, pontos fortes e qualidades apreciáveis. Mas aí é que está: consegue disfarçá-los de maneira magistral. Pode parecer estranho, mas não há mistério nem paradoxo. Num mundo dominado inapelavelmente pelos idiotas, um homem de talento como Trump tem que se comportar como se idiota fosse.

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, trilha exatamente o mesmo caminho. Comporta-se, às vezes, como perfeito idiota. Mas é tudo manobra, tudo disfarce. Na campanha, Fernando Haddad deu um show de inteligência e cultura. Chegou a lançar expressões em latim na cara do eleitor. Um grande erro, evidentemente.

Bolsonaro, assim como Trump, mostra traços de verdadeira genialidade no modo como simula idiotice. A escolha de alguns ministros causou sensação. Um exemplo: o embaixador Ernesto Araújo, futuro ministro das Relações Exteriores. Pelos seus escritos, percebe-se que é um diplomata de vasta cultura. Mas, para subir na vida, é obrigado a fazer concessões medonhas.

Em texto recente, citado na imprensa, Araújo sugeriu que o Brasil questione os Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A sua ideia é que se tente, no lugar, constituir “um agrupamento nacionalista Brasil – EUA – Itália – (Rússia?) – (Índia?) – (Japão?) – (países de Visegrado?)”, em suma “um Bricsantiglobalista sem a China”. O futuro chanceler sugere ainda que o governo explore “a possibilidade de um núcleo composto pelos três maiores países cristãos, Brasil-EUA-Rússia”.

Insuperável.

Falando da Vida: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.
Nelson Rodrigues

O futuro do Brasil no quintal de uma casa

Crianças

Por Ronaldo Souza

Não costumo me indignar com pessoas com pensamento binário. Tenho, isso sim, pena delas

O que dizer então de Bolsonaro e o seu não pensar?

Como ficar indignado diante de duas ou três frases suas, quando ele consegue formular e dizer?

Não se pode exigir nada dele.

É claro que incomodam as suas baixarias.

O Brasil se tornou uma extensão da casa da família Bolsonaro.

Tudo agora é baixaria.

Entram em nossas casas todos os dias com as maiores e mais diversas baixarias, em flagrante desrespeito às famílias brasileiras e aos seus filhos.

Quando existiu isso?

Nunca.

Jamais, em nenhum tempo, um governo no Brasil exibiu tão absurda falta de civilidade. Incluam-se aí os anos de chumbo da ditadura militar, que ele tanto exalta.

Falta de civilidade identificada por todos, porque eles próprios perceberam a necessidade de propagar para alimentar a matilha.

Bolsonaro, Josias e a doença

Veja o que diz Josias de Souza no seu blog.

“Não foi ninguém da oposição. Foi o vereador Carlos Bolsonaro, chamado pelo pai-presidente de “meu pitbull”, quem difundiu nas redes sociais vídeo com uma coletânea de baixarias pronunciadas por Jair Bolsonaro. Em meio a palavrões, o novo presidente da República ensina na peça que ‘assaltante precisa é de pancada’, revela o seu  desejo de que ‘matassem 200 mil vagabundos’ e exibe para a câmera uma camiseta onde se lê: ‘Direitos humanos: esterco da bandidagem.’

Veja o vídeo que o pitbull de Bolsonaro está divulgando.

Por uma obsessão facilmente explicada, eles vivem e se alimentam de Lula e do PT. Observe como o título do vídeo é “A esquerdalha chora! Vamos pra cima!”

O que mais eles têm pra dizer além de “frases” tão sábias?

Nada.

Não fica mais fácil entender melhor os também sábios comentários dos seus eleitores? “Idiota; você é um idiota; você também é corrupto; quanta bobagem; putz… muita”.

Assim eles se retroalimentam e preservam a espécie.

O que resta à esquerdalha?

Chorar.

Claro!

Como não chorar diante diante da degradação do ser humano?

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
John Donne

A degradação do homem pode ser vista como a morte no poema de John Donne (poeta inglês do século XVII).

“A morte (degradação) de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano.

Os sinos dobram para todos.

Mesmo para os que se degradam.

Ainda que se tornem irremediavelmente degradados.

Engana-se redondamente quem imagina que os eleitores de Bolsonaro refutam suas grosserias.

Muito pelo contrário.

Aplaudem.

A exaltação do macho pelo macho é, além de identificação entre eles, um reflexo da necessidade de autoafirmação.

As carências são conhecidas.

Eles precisam se encontrar.

Para piorar mais ainda e deixar sob nuvens escuras as perspectivas do futuro que já é presente, Josias de Souza termina o seu texto com uma profecia de mau agouro, um tipo de terrorismo enviesado:

“Dentro de poucas horas, o autor dos comentários vestirá a faixa de presidente da República”.

Não, não somos iguais

Tempos difíceis, muito difíceis, virão. Isso está claro como a mais límpida e pura das águas.

No entanto, não importa quão difícil pode ser, temos que continuar lutando contra o primitivismo que toma conta do país.

A oposição covarde que fizeram a Dilma Rousseff foi apenas uma das formas de manifestação desse primitivismo, onde, entre outras coisas, o macho se impõe.

Sob o manto da ignorância que já tomava conta de boa parte da sociedade brasileira, à base de ofensas, xingamentos, difamação, inauguraram um novo tempo, cujo ápice foi a enorme traição ao país com um golpe que já se mostrou como farsa.

Mas a nossa luta não é e jamais será igual à deles.

A nossa dor não é por uma eleição perdida.

No mundo das enormes limitações intelectuais em que vivem, que nunca foram tão evidentes como agora, pensam que choramos a eleição perdida.

Ainda que eles jamais consigam perceber e muito menos sentir algo igual, o que nos dói e muito é ver no que transformaram o país.

Mas nem mesmo essa dor, que dói como nenhuma outra, nos fará agir como animais irracionais.

Em nós, ela chega e se transforma e nos faz reagir com o lirismo dos poetas e artistas desse grande país.

Não somos ofensa, xingamento.

Não somos violência.

Somos música.

Somos poesia.

Somos Fernando Pessoa, Neruda, Chico Buarque…

Somos amor.

Lutem, lutem, lutem.

Jamais parem de lutar.

Mas como sempre fizemos.

Com a leveza que a nossa inteligência e sensibilidade sempre nos ensinaram e permitiram fazer.

Apesar dos tempos que virão, cabe-nos continuar lutando pela preservação dos nossos ideais com toda a força que tivermos, mas com amor e delicadeza.

Cabe-nos continuar amando, na eterna busca do encontro de todos.

Ninguém solta a mão de ninguém