“Ele é cínico demais”, diz juiz sobre Moro

BolsoMoro

Por Cláudia Motta, no Rede Brasil Atual

Para o juiz aposentado Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira, não foi surpresa a denúncia surgida de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em torno da família Bolsonaro. O órgão, subordinado ao Ministério da Fazenda, apontou movimentação financeira suspeita de um ex-assessor do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL/RJ), o policial militar Fabrício José Carlos Queiroz. “A família Bolsonaro foi toda construída dentro da estrutura do Estado”, afirma.

“Toda aquela retórica de anticorrupção nunca existiu. Imagine um parlamentar com 30 anos de legislatura no estado do Rio de Janeiro e todos esses episódios lá e nada disso ele tinha conhecimento? Claro que tinha. Agora está provado e não só sabia como dele se utilizou”, ressalta.

Segundo Oliveira, da forma como está construído o sistema político, todos os partidos utilizaram um caminho que não é formalmente correto. “Ele seria diferente de quê, esse homem puro veio de onde, do Rio de Janeiro? Família Bolsonaro pura, do Rio de Janeiro? Como é possível? Seria um aborto da natureza”, ironiza.

Sobre o R$ 1,2 milhão movimentado pelo assessor e os valores transferidos para a conta de Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama, o ex-juiz acredita que a família não vai ter como justificar. “Um ex-soldado PM, com remuneração de 8 mil contos, como é que vai movimentar isso. Eu, como juiz de direito, passo anos pra ter essa quantia na minha conta”, compara. “As justificativas apresentadas até agora são fraquíssimas, acho até que vão optar em ficar em silêncio porque não vão ter como corrigir o que está lá. Não tem como.”

As consequências da denúncia para o presidente eleito, Jair Bolsonaro, são muito graves, na opinião de Oliveira. “Vai tomar posse já enfraquecido e, se precisar do Congresso para a governabilidade, vai ficar mais caro ainda o apoio, não só para implementar as ideias macabras dele, como para se manter no poder. Qualquer movimento que implique numa fragilidade de apoiamento político, pode levar a uma cassação.”

Para o advogado, Bolsonaro vai tomar posse precisando mais do que nunca do Congresso. E acha, ainda, que o ex-capitão perde força para escolha dos presidentes (da Câmara dos Deputados e do Senado). “Estavam batendo forte na pessoa do senador Renan Calheiros, por exemplo, na disputa à presidência do Senado. Flavio Bolsonaro, que vai tomar posse como senador, que tinha no seu gabinete esse PM lotado e nomeado por ele, dizia que Renan não seria nunca (o presidente do Senado) porque afinal de contas era um homem cheios de processos, com corrupção. E agora, Flavio?”

Nada disso, no entanto, é um acaso, na opinião de Marcelo Tadeu. “Aparecer isso agora é uma resposta, um aviso que está sendo dado à família Bolsonaro. Ou ele se alinha e se ajusta ou dança”, avalia. “Essa é a opinião de quem foi magistrado por 25 anos e já foi candidato a deputado federal, no microssistema político de Alagoas. Bolsonaro entra com a corda no pescoço e o Congresso pode puxar a qualquer momento.”

Moral inabalável?

Agora advogando em Maceió (AL), Recife (PE) e Brasília (DF), Oliveira diz ter “certeza” de que é muito constrangedor para Sergio Moro fazer parte de um governo como esse. “Para quem alardeou para o povo brasileiro que se tratava de um juiz de uma atuação do ponto de vista moral e ético inabalável, está provado que não é”, afirma.

Ele ressalta que o ex-juiz da Lava Jato, e futuro Ministro da Justiça e Segurança de Bolsonaro, decidiu servir a um governo “com problemas mais graves ainda do que aquele que ele tanto perseguiu, que foi o Lula”. E compara: “No caso de Lula é ‘parece’, ‘seria’, ‘teria’”, diz, em relação às acusações que levaram o ex-presidente à condenação. “Com Bolsonaro não é ‘teria’, mas ‘tem’, não é ‘faria’, é ‘fez’, não é ‘se corromperia’, mas ‘se corrompeu’”.

Para o juiz aposentado, Moro deveria ter vergonha e pedir exoneração se quisesse manter a história dele. “Ou a falsa história ou o verniz de verdade. Porque agora ele vai se desmoralizar por completo. Esse juiz Sergio Moro nunca me enganou.”

Nesta segunda-feira (10), após quatro dias das denúncias originadas no relatório do Coaf – que inclusive ficará subordinado à sua pasta, Moro afirmou que os fatos precisam ser “esclarecidos” e que seria “inapropriado”, como futuro ministro da Justiça, comentar.

“Ele (Moro) só comentava casos do Lula. Minha visão é de que se trata de um magistrado, ou ex-magistrado, que tem o cinismo como ponto de apresentação em sua personalidade. Ele é cínico demais!”, afirma Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira.

Moro teria dito ainda a uma emissora de rádio: “Sobre o relatório do Coaf sobre movimentação financeira atípica do sr. Queiroz, o sr. presidente eleito já esclareceu a parte que lhe cabe no episódio. O restante dos fatos deve ser esclarecido pelas demais pessoas envolvidas, especialmente o ex-assessor, ou por apuração”.

Quebrando a minha resistência

A imagem confunde

Por Ronaldo Souza

Durante todos esses anos evitei trazer determinados artigos para o “feicibuqui”.

A convicção de que os eleitores de Aécio Bolsonaro não conseguiriam entender sempre me fez ver que não valia a pena traze-los. De modo geral eles apresentam grande dificuldade para ler qualquer coisa que tenha mais do que cinco linhas.

Observo há algum tempo, por exemplo, que quando ponho textos mais simples e diretos eles ficam mais excitados e aí fazem aqueles belos comentários – idiota; você é um idiota; você também é corrupto; quanta bobagem – e outras coisas assim que exigem grande esforço mental.

Contra argumentação que é bom, nem pensar! Não se pode exigir tanto.

Um já chegou a perguntar quanto eu estava recebendo para escrever e outro disse que não aguentava mais ler meus textos.

Sensacional, não é mesmo?

Cheguei a me imaginar como alguém que escreve tão bem que as pessoas, mesmo odiando, não conseguem ficar sem ler.

Mas eu os entendo.

Exercícios diários de extremo esforço para entender melhor o mundo no qual vivem me fizeram compreende-los melhor. Pelo menos a cada noite durmo com essa convicção.

Não nego, eu próprio melhorei e me tornei mais tolerante com eles.

Sempre resisti em postar textos mais elaborados, mais sutis, entre eles, os de Janio de Freitas, da Folha de São Paulo.

Janio, um dos jornalistas mais importantes do Brasil, é dono de um texto mais elaborado e normalmente sutil, razão pela qual são grandes os riscos de que não seja entendido pelos sem noção.

Se muito, devo ter postado uns dois textos dele.

Dessa vez, não.

Acredito que, buscando ser compreendido pelos eleitores de Aécio Bolsonaro, Janio foi, como sempre, elegante (não tem quem faça ele baixar o nível), mas, sobretudo, simples e direto.

Temo ainda pela compreensão de muitos, mas aí, paciência. Para esses, o jeito mesmo é continuar lendo Augusto Nunes, Merval Pereira, Joice Hasselmann…

Vamos ao texto, mas depois dele volto para falar com você.

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Bolsonaro e a Folha

Jair Bolsonaro não se conforma em ver na Folha textos que não lhe convêm. Tamanha é a sua consideração pelo jornal que reage com insultos, trata mal gente da casa, adverte que prejudicará a empresa, quando dos seus desagrados. Vê-se que é uma distinção exclusiva, e dessas que não se tem como agradecer nem corresponder. Mas é ainda mais rica a sua reação à importante e bem realizada reportagem de Thais Bilenky, baseada na observação de que, “pela primeira vez na história da República”, um presidente se empossará “sem nenhum representante” do Nordeste e do Norte “no primeiro escalão” do novo governo.

Primeiro, o Bolsonaro convencional: “A Folha de S.Paulo continua a fazer um jornalismo sujo e baixo nível”. E assim segue, esperando convencer de que fez “escolhas técnicas”. O que, mesmo se verdadeiro, não impediria a escolha de técnicos capazes e representativos das regiões que compõem cerca de metade do país.

Desta vez apareceu o segundo Bolsonaro, já sacando uma pretensa resposta técnica do seu governo: “Ainda em janeiro” o governo vai “construir instalação piloto para retirar água salobra do poço, dessalinizar, armazenar e distribuir” no Nordeste. Tudo a jato, porque será no mesmo janeiro a ida do ministro da Ciência e Tecnologia a Israel, ainda para procurar parcerias e a tecnologia necessária.

Está claro que Bolsonaro ignora o indispensável sobre a sua solução técnica. O interesse pela dessalinização vem de longe também no Brasil. A tecnologia não é problema. Suas modalidades são conhecidas aqui, já foram testadas, técnicos para aplicá-las não faltariam. Caso alguma dessas modalidades se mostrasse suportável financeiramente. Nem são as instalações, que custam uma só vez. O custo operacional é muito alto e permanente, em descompasso com as condições socioeconômicas da região.

Outras soluções para as dificuldades prementes dos nordestinos são consideradas preferíveis. Prova disso, e sem excluir a continuidade dos estudos de dessalinização, é o feito da ministra Thereza Campello no governo Dilma, já citado aqui mais de uma vez: em torno de um milhão —sim, um milhão— de cisternas familiares instaladas, eficiência rara em qualquer setor brasileiro em qualquer tempo. E, de pasmar, sem nem sequer um arremedo de escândalo.

Israel vale-se da dessalinização, sim. Mas conta com um suporte financeiro sem igual no mundo. Tem a contribuição segura, regular e fartamente generosa de judeus em numerosos países, além da colaboração múltipla dos Estados Unidos, por sua aliança. O Brasil, sem enganações convenientes aos da riqueza especulativa e não produtiva, está destroçado, desacreditado e sem dinheiro até para alimentar os sinais de vida.

Bolsonaro diz, por escrito, que os repórteres da Folha “vão quebrar a cara!” Se ele não quebrar a sua e o Brasil, com seus propósitos desatinados, não faz mal.

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De volta.

“…pela primeira vez na história da República”, um presidente se empossará “sem nenhum representante” do Nordeste e do Norte “no primeiro escalão” do novo governo.

A respeito dessa questão, só há o que lamentar pelo lamentável posicionamento de alguns nordestinos nos últimos tempos. Falarei sobre isso um dia, espero que em breve.

Sobre a questão da dessalinização, observe que Bolsonaro fará o país gastar milhões de dólares pelo projeto de Israel (interesse dos Estados Unidos), algo em que o Brasil já investe com sucesso desde 2004 em vários estados do Nordeste, Norte e em Minas Gerais.

Do jeito que as coisas andam, é possível que alguma mente débil queira comparar os dois modus operandi (de Brasil e Israel) para conseguir a dessalinização, desejando atribuir vantagens ao de Israel.

Tratar-se-á (como diria Michel Temer) tão somente de comparação vazia de algum cérebro disfuncional.

Nada mais.

Pelo menos em parte, Janio de Freitas derruba essa comparação tola argumentando com o alto custo de manutenção do projeto de Israel.

Especialistas usam o mesmo argumento.

Aliado de primeira linha dos Estados Unidos, uma das razões pelas quais o presidente eleito demonstra tanto empenho pelo projeto, dinheiro não é problema para Israel.

E as empresas israelenses vão faturar bonito.

Além da grande ignorância do governo eleito, que desconhece o país e o povo que vai governar, e de outros interesses, existem outros aspectos.

Criado pelo Ministério do Meio Ambiente na gestão do ex-presidente Lula, até pouco tempo o Programa Água Doce já tinha instalado 575 dessalinizadores em diversos estados nordestinos.

Veja o que diz o Rede Brasil Atual:

“A tecnologia, que o novo presidente acredita ser ‘inédita’, existe no Brasil há pelo menos 14 anos. É o Programa Água Doce (PAD), concebido em 2003 e lançado em 2004, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em parceria com instituições federais, estaduais, municipais e da sociedade civil”.

Há mais.

Bolsonaro e desassinilização'

Projetos como esse podem ser incorporados, mas aí entra em cena o enorme desconforto do governo eleito pelo fato de um prêmio internacional dessa importância ter sido ganho por Nadia Ayad, brasileira, negra, que faz parte de um projeto vitorioso, “Ciência sem Fronteiras”, criado no Governo Dilma.

Surpreende a atitude do governo que tomará posse daqui a três dias dizendo que vai acabar com as obras atreladas à ideologia?

Nem um pouco.

Como alguém ainda pode se surpreender com o Brasil?

Surpreende surpreender-se com as surpreendentes surpresas desse surpreendente país.

Isso sim.

Entretanto, engana-se quem pensa que responsabilizo Bolsonaro.

Como culpá-lo se ele nada sabe?

Na verdade, tenho muita pena dele.

Sabendo-se incapacitado, ele se submete (o que mais lhe cabe fazer?) a cumprir a agenda de outros.

A agenda de quem o pôs lá.

Que saudade, hein Jair!

Bolsonaro preocupado

Por Arthur Andrade, no Polêmica Paraíba

Daquele tempo em que vc xingava sem reservas, ameaçava mulheres, defendia torturas, atacava negros, gays, indios… e nada acontecia.

Tá bom… acontecia sim, uma frágil indignação da plateia que vc amava indignar.

Saudade do tempo em que vc era o escroto folclórico, o insano inconsequente, o raivoso brincalhão e o mito para os iguais.  Vc era o mito!!

Saudade do tempo em que vc pedia impeachment aos berros e com isso se sentia dono do mundo, o inatingível, o guerreiro sedento por guerra. 

Do tempo em que era o discípulo homenageando o herói torturador e assim ganhava, no máximo, matérias assustadas. E vc amava assustar.

Saudade do tempo em que vc, do baixo clero, podia ser o ladrão invisível, o corrupto disfarçado, a reserva imoral, a mentira deslavada. E nada acontecia. Ah quanta saudade, hein Jair!!

Saudade do tempo em que podia roubar sem ninguém ver, empregar fantasmas ao bel prazer e distribuir dinheiro público com a família sem ninguém perceber. Vc era a insignificância produtiva.

Saudade do início do estrelato. Saudade dos gestos de armas. Saudade de ser carregado. Saudade de provocar petistas, ciristas, comunistas, socialistas e até capitalistas. Sim, vc já foi nacionalista, embora não conseguisse cantar o Hino Nacional. 

Saudade, saudade de honrar a bandeira americana e receber tapinhas de “meu querido escravo”. 

E faz tão pouco tempo, não é? 

Agora vc olha pro lado e vê uma traíra. Olha pra trás e vê uma arma engatilhada. Olha pra frente e vê o precipício. 

Agora vc está diplomado presidente do maior país da América Latina. Um gigante que enxerga vc como a formiga miuda e vc olha pro gigante como uma célula intestinal. 

Agora vc nem tem mais família. A família Bolsonaro virou sinônimo de falcatrua. Então, Jair, isola a família. 

Sua família oficial vai vigiar seus passos com chicotes de 4 ou 5 estrelas. Sua família oficial vai massacrar seus dias e noites com tarefas oficiais que vc odeia, odeia, odeia. 

Trabalhar, Jair, nunca foi seu forte.

Agora vc vê os filhos fugirem das redes com medo do povo. Agora vc tem medo até do seu povo. E medo de abrir a boca, quem diria, vc que era um boquirroto incansável. 

Seu silêncio durante o Hino Nacional foi esse medo da boca, não foi Jair? Abrir a boca é um perigo, disseram a vc. E vc tem saudade até disso, bons tempos da boca aberta sem medo da lingua. 

E comer porcarias? Nunca mais, Jair. Beber água, tomar suco de caixa, uma pinga, nunca mais. 

Porque seu medo chegou à comida. E comida é boca! 

Vc precisa de provadores. Vc precisa de seguranças, 12 mil. Vc precisa de vigilantes, vc precisa de sono. Vc precisa sumir. Dá vontade de sumir, não dá Jair?

E pensar que tudo o que vc queria era brincar de super-herói. 

À procura de um povo, à procura de um tempo

Povo brasileiro

Por Ronaldo Souza

Lembro que havia algo no ar, irreconhecível, sem cheiro, sem cor, impalpável.

Naquela praça, sentados nas cadeiras que tinham trazido de suas próprias casas, todos sentiam aquela coisa que não se reconhecia, não tinha cheiro, nem cor e não se podia tocar porque não se via.

Sentiam.

E sentiam lá dentro, bem no fundo, no âmago, nas profundezas da alma, onde reina o amor.

Respiravam e sentiam o frescor das manhãs que costumam trazer consigo o alento para a vida.

Estavam todos na praça da Igreja, sentados do lado de fora. Lá dentro não caberia tanta gente.

Estavam todos na frente da Catedral.

Com sentimentos tão nobres e puros que víamos subir para se encontrar com as estrelas, que em nenhum outro lugar do mundo resplandecem como nas noites do Natal de Juazeiro.

Correndo e brincando pelos espaços entre as cadeiras, veias daquele organismo, estávamos nós, as crianças.

Correr e brincar ajudava a esquecer um pouco a hora esperada, a hora em que pela chaminé (que não existia) da minha casa, entraria Papai Noel e deixaria o tão sonhado e esperado presente.

Ah, como seria bom se pudesse ter outra vez um pouco daquelas noites.

Abraçaria a todos, inclusive aqueles que mesmo sob o manto divino do espírito que reina nesses dias condenam o indulto de Natal, mas o fazem pensando particularmente na possibilidade de alguém ser libertado, ainda que seja somente durante as festas.

Abraçaria a todos, inclusive aqueles que mesmo no Natal levantam suas taças e fazem brindes orgásticos pela manutenção de um homem na cadeia.

O meu esforço, em vão, me deixou cansado.

Não consigo abraçar essas pessoas.

Hoje desejei ser criança outra vez.

Só a criança, no seu mundo impenetrável e cheio de magia, conseguiria isso.

Só ela, por não ver, na sua inocência, no que nos transformamos.

Onde estão aquelas cadeiras?

Onde estão aquelas mulheres e homens?

Onde estão aqueles sentimentos tão nobres e puros que víamos subir para se encontrar…

Para onde estamos indo?

Feliz Natal!

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Assis Valente

De volta para o futuro

Futuro e passado

Por Ronaldo Souza

Em 1958 o Brasil ganhava a sua primeira Copa do Mundo.

Fui às ruas de Juazeiro (BA) com meu pai e a cidade, claro, era só festa.

Ao ver vários homens vestidos com a roupa da Seleção Brasileira, perguntei:

– Pai, são os jogadores da seleção?

Uma conquista que acabara de acontecer na Suécia permitiu mais uma viagem que somente a criança é capaz de fazer; os jogadores que ganharam a Copa do Mundo tinham “escolhido” as ruas de Juazeiro para comemorar o feito inédito.

A alegria daquela criança se irradiava pelo mundo.

Em 1962, dessa vez no Chile, o Brasil ganhava pela segunda vez a Copa do Mundo, mais uma grande conquista.

Novamente aquela criança vibrava, como vibrara e chorara com as vitórias e derrotas do seu time do coração, o Fluminense, do Rio de Janeiro.

No Rio, a alguns mil quilômetros de distância de Juazeiro, “morava” o seu time do coração e por ele já aprendera a rir e a chorar.

Para aquela criança do interior da Bahia, passara inteiramente despercebida uma grande conquista conseguida no seu próprio estado.

Em 1959, entre as duas Copas do Mundo ganhas pelo Brasil, o Bahia conseguira conquistar a 1ª Taça Brasil, a primeira competição nacional de futebol do Brasil.

O título foi decidido em uma série de três partidas com o famoso, inesquecível e poderoso Santos de Pelé e Coutinho, considerado por muitos o melhor time de futebol de todos os tempos.

O Bahia ganhou a primeira na Vila Belmiro (Santos) e o Santos ganhou a segunda na Fonte Nova (Salvador). Houve então necessidade de uma terceira partida, que tinha que ser em campo neutro.

Foi no Maracanã.

O Bahia venceu.

Teve assim a honra de ser o primeiro time brasileiro a representar o Brasil na Copa Libertadores da América.

Como tantas outras, aquela criança não tomou conhecimento da grande conquista do Bahia.

Como tantas outras, aquela criança literalmente desconhecia o futebol de sua terra.

Mas não eram somente as crianças.

Também os adultos, afinal, foi do seu pai, referência maior de sua vida, que ela herdou o amor pelo Fluminense.

Um amor, uma paixão, que nascera graças à imprensa do Rio de Janeiro, à época a mais poderosa do Brasil em se tratando de futebol.

Sem que o soubesse, já estava incorporado no seu ser o poder da imprensa e do que ela é capaz; de mexer com sentimentos fortes no coração das pessoas.

Somente a partir de 1963, quando a família se mudou para a capital, Salvador, o Bahia começou a dar os primeiros passos na direção do seu coração.

E, como um predestinado, dessa vez não foi a imprensa quem orientou os primeiros passos da viagem do Bahia para a conquista de mais um coração; “mais um, mais um Bahia…”, como canta o seu hino.

Foi o seu irmão caçula.

Foi ele que fez surgir no coração do irmão e do ainda jovem pai o amor pelo Bahia.

Surgiu assim a paixão pelo Bahia naquele menino de Juazeiro e do seu pai; levada pelo filho e irmão mais novo.

Sem contaminação.

Da forma mais pura; o filho mais novo apresentou o Bahia ao pai.

Talvez isso explique a paixão de meu pai pelo Bahia.

Como no campeonato de 1959, que foi decidido em 1960, o Bahia conquistou o título do campeonato brasileiro de 1988, decidido também no ano seguinte; 1989.

Tornara-se bi-campeão brasileiro.

E aquele era o momento para o grande salto.

O Bahia já era membro do famoso Clube dos 13, como único time do Brasil além dos tradicionais grandes do Rio, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

No momento de mudança de patamar, os dirigentes pensaram pequeno.

Continuaram voltados para o campeonato baiano e quando muito para o Nordeste, visão que tornou pequeno o  horizonte do clube.

Além disso, a vaidade de alguns deles.

Mas, o pior ainda estava por vir.

Sob o comando de dirigentes inescrupulosos, cujos interesses se puseram acima dos interesses do clube, o time mais popular, mais vencedor e de maior tradição do Norte e Nordeste do país viveu uma longa noite de escuridão e trevas.

E foi a sua torcida, a Torcida de Ouro, que desceu às profundezas em que o tinham jogado para resgata-lo.

Foram vários momentos de luta, uma luta incansável para resgatar o Bahia, na campanha “Devolva meu Bahia”.

Em um desses momentos, cinquenta mil torcedores foram às ruas de Salvador.

Devolva meu Bahia

Veja o que disse Juca Kfouri no seu blog.

“Resta dizer que jamais, repita-se, jamais uma torcida fez manifestação semelhante no Brasil”.

Ninguém parece resistir a ela.

Com essa força, como poderia alguém resistir?

Democracia tricolor

Todo esse movimento resultou no afastamento do presidente do Bahia e de sua diretoria.

Eleiçoes diretas no Bahia

O Sol então entrou por todas as portas e janelas.

Após inédita eleição com votos dos torcedores, Fernando Schmidt foi eleito para um mandato “tampão” de um ano e três meses, como fora estabelecido, até que houvesse novas eleições no clube.

“Vamos iniciar uma nova era, de transparência e democracia, no Bahia”, disse o novo presidente.

Após essa grande vitória da torcida tricolor, surgia um novo momento na vida do clube.

Em setembro de 2013 instalava-se a democracia no Bahia.

O momento era propício.

Respirava-se Democracia no país.

Em 13 de dezembro de 2014, exatamente 1 ano e 3 meses depois da eleição de Fernando Schmidt, Marcelo Sant’Ana foi eleito o novo presidente, agora sim pelo período de 3 anos.

Como em qualquer gestão, acertos e erros marcaram o tempo de Marcelo à frente do Bahia.

Sem dúvidas, porém, mais acertos que erros e, o mais importante, o clube dava sinais de que, de fato, tomava outro rumo; a moralização era evidente.

Jogadores e comissões técnicas já não deixavam o clube com queixas e processos na Justiça, algo corriqueiro nas gestões anteriores.

Começou a ficar comum ouvir-se algo que a mim, confesso, começou a “incomodar” um pouco.

Técnicos e jogadores que vinham para o Bahia diziam que estavam assinando com o clube pelas condições oferecidas, mas principalmente por causa do seu “projeto”.

Mesmo entendendo que há um jogo de palavras nesses momentos, aquele “projeto” me soava estranho e, também não nego, fiz pouco caso dele.

As experiências anteriores tinham me tornado um incrédulo.

Mas era sim verdade, e o grande mérito e legado da administração Marcelo Sant’Ana.

É possível que muitos não tenham atentado para isso e por esta razão não consigam dimensionar de fato a importância de sua gestão.

Aqueles que vinham trabalhar no Bahia, quando saíam já não o faziam com queixas e processos, mas sim com elogios, pelo respeito com que foram tratados. Incluam-se aí os salários pagos em dia, algo que deveria ser comum, mas não era no nosso futebol, particularmente no mesmo Bahia agora merecedor de elogios.

Não tenho nenhuma dúvida de que hoje a torcida tricolor reconhece esse grande legado de Marcelo Sant’Ana.

Mas foi na passagem de Marcelo Sant’Ana para Guilherme Bellintani, novo presidente do clube, eleito em dezembro de 2017, que o projeto do Bahia se fez evidente.

Pela primeira vez, vejo com clareza que há sim algo que nunca existiu; um projeto para o Bahia, um projeto de verdade.

E foi graças a esse projeto que tivemos agora em 2018 o melhor elenco pelo menos desses últimos 10 ou 15 anos.

Um elenco perfeito?

Não, até porque isso não existe.

Um elenco que não rendeu aquilo que podia render. Para usar uma expressão do momento, um time que não deu liga como poderia dar (coisas do futebol), mas que passou o ano sendo elogiado por toda a imprensa nacional e técnicos de futebol pelo futebol apresentado.

https://www.youtube.com/watch?v=DPkOgsIpTbE

E, ainda que estivessem indo para grandes times e com salários melhores, o ano se encerrou com jogadores deixando o time chorando, numa prova evidente do bom momento do clube.

Se falei particularmente de Marcelo Sant’Ana e Guilherme Bellintani, como presidentes, que se sintam reconhecidas na sua importância as respectivas diretorias.

Um nome, porém, deve ser destacado; Diego Cerri.

Equilibrado, discreto e competente, Diego Cerri soube reconhecer a importância de se manter fiel a um projeto, do qual ele tem sido peça fundamental,

Num futebol em que diante da primeira oportunidade de ir para um grande time, ficam para trás o bom senso e o discernimento em nome da possibilidade de maior destaque nacional, Diego Cerri mostrou sua lucidez ao recusar convites de outros times e assim permanecer no Bahia.

Se ele tiver que sair do clube e quando o fizer, sairá mais reconhecido e, portanto, mais valorizado.

Poucos conseguem ter a sensibilidade para análises e tomada de posição como ele fez.

O torcedor, e eu sou um deles, quer saber de resultados em campo, que o seu time ganhe títulos.

Nesse sentido, parabéns aos presidentes e diretorias que trabalharam para que conquistas importantes tenham sido conseguidas e pelo que se fez para que o clube chegasse até aqui.

Como torcedor, bato palmas e agradeço.

Mas não posso deixar de reconhecer e registrar que hoje o que mais me deixa entusiasmado é que, finalmente, há sim um projeto que olha para o passado de glórias, nele se fortalece e caminha com passos planejados e firmes para o futuro.

O Bahia tem sim um projeto, um projeto voltado para o futuro.

Um futuro que resgata o passado de um time de glórias.

Um time que nasceu para vencer.

1959, o começo da glória

Por Ronaldo Souza

Não é a primeira vez que isso acontece.

De vez em quando me deparo com um texto que escrevi e nunca postei. Simplesmente deixei para faze-lo em outro momento e terminei esquecendo.

Depois é comum não publicar mais.

Claro que há a possibilidade de reler e, se ainda está atual, analisar se vale a pena publica-lo.

Mas confesso que não me lembro de ter feito isso.

Ao buscar um texto para citar no que estava escrevendo, achei este que está aí embaixo e aí percebi que ele não foi postado aqui no site endodontiaclinica.odo.br

Procuro lembrar se o postei no Facebook, mas no site não foi.

Li e achei legal.

Mesmo tendo sido escrito há mais de 3 anos (2015), achei que poderia traze-lo, até porque, por uma feliz coincidência, terminei-o com uma frase que é o tema de um artigo que acabei de escrever e que devo postar ainda neste final de semana.

Vamos lá.

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É o Bahia

1959, o começo da glória

Por Ronaldo Souza

– Pai, manda esse menino desligar o rádio que eu quero dormir.

Foi assim que, sem fazer a menor ideia do que já estava acontecendo, nasceu a minha paixão pelo Bahia.

Vindos de Juazeiro (BA) e morando em Salvador há pouco tempo, já vestíamos as cores tricolores.

Mas eram cores de lugares mais distantes, distantes dos olhos.

Mas o amor não precisa de olhos que não sejam os do amor.

Era o amor pelo tricolor das Laranjeiras, o tricolor do Rio de Janeiro; o Fluminense.

Como era comum acontecer, pelo maior alcance das rádios cariocas no interior do Nordeste torcia-se pelos times do Rio.

Como também é comum acontecer, esse amor foi passado de meu pai para o meu irmão mais velho e para mim, o do meio.

Foi o caçula, cuja infância já acontecia em Salvador, que se “rebelou” e nos fez conhecer outras cores.

Criança, não tinha como ver o time que já começava a fazer parte da sua vida. Só podia ouvir. E ainda encontrava o irmão chato do meio para “impedir” que assim o fizesse.

– Pai, manda esse menino desligar o rádio que eu quero dormir.

O que fazem os pais?

Incomodado com a situação, meu pai começou a levar o filho caçula à Fonte Nova.

Cumpria o papel de pai.

Mal sabia que iria além.

E foi, muito além.

Irmanados, pai e filho já não conseguiam ficar sem ir à Fonte Nova.

Já não conseguiam viver sem o Bahia.

O amor pelas cores tricolores que o pai já conhecia trocava o verde do Fluminense pelo azul do Bahia.

E algo muito mais forte do que pode parecer a simples troca de uma cor surgia na vida dele.

Quando não se consegue viver sem, deixa de ser só amor e se transforma no mais fantástico e perigoso dos sentimentos; a paixão.

Aquele mesmo pai que já sabia o que significavam amor e paixão juntos, porque os dedicava aos seus filhos, particularmente a aquele “pirralhinho”, sentia nascer, crescer e tomar conta dele uma nova forma de amor e paixão.

Surgia ali o amor e a paixão de meu pai pelo Bahia.

Tornou-se um apaixonado.

Quantas vezes viajou para acompanhar o time!

Acredito firmemente que ali, na arquibancada, vendo o Bahia jogar, completava-se o homem completo.

Amor e paixão por tudo que fez na vida.

Nesses últimos tristes anos em que quase acabaram com o time e que, ainda que pleno, a idade já limitava as suas idas ao futebol, já sabíamos.

Assim que terminava um jogo em que o Bahia ganhava, o celular tocava. Era ele com a sua inesquecível frase:

– Torcer, só pra time bom.

O irmão caçula, entre tantos méritos, teve também esse; fez surgir no pai uma enorme paixão, acompanhado pela minha mãe, que também passou a torcer pelo Bahia.

Dessa vez, o filho guiou o pai.

Que bom que meu irmão não desligou o rádio quando eu pedia.

Enquanto baixava o volume, sugestão do pai para satisfazer aos dois filhos, explodia dentro dele a paixão pelo Bahia.

O que fez o irmão do meio?

Pegou carona e passou a fazer parte do time.

Devo aos dois, irmão e pai, ambos de saudosíssima memória, o mesmo amor e paixão pelo maior time do Norte e Nordeste brasileiro:

O Bahia.

Hoje, 29 de março de 2015.

Há exatos 55 anos, em 29 de março de 1960, o Bahia ganhava o seu primeiro título nacional.

A Taça Brasil de 1959.

Ainda que num momento em que paga um altíssimo preço por administrações vergonhosas, às quais só resistiu pela sua força, o Bahia é isso:

O maior time do Norte e Nordeste.

E voltará a ser um dos maiores do futebol brasileiro.

O Natal chegou

Natal

Por Ronaldo Souza

Não faço minhas caminhadas pela manhã. Geralmente faço isso no final de tarde-começo da noite.

Como sempre, hoje acordei bem cedo, mas resolvi caminhar um pouco na praça bem na frente do prédio onde moro.

Não deixou de ser uma atividade física, mas não foi daquelas em que você acelera o ritmo, faz respiração, tempo determinado…

Não, nada disso.

Foi mais para deixar virem os pensamentos livres, conversar comigo mesmo.

Às 07:30 já estava no supermercado comprando algumas coisas.

E aí aconteceu.

Ao fundo, comecei a ouvir “White Christmas”, com Bing Crosby.

Conta a lenda que Crosby chegou a ganhar um concurso em que tinha como concorrente nada mais nada menos que Frank Sinatra, “Mr. Blue Eyes“.

Bing Crosby, também de olhos azuis, era a nata da música americana.

Um digno representante do “american way of life“.

Não saio muito, gosto de ficar na minha casa, entretanto, não há como e porque negar que essa época do ano me toca muito.

Iremos aos shoppings, faremos as nossas compras e faremos o nosso amigo oculto.

Oculto e reservado; somente eu, ela e as nossas filhas.

Algo que fazemos há anos, desde que a mais nova sugeriu.

O famoso “espírito do Natal” sempre chega na minha vida.

Há anos em que chega mais cedo, há outros em que o faz mais tarde, mas sempre chega.

Depende do meu estado de espírito.

No Natal tudo é mais alegre, mas também tudo que tem que doer dói mais.

Desde a minha infância conheço Bing Crosby, graças a essa música e ao filme, estrelado por ele.

E o que faz parte da nossa infância jamais será esquecido.

Bing Crosby era, certamente, o homem mais feliz do mundo.

E tudo que aquela criança de Juazeiro (BA) queria da vida era ser feliz.

Estava ali o meu espelho.

Somente muitos anos depois li que Bing Crosby, o cantor da voz privilegiada que vencera Frank Sinatra num concurso, o artista consagrado em todo o mundo, não era tão feliz.

Um documentário sobre ele, que assisti há alguns anos, mostrava a infelicidade daquele homem que era a felicidade personificada.

O mito da música americana não era mito para os filhos.

O pai que imaginávamos, pelo que víamos no cinema, não existia.

A ausência, que só os filhos conhecem, estava presente naquelas vidas ricas, famosas e… vazias.

Ah, a vida como ela é.

E que poucos vivem.

O ganhar mais, o querer ter mais, a posição, o status, os títulos…, quantas coisas nos afastam da vida real sem que sequer percebamos.

É essa irrealização que nos realiza nos dias atuais.

É ela que traz o vazio que aí está.

A incompatibilidade do momento que vivemos com qualquer coisa que nos remeta ao amor e à tolerância entre as pessoas certamente faria com que o espírito do Natal chegasse bem mais tarde esse ano ou, quem sabe, nem viesse.

Alheio a isso, Bing Crosby me anunciou a chegada do Natal.

O espírito do Natal, porém, insiste em não querer chegar.

Terei que recorrer à família, como sempre faço e onde sempre encontro abertos os portões que me levam de volta ao mundo em que parece ser mais possível um novo encontro com ela, a felicidade.

Sabendo-a agora mais fugaz e que, como eu, vive de momentos.

Como estar hoje no almoço de aniversário de meu irmão.

Momentos, mas de muita felicidade.

Quero falar de nós

Por Ronaldo Souza

No fundo, sabíamos que não tínhamos chances.

Como enfrentar os donos do dinheiro e do poder, daqui e de fora, tão vis e canalhas como se mostraram, que tinham a lhes proteger a imprensa, a parte mais poderosa do judiciário, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal?

Nunca houve campanha tão sórdida, tão covarde, tão indigna.

Quanto xingamento, quanta ofensa, quanta canalhice, quanta mentira.

E quanto dinheiro, num espetáculo escancarado de corrupção.

Sim, aquela que eles dizem combater.

Mas não quero falar deles.

Você viu como foi bonito?

Onde conseguimos arranjar tanta força?

Quando menos se esperava, lá estávamos nós.

Com o sorriso que só nós temos.

Nada parecia justificar aquele sorriso.

Mas, como um vulcão que irrompe incontrolável, uma força descomunal originada nas nossas entranhas corria pelas nossas veias, explodia nas nossas faces e se espalhava por todo o país.

E as nossas roupas alegres e coloridas de todas as cores?

Sim, não precisamos ostentar as cores da nossa bandeira porque estas estão eternamente fincadas nos nossos corações.

O nosso verde-amarelo não se exibe para em seguida reverenciar e prestar continência a outras bandeiras, com cores estranhas à nossa.

O nosso verde-amarelo não entrega as riquezas do nosso povo a outros povos.

O nosso verde-amarelo não espalha o preconceito, o horror, o ódio, a violência.

O nosso verde-amarelo não mata.

Estamos tristes, muito tristes.

Mas sabemos que o Sol voltará a nascer.

Um dia, não importa quando.

Esteja com o seu amigo, com a sua amiga.

Esteja com o seu companheiro, com a sua companheira.

Esteja com os seus filhos e com as suas filhas.

É neles que você vai encontrar aquela mesma força que contagiou o país e tornou tudo tão bonito, tão alegre, tão colorido, tão vivo.

É ao lado deles que você vai ver o Sol voltar a brilhar.

É sob esse Sol que iremos nos encontrar novamente.

Para sorrir.

Aquele sorriso que só nós temos.

Aquele sorriso que só nós sabemos sorrir.

Ninguém solta a mão de ninguém

No tempo da delicadeza

Rosa'

Por Ronaldo Souza

Quem já não sofreu uma dor insuportável?

Quem já não passou por um sofrimento interminável?

A dor e o sofrimento muitas vezes nos desestabilizam.

Mas fazem parte da vida.

Contudo, como só a vida é capaz de fazer, a dor e o sofrimento também são capazes de nos ensinar a amar.

E amar mais.

Um amor forte.

Um amor maior.

Um amor diferente.

Um amor que não mora no coração.

Mora em nós.

Vem da alma.

Nos toma o corpo.

Um amor que corre nas nossas veias e que, de tão grande e profundo, nos faz mais fortes.

A dor da dor e o sofrimento que nos faz sofrer são os nutrientes desse amor.

E nos tornamos lindos.

 

Como tem sido duro!

Como tem doído!

Como nos tem feito sofrer!

Apanhamos.

Fomos xingados e ofendidos.

Humilhados.

Mas observe como temos enfrentado.

Com ódio?

Com sentimentos de vingança, perseguição, violência…?

Não.

Com a palavra, que acalenta.

E com o gesto, que envolve e protege.

Em momento tão difícil, foi o amor que nos conduziu.

E lutamos.

Por princípios e ideais.

Pelo futuro dos nossos filhos e dos filhos deles.

Em momento tão difícil, lutamos pela esperança.

Que sempre reinará no coração de quem ama.

Em momento tão difícil, renascemos outra vez.

A beleza do renascimento jorrou de novo na nossa vida.

Choramos juntos, mas fizemos ver que a grandeza do homem e da mulher não está na mão que empunha uma arma, mas na palavra e no gesto de amor ao próximo, ao vizinho.

Foi esse sentimento maior, o amor, que brotou outra vez em nossos corações e nos fez chegar aqui.

Continuemos assim.

Amando.