Lula, a alma do Brasil. Parte 2

Lula

Por Ronaldo Souza

Muita coisa tinha mudado

O sistema ferroviário brasileiro, por exemplo, meio de transporte predominante em regiões altamente industrializadas, como a Europa, fora sucateado.

Assim como também tinha sido destruída qualquer possibilidade de que a indústria naval algum dia viesse a ter qualquer projeto de desenvolvimento.

Com todo o seu poderio, a indústria automobilística americana dominou o país.

E particularmente naquele trecho da estrada mais próximo de Juazeiro, a rodovia caminhava lado a lado com a velha e abandonada linha do trem, como que numa estranha harmonia, onde conviviam o símbolo do “progresso”, a rodovia, e a linha férrea, vencida, não pelo tempo, mas pelos homens.

Mas, fosse de trem, ônibus ou carro, estava ali o sinal mais evidente das mudanças pelas quais passava aquele povo.

O mar de antenas de televisão.

Aquele mar de antenas de televisão mostrava um novo Brasil.

Ali estava talvez a mais viva representação de “Bye Bye Brasil”, filme de Cacá Diegues (1979).

Trago dois breves comentários da crítica da época sobre o filme.

Adécio Moreira Jr: “…é possível ver ali uma importante reflexão de uma mudança social interessantíssima ocorrida no nosso país. A começar pelo título, estamos aqui não só numa fase de transição, mas também de abandono de fortes identidades para dar lugar a uma ‘americanização’ conceitual”.

Cassiano Terra Rodrigues: “Bye Bye Brasil é um filme de um país que está deixando de ser o que por muito tempo foi para se tornar não se sabe o quê”.

Da trilha sonora do filme, a música principal é “Bye Bye Brasil”, de Chico Buarque e Roberto Menescal, interpretada por Chico Buarque.

Como um cavalo muito veloz e ágil, saltou à minha frente uma preocupação; como estariam chegando naquele pequeno pedaço de Brasil as notícias do Brasil.

Como elas estariam chegando para aquele povo que, apesar do “progresso”, nunca teve direito a nada, muito menos às sutilezas e armadilhas da notícia.

De como são construídas e, principalmente, a que fim servem.

Imaginar aquilo me trouxe arrepios.

Que se fizeram acompanhar de grande perplexidade e na sequência serenidade.

Foi aí que passei a ver melhor aquele homem.

Nordestino, semianalfabeto, torneiro mecânico, língua presa, não sabe falar português, inglês nem pensar, que nunca tinha ido a Miami…

O “nine”.

“Nine”, como é respeitosamente chamado pelo nobre juiz Moro, vencera o império.

O império das comunicações no Brasil, ali tão bem representado pela profusão de antenas de TV nas cidades que passavam pela janela do meu carro, tinha sido vencido por um homem, um único homem.

Como teria sido possível aquele semianalfabeto derrotar o império das comunicações que de todas as maneiras imagináveis e inimagináveis, usando as armas mais infames da difamação na tentativa de destruí-lo e à sua família, tinha conseguido se eleger Presidente do Brasil?

Algo que iria se repetir em 2006, 2010 e 2014, nestes dois últimos anos através da presidenta Dilma Rousseff.

Até quando ele continuaria sendo eleito?

Ele não podia continuar impune.

Já incomodava demais aos donos do poder.

Como detê-lo?

Difamado, humilhado, perseguido, invadido na sua intimidado e na de sua família, acusado de corrupto, chefe de quadrilha, nenhuma prova foi encontrada.

Forjaram provas, que foram desmascaradas.

Forjaram outras, também desmascaradas.

Prazos contra ele foram acelerados ou retardados, a depender da necessidade do momento.

Interpretações das leis foram feitas não sob os ventos do Direito, mas ao sabor do roteiro traçado, muitas vezes em línguas estrangeiras.

Cláusulas pétreas da Constituição Brasileira foram alteradas.

Ela própria, a Constituição, foi rasgada.

Sobre aqueles que fizeram esse processo, aqueles que contribuíram para que ele ocorresse, aqueles que mudaram normas e leis para incrimina-lo, todas as corrupções foram encontradas.

Com provas.

“Com Supremo e tudo”, como disse o pensador Romero Jucá.

Foram vistos aos cochichos, às gargalhadas, em solenidades, encontros sociais, jantares, eventos patrocinados por empresas envolvidas em corrução, zombando acintosamente de tudo que acontecia à nossa volta nesse imenso Brazil.

Eles, com os milhões que atestam a sua corrupção, seguem impunes, livres, leves e soltos, apontando o dedo para alguém cuja vida foi virada de cabeça para baixo sem que nada fosse encontrado.

Esse homem está preso.

Vocês o prenderam e conseguiram a façanha maior; celebrar a sua prisão.

Como puderam se tornar tão pequenos?

Chego a pensar que na verdade vocês sempre foram pequenos e agora só se mostraram.

Mas não quero acreditar nisso.

Como posso imaginar termos convivido por tantos anos com pessoas assim?

Comandados por um juiz de mente doentia e objetivos que parecem fugir à compreensão mas não fogem, tribunais que meses antes do julgamento julgam e dão o veredito pela televisão e uma imprensa que dispensa comentários, vocês foram longe demais nesse processo de degradação.

Um juiz que mais uma vez age à margem da lei e determina fora do prazo legal a prisão de um ex-presidente do Brasil em um cubículo de 15 m2, sem uma única janela.

Sob aplausos e fogos de uma sociedade doente, isola-o do mundo numa solitária.

Aquele povo alegre dos carnavais, do futebol, o último povo feliz na face da Terra, como já foi definido, tornou-se cruel, odioso, vingativo, violento e covarde.

Condenaram um Super-Homem, um homem perfeito, sem defeitos, sem pecados, acima da lei, sem erros cometidos…?

Não.

Um simples mortal, um homem comum, mas que traz consigo a marca dos infelizes e miseráveis desse país.

Pertencer a uma raça inferior; o povo brasileiro.

Aquele que nasceu aqui, não por acidente geográfico, mas porque estava destinado a nascer aqui e sonhar os seus sonhos mestiços, não os de outros.

Que não conhece o branco da neve, mas o marrom da seca.

Pequenos, vocês continuam ignorando tudo.

Cínicos, continuam apontando para qualquer quantia em dinheiro que seja atribuída a Lula e sua família e ignoram os milhões de propina comprovada de políticos do PSDB.

Com o seu cinismo e a sua estupidez, não percebem que condenam Sérgio Moro.

Afinal, como pode um homem ser tão ladrão, tão chefe de quadrilha, ter roubado milhões e milhões e, devassada a sua vida, o chefe da Intelligentsia brasileira nada consegue descobrir?

Esqueçam, por exemplo, o mais recente escândalo de blindagem do PSDB, envolvendo a retirada de Alckmin e companheiros do esquema da Lava Jato e o encaminhamento do processo para a justiça de São Paulo.

Mas saibam que há poucos dias o judiciário brasileiro mandou destruir, vou repetir, mandou destruir as provas contra Fernando Henrique Cardoso num processo que corria contra ele por enviar ilegalmente dinheiro para fora do país.

E isso ocorreu quando ele era presidente do Brasil.

Não mandaram arquivar, mandaram destruir as provas.

Vocês são somente idiotas ou algo mais?

Como entender que empresários, banqueiros e industriais comemorem a prisão do homem em cujos governos as suas empresas, bancos e indústrias mais cresceram e eles mais ganharam dinheiro?

Como entender que profissionais liberais comemorem a prisão do homem em cujos governos viram o apogeu dos seus consultórios e escritórios e ganharam muito mais dinheiro?

Como entender que a classe média comemore a prisão do homem cujos governos lhe ofereceram melhores salários e mais garantias individuais?

Simples, bem simples.

Porque ele, com todos os seus erros e acertos, foi o único que lançou um olhar sobre os invisíveis e ousou servi-los com um pouco da mesma bandeja que serviu aos privilegiados.

Se eu fosse um homem religioso e soubesse que existe realmente um Deus, podem ter certeza de que eu rezaria por vocês.

Pediria a Deus para afastar de vocês aqueles que roubaram seus cérebros e envenenaram seus corações.

É bem possível que vocês, estrangeiros que chegaram ao Brasil e seus descendentes brasileiros e foram tão bem acolhidos por este país e seu povo, não entendam isso na devida dimensão.

Mais do que não entender, é possível que vocês, que se estabeleceram nas zonas tidas como mais ricas, como a região Sul do Brasil, também não sintam na pele e na mesma intensidade a dor desse momento.

É compreensível, mas seria muito interessante se lançassem um olhar mais carinhoso sobre o povo brasileiro e seus sentimentos, sobre o seu jeito de ser.

Que tal se dessem a esse povo um pouco do muito que receberam?

Mas, aquele que, como eu, é descendente do índio, do africano e do português, certamente sabe dos males que nos atormentam desde sempre, desde que esse país foi descoberto.

Ainda que a minha pele branca, o meu cabelo, os meus olhos verdes e a minha árvore genealógica possam apontar para a parte holandesa da minha ascendência, daqueles mesmos que aportaram no Brasil por Pernambuco, eu sou fruto de uma mistura de raças.

“Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro”.
Gilberto Freyre

Como talvez em nenhum outro país, a mistura de raças representa uma das características mais fortes do brasileiro, o que o torna único no mundo.

Esse povo sofre, mas não se faz vítima.

O meu eventual sucesso não pertence só a mim.

Não sou o que sou, se sou, por méritos exclusivamente pessoais, mas circunstanciais.

Tenho plena consciência de que tive oportunidades que outros não tiveram e, pior ainda, hoje sei, muitos não terão.

Amigos de infância que jamais entraram num trem para fazer por uma única vez que fosse a viagem dos afortunados para ver os doces do mundo se oferecerem a eles nas janelas do trem.

Tão pouco e tão muito.

E muita coisa ia mudar mais ainda

Lula, mito'

Os meus títulos têm grande significado na minha vida profissional e sei o quanto representaram e representam para a minha família, particularmente para meus pais.

Algo que carrego comigo como homenagem a eles.

Mas, diante da vida, como aprendi a vê-la ensinado por eles, pouco ou nada significam.

Para a vida, e aqui falo particularmente da vida brasileira, da vida Zeferina, o que representam os meus títulos diante da grandeza de Lula?

Foi ele quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria.

Não fui eu.

Foi ele quem deu um lugar para morar a milhões deles.

Não fui eu.

Foi ele quem pôs luz em milhares de casas nos lugares mais longínquos desse imenso país.

Não fui eu.

Foi ele quem criou as condições para milhares deles irem ao médico pela primeira vez na vida.

Não fui eu.

Foi ele quem criou as condições para que muitos brasileiros, os netos daqueles que me ofereciam doces pela janela do meu transatlântico, frequentassem as faculdades e se tornassem doutores como eu.

Não fui eu.

Quem sou eu diante de Lula?

Doutor, posso lhe fazer uma pergunta?

Quem é você diante de Lula?

Ele, sim, representa muito.

Aquelas cidades, aquelas casas, aquelas pessoas me fizeram entender melhor o Brasil e seu povo.

Lula não está fincado no telhado das casas para transmitir as cores de uma vida que se passa em preto e branco e muitas vezes sequer se passava, pelos altos índices de mortalidade infantil, que ele, Lula, combateu.

Lula está fincado na alma e no coração do brasileiro.

É ali, lá dentro, bem no fundo, na alma, que Lula transmite todos os dias, ao vivo e a cores, o sentimento de que eles também são gente.

Lula não entende a alma do povo brasileiro.

Lula é a alma dele.

Lula expressa o povo brasileiro, é o seu espelho.

Lula é esse povo.

Esse povo é Lula.

Lula, a alma do Brasil

Lula e garoto

Por Ronaldo Souza

Nasci e lá vivi até os onze anos de idade.

Juazeiro (BA) era o meu universo.

A rua Antônio Pedro era a minha casa e a casa onde eu morava o local onde minha família se fazia família.

Foi lá, em Juazeiro, onde ouvi o Brasil ser campeão mundial de futebol em 1958 e 1962.

Foi em 1962 que poucos minutos após a final em que o Brasil se sagrara campeão, pelas mãos de meu pai fui às ruas. Ao ver homens vestidos com o uniforme da seleção brasileira, perguntei; pai, são os jogadores da seleção?

Você acha que existe um mundo melhor que esse, onde se misturam as desconhecidas fronteiras de sua cidade e a imaginação de uma criança?

Não, não existe.

Se a imaginação do homem não conhece fronteiras, imagine a da criança.

Era hora de crescer.

E parece que estava marcado assim na agenda de alguém, a quem eu poderia chamar de Deus.

Mas não era.

Era a agenda de meu pai.

Um homem que não tinha sequer o primário (como era chamado na época), mas que se alfabetizou num esforço absurdo (já com dois filhos), marcado pelo compromisso sem limites com o crescimento.

A sua companheira, minha mãe, que tinha primário completo, cumpria o papel que lhe tinha sido dado pelos tempos da raça humana.

E aquele tempo dizia que ela devia ser a fiel e inseparável companheira daquele homem, como assim foi até sua morte.

Na agenda de meu pai estava marcado que viajaríamos no começo de março de 1963.

Destino.

Salvador, a capital do estado.

Para morar lá.

Naquele tempo, dizer que ia morar na capital significava muita coisa, inclusive “status”.

Na cabeça de meu pai significava somente uma coisa.

Crescimento.

Era impressionante, uma sede inesgotável.

Entusiasmado por ir morar na capital, eu não percebia que deixava a parte final da infância para trás.

E, que minhas filhas não saibam, não há nada melhor do que a infância em Juazeiro.

Sei, sei, a sua também foi maravilhosa. Que bom.

Salvador

E vi o mundo surgir diante de mim.

As escolas em que meu pai e minha mãe me puseram no início me fizeram conhecer pessoas bem diferentes daquelas que faziam parte da minha vida até poucos meses atrás.

E a vida se apresentou com nova roupa.

Nas férias, porém, eu voltava a vestir a velha roupa. É que em todas, viajávamos para Juazeiro.

Inicialmente as viagens eram de trem.

Sim, já tivemos trens de passageiros também no Nordeste do Brasil, inclusive com vagões-restaurante e vagões-dormitório, um estilo europeu nos anos 1960-1970.

Eram simplesmente sensacionais, principalmente quando nos aproximávamos de Juazeiro, quando o trem fazia as paradas obrigatórias em cada uma daquelas cidades.

Na verdade, pequenos vilarejos, que se apresentavam às janelas do trem com seus doces, cocadas, brinquedos, rapaduras, roupas, frutas típicas…

IMG-20180403-WA0008

Eram “cidades” que paravam e se transferiam para a estação de trem para vender os seus produtos a aqueles afortunados viajantes e conhecedores do mundo, que se encantavam por poder comprar “coisas” que sempre fizeram parte das suas vidas

Quem aí assistiu “Amarcord”, de Fellini?

Lembra da cidade que uma vez por ano parava e se arrumava toda, todos vestiam sua melhor roupa para ver passar, lá ao longe, um transatlântico de viagens de turismo, todo iluminado, num contraste lindo e absurdo onde todos os sonhos e desejos são possíveis?

Meu Deus, como é linda aquela cena!

Devia ser assim para o povo daquelas cidades.

Só que, diferentemente do transatlântico de Fellini, um sonho inalcançável, o trem era algo mais palpável e que ajudava na renda deles.

Mas hoje me permito imaginar o quanto cada um deles deve ter sonhado em um dia fazer aquela viagem no “meu” transatlântico.

O futuro

Quarenta anos depois da minha chegada a Salvador, viajei para dar um curso numa cidade do interior da Bahia.

Tinha acabado de lançar o meu livro.

Algo me dizia que eu jamais estaria pleno se não o lançasse também naquela cidade.

Juazeiro.

Fui de carro.

Eu, minha mulher e nossas duas filhas.

Não poderia ser uma viagem comum.

E não foi.

Era 2003.

Lula tinha sido eleito presidente do Brasil no final do ano anterior.

Aquelas casas, aquelas pessoas, aqueles mesmos vilarejos, que me diziam coisas importantes da minha vida agora eram importantes para a minha vida.

Compreender tudo aquilo era fundamental.

Aquelas pessoas que esperavam o “transatlântico” da linha férrea para viver um dia especial, agora viviam sob o céu das antenas de televisão.

A vida diminuíra de tamanho.

Eram outros os horizontes.

A televisão chegara já há algum tempo e ocupava agora o lugar mais importante da casa.

E com sua sedução, seus encantos, sua magia, a ilusão na medida certa, transformava a vida daquelas pessoas.

Como um ópio, a felicidade agora vinha de fora.

Muita coisa tinha mudado.

E muita coisa ia mudar mais ainda.

Missão Divina

Por Ronaldo Souza

O dr. Dallagnol é membro da Igreja Batista de Bacacheri, em Curitiba.

É um mensageiro de Deus no combate à corrupção e recebeu diretamente Dele essa missão. 

Pregador evangélico, em uma de suas pregações na igreja, disse que recebeu “das mãos de Deus a missão de acabar com a corrupção no Brasil”. 

Em outra, disse que “a corrupção é uma assassina sorrateira, invisível e de massa, uma serial killer que se disfarça de buracos de estradas, de falta de medicamentos, de crimes de rua e de pobreza.”

Parece que o procurador Dallagnol esqueceu que ele próprio já tinha descoberto e dito em entrevista que a causa desses crimes de corrupção, crimes de rua e pobreza do brasileiro era termos sido descobertos e colonizados pelos portugueses.

Será que o dr. Dallagnol escapou dessa herança?

Se escapou, ele precisa explicar porque foi flagrado como dono de dois apartamentos do “Minha Casa, minha Vida”.

Interrogado sobre o fato de um Procurador da República ter dois apartamentos de um Programa Social destinado a pessoas pobres, ele disse que não eram para ele.

Eram para investimento!!!

Ou seja, em tempos em que juízes e procuradores, que já ganham acima do permitido pela Constituição Brasileira, o que, além de imoral, é inconstitucional, são flagrados com penduricalhos no salário, como auxílio-moradia, auxílio-escola, auxílio-transporte…, o procurador Deltan Dallagnol compra dois apartamentos destinados a pessoas pobres para investir e ganhar mais dinheiro.

O procurador deu ainda como exemplo no sentido contrário da corrupção o bom povo americano.

Por ter sido colonizado pelos ingleses, um povo puro e casto que fala inglês e não essa língua horrorosa de subdesenvolvidos, o português, os americanos são um exemplo para o resto do mundo.

Ah, de imediato veio à memória a minha doce infância em Juazeiro (BA).

Os filmes de Roy Rogers, John Wayne, Wyat Earp, Cavaleiro Negro… 

Os xerifes do bang-bang ainda são presenças marcantes na personalidade adolescente de Dallagnol.

Imagino-o ainda lendo os “gibis” com o mesmo brilho nos olhos que eu tinha aos 8-9 anos de idade, quando os comprava na porta do Cine Juazeiro nas matinês de sábado à tarde.

Como não ter inveja dele, do dr. Dallagnol, alguém que conseguiu preservar a inocência da infância.

Como é salutar saber que ele compartilha esse pensamento bang-bangreniano com os outros procuradores da Lava Jato, os intocáveis.

Os Intocáveis

Como também com juízes como Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro, nas suas fotos de arma na mão.

Marcelo Bretas

E veem-se depois no cinema, agora eles próprios como aqueles xerifes.

É compreensível a incontida alegria.

Marcelo Bretas e Moro

Ah, John Wayne!!!

Quanta saudade!

Agora é com Deus

Alguém aí, de sã consciência, pode negar a obstinação do procurador Dallagnol?

Alguém aí, de sã consciência, pode negar que o procurador e seus colegas procuraram muito?

Procuraram tanto que, para não atrapalhar a procura, até deixaram de lado tudo que já foi encontrado (sem procurar) sobre Aécio, Serra, Alckmin, FHC…

Mas isso não vem ao caso.

Todos reconhecemos o enorme esforço do procurador.

Que procurou muito, mas não encontrou provas.

E reconheceu.

– Não tenho provas da corrupção do ex-presidente, mas tenho convicções.

Lula, o maior ladrão do Brasil, roubou milhões e milhões, mas os procuradores, o juiz Moro, Polícia Federal, toda a Lava Jato, Ministério Público, rede globo e penduricalhos, todos procuram há anos e não encontraram uma única prova contra ele.

E com a ajuda do FBI!

Terão que reconhecer.

Lula é um gênio.

Descobriu o crime perfeito.

Onde terá escondido todo esse dinheiro?

Mas como duvidar das convicções do jovem e puro Dallagnol?

Como duvidar das convicções desse adolescente que recebeu diretamente das mãos de Deus a missão de acabar com a corrupção no Brasil?

Dallagnol em Cristo

Na sua fé inabalada e com o seu PowerPoint debaixo do braço, o mal achador Dallagnol (procurou mas não achou), está em jejum e em preces.

Nesse momento em que a onipotência de Deus está sendo invocada para condenar e destruir um homem, Dallagnol está acompanhado pelo juiz Bretas.

Esse é o judiciário que deveria proteger a sociedade brasileira?

É essa sina que iremos deixar como legado para nossos filhos e netos, viver sob o comando de homens violentos que só veem solução nas armas e fanáticos religiosos?

Que Deus é esse que os irmãos em Cristo estão invocando?

Que Deus é esse, implacável e perseguidor?

Esse é o Deus dos evangélicos?

Esse Deus não terá provas.

Mas terá as convicções do seu servidor direto na Terra:

Deltan Dallagnol.

Amém.

Um juiz iletrado e incompetente

Moro analfabeto

Por Ronaldo Souza

Mal acabei de postar o texto Um juiz desmoralizado e perdido, onde falo da evidente limitação intelectual de dr. Moro, deparei-me com o artigo acima da Carta Campinas.

A coisa é feia.

Quer ver a que ponto chega?

Estava assistindo a uma entrevista dele no ano passado, quando de repente ele chamou Câmara dos Deputados de “câmera” dos deputados.

Só um ignorante, um analfabeto, diria “câmera” dos deputados.

Apesar de reconhecer a ignorância do juiz, jamais poderia pensar que chegaria a esse nível.

Imaginei, portanto, que fosse um ato falho, algo que pode acontecer com qualquer um e por isso nunca comentei.

Há muitos anos não assisto ao programa Roda Viva.

Não dá.

Mas, lendo o texto da matéria acima, que transcrevo abaixo, vi que o senhor doutor juiz falou novamente “câmera” dos deputados no Roda Viva.

O ato falho deixa de ser ato falho; é burrice mesmo.

Um juiz de direito não saber o que é Câmara dos Deputados e sair por aí chamando de “câmera” dos deputados é de uma ignorância absurda, incompreensível, inaceitável e injustificável.

Agora entendo melhor ainda o porque da provocação do dr. Moro ao advogado de Lula quando lhe disse “faça um concurso, doutor“.

Ele acha que ser aprovado num concurso para juiz de Direito é capacidade dada somente aos predestinados, grupo que, se existe, o dr. Moro já deu incontáveis provas de que não faz parte dele.

Pelo contrário.

Um Juiz de Direito jamais diria “câmera” dos deputados e outras barbaridades que ele tem dito ao longo desses anos.

Um juiz de direito, sim.

Vamos ao artigo da Carta Campinas.

Como Sérgio Moro virou juiz com erros básicos de gramática e interpretação de texto?

Moro analfabeto''

Uma das coisas que o Brasil talvez precisaria fazer é uma auditoria nos concursos públicos para juiz.

O concurso para juiz é talvez um dos mais difíceis, se não o mais difícil que existe. No entanto, há atualmente coisas estranhas que podem indicar indícios de fraude.

Uma das coisas estranhas é a quantidade de parentes entre os juízes aprovados em concursos. Em concursos extremamente concorridos, seria muito difícil a filha, tio, sobrinha, esposa, marido etc passarem com tanta facilidade. Até ministros do Supremo têm parentes aprovados em concurso. Isso sem contar com o nepotismo nos tribunais.

No entanto, nos últimos temos visto muitos juízes expressando preconceito, arrogância, além de mau caratismo que não condiz com um sujeito preparado e de grande capacidade intelectual, muito menos com um guardião da Lei.

O caso do juiz Sérgio Moro é enigmático. Além de todas as confusões que Sérgio Moro aprontou no processo contra Lula, inclusive reconhecendo que não há ligação entre a corrupção da Petrobras e as acusações contra o ex-presidente, o que inviabiliza a sua própria competência para julgá-lo, Moro também foi contra um projeto de lei que punia juízes que interpretassem a lei à revelia do que está escrito. Moro foi contradefendeu interpretação do juiz acima da lei.

Recentemente, 122 juristas escreveram livros sobre os erros de Moro na condenação sobre Lula. Em outro caso, um erro de Moro destruiu a vida de um executivo. Em outro erro, pessoas ficaram presas inocentemente.

Mas na última segunda-feira, 26, ele se superou. Ele cometeu erros primários de português. Muitos brasileiros até podem cometer esses erros. Não há problema algum. Mas é difícil (impossível?) de acreditar que um juiz, que teria estudado anos a fio para passar em um concurso, cometesse um deslize primário sobre o verbo haver.

Não fosse isso, o professor de física, Marcos César Danhoni Neves, que tem mais de 30 anos de docência em universidade do Paraná também já levantou suspeitas sobre a agilidade com que o juiz Sérgio Moro conseguiu alguns títulos acadêmicos.

“Moro tem um currículo péssimo: uma página no sistema Lattes (do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico ligado ao extinto MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia). Lista somente 4 livros e 5 artigos publicados. Mesmo sua formação acadêmica é estranha: mestrado e doutorado obtidos em três anos. Isso precisaria ser investigado, pois a formação mínima regulada pela CAPES-MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Ministério da Educação) é de 24 meses para Mestrado e 48 meses para o Doutorado. Significa que “algo” ocorreu nessa formação apressada.. Que “algo” é esse, é necessário apurar com rigor jurídico”, escreveu Danhoni Neves em artigo.

Um juiz desmoralizado e perdido

Moro e PSDB

Por Ronaldo Souza,

Já digo há algum tempo que o juiz Sérgio Moro é um homem limitado.

Disse também lá no começo, quando o circo começou a ser armado, que ele sairia menor na sua empreitada e que, como o ex-ministro Joaquim Barbosa, seria mais um bagaço de fruta chupada a ser jogado pela janela.

Ao dizer isso, o que muitos irão pensar?

Quem ele acha que é para chamar de limitado um juiz de Direito, ainda mais quando esse juiz é o Dr. Sérgio Moro?

Por algumas razões, não perderei tempo com isso.

Sérgio Moro é sim um homem de horizonte intelectual curto e, como homem do Direito, desmoralizado.

Por razões óbvias, os seus seguidores não perceberam e não perceberão, mas Moro sabe o quanto já foi derrotado pelo advogado de Lula, Dr. Cristiano Zanin. Este não só o derrota seguidas vezes, como o expõe a situações vexatórias.

Cristiano Zanin sai dessa história consagrado pela frieza e competência com que lidou com o juiz, muitas vezes irritando-o na sua incapacidade de ver algumas coisas.

No recente episódio dos recibos de pagamento do apartamento triplex, a coisa ficou mais feia do que nunca para o justiceiro de Curitiba, como já é conhecido, inclusive por advogados e professores de Direito. Sem nenhuma investigação prévia, o juiz Moro se apoiou totalmente na denúncia do MPF de que os recibos eram falsos.

Na ânsia do “agora pegamos ele”, afirmou aos quatro cantos do Brasil que todos os recibos eram falsos e que tinham sido assinados às pressas em um único dia.

Na sua irritante frieza, o advogado de Lula mostrou os recibos de comprovação dos pagamentos efetuados autenticados por perícias feitas por diferentes especialistas.

Ofereceu-as ao juiz, que ainda ensaiou insistir no assunto, tentando aponta-las como inidôneas, mas, finalmente, desistiu da ideia.

Para resumir, o assunto morreu.

Desmoralizado sempre foi o delator.

Desmoralizou-se, mais uma vez, o juiz.

Mas o dr. Moro continuou incriminando Lula do mesmo jeito.

Um objetivo de vida. 

“Faça um concurso, doutor”

Mas, entre muitos outros, um dos episódios mais marcantes em que a mediocridade do juiz Moro emergiu com toda força foi em uma das vezes em que ele foi interpelado pelo advogado de Lula pela sua postura autoritária.

No diálogo que se seguiu, o dr. Moro soltou esta pérola:

“Faça um concurso, doutor”

Viu-se o maior ao dizer essa tolice, imaginando que assim colocaria o advogado no seu devido lugar; um advogado que nunca enfrentou um concurso para tornar-se um… juiz.

O Céu escureceu, raios relampejaram, trovões trovejaram.

É possível que o dr. Moro tenha pensado; “peguei ele”.

Inacreditável como ele não percebeu a asneira que tinha dito.

Que respostas o juiz concursado Moro poderia ter ouvido?

– Não doutor Moro, eu jamais faria um concurso para ser juiz para não correr o risco de ganhar o dobro do salário que a Constituição do Brasil me permite ganhar e achar que é normal.

– Não doutor Moro, eu jamais faria um concurso para ser juiz para não correr o risco de ficar ganhando auxílio-moradia, auxílio-alimentação, auxílio-escola, auxílio-roupa, auxílio-transporte…, achar que é normal e fazer greve para manter isso.

– Não, doutor Moro, eu jamais faria um concurso para ser juiz porque esses concursos que muitos buscam para garantir salário e aposentadoria são verdadeiros assassinos da inteligência e sensibilidade, de quem tem, e da evolução profissional e intelectual.

– Não, doutor Moro, eu jamais faria um concurso para ser juiz e fazer da tentativa de prender um homem o objetivo da minha vida.

– Não, doutor Moro, eu jamais faria um concurso para ser juiz, por medo de ficar assim como o senhor, um homem limitado.

Agora o dr. Moro está indo morar nos Estados Unidos

Já pediu exoneração do cargo de professor da Universidade Federal do Paraná.

Na sequência, é possível que deixe também de ser juiz.

Sonho de muitos que por acidente geográfico nasceram no Brasil, este país miserável colonizado por um povo miserável e corrupto, o povo português, segundo o dr. Dallagnol, aos olhos do feliz aprovado num concurso e dos seus seguidores, morar nos Estados Unidos, quem sabe Miami ou Disney, é um grande feito.

Lá, deverá fazer um novo concurso, dessa vez para ser juiz nos Estados Unidos, o que não representa nenhum problema para ele.

Nem fazer o concurso, nem morar nos Estados Unidos.

Em breve, teremos o orgulho, quem sabe, de ver o primeiro brasileiro a fazer parte e se destacar nas mais altas cortes daquele país irmão.

Então, ninguém mais ousará duvidar da obstinação do dr. Sérgio Moro.

Alguém pode dizer que ele não pode ser juiz nos Estados Unidos, mesmo estando tão fortemente ligado a aquele país irmão.

Insisto em que não duvidem da sua obstinação, afinal, ele vai precisar trabalhar para ganhar dinheiro para viver.

Ou ele terá as portas abertas e não precisará se preocupar com isso?

Preocupam-me, no entanto, duas coisas.

O inglês dele é um horror, uma agressão aos ouvidos.

O português também, um desastre.

Como fala errado.

E olha que fez concurso!

E foi aprovado!!!

Palavras ao vento

FHC arrependido

Por Ronaldo Souza

Veja na breve matéria do Brasil 247 o que diz FHC.

Depois de apoiar o golpe de 2016, que substituiu a presidente honesta Dilma Rousseff por uma quadrilha, e de incitar a prisão sem provas do ex-presidente Lula, FHC agora se diz assustado com o grau de intolerância no Brasil e ensaia um recuo diante do atual cenário do País; em uma longa entrevista concedida a Fernando Grostein, irmão de Luciano Huck, o tucano admitiu que a Justiça brasileira é parcial; o ex-presidente agora diz lamentar não ter se aproximado mais de Lula; Se eu pudesse reviver a história eu tentaria me aproximar não só do Lula, mas de forças políticas que eu achasse progressistas em geral. Que ajudasse a governar. E acho que o PT deveria ter feito a mesma coisa

“A justiça é de classe, seletiva. Se você for negro você vai pra cadeia mais depressa do que se você for branco, ainda mais na área de droga. Isso é indiscutível”, afirmou.

“Se eu pudesse reviver a história eu tentaria me aproximar não só do Lula, mas de forças políticas que eu achasse progressistas em geral. Que ajudasse a governar…”.

Por saber mais do que ninguém o quanto ele próprio é blindado, Fernando Henrique Cardoso, mesmo que muito sutilmente, estaria reconhecendo a perseguição da justiça (com letra minúscula mesmo) a Lula.

Lamentavelmente, porém, FHC é hoje um homem sem nenhuma credibilidade, ele próprio se desmoralizou.

Não tenho constrangimento em dizer que, como nos últimos anos, o que ele diz e escreve vai ao sabor dos ventos.

Ao dizer que a Justiça brasileira é parcial, de classe, seletiva, ele diz a mais pura verdade, mas ela é muito pior do que isso.

Há adjetivos que a definem bem, como covardia, mas há outros mais.

Entretanto, nada assegura de que amanhã mais uma vez ele desdiga o que diz nessa entrevista.

Basta um plim plim.

É triste, mas é verdade.

Que bom seria se fosse o homem que um dia se imaginou que ele era e não só mantivesse o que disse como agisse nesse sentido.

Também sem nenhum constrangimento, viria aqui e aplaudiria.

Baile obsceno

Mancini

Por Ronaldo Souza

Quando eu era ainda muito jovem, nos meus 18 anos, França Teixeira era o radialista esportivo mais famoso e festejado de Salvador.

Era muito inteligente, sagaz e dono de humor sarcástico e ferino. Com virtudes e defeitos, como qualquer um de nós, era de fato uma personalidade do nosso futebol.

Sempre que se reportava ao Tribunal de Justiça Desportiva da Bahia (TJD-BA), fazia-o com cuidados e elogios.

Contribuiu assim para que eu crescesse nutrindo respeito pelos membros dos tribunais de um modo geral.

Somente anos depois, quando aprendi a ouvir e ler o que não é dito nem escrito, as entrelinhas, entendi melhor o significado das palavras de França Teixeira.

Mesmo reconhecendo que cenas como as que foram vistas agradam a parte considerável da torcida, o último Ba-Vi deixará marcas negativas para o futebol da Bahia.

Por razões diversas, é compreensível a satisfação pessoal que podem gerar aquelas cenas a alguns, mas daí a serem aplaudidas vai uma diferença enorme.

Já tive oportunidade de dizer em outro texto que não foi o Ba-Vi, mas sim o Vi, o grande responsável pelo ocorrido, algo facilmente comprovável.

Não poderiam deixar de chamar a atenção a agressividade de jogadores como Kanu e Denilson, pelo Vitória, e a ostensiva reação de Edson, do Bahia.

No entanto, o grande destaque vai para os obscenos Yago e Rhayner, pela covardia demonstrada.

Ainda no tocante à briga, merece louvor a postura de vários jogadores como André Lima, Kaike e outros pelo rubro-negro e Lucas Fonseca, Nilton, Regis e outros pelo tricolor.

Pela contundência e confusão generalizada, a briga dos jogadores chamou a atenção de todo o Brasil, gerando os mais diversos comentários da imprensa local e nacional, todos exigindo punições severas.

Entretanto, para além das brigas, a cobrança mais forte e veemente de punição que ecoou Brasil afora foi no sentido das condições em que se deu o encerramento do jogo.

Foi consenso em todo o país a exigência por severa punição de quem teria orientado o término do jogo naquelas condições.

Ainda que inteiramente condenáveis, não são incomuns as brigas entre jogadores de futebol, ainda mais em clássicos como o Ba-Vi. Vide passado recente, um dos Ba-Vis do ano passado.

No entanto, a absurda orientação de provocar a expulsão de um atleta para, diante de número insuficiente de jogadores por parte de um dos times, promover o encerramento da partida, é simplesmente vergonhosa.

Recorre-se aqui à hipocrisia por não “ver” que não teria sido a primeira vez que um time abandona o jogo nas condições descritas e, quem sabe, não será a última?

De maneira nenhuma.

Mas essa atitude e a sua argumentação jamais poderão ser comparadas à briga de jogadores, mesmo com a contundência com que ocorreu, porque para esta pode-se argumentar com o calor do jogo, ânimos acirrados, o peso de um clássico…

Diferentemente, o encerramento do jogo da forma que aconteceu constitui prática antidesportiva vergonhosa sob todos os aspectos.

Ela nos atinge fortemente no que deve haver de mais sagrado para um povo que busca continuamente atingir o grau de desenvolvimento que o permita se ver como sociedade civilizada; a dignidade.

Como ficam os nossos filhos vendo aquilo?

Como aceitar e conviver com atitudes tão indecentes e pretender que a nossa juventude cresça saudável e digna?

De diferentes maneiras, foi obsceno o comportamento de Vagner Mancini.

A começar pela orientação que teria passado para Ramon para que Bruno Bispo provocasse o segundo cartão amarelo e a consequente expulsão.

Em seguida, a inútil tentativa de negar que teria dado essa orientação.

Na sequência, desafiar os repórteres a provarem a acusação de que ele teria feito aquilo, sob o argumento de que eles, repórteres, estavam lidando com ”pessoas do bem, de caráter, e em tom desafiador provocar; quem tiver a prova, que apresente.

Apresentaram.

Por leitura labial, cinco peritos comprovaram o que Mancini, estupidamente, tentou negar.

Inteiramente compreensível a sua alegria e o consequente abraço de comemoração com os advogados ao final do julgamento, mas fica uma enorme e indelével mancha no seu currículo, razão pela qual Mancini sai bem menor desse episódio.

Se foi realmente Mancini quem autorizou a expulsão, apesar das bobagens ditas a diretoria do clube não sofreria maiores consequências.

Caso contrário, ou seja, se, através do senhor Mário Silva, saiu dela a orientação para Mancini tomar aquela atitude, sai também desmoralizada.

Por outro lado, ainda que o tempo dissipe essa nuvem, a instituição Esporte Clube Vitória sai bastante prejudicada e terá essa grande mancha na sua história.

O que parece bastante improvável, no entanto, é que um garoto de 21 anos de idade, Bruno Bispo, jogando o seu primeiro Ba-Vi, cheio de sonhos, tenha idealizado e patrocinado sozinho aquela cena.

Creditar-lhe essa conta aponta para a covardia cometida contra ele.

Mas aí vem o que talvez represente o gesto mais significativo de toda a lambança.

O endosso de toda essa obscenidade.

A quem coube essa responsabilidade?

Para o bem do futebol brasileiro, particularmente do baiano, e em nome de toda a juventude desse país, imaginava-se que os homens da justiça desportiva puniriam exemplarmente os patrocinadores desse triste episódio.

Mas não foi isso que aconteceu.

Os jogadores, a parte mais fraca da corrente, bem ou mal foram punidos.

Punição que possivelmente será contornada com uma liminar que permitirá que joguem as partidas restantes do campeonato, aliás, prática recorrente no futebol.

Mas simplesmente resolveram ignorar todas as evidências que flagrantemente mostravam o acinte, o desrespeito e a má fé que revestiram o circo armado.

E o fizeram com argumentos inconsistentes e frágeis.

Foram nocauteados os princípios mais elementares não só do futebol, mas também daquilo que se espera de julgamentos de episódios que mancham indelevelmente a sociedade como um todo.

Nacionalmente, o futebol baiano sofre um grande prejuízo.

Internacionalmente, o futebol brasileiro também foi inegável e irreversivelmente atingido.

Mas, como sempre acontece, a história não guarda lugar para alguns homens.

A história, isso sim, terá um lugar reservado para esse julgamento do TJD-BA.

Lamenta-se que nesse caso não deverá ser dos mais honrosos.

Diante de toda essa obscenidade, a dança de Vinicius ganhou contornos de coisa de adolescente.

Todo o baile, não.

Esse foi obsceno.

Mesmo com sua esperteza e sagacidade, é muito pouco provável que hoje, se estivesse vivo, França Teixeira fosse capaz de fazer comentários que desconsiderassem o real significado de tudo que ocorreu.

Mesmo com todas as entrelinhas.

Não, não foi o Ba-Vi. Foi o Vi

Pelé e soco no ar

Por Ronaldo Souza

De modo geral, nada deveria ser analisado fora do contexto, seja ele político, religioso ou do futebol, para ficar nesses três temas.

Todos dentro de um contexto geral maior; a questão cultural da sociedade.

Sob essa perspectiva, pode-se entender mais facilmente alguns fenômenos.

A paixão maior do brasileiro, o futebol, pode e deve ser vista assim.

Diferentemente de outras atividades de lazer e cultura (literatura, teatro e cinema, por exemplo), o grande protagonista do futebol, o jogador, costuma ter a sua origem em camadas sociais com formação mais rudimentar.

Sem nenhuma conotação pejorativa, muito pelo contrário, há de se reconhecer e entender essa realidade social do futebol brasileiro, mesmo que se possa observar que nos últimos tempos houve uma melhora nesse sentido.

Uma das formas de se constatar isso é o famoso direito de pedir música no Fantástico (programa da TV Globo), dado ao jogador que faz três gols numa partida.

Apesar de compreensível, não é tão simples ver e ficar indiferente aos pedidos feitos pelos jogadores e, pior ainda, ouvir as músicas.

Não parece muito difícil identificar a influência que esse contexto exerce no momento mais importante do futebol; o gol.

Que não tivéssemos mais a força e o simbolismo de Pelé socando o ar na comemoração dos seus gols, mas que não chegássemos ao que chegamos.

Já há algum tempo, a maioria das comemorações de gol no futebol brasileiro é feita de maneira ridícula, algumas das quais grosseiras e de péssimo gosto.

São diversas, entre elas a de Vinícius, jogador do Bahia.

Entretanto, tentar transforma-la em justificativa para o que ocorreu no Ba-Vi é o mais escancarado diversionismo e só demonstra a incompetência, descompromisso e falta de seriedade para lidar com as coisas do futebol.

Diante do acontecido, a postura do comando do Vitória foi e vem sendo um verdadeiro desastre.

Digo comando porque, tendo em vista que não se sabe quem orientou, pode-se atribuir tanto ao presidente do clube e sua diretoria, quanto à comissão técnica, o que significa basicamente dizer Vagner Mancini.

Os erros de Vinicius

Comum nos diversos esportes (box, MMA, futebol), as provocações entre atletas são vistas como algo normal e aceitas por todos. Para alguns, entre os quais me incluo, são ridículas e desnecessárias.

O comportamento de Vinicius, jogador do Bahia, através do seu twitter antes do clássico do último domingo (18/02) é de baixíssimo nível e ofensivo. Nada o justifica.

A seu favor, somente o fato de que esse é o padrão adotado por muitos que frequentam as redes sociais, mesmo entre os que se veem diferenciados.

Quanto à comemoração do gol, algumas considerações são necessárias.

Vista dentro do contexto que ele próprio criou através do twitter, ela pode ser interpretada como algo acima do tom, como estão dizendo.

Antes, porém, faço uma pergunta.

É comum o jogador comemorar o gol perto das traves onde ele foi feito?

Claro que sim. A comemoração costuma acontecer nas imediações do mesmo local onde foi feito o gol e é para ali que correm os outros jogadores do time para comemorar junto com o artilheiro, inclusive os da defesa, que geralmente estão do lado oposto do campo.

Vinicius não fez o gol, virou, atravessou o campo e foi comemorar “lá” na torcida do Vitória. Ele já estava ali e ali também já estavam seus companheiros de time, considerando-se que se tratava de um pênalti.

Ele sai depois correndo por trás do gol dizendo “eu sou, eu sou, eu sou”, segundo legenda que uma TV colocou.

Alguém pode dizer que isso não é comum no futebol?

Para citar somente um, por acaso Cristiano Ronaldo, com toda justiça o tão idolatrado jogador do Real Madri, nunca foi visto dizendo coisas semelhantes na comemoração dos seus gols?

Entendo a cautela de parte da imprensa local e nacional para tratar do assunto, afinal há a preocupação de não parecer que estariam tomando partido a favor desse ou daquele time, no caso o Bahia.

No entanto, qualquer coisa além disso, como querer justificar as agressões ocorridas com a comemoração é tentativa ridícula e absurda.

Vinicius teria passado um pouco do ponto, teria exagerado, teria provocado, são observações válidas e quem sabe merecedoras de alguma discussão.

Tudo bem.

Mas, o que faremos então?

Racionalizar e engessar o futebol, cuja característica maior é a paixão, tida por todos os estudiosos do assunto como algo inexplicável e, sobretudo, incontrolável?

Exigir que o jogador todas as vezes se lembre que não está diante de sua torcida, atravesse todo o gramado e aí, do outro lado, quando perceber que está diante dela, só então comemorar?

Exigir dele essa racionalidade no momento da maior explosão de emoção que se conhece em todos os esportes?

Ou então agredi-lo por cada flecha imaginária atirada contra a torcida do Bahia, como fazia Índio, jogador do Vitória?

Agredi-lo por todas as provocações insistentemente feitas diante da torcida do Bahia, como fazia Neto Baiano, jogador do Vitória?

Agredi-lo por cavar simbolicamente covas para enterrar o Bahia diante da sua torcida, como fazia Júnior (Diabo Loiro), jogador do Vitória?

Agredi-los, todos, por escolherem comemorar o título de 2016 pisando no escudo do Bahia em plena Fonte Nova, como fizeram os jogadores do Vitória?

Senhores, todos têm o direito de ser ridículo, mas é recomendável que não se exponham tanto.

Os erros de Mancini

A movimentação em campo que precedeu a quinta expulsão no time do Vitória, a que levaria ao encerramento do jogo, e as declarações dos repórteres da TV Bahia sugerem fortemente que a orientação teria vindo dos escalões superiores pela voz do Sr. Mário Silva, supervisor do clube.

Esta teria sido levada até Mancini pelo jogador André Lima.

Como mostram as câmeras de televisão, Mancini então chama Ramon, cochicha ao seu ouvido, este vai direto falar com Fernando Miguel, goleiro que, até então caído no gramado, se levanta de imediato e ocorre então toda a cena que culminou com a expulsão de Bruno Bispo.

Veja o que disse Mancini.

– Não. Não partiu do banco a decisão. Estávamos falando e chamei várias vezes aos atletas para que organizássemos melhor a equipe. No momento em que o Jaílson fez as expulsões, nossa equipe tinha um jogador a menos. Tínhamos que fazer uma linha de quatro e uma de três. Quando ele expulsou o Correia, eu voltei a chamar os atletas, que estavam distantes, desgastados, eu não conseguia falar com eles e fui muito claro ao Bryan para fazer uma linha de quatro, com dois jogadores à frente da zaga. Não sei por que todo mundo está batendo nisso aí. Eu conheço a regra do futebol, fui atleta, sou técnico há 14 anos, estou há mais de 30 anos no futebol. Não sei porque está se batendo tanto nisso – afirmou.

Observe que desde o início o treinador disse; “não partiu do banco a decisão”.

A impressão que ficou é que todo o tempo ele tentou deixar bem claro que não foi ele e que teria sido somente o ponto de conexão da diretoria com o jogador no gramado, aliás, caminho que seria o mais natural.

Na coletiva logo após o jogo, Mancini cometeu vários erros primários e fatais.

O primeiro, apontar Vinicius, jogador do Bahia que fez o gol e a comemoração com a dancinha do creu, como o culpado da confusão.

Será que ele não percebeu que o que se chamou de algo acima do tom, a comemoração de Vinicius, foi interrompida com um “cachação” do goleiro do Vitória, Fernando Miguel, e na sequência “por empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço…”, como seria definido posteriormente pelo árbitro na súmula do jogo?

Segundo, dizer que aquele tipo de decisão, forçar a expulsão e provocar o encerramento do jogo, é tomada no campo; “a decisão é de quem está dentro de campo”.

Essas foram as suas palavras, o que faria do Vitória um time sem comando.

O Vitória como time sem comando é fato? A imprensa diz que Mancini tem o grupo de jogadores na mão, desde o ano passado quando salvou o time do rebaixamento.

Terceiro, em tom de intimidação e desafiante criticar e condenar os jornalistas pela insinuação de que teria partido da direção ou dele a ordem para o jogador provocar a expulsão. Fez isso com a frase que lhe parecia definitiva;

 “Quem tem prova disso? É uma acusação muito grave em cima de pessoas do bem, de caráter, profissionais que estão aqui. Quem tiver a prova, que apresente.”

Mancini se deu mal. A leitura labial mostrou que ele orientou sim Ramon a dizer a Bruno Bispo; Pede ao Bruno, pode tomar o segundo amarelo”.

Talvez se possa ver no gesto do treinador uma tentativa de proteger a diretoria, mas Mancini teria, na verdade, feito uma coisa imperdoável a um comandante; jogar os seus comandados às feras.

Se ali na coletiva os repórteres estavam falando com pessoas do bem, de caráter, profissionais que estão aqui” e a decisão foi tomada em campo, foram os jogadores, profissionais que não são sérios nem pessoas do bem, que fizeram a lambança em campo.

Pior ainda, Mancini jogava de forma absolutamente irresponsável e inescrupulosa a culpa maior sobre um garoto de 21 anos de idade, Bruno Bispo, jogador da base do Vitória que fazia seu primeiro Ba-Vi. Afinal, foi ele quem “tomou” a decisão de provocar a sua expulsão e com isso encerrar o jogo.

Uma vez que Mancini fez questão de dizer ”eu conheço a regra do futebol, fui atleta, sou técnico há 14 anos, estou há mais de 30 anos no futebol”, a culpa seria daquele jogador inexperiente de 21 anos, que, não conhecendo a regra do futebol, fez o que fez.

Parece sensato que um garoto de 21 anos de idade, vindo da base do time, jogando o seu primeiro Ba-Vi, portanto, sob o peso que isso significa e sonhando com um lugar ao Sol, tenha idealizado e assumido a responsabilidade de tamanha ousadia que é provocar a sua própria expulsão e assim encerrar o jogo, sem ter a menor noção do que poderia lhe acontecer?

Não foi uma atitude digna do técnico.

E como agiu a diretoria do Vitória?

Também da pior maneira possível.

O que dizer da infantil e tola argumentação de que na briga o juiz expulsou três do Vitória e somente dois do Bahia (quando na verdade foram quatro, só que dois estavam no banco)?

Não perceberam que foi nítida a agressividade de vários jogadores do seu clube, identificada e apontada por toda a imprensa brasileira?

Todas as expulsões foram registradas da mesma maneira na súmula; por conduta violenta.

Por que Lucas Fonseca foi expulso?

Veja o que disse o árbitro Jaílson Macedo de Freitas na súmula.

“Expulsei por conduta violenta, aos 20 minutos do segundo tempo, com cartão vermelho direto, o Sr. Lucas Silva Fonseca, N° 28 do E.C. Bahia, por empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço do Sr. Denilson Pereira Júnior, N° 95 do E.C. Vitória”.

Digamos que isso tenha ocorrido e alguma câmera tenha mostrado.

Quem começou a confusão atrás do gol ao dar o ‘cachação’ e empurrar com uso de força excessiva na altura do pescoço do” Vinicius, o jogador da dancinha?

Fernando Miguel, goleiro do Vitória.

Por que então o árbitro não o expulsou, dando somente o cartão amarelo?

Outra alegação foi a de que Diego Cerri, diretor do Bahia, teria feito pressão indevida e inaceitável sobre o árbitro no intervalo.

Os repórteres locais desmentiram isso, mas veja o que disse Jaílson de Freitas, o árbitro, na súmula:

Informo ainda, após o término do primeiro tempo, indo em direção ao vestiário da arbitragem, ouvimos as seguintes palavras: ‘Jailson, no gol do Vitória, a bola foi na mão claramente’. Palavras proferidas pelo diretor de futebol do Esporte Clube Bahia, o Sr. Diego Cerri”.

Foi essa a pressão indevida e inaceitável?

Veja mais o que disse o árbitro.

Relato que ao sair do vestiário em direção ao campo do jogo para o início do segundo tempo ouvimos do Sr. Erasmo Damiani as seguintes palavras: ‘Não aceite pressão do dirigente do Bahia’. O mesmo é diretor do Esporte Clube Vitória. Em tempo informo, após o término da partida, o referido diretor invadiu o campo de jogo em direção a equipe de arbitragem proferindo as seguintes palavras: ‘Você está de brincadeira, aceitou a pressão do Bahia’.

Se é para usar argumentações infantis e tolas, o Vitória teria feito duas pressões indevidas e inaceitáveis sobre o árbitro, o Bahia somente uma!

Meu Deus!

A diretoria do Vitória parece ainda não ter percebido a gravidade do problema que criou e a semana de treinamento com portões fechados no Barradão, além de sintomática, em nada ajuda. Desde quando se esconder é solução para os problemas?

É incrível a falta de percepção de que mancharam de forma irreversível a instituição Esporte Clube Vitória e não tenho nenhuma dúvida de que muitos torcedores rubro-negros já têm consciência disso.

O presidente, que tem se preocupado tanto em falar de mudança de postura do clube, dos novos tempos para o Vitória e para o futebol baiano, modernidade no futebol, tem mostrado uma inconsistência absurda e, pior, vem agindo à moda antiga, dos antigos homens que até pouco tempo comandavam esse mesmo futebol, alguns dos quais ainda estão incrustados no que ainda resta dessa estrutura arcaica.

Foi terrível o desfecho dado ao caso até agora pela diretoria do Vitória.

“O Esporte Clube Vitória reforça que não houve ordem ou orientação aos atletas por parte da direção para que houvessem expulsões suficientes para que a partida fosse encerrada pelo árbitro do jogo”.

Este é um trecho da nota oficial do clube.

Observe que ela tenta isentar a direção do clube, mas não cita Mancini. Ou seja, Mancini também foi jogado às feras junto com os jogadores.

O que se percebe em toda a imprensa nacional é que Vitória, Mancini e os jogadores saem menores desse episódio, com manchas nas suas histórias.

O que Mancini vai fazer não se sabe, mas, pelo visto, vai levar a culpa sozinho e episódios anteriores no seu histórico parecem tornar mais delicada ainda sua situação.

Ou será que ele não percebeu como vai sair desse episódio?

Com 21 anos, o pobre garoto Bruno Bispo carregará uma cruz muito pesada e sua carreira passa a ser uma incógnita.

FHC e sua quarta-feira de cinzas sem fim

FHC e cinzas

Por Ronaldo Souza

A intensidade com que brinquei o carnaval por muitos anos tinha um custo alto.

A quarta-feira.

Ah, como doíam as minhas quartas-feiras de cinzas.

Parecia que o mundo desabava sobre mim.

Lembro de uma em que o trio elétrico ainda insistia em tocar dentro da minha cabeça na quarta-feira à noite.

Ainda solteiro, morando com meus pais, não conseguia dormir.

A minha conexão com o mundo real parecia ter-se perdido.

Não tive dúvidas.

Peguei um colchonete e pus no chão aos pés dos meus pais.

Alheio às notícias que eles viam na televisão, num esforço tremendo fui tentando sair daquele mundo gostoso e surreal.

Aos poucos o som do trio elétrico e todas as imagens que o acompanhavam foram se arrefecendo e, de lá de longe, começavam a chegar sinais cada vez mais perceptíveis do mundo real. As vozes dos meus pais e irmãos já ocupavam espaço bem maior do que aqueles sons que ainda ecoavam da festa.

O carnaval me ensinava, sem que eu já tivesse a devida percepção, os perigos da ilusão, quando a quarta-feira se mostrava mais longa e dolorosa.

Mas haverá sempre outro carnaval.

E a dor das quartas-feiras será cada vez menor.

Há, porém, outras quartas-feiras. Estas, muitas vezes traiçoeiras.

Hoje, imortal pela Academia Brasileira de Letras, Fernando Henrique Cardoso se sente atormentado pela verdadeira imortalidade de um homem que, operário, para ele sempre foi e é inferior.

A sua quarta-feira de cinzas não tem fim.

Sentimentos pequenos lhe corroem qualquer possibilidade de gesto ou ação com o mínimo de grandeza que se pode esperar de um homem que caminha para os 90 anos de idade sem mais nenhuma dignidade.

Diante da condenação do homem que o fez um perdedor, a pobre alma de Fernando Henrique Cardoso ainda encontrou forças para um ato que já não representava mais nada.

Ao dizer após a referida condenação “agora é que começa o jogo”, o pobre FHC pareceu antecipar o que pode ser a frase da sua lápide; “aqui jaz um homem sem honra”.

Nos momentos iniciais da sua crescente pusilanimidade, em que cada vez mais FHC subia os degraus da corrosão moral, houve momentos em que se imaginou que Fernando Henrique Cardoso traía o seu passado.

Mais recentemente, ao se tornar cabo eleitoral de Luciano Huck e apresenta-lo como o novo na política brasileira, como já o fez com João Dória e o faria (e fará caso seja necessário) com Bolsonaro, apontou-se para a sua possível senilidade.

Entenda-se “caso seja necessário” como uma eventual mudança de rumo da Globo na direção do homem que vai metralhar a Rocinha. No outro dia FHC estará com a taça de champanhe para dar as boas-vindas a Bolsonaro como o novo na política brasileira.

Não, não se trata de traição ao passado nem senilidade.

As duas alternativas de diagnóstico estão erradas.

Não se trai o passado quando este é uma farsa.

E esta, a farsa, quando chega o momento, faz com que caia a máscara para então se mostrar inteira.

Por outro lado, não parece sensato acusar a senilidade pelos percalços desse homem.

Pode-se lançar hoje um olhar diferente sobre o desespero de FHC ao dizer anos atrás “esqueçam o que escrevi” e, quem sabe, até entende-lo.

O seu evidente sedentarismo intelectual poderia sim antecipar-lhe a senilidade.

Também poderia ter semelhante papel a sua confortável vida material, desde a longínqua, privilegiadíssima e cara vida na Avenue Foch em Paris, para qual os olhares dos homens da lei que agem fora dela jamais se voltaram.

FHC e apart. em Paris 1

FHC e apart. em Paris'''

FHC e apart. em Paris'

A sua cada vez mais frequente rejeição pelos meios acadêmicos certamente também pesariam nesse sentido.  

Entretanto, o exercício da sua intelectualidade cansada e vencida em textos que ainda parecem exercer fascínio sobre segmentos carentes de um mínimo de razoabilidade nas colunas da nossa decadente imprensa, deve ter algum efeito atenuante sobre isso.

Mas que, ao mesmo tempo, parece não funcionar mais, mesmo entre os seus antigos admiradores.

Veja o que diz em sua coluna nesta quarta-feira de cinzas o jornalista Elio Gaspari, um dos que sempre aplaudiram de pé o ex-presidente.

FHC e Gaspari

Abre aspas
Não se pode responsabilizar FHC pela ruína do PSDB, mas ele foi parte dela. Quando saiu do MDB, acompanhando Mário Covas e Franco Montoro para livrar-se das práticas que o haviam contaminado, buscava algo novo e foi bem-sucedido. O tucanato envelheceu, em vários sentidos.

Indo buscar o ‘novo’ na telinha, FHC e os articuladores da candidatura de Huck atestam o fracasso de suas práticas políticas. Huck é um profissional bem-sucedido no seu ofício, nada mais que isso…

Huck é um bom candidato para quem tem medo de perder eleição, e só. De Sartre a Huck, FHC percorreu sua curva…
Fecha aspas

Em outras palavras, é o fim.

De um homem que a ilusão da festa fez acreditar que tudo aquilo era real.

De um homem que tentaram mostrar ao país como grande presidente, mesmo diante das desastrosas estatísticas do seu governo e que só agora jornalistas como Gaspari começam a mostrar como atestado do “fracasso de suas práticas políticas”.

De um homem que se acostumou a trair seus parceiros do PSDB, como agora mais uma vez faz com Alckmin em favor de Huck.

De um homem que traiu o país dando-o de bandeja aos interesses internacionais, leia-se particularmente Estados Unidos, com a famosa Privataria Tucana, para qual os olhares dos homens da lei que agem fora dela jamais se voltaram.

De um homem cuja vida se tornou um suplício por não conseguir entender e admitir a grandeza de outro homem que, companheiro de lutas anteriores, tornou-o pequeno e desprezível.

É o fim de um homem que já há algum tempo se deixou levar pela decrepitude moral e chega de forma melancólica ao final da vida.

E deixa para trás uma legião de admiradores que jamais teve a menor capacidade de perceber o quanto foi manipulada durante tantos anos.

Sem inteligência e sensibilidade não há solução

Inteligência emocional

Por Ronaldo Souza

Há cerca de 30 anos li quase todos os livros de Roberto Freire.

Não, por favor, não pense que falo do político, esse traste humano que perambula pelo vazio da vida, no éter da insignificância e da abjeção humana.

Falo do psiquiatra, jornalista e escritor que criou a Soma, uma terapia baseada no anarquismo e nas ideias de Wilhelm Reich, psicanalista austríaco.

Um homem brilhante, de inteligência e sensibilidade perturbadoras.

E toda vez que inteligência e sensibilidade chegam a esse nível, surge ali alguém perigoso para os padrões da nossa sociedade.

Seu livro, “Sem tesão não há solução”, era mais um em que ele exercitava o seu jeito provocador e estimulante e ainda que num primeiro momento o título possa nos remeter a pensamentos no campo da erotização, até porque uma característica de Freire, não era este o tema.

Ia além.

Lembrei-me dele no momento em que procurei dar um título ao meu texto, que divido em duas partes. A primeira antes do interessante texto de Gustavo Conde (músico, linguista e professor) e a segunda depois.

Talvez mais facilmente num músico e linguista caminhem de mãos dadas a inteligência e a sensibilidade, características fundamentais ao ser humano e que estão em falta nos tempos atuais.

E quando inteligência e sensibilidade caminham de mãos dadas é difícil, muito difícil, que conviva no mesmo ambiente o preconceito, um dos grandes males da raça humana.

O preconceito, além de desumanizar, embota a mente das pessoas e tira delas a capacidade de pensar e refletir.

Ao ser inferiorizado pelo preconceito nenhuma virtude é possível.

Como atribuir inteligência ao negro, um ser inferior?

Como ver competência no nordestino, uma sub-raça?

Por isso, busquei Roberto Freire para, roubando-lhe a ideia contida no título do seu livro, construir a estrutura do meu texto e dizer; sem inteligência e sensibilidade realmente não há solução.

Neste texto do músico e linguista Gustavo Conde, vi as duas juntas e o professor Gustavo Conde as apresenta de forma bastante didática.

Quando se faz uma postagem de texto que não é seu não significa necessariamente que é exatamente o que você escreveria.

Mas, sem dúvida, com este concordo quase que inteiramente.

E por isso farei alguns comentários ao final dele.

Volto lá embaixo.

O primeiro dia do “Ano Lula”

Lula segue

Por Gustavo Conde*

Dia pródigo para falar de Lula. Todo mundo só pensa em Lula, seja para odiar, seja para amar. Eu tento pensá-lo como um homem, um político, um estrategista, um formulador, um ex-presidente. Sem ele, não existe história do Brasil de 1978 para cá.

Odiar Lula é um exercício de preguiça intelectual. É importante criticar todo e qualquer protagonista político mas com argumentos, não com rótulos fáceis e chavões.

Mas, se odiar é ruim, a leitura errada é pedagógica. Devidamente desconstruída, ela ilumina processos de interpretação.

Nesse sentido, é possível reavivar uma clássica leitura equivocada de Lula, a que o enquadra como “socialista”. A esses sensíveis leitores é licenciado lançar um olhar de estupefação, pois até a resposta retórica e brincalhona de Lula nos anos 80 chegou a os ofender: “sou metalúrgico”. Explicar a piada talvez não seja uma opção, sobretudo uma piada tão sofisticada.

A origem política de Lula é o sindicato. Não tem nada de romântico, nem de intelectual, nem de salvacionismo, nem de utopia. O socialismo é que foi atrás de Lula, porque Lula o aceitou e o compreendeu melhor que os próprios “socialistas”, em grande medida.

Qual socialista no mundo produziu uma política pública como a do bolsa-família (que, mais do que sua função ética de levar comida na mesa do pobre, ainda incendiou a economia, fazendo o país sair daquele marasmo econômico da era FHC)?

Qual socialista no mundo foi tão exageradamente democrático, perdendo três eleições majoritárias e, ainda assim, submetendo-se a mais um processo eleitoral?

Qual socialista no mundo teve 258 milhões de votos ao longo de 40 anos de vida pública (e que, pasmem, continua liderando pesquisas de opinião)?

Qual socialista no mundo foi tão perseguido pela imprensa, pela elite, pelo racismo, pela justiça e pelo ódio?

Qual socialista no mundo dialogou com tantas forças do tecido democrático com tanta desenvoltura e resultados: empresariado, movimentos sociais, entidades religiosas, sindicatos, imprensa, organizações não governamentais, sociedade civil, estudantes?

Qual socialista no mundo acumulou 300 bilhões de dólares de reservas internacionais?

Qual socialista no mundo pagou uma das maiores dívidas externas do planeta?

Qual socialista no mundo emprestou dinheiro ao FMI?

Qual socialista no mundo criou um banco para fazer frente ao FMI?

Não se trata de colocar o socialismo em xeque, mas apenas de restituir alguma cifra de realidade ao argumento. Todo intelectual sério sabe que Lula nunca foi “socialista” na acepção clássica do termo e que isso é um dado fantástico: não é preciso ser socialista para lutar pela igualdade e pela democracia.

Lula é a prova de que a gestão pública não aceita a burocracia do pensamento acadêmico como elemento irradiador de políticas. Isso não é o papel de um líder histórico. Um acadêmico no poder é um desastre da natureza.

Cargos da dimensão de uma presidência de um país continental em desenvolvimento não são um trampolim carreirista qualquer: trata-se de uma responsabilidade que transcende as ambições chãs e desvirtuadas da classe média, por exemplo. Compreender essa dimensão é tarefa hercúlea para este segmento, cognitivamente falando.

Essa leitura, no entanto e ainda que equivocada, é realizada por “quase simpatizantes” de Lula, em última análise. Uma de suas consequências é aparelhar o discurso conservador: ela municia os mais viscerais detratores de Lula que usam o argumento da “traição ao socialismo” como elemento gerador de contradições em todo o campo da esquerda.

Essa faixa ‘pequeno-burquesa’ fantasia que Lula deveria ter sido um ‘simulacro’ de Fidel Castro, que ele deveria ter “eliminado” seus adversários políticos.

Ora, ora, ora. Curioso ver como o caudilho autoritário não está em Lula, mas em seus críticos – e na imprensa. Reclamam que Lula fez alianças com coronéis, mas o que afinal eles queriam? Que Lula expulsasse os coronéis do país? Os coronéis do PMDB?

É isso que fica subscrito no pensamento radical de ambos os extremos do espectro ideológico. A solução que eles eventualmente oferecem ao embate político é ‘eliminar’ o adversário.

É por isso que a democracia não é para os fracos. É por isso que a democracia exige coragem e humildade ao mesmo tempo. É por isso que eles não entendem a democracia, por assim dizer.

Lula é uma esfinge para esses anti-analistas, mestres em diferentes níveis na arte da não argumentação. Para eles, tudo é rótulo, tudo é estereótipo, tudo tende ao sentido único. Eles pouco entendem o que é racismo, quanto mais o que é política.

A história, no entanto, não é uma donzela recatada e do lar. Ela não segue a lógica primitiva dos seres não argumentativos. A história gosta de conteúdo.

Para a história, o golpe é só um elemento narrativo extremamente poderoso. Um antissujeito, uma perturbação, um “tranco” semiótico que prepara a retomada da progressão e dos protagonismos das personagens principais.

E uma personagem de narrativa histórica que se preze não pode ser “transparente”, visível a todo e qualquer observador. Ela exige uma face enigmática, esfíngica, caso contrário anula-se o elemento de suspense.

Tudo isso só para dizer – aos que insistem em não compreender Lula – a seguinte dica de ano novo: continuem não compreendendo Lula. Ele se alimenta da não compreensão de vocês.

*Gustavo Conde é músico, linguista e professor. Lida com teorias do humor e com os processos de produção do sentido político. É autor do Blog do Conde, espaço de discussão de temas políticos, acadêmicos e literários.

———

Aos comentários:

1. Odiar Lula é um exercício de preguiça intelectual.
É sim. A preguiça intelectual está em todos os campos e segmentos, mas esta não é a principal razão. Entre algumas razões que explicam o comportamento atual, o preconceito ocupa o primeiríssimo lugar.

2. É possível reavivar uma clássica leitura equivocada de Lula, a que o enquadra como “socialista”. A esses sensíveis leitores…
Aqui está um complemento à primeira questão. Chamar Lula de socialista ou comunista (mais frequente) não é preguiça intelectual. É burrice mesmo. Lula jamais foi e jamais será comunista. Esta é uma afirmação que se pode fazer sem margem de erro. E quando digo isso não vai nenhuma conotação pejorativa aos comunistas, pelo contrário. Ao dizer “A esses sensíveis leitores…”, além da fina ironia, o autor mostra que sabe das coisas e para quem está falando.

3. Qual socialista no mundo…”
Quando o autor faz essa série de qual socialista, mostra a mistura de burrice, preguiça intelectual e outras coisas mais que envolve os anti-Lula. Todas sob o guarda-chuva do preconceito. E quando faz as duas últimas “Qual socialista no mundo emprestou dinheiro ao FMI e qual socialista no mundo criou um banco para fazer frente ao FMI?”, ele estoura os dois neurônios deles.

4. Todo intelectual sério sabe que Lula nunca foi “socialista”.
Todo intelectual sério, não. Qualquer um que pense e conheça minimamente os sistemas políticos.

5. Um acadêmico no poder é um desastre da natureza.
É só olhar para o governo Fernando Henrique Cardoso.

6. ...trata-se de uma responsabilidade que transcende as ambições chãs e desvirtuadas da classe média, por exemplo. Compreender essa dimensão é tarefa hercúlea para este segmento, cognitivamente falando.
Ah, a nossa classe média. Depois reclamam de Marilena Chaui!

7. Para eles, tudo é rótulo, tudo é estereótipo, tudo tende ao sentido único. Eles pouco entendem o que é racismo, quanto mais o que é política.
Atualmente, tudo tende ao sentido único, porque eles pertencem ao seleto grupo do pensamento único, infiltrado em todas as áreas da sociedade e a maior prova da insensatez que reina impune no país.

8. A história, no entanto, não é uma donzela recatada e do lar. Ela não segue a lógica primitiva dos seres não argumentativos. A história gosta de conteúdo.
Cruel, mas a verdade precisa ser dita e absorvida. O grande problema é que para ser absorvida ela tem que ser percebida e a capacidade de percepção anda em baixa.

9. Tudo isso só para dizer – aos que insistem em não compreender Lula – a seguinte dica de ano novo: continuem não compreendendo Lula. Ele se alimenta da não compreensão de vocês.
Só para reforçar.