Noite de poesia e beleza. E muita alegria

Bahiana 65 anos

Por Ronaldo Souza

Cada vez mais frequentemente somos raptados pela dureza do dia-a-dia.

Como um destino que nos foi traçado, todos os dias sacudimos a poeira e damos a volta por cima.

E seguimos em frente.

Em frente?

Num cenário nada animador, olhamos para o horizonte e vemos como ele ficou curto.

Está logo ali, muito próximo, tão próximo que quase posso toca-lo com as mãos.

Dá para sentir a sua aspereza.

Nem o professor, na sua divina tarefa de educar, parece escapar da frieza dos dias, numa rotina que pode se tornar “desapaixonante”.

O que é um professor sem paixão?

O que é um professor preso numa gaiola de números, percentuais, estatísticas e metas?

Nada.

Perde a ousadia do voo.

Mas eis que de repente, sabe-se lá de onde, saltam os poetas com a sua mania de adoçar a nossa vida.

Ainda me surpreendo quando desdenham se alguém diz:

“O que seria do mundo se não fossem os poetas!”

Aquela noite de 31 de maio foi repleta de poesia.

Celebrava-se o aniversário de 65 anos da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

E mais uma vez a Bahiana surpreende.

A abertura com o ballet do Teatro Castro Alves dançando Bolero, de Ravel, dava os primeiros sinais do que viria pela frente.

Na sequência entra a Orquestra Castro Alves, orquestra sinfônica do NEOJIBA, projeto vitorioso do Estado da Bahia do qual sou um admirador.

A apresentação inicial com a música de (Richard) Wagner foi arrepiante.

Irretocável.

Os textos lidos pela professora Maria Luisa Carvalho Soliani, Reitora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, com firmeza de voz e ao mesmo tempo leveza que não deixaram de chamar a atenção, são lindos e de grande delicadeza.

Não conheço o primeiro, se é dela própria ou de quem mais.

O segundo tem a marca de Rubem Alves, infelizmente afastado do nosso convívio há cerca de 3 anos; inspiração, criatividade e liberdade.

Ah, como estamos precisando de escolas que voltem a ser asas!

Desaprendemos a voar.

E aí veio Margareth Menezes.

O que se poderia esperar daquela voz?

Incendiou o teatro.

Principalmente quando cantou “Faraó Divindade do Egito”.

Egito e África não poderiam estar mais irmanados numa atmosfera de magia em qualquer outra terra que não fosse na mágica Bahia.

Pelourinho
Uma pequena comunidade
Que, porém, Olodum uniu
Em laço de confraternidade

Despertai-vos para a
Cultura egípcia no Brasil
Em vez de cabelos trançados
Veremos turbantes de Tutancâmon

E as cabeças
Se enchem de liberdade
O Povo negro pede igualdade
Deixando de lado as separações

Mais Bahiana a celebração não poderia ser.

O Brasil sabe o que é que a Bahiana tem.

Só uma crítica.

Não, não vou chamar de crítica.

Não cabem críticas a aquela noite.

Uma sugestão ao NEOJIBA.

Certa vez Antônio Veronese, pintor brasileiro radicado na França, disse:

Quem é que pode me dizer que reservar um espaço para Guimarães Rosa, Villa Lobos, Vinícius de Morais, Cândido Portinari, pode ser nocivo ou ruim para o país…”.

Foi uma belíssima oportunidade de se levar a música clássica a uma plateia composta por considerável diversidade de pessoas.

Como falei, a abertura com Richard Wagner foi arrepiante.

O “peso” de toda a orquestra na impressionante harmonia dos instrumentos foi incrível.

Mas é possível que a oportunidade não tenha sido aproveitada da melhor maneira.

Ao comentar, por exemplo, que a música do compositor russo “privilegiava” os instrumentos de corda, o maestro talvez tenha se antecipado ao que tento dizer.

Pareceu algo um pouco hermético e talvez mais apropriado para um público mais específico, mais conhecedor da bela e eterna música clássica.

A inserção de grandes compositores brasileiros, como Heitor Villa-Lobos e sua magnífica “Bachianas Brasileiras” e Carlos Gomes, com seu imortal “O Guarani”, também seria muito bem-vinda.

Enalteceria a nossa música clássica e os acordes iniciais certamente seriam identificados pelo público presente, que assim “veria” nomes nossos, como nosso é o NEOJIBA, entre os grandes da música internacional.

Mas a noite foi mágica.

Senti-me resgatado pela delicadeza.