
Por Ronaldo Souza
Diz a Bíblia que em certa ocasião um perito na lei quis pôr Jesus à prova e lhe perguntou:
“Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?”
“O que está escrito na Lei?”, respondeu Jesus. “Como você a lê?”
No Brasil, não é o que está escrito na lei que prevalece.
O juiz Moro se negou a absolver Dona Marisa (mulher de Lula), mesmo a lei lhe garantindo esse direito após a morte.
Mesmo diante do pedido bem fundamentado dos advogados de defesa, o juiz declarou apenas a “extinção da punibilidade” (será que ele pretendia puni-la morta, pondo o cadáver na cadeia?).
Por outro lado, muito rapidamente absolveu Cláudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha.
Aproveito o texto de Guilherme Coutinho, especialista em direito público e Comunicólogo.
Abre aspas
O mesmo juiz, tão rigoroso com seus inimigos, preferiu absolver Cláudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha, que mantinha mais de um milhão de dólares em uma conta na Suíça. A polêmica decisão gerou desconforto até mesmo na, até agora, harmônica República de Curitiba. Moro, normalmente idolatrado, foi publicamente ironizado por um membro da Força-Tarefa da Lava Jato.
O Procurador Carlos Fernando Lima não falou mais que o óbvio: o nível cultural de Cláudia permitiria que ela soubesse que os ganhos (legais) de um deputado não comprariam uma vida tão cara. Carlos, ao afirmar que iria recorrer da decisão, ironizou Sérgio Moro, dizendo que essa absolvição era fruto de seu “coração generoso”. A frase foi incisiva. Os autos não permitiriam uma absolvição com tantos indícios que já foram tornados públicos. Somente possuindo um coração enorme para acreditar que manter conta em paraísos fiscais e gastos tão exorbitantes (Cláudia chegou a gastar 17 mil dólares – o equivalente a 55 mil reais – em uma viagem de 2 dias a Paris) não configuram lavagem de dinheiro ou evasão de divisas.
Mas Moro não é sempre tão generoso. Como no caso de Marisa, o juiz pode ser frio e impiedoso. A diferença de tratamento entre Cláudia e Marisa apenas revelou mais uma vez os critérios, nem sempre equânimes, utilizados pela primeira instância de Curitiba. Benevolente quando precisa e implacável quando quer. Vaidoso, Moro sempre se embebedou na ilusão de ser amado e sancionado por todos os brasileiros. Mas, uma crítica proveniente da própria Operação Lava jato, deixa claro que existe forte reprovação ao seu senso pessoal de justiça.
O argumento alegado para livrar a esposa de Cunha da cadeia foi a falta de provas. Não vamos esquecer isso. Em breve, Moro julgará Lula e algo me diz que seu coração pode não ser tão generoso. Temos que ficar vigilantes. Em um Estado de Direito ninguém está acima das leis. Nem mesmo um político, Membro do Ministério Público ou Juiz. Aos amigos e inimigos exigiremos o mesmo tratamento. E esperamos que as críticas acabem com a permissão branca de autoritarismo que os tempos pouco democráticos no Brasil concederam a alguns.
Fecha aspas
Lembra da passagem bíblica lá em cima?
Faço uma adaptação dela.
– Doutor Juiz, o que preciso fazer para ter vida livre?
– Seja amigo do Rei.
E aí me recordo da primeira parte do poema de Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”, que se aplica ao que está ocorrendo no Brasil.
“Vou-me embora pra Passárgada,
Lá sou amigo do rei,
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei”.
Seja amigo do rei.
Você terá a mulher que quer na cama que escolher.
Além de tudo que já foi dito sobre mais esse episódio que mostra o bom samaritano e herói brasileiro exibindo o tipo de heroísmo que pratica, talvez a melhor definição para essa situação tenha vindo através de Aroeira, esse excelente chargista que esbanja talento.

A imagem de Cláudia Cruz ameaçando puxar o pino de segurança de uma granada com o rosto de Eduardo Cunha mostra bem porque ela foi inocentada.
Dizem que se Eduardo Cunha puxar o pino de segurança da bomba atômica que possui detona meio mundo de gente, inclusive o judiciário.
Sem nenhuma prova contra ela e mesmo após a sua morte, a mulher de Lula não foi absolvida pelo juiz Moro, direito que a lei garante a ela.
Ao mesmo tempo, mesmo com todas as provas de sua culpa, a esposa de Eduardo Cunha foi considerada inocente pelo juiz Moro.
Não é sensacional?
O juiz Moro mais uma vez segue perfeitamente o roteiro que lhe foi dado.
O sistema que o criou quer assim.
Fiel como um cão de guarda, ele obedece.
Alguma surpresa?
Claro que não.
Não é o juiz Moro que tem medo de Eduardo Cunha.
É quem o controla.
“Pobre do povo que precisa de herói”
Bertolt Brecht