O dilema de Bolsonaro

Por Ronaldo Souza

É possível que algumas pessoas imaginem que fazer uma campanha política é algo simples.

Não é.

Para presidente da república então, nem se fala.

É um exercício diário que exige muita coisa.

De saída, ter o que dizer assume a condição de requisito fundamental.

Sem isso, nada feito.

Aí vem o resto.

Saber o que dizer, como dizer, em que momento…

Por incrível que possa parecer, alguns candidatos não apresentam as condições básicas para isso.

É isso que explica porque Bolsonaro já vem sendo adestrado há algum tempo.

Talvez muitos não percebam, por exemplo, que de vez em quando ele some, desaparece, não emite opiniões.

É que a sua equipe o “tira do ar” porque teme que ele tropece nas próprias pernas (por que será?).

No caso dele talvez seja apropriado dizer que a equipe (staff, como alguns preferem) teme que ele tropece na sua grande inteligência e sabedoria.

Nesse sentido, ele deveria tomar algumas aulas com Marina Silva, uma mestra no assunto.

Sempre que surge um tema que exige assumir uma posição, Marina se esconde em alguma agência do Itaú e fica lá por algum tempo.

Quando as coisas esfriam ela aparece.

E aí, claro, professa.

“É isso, é aquilo, aquilo outro…”

Diz um bocado de coisa.

E não diz nada.

Poucos dominam essa “arte” como ela.

Ninguém pode negar que ela é uma mestra em desaparecer quando a coisa esquenta.

Aécio usou muito esse recurso, mas agora, coitado…

Até a Globo está cuspindo nele, aliás, o que não representa nenhuma novidade.

Voltando a Bolsonaro, surge aí um problema que parece incontornável.

O que se deseja quando se adquire um Pitbull?

Que seja dócil e sensível?

Se perder as suas principais características, Bolsonaro deixa de seduzir boa parte do seu eleitorado.

Ao dizer as coisas que só ele consegue dizer ele encanta os seus seguidores.

Quem conseguiria, por exemplo, dizer a uma mulher em qualquer situação, ainda mais num ambiente público, com microfones e câmeras das principais redes de televisão registrando o “diálogo”, que não a estupra porque ela não merece, porque é feia?

Aroeira, Bolsonaro e o estupro

Sim, estou falando do que aconteceu nos corredores da “Câmera” dos Deputados, como fala o “Exmo Juiz Sergio Moro” do alto da sua cultura.

Em que estágio do desenvolvimento parou o homem que é capaz de se dirigir a uma mulher e dizer algo assim?

Ora, ora, como diria Millôr Fernandes, Bolsonaro é um ignorantaço, mas é suficientemente esperto para saber que os seus eleitores iam ver a cena no Jornal Nacional e com os orgasmos múltiplos deles viria a garantia de mais uma reeleição.

Afinal, a identificação que existe entre o “mito” e seus eleitores vem justamente da inteligência, sensibilidade e leveza que os caracterizam.

Como ficariam os seus eleitores se de repente o vissem civilizado e mentalmente equilibrado?

Se em um dos seus belos textos, Fernando Pessoa, o poeta português, disse que “navegar é preciso”, pode-se adaptar a frase para momentos mais específicos.

Rosnar é preciso.