O inconsciente da Lava Jato

O cinismo da Lava Jato

Por Ronaldo Souza

Sou um admirador da Palavra.

Sei o peso que ela possui.

Vejamos Steven Spielberg, o mago da imagem.

Nós perdemos e devemos recuperar nosso caso de amor com a Palavra. Eu sou tão culpado quanto outros por ter exaltado a Imagem às expensas da Palavra”.

Ao ler palavras como as que li e principalmente as que grifei no texto que compõe a imagem acima, senti calafrios.

Juiz Sérgio Moro, ao senhor, que gosta muito de usar a expressão “esse juízo”, eu diria que esse juízo já perdeu o juízo há muito tempo.

E aos procuradores da Lava Jato diria que de tanto procurar (o que convém) acharam o que já estava “achado” também há muito tempo.

O inconsciente humano é assim mesmo, extremamente poderoso, que o digam psicanalistas e psicólogos.

Poderoso e traiçoeiro.

Muito traiçoeiro.

Às vezes tão traiçoeiro que nos trai em público.

E foi isso que ele fez com os senhores.

Observem o que suas excelências disseram:

“Os últimos acontecimentos, aliás, levam a força-tarefa da Lava Jato a manifestar seu estarrecimento diante da gravidade dos crimes que se tornaram públicos. De fato, recentemente, vieram à tona evidências de crimes atuais praticados pelo presidente da República e por senador então presidente de um dos maiores partidos políticos”.

Essas palavras têm um peso enorme.

E ganham muito mais força ainda quando observada a origem.

Elas foram ditas por quem controla todos os acontecimentos dos últimos anos neste país e sobre eles tem um poder jamais visto.

Nada, absolutamente nada, acontece neste país que não passe pelas mãos do “juízo” da República de Curitiba, como ficou conhecida aquela comarca.

Sem entrar em detalhes sobre coisas que já foram amplamente divulgadas pela imprensa, foram inúmeras as vezes em que caíram nas mãos da Lava Jato delações apontando de forma consistente para o envolvimento de Aécio Neves nos mais diversos tipos de corrupção.

Pedidos de investigação foram feitos.

O senhor, juiz Moro, nunca ouviu, por acaso, falar de Furnas, para citar somente uma?

Por que o senhor ficou conhecido como “não vem ao caso”?

Porque mandou arquivar todos.

Nada interessa(va) quando se trata(va) de Aécio e do PSDB.

Por que o senhor e a Lava Jato não permitiram a divulgação das tão famosas perguntas de Eduardo Cunha a Michel Temer?

Levariam elas ao conhecimento dos fatos recentemente descobertos com a delação da JBS e, portanto, desencadeariam mais cedo o que estamos vendo de mais corrupção ainda, que os senhores tanto dizem combater?

Por razões assim, excelência, mesmo concordando inteiramente com Spielberg, não posso negar a força da imagem. Aliás, como ele também não o faz.

Cresci ouvindo que uma imagem vale mais que mil palavras.

O senhor gosta de se mostrar homem sisudo, de semblante fechado, sorriso inexistente, roupas escuras, imagem que na sua mente, reconhecidamente provinciana, parece encaixar como uma luva no perfil de um juiz recatado e até averso às coisas mundanas da vida.

Por isso tem sido muito intrigante ver o seu sorriso, quando e principalmente onde ele se manifesta.

Um sorriso, excelência, que conheci na minha adolescência, numa cena que ficou guardada para sempre na memória daquele garoto de 16 anos de idade.

Um sorriso que identifiquei naquele exato momento e aprendi a rejeitar todas as vezes que o via e vejo, por me trazer repugnância.

Com o respeito que o seu cargo deveria sugerir, vejo novamente aquele sorriso que me marcou aos 16 anos.

Moro e o poder

O sorriso de quem se vê diante do poder e a ele deve reverência.

Alguns definem como bajulação, outros como subserviência.

Na sua simplicidade e sabedoria, o povo usa outra expressão.

Moro e PSDB

Moro na Globo

Moro na IstoÉ

Moro e a corrente

Os salões do poder, com seus holofotes resplandescentes, cegam alguns homens.

Por isso, senhor juiz, volto a falar de Spielberg para enaltecer outra vez a Palavra, não a palavra, que, com significado e relevância bem menores, pode ser dita por qualquer um.

A Palavra, não. Esta, só os grandes homens sabem e podem pronunciar.

No entanto, diante dessas imagens e de tantas outras que existem, reforço o poder da Imagem.

A força das que vimos me faz buscar a melhor definição para a frase lá em cima.

Encontro algumas, mas a mais suave que me vem à mente e por isso uso aqui é que ela é absolutamente incompatível com a verdade dos fatos.

Foi grande o cinismo.

Tentar mostrar estarrecimento diante da gravidade dos crimes que se tornaram públicos… recentemente, vieram à tona evidências de crimes atuais praticados pelo presidente da República e por senador então presidente de um dos maiores partidos políticos” é, sob todos os aspectos, absolutamente injustificável e condenável. 

O povo brasileiro não merece tamanha desfaçatez (para não dizer outra coisa), só explicada pelo inconsciente dos tolos.