
Por Ronaldo Souza
Não faço minhas caminhadas pela manhã. Geralmente faço isso no final de tarde-começo da noite.
Como sempre, hoje acordei bem cedo, mas resolvi caminhar um pouco na praça bem na frente do prédio onde moro.
Não deixou de ser uma atividade física, mas não foi daquelas em que você acelera o ritmo, faz respiração, tempo determinado…
Não, nada disso.
Foi mais para deixar virem os pensamentos livres, conversar comigo mesmo.
Às 07:30 já estava no supermercado comprando algumas coisas.
E aí aconteceu.
Ao fundo, comecei a ouvir “White Christmas”, com Bing Crosby.
Conta a lenda que Crosby chegou a ganhar um concurso em que tinha como concorrente nada mais nada menos que Frank Sinatra, “Mr. Blue Eyes“.
Bing Crosby, também de olhos azuis, era a nata da música americana.
Um digno representante do “american way of life“.
Não saio muito, gosto de ficar na minha casa, entretanto, não há como e porque negar que essa época do ano me toca muito.
Iremos aos shoppings, faremos as nossas compras e faremos o nosso amigo oculto.
Oculto e reservado; somente eu, ela e as nossas filhas.
Algo que fazemos há anos, desde que a mais nova sugeriu.
O famoso “espírito do Natal” sempre chega na minha vida.
Há anos em que chega mais cedo, há outros em que o faz mais tarde, mas sempre chega.
Depende do meu estado de espírito.
No Natal tudo é mais alegre, mas também tudo que tem que doer dói mais.
Desde a minha infância conheço Bing Crosby, graças a essa música e ao filme, estrelado por ele.
E o que faz parte da nossa infância jamais será esquecido.
Bing Crosby era, certamente, o homem mais feliz do mundo.
E tudo que aquela criança de Juazeiro (BA) queria da vida era ser feliz.
Estava ali o meu espelho.
Somente muitos anos depois li que Bing Crosby, o cantor da voz privilegiada que vencera Frank Sinatra num concurso, o artista consagrado em todo o mundo, não era tão feliz.
Um documentário sobre ele, que assisti há alguns anos, mostrava a infelicidade daquele homem que era a felicidade personificada.
O mito da música americana não era mito para os filhos.
O pai que imaginávamos, pelo que víamos no cinema, não existia.
A ausência, que só os filhos conhecem, estava presente naquelas vidas ricas, famosas e… vazias.
Ah, a vida como ela é.
E que poucos vivem.
O ganhar mais, o querer ter mais, a posição, o status, os títulos…, quantas coisas nos afastam da vida real sem que sequer percebamos.
É essa irrealização que nos realiza nos dias atuais.
É ela que traz o vazio que aí está.
A incompatibilidade do momento que vivemos com qualquer coisa que nos remeta ao amor e à tolerância entre as pessoas certamente faria com que o espírito do Natal chegasse bem mais tarde esse ano ou, quem sabe, nem viesse.
Alheio a isso, Bing Crosby me anunciou a chegada do Natal.
O espírito do Natal, porém, insiste em não querer chegar.
Terei que recorrer à família, como sempre faço e onde sempre encontro abertos os portões que me levam de volta ao mundo em que parece ser mais possível um novo encontro com ela, a felicidade.
Sabendo-a agora mais fugaz e que, como eu, vive de momentos.
Como estar hoje no almoço de aniversário de meu irmão.
Momentos, mas de muita felicidade.